{"id":176169,"date":"2025-12-05T01:46:10","date_gmt":"2025-12-05T01:46:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/176169\/"},"modified":"2025-12-05T01:46:10","modified_gmt":"2025-12-05T01:46:10","slug":"celulas-tronco-ajudam-na-recuperacao-apos-um-derrame-04-12-2025-equilibrio-e-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/176169\/","title":{"rendered":"C\u00e9lulas-tronco ajudam na recupera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s um derrame &#8211; 04\/12\/2025 &#8211; Equil\u00edbrio e Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p>Todos os anos, milh\u00f5es de pessoas veem suas vidas mudarem em quest\u00e3o de minutos. Um vaso sangu\u00edneo que leva sangue ao c\u00e9rebro fica obstru\u00eddo, os neur\u00f4nios come\u00e7am a morrer e o tempo corre. \u00c9 um derrame, uma das principais causas de incapacidade em adultos. Estima-se que uma em cada seis pessoas sofrer\u00e1 um destes tamb\u00e9m chamados <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2025\/05\/avc-principal-causa-de-morte-cardiaca-no-brasil-tem-deficiencia-em-prevencao-e-em-atendimento-rapido-no-sus.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">AVC <\/a>(acidente vascular cerebral) na vida.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro humano \u00e9, de longe, o \u00f3rg\u00e3o mais complexo do nosso corpo. Sua arquitetura celular e sua organiza\u00e7\u00e3o em redes neuronais permitem fun\u00e7\u00f5es t\u00e3o sofisticadas como a linguagem, a mem\u00f3ria ou a tomada de decis\u00f5es abstratas. Mas essa mesma complexidade tem um custo: o tecido cerebral possui uma capacidade de regenera\u00e7\u00e3o muito limitada. Ao contr\u00e1rio da pele ou do f\u00edgado, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1523\/JNEUROSCI.22-03-00612.2002\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">os neur\u00f4nios que morrem raramente s\u00e3o substitu\u00eddos<\/a>.<\/p>\n<p>Por isso, as les\u00f5es cerebrais est\u00e3o na origem de muitas patologias associadas ao <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/envelhecimento\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">envelhecimento<\/a>, e uma das mais graves e frequentes \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2023\/12\/com-mais-de-2-anos-de-atraso-sus-passa-a-ofertar-tratamento-para-avc-isquemico-grave.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">AVC isqu\u00eamico<\/a>, causado pela interrup\u00e7\u00e3o do fluxo sangu\u00edneo em uma \u00e1rea do c\u00e9rebro. Embora os avan\u00e7os nos tratamentos de emerg\u00eancia <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1177\/23969873251331482\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">tenham melhorado as taxas de sobreviv\u00eancia<\/a>, atualmente n\u00e3o existe uma terapia capaz de reparar os danos neuronais decorrentes de um AVC.<\/p>\n<p>A reabilita\u00e7\u00e3o ajuda a recuperar parte das fun\u00e7\u00f5es, mas em muitos casos os pacientes convivem com limita\u00e7\u00f5es motoras e cognitivas permanentes. Al\u00e9m disso, ap\u00f3s um AVC, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3233\/JAD-160527\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">aumenta o risco de sofrer de depress\u00e3o, dem\u00eancia e outras doen\u00e7as neurodegenerativas<\/a>. Mas isso pode mudar em breve, gra\u00e7as ao desenvolvimento de terapias baseadas em c\u00e9lulas-tronco.<\/p>\n<p>Um novo horizonte terap\u00eautico<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as terapias celulares est\u00e3o abrindo portas para uma nova gera\u00e7\u00e3o de tratamentos em <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2024\/04\/pela-primeira-vez-no-brasil-congresso-de-dermatologia-imcas-destaca-medicina-regenerativa.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">medicina regenerativa<\/a>. Essas terapias buscam substituir ou reparar tecidos danificados, introduzindo novas c\u00e9lulas capazes de sobreviver, amadurecer e acabar desempenhando as fun\u00e7\u00f5es que foram perdidas.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 foi mencionado, isso \u00e9 especialmente importante em patologias que afetam o c\u00e9rebro. Apesar de seu alto potencial, seu desenvolvimento \u00e9 lento, pois deve se ajustar \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o vigente em cada territ\u00f3rio e depende de grandes investimentos financeiros.<\/p>\n<p>Um precedente crucial ocorreu no final dos anos 1980 no Hospital Universit\u00e1rio de Lund, na Su\u00e9cia. Uma equipe liderada por Anders Bj\u00f6rklund e Olle Lindvall conseguiu transplantar c\u00e9lulas-tronco neurais para o c\u00e9rebro de pacientes com a doen\u00e7a de Parkinson. Esta doen\u00e7a neurodegenerativa \u00e9 caracterizada pela perda progressiva de neur\u00f4nios dopamin\u00e9rgicos, fundamentais para o controle dos movimentos corporais.<\/p>\n<p>Os resultados foram extraordin\u00e1rios: ao substituir os neur\u00f4nios danificados, muitos pacientes recuperaram a fun\u00e7\u00e3o motora por mais de uma d\u00e9cada. Essas experi\u00eancias foram a primeira demonstra\u00e7\u00e3o s\u00f3lida de que o c\u00e9rebro humano pode ser reparado usando c\u00e9lulas vivas.