{"id":177697,"date":"2025-12-06T13:48:17","date_gmt":"2025-12-06T13:48:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/177697\/"},"modified":"2025-12-06T13:48:17","modified_gmt":"2025-12-06T13:48:17","slug":"jon-fosse-luto-para-voltar-a-minha-vida-de-antes-do-nobel-06-12-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/177697\/","title":{"rendered":"Jon Fosse: Luto para voltar \u00e0 minha vida de antes do Nobel &#8211; 06\/12\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Mais do que alegria, foi al\u00edvio o que o noruegu\u00eas <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/bernardo-carvalho\/2023\/11\/penso-em-kafka-e-me-incomodo-com-a-seriedade-de-jon-fosse-nobel-de-literatura.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Jon Fosse<\/a> sentiu na manh\u00e3 de 5 de outubro de 2023, quando a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/05\/para-resolver-crise-no-nobel-de-literatura-academia-sueca-permite-saida-de-membros.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Academia Sueca<\/a> anunciou que ele era o laureado com o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/04\/apos-escandalos-sexuais-academia-sueca-estuda-nao-dar-nobel-de-literatura-em-2018.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Nobel de Literatura<\/a> daquele ano.<\/p>\n<p>Al\u00edvio porque a obra que mais lhe custou tempo e dedica\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava publicada. &#8220;Heptalogia&#8221;, que chega agora ao Brasil com tradu\u00e7\u00e3o de Leonardo Pinto Silva pela F\u00f3sforo, \u00e9 um catatau de quase 700 p\u00e1ginas que transcorre em grande parte como um \u00fanico fluxo de consci\u00eancia ao longo de sete dias.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9, de longe, a minha obra mais longa e ambiciosa&#8221;, afirma Fosse, de 66 anos, \u00e0 <strong>Folha <\/strong>em entrevista por email. &#8220;E precisei de muita concentra\u00e7\u00e3o para escrev\u00ea-la e conclui-la. O que tenho vivido depois do Nobel s\u00e3o interrup\u00e7\u00f5es constantes.&#8221;<\/p>\n<p>Fosse divide seu tempo entre <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/turismo\/2023\/11\/oslo-atrai-turistas-com-cafeterias-saunas-e-novos-centros-culturais.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Oslo<\/a> \u2014onde vive desde 2011 na Gruta, como \u00e9 chamada a resid\u00eancia vital\u00edcia concedida pelo governo a dignit\u00e1rios da cultura norueguesa \u2014 e Hainburg an der Donau, um vilarejo de 6.000 habitantes na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2025\/02\/partidos-da-austria-isolam-a-ultradireita-mais-votada-e-formam-nova-coalizao.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">\u00c1ustria<\/a>.<\/p>\n<p>Para ele, o processo de escrita de todos os seus livros \u2014sejam romances, novelas ou pe\u00e7as de teatro\u2014 envolve um ato de escuta. Nada disso combina com as demandas de um Nobel.<\/p>\n<p>&#8220;Quase todos os dias recebo um convite para ir aqui ou ali, ou um pedido para uma entrevista. \u00c9 claro que recuso quase tudo. Mesmo assim, s\u00f3 para responder aos pedidos, gasto muito tempo&#8221;, conta o escritor, que gentilmente cedeu parte desse tempo para responder \u00e0s quest\u00f5es da <strong>Folha<\/strong>.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Descrever o enredo da &#8220;Heptalogia&#8221;, assim como o de outros livros de Fosse, \u00e9 um esfor\u00e7o pouco frut\u00edfero, incapaz de dar conta da obra. O protagonista e narrador, Asle, \u00e9 um pintor vi\u00favo que vive na costa oeste da Noruega e tem apenas dois amigos, seu vizinho pescador e seu galerista.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, um outro Asle, um artista que vive em uma cidade pr\u00f3xima e luta contra o alcoolismo. Ao apresentar esse doppelg\u00e4nger e sua rela\u00e7\u00e3o com o narrador, Fosse constr\u00f3i um mon\u00f3logo interior sublime que toca em quest\u00f5es profundas como quem somos e qual o sentido da nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse fluxo de consci\u00eancia que se desenrola na cabe\u00e7a do Asle-narrador mescla mem\u00f3rias do passado, eventos do presente e reflex\u00f5es filos\u00f3ficas sobre vida, morte, arte e Deus \u2014tudo isso ao longo da semana que antecede o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2025\/11\/maior-arvore-de-natal-de-sp-ilumina-o-ibirapuera-com-330-mil-leds-verdes-e-amarelos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Natal<\/a>.<\/p>\n<p>O romance \u00e9 dividido em sete cap\u00edtulos agrupados em tr\u00eas partes (&#8220;O outro nome&#8221;, &#8220;O eu \u00e9 um outro&#8221; e &#8220;Um novo nome&#8221;), mas isso n\u00e3o foi algo planejado de antem\u00e3o. Segundo o autor, o livro simplesmente se dividiu em sete ao longo da escrita.<\/p>\n<p>Todos come\u00e7am com a mesma frase: &#8220;E me percebo de p\u00e9 olhando para o quadro com duas linhas, uma lil\u00e1s e uma marrom, que se cruzam bem no meio&#8221;. N\u00e3o por acaso, d\u00e1 para dizer que o livro inteiro \u00e9 uma jornada sobre duplos que se cruzam bem no meio.