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a pesquisa avan\u00e7ou, t\u00e9cnicas foram refinadas e a regulamenta\u00e7\u00e3o europeia estabeleceu marcos rigorosos para garantir a seguran\u00e7a e a qualidade desses tratamentos, agora englobados na categoria de medicamentos de terapia avan\u00e7ada (ATMP, na sigla em ingl\u00eas). Atualmente, est\u00e3o sendo realizados em todo o mundo diferentes <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-025-00688-x\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">ensaios cl\u00ednicos<\/a> que d\u00e3o continuidade ao trabalho de Bj\u00f6rklund e Lindvall e que trazem esperan\u00e7a aos pacientes com Parkinson e muitas outras doen\u00e7as que afetam nosso c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>O desafio do AVC<\/p>\n<p>Embora essa hist\u00f3ria tenha inspirado in\u00fameros estudos, o derrame cerebral representa um desafio diferente do da doen\u00e7a de Parkinson. A les\u00e3o isqu\u00eamica costuma ser mais extensa e heterog\u00eanea: n\u00e3o afeta apenas um tipo de c\u00e9lula, mas v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es de neur\u00f4nios, c\u00e9lulas gliais e tamb\u00e9m os vasos sangu\u00edneos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ap\u00f3s um transplante, n\u00e3o basta que as c\u00e9lulas sobrevivam no c\u00e9rebro do paciente. Elas devem se integrar funcionalmente, ou seja, enviar seus ax\u00f4nios (as prolonga\u00e7\u00f5es que transmitem os impulsos nervosos) e estabelecer sinapses ou conex\u00f5es adequadas com os neur\u00f4nios sobreviventes, passando a fazer parte dos circuitos cerebrais.<\/p>\n<p>\u00c9 como tentar reconstruir n\u00e3o apenas a estrutura de uma ponte, mas tamb\u00e9m seu tr\u00e1fego: as conex\u00f5es devem ser estabelecidas da maneira correta para que a informa\u00e7\u00e3o flua. Portanto, al\u00e9m de adicionar novas c\u00e9lulas, o desafio no AVC consiste em <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3389\/fcell.2021.662636\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">reconectar o c\u00e9rebro<\/a>.<\/p>\n<p>Engenharia gen\u00e9tica como ponto de inflex\u00e3o<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que entra em jogo a engenharia gen\u00e9tica, uma das tecnologias mais transformadoras da biologia moderna. Esta disciplina permite modificar as c\u00e9lulas para torn\u00e1-las mais eficazes, mais resistentes ou mais capazes de se integrar no tecido danificado.<\/p>\n<p>No nosso caso, incorporamos \u00e0s c\u00e9lulas transplantadas o gene que codifica a prote\u00edna BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), um fator neurotr\u00f3fico que participa no desenvolvimento do c\u00e9rebro e que favorece o crescimento dos ax\u00f4nios e a forma\u00e7\u00e3o de sinapses. Com isso, buscamos <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.3390\/ijms26157262\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">facilitar a integra\u00e7\u00e3o funcional<\/a> dos novos neur\u00f4nios no c\u00e9rebro lesionado, um passo fundamental para que o transplante n\u00e3o apenas preencha uma lacuna, mas restaure a comunica\u00e7\u00e3o neuronal.<\/p>\n<p>Um debate necess\u00e1rio<\/p>\n<p>Mas essa capacidade de manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica tamb\u00e9m levanta dilemas \u00e9ticos, especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos limites de sua aplica\u00e7\u00e3o e seus poss\u00edveis efeitos a longo prazo. Os primeiros transplantes em pacientes com Parkinson mencionados anteriormente, por exemplo, foram realizados com c\u00e9lulas-tronco provenientes de tecido fetal.<\/p>\n<p>Hoje, gra\u00e7as ao trabalho do pesquisador japon\u00eas Shinya Yamanaka, Pr\u00eamio Nobel de Medicina em 2012, e sua <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.cell.2007.11.019\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">descoberta das c\u00e9lulas-tronco de pluripot\u00eancia induzida (iPS)<\/a>, \u00e9 poss\u00edvel gerar c\u00e9lulas-tronco a partir das c\u00e9lulas adultas do pr\u00f3prio paciente. Por isso, hoje \u00e9 muito frequente a gera\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio dessas c\u00e9lulas iPS a partir de bi\u00f3psias da pele.<\/p>\n<p>Assim, evita-se grande parte dos conflitos \u00e9ticos relacionados ao uso de embri\u00f5es e diminui-se o risco de rejei\u00e7\u00e3o imune. Portanto, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais se podemos modificar c\u00e9lulas para reparar o c\u00e9rebro, mas com quais crit\u00e9rios, sob qual regulamenta\u00e7\u00e3o e com qual responsabilidade.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da medicina \u00e9 feita de pequenas vit\u00f3rias diante do imposs\u00edvel. H\u00e1 apenas algumas d\u00e9cadas, a ideia de curar um c\u00e9rebro danificado parecia um sonho inating\u00edvel. Hoje, gra\u00e7as \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de biologia, engenharia gen\u00e9tica e medicina regenerativa, esse sonho come\u00e7a a tomar forma nos laborat\u00f3rios. Ainda h\u00e1 muitos desafios a serem resolvidos, mas cada novo avan\u00e7o nos lembra algo essencial: o c\u00e9rebro n\u00e3o s\u00f3 pode aprender, mas tamb\u00e9m pode ser reparado.<\/p>\n<p>A reportagem foi originalmente publicada no <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/como-as-celulas-tronco-podem-ajudar-na-recuperacao-do-cerebro-apos-um-derrame-270408\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">The Conversation<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Todos os anos, milh\u00f5es de pessoas veem suas vidas mudarem em quest\u00e3o de minutos. 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