<\/p>\n<p>Ao justificar o pr\u00eamio de Fosse, a Academia Sueca citou &#8220;suas pe\u00e7as e prosa inovadoras, que d\u00e3o voz ao indiz\u00edvel&#8221;. Parte desse indiz\u00edvel recai sobre as constantes repeti\u00e7\u00f5es, marca do estilo do noruegu\u00eas, que dispensa a pontua\u00e7\u00e3o tradicional para retratar o que se passa na cabe\u00e7a dos seus narradores.<\/p>\n<p>Questionado se essa repeti\u00e7\u00e3o ocorre porque a vida em si \u00e9 repetitiva ou se porque s\u00f3 entendemos a verdade quando contada v\u00e1rias vezes, Fosse responde que \u00e9 tudo isso, mas tamb\u00e9m algo mais simples.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu era adolescente, era completamente apaixonado por m\u00fasica, ouvia e tocava. Estranhamente, de repente parei de ouvir m\u00fasica e de tocar. E comecei a escrever. Ao escrever, de alguma forma tentei recriar o espa\u00e7o em que me encontrava quando era apaixonado por m\u00fasica. Escrever \u00e9 para mim como uma esp\u00e9cie de tocar. E na m\u00fasica, o ritmo, a repeti\u00e7\u00e3o e a varia\u00e7\u00e3o s\u00e3o cruciais. Tenho escrito mais ou menos da mesma forma desde que escrevi meu primeiro romance publicado, aos 20 anos.&#8221;<\/p>\n<p>Ao comentar esse processo, ele diz que continua a escrever &#8220;para chegar a outro lugar&#8221;. &#8220;Ao lugar \u00fanico que a escrita, ou a literatura, me oferece.&#8221;<\/p>\n<p>Algumas pausas s\u00e3o bem-vindas. Fosse conta que, durante muitos anos, a tradu\u00e7\u00e3o foi uma atividade que o ajudou nos interregnos \u2014agora mesmo, ele est\u00e1 vertendo para o noruegu\u00eas &#8220;O Castelo&#8221;, cl\u00e1ssico de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/01\/passeio-por-praga-rememora-vida-e-obra-de-kafka.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Franz Kafka<\/a> que, assim como a &#8220;Heptalogia&#8221;, termina sem um ponto final.<\/p>\n<p>&#8220;Preciso de dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o a tudo para escrever bem. Tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a mim mesmo. Escrever tem a ver com forma, com transforma\u00e7\u00e3o, com transcend\u00eancia. Para escrever bem, \u00e9 imposs\u00edvel para mim escrever de forma autobiogr\u00e1fica&#8221;, afirma, resvalando no tema da autofic\u00e7\u00e3o que parece reinar na literatura contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 claro que tamb\u00e9m uso o que vivi em meus escritos, mas sempre de uma forma que se encaixe na l\u00f3gica ou no universo do que estou escrevendo. N\u00e3o diria que Asle e eu somos parentes, mas h\u00e1 uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o entre ele e eu.&#8221;<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o fica expl\u00edcita, por exemplo, em uma passagem na qual Asle medita sobre arte. &#8220;E \u00e9 isso que deve ocorrer com uma imagem, ela deve se revelar, como um acontecimento, como uma d\u00e1diva, sim, uma boa pintura \u00e9 uma d\u00e1diva, uma esp\u00e9cie de prece, \u00e9 ao mesmo tempo uma d\u00e1diva e uma prece de gratid\u00e3o, eu penso e jamais poderia pintar um bom quadro obedecendo ao meu pr\u00f3prio desejo, pois a arte acontece, a arte simplesmente acontece, \u00e9 assim e pronto.&#8221;<\/p>\n<p>Fosse foi ateu durante boa parte da vida at\u00e9 que um acidente, em 2011, o deixou internado em coma alco\u00f3lico. Depois de quase morrer, se converteu ao catolicismo.<\/p>\n<p>&#8220;O que me fez deixar de ser ateu tem a ver com a minha experi\u00eancia de escrever&#8221;, conta. &#8220;Quando estou escrevendo bem, com certeza n\u00e3o vem de mim, mas de algum lugar l\u00e1 fora.&#8221;<\/p>\n<p>Desde o Nobel, Fosse voltou a escrever pe\u00e7as de teatro ap\u00f3s uma pausa de 15 anos, publicou a novela &#8220;Brancura&#8221;, que tamb\u00e9m saiu pela F\u00f3sforo, e acaba de lan\u00e7ar &#8220;Vaim&#8221;, o primeiro romance de uma nova trilogia \u2014 ainda sem previs\u00e3o por aqui.<\/p>\n<p>A editora da &#8220;Heptalogia&#8221; ainda publicou &#8220;A Casa de Barcos&#8221; e a colet\u00e2nea teatral &#8220;Vai Vir Algu\u00e9m e Outras Pe\u00e7as&#8221;, enquanto o C\u00edrculo de Poemas fez uma antologia de sua poesia. A Companhia das Letras tamb\u00e9m editou a prosa de &#8220;\u00c9 a Ales&#8221; e &#8220;Trilogia&#8221; e acaba de lan\u00e7ar o infantil &#8220;A Pequena Violinista&#8221;, parceria com o ilustrador Oyvind Torseter.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 fruto do reconhecimento impulsionado pelo pr\u00eamio sueco. Mas o noruegu\u00eas diz que luta mesmo \u00e9 para voltar \u00e0 vida que tinha antes. &#8220;A palavra mais \u00fatil \u00e9: n\u00e3o. Obrigado pelo seu pedido, mas n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Afirma que, agora, todos o veem de uma forma diferente. &#8220;Passei de sujeito a objeto! Ainda assim, tenho a certeza de que \u00e9 poss\u00edvel escrever. S\u00f3 preciso estar pronto para voltar a escrever as minhas pr\u00f3prias coisas&#8221;. Deixem o escritor trabalhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mais do que alegria, foi al\u00edvio o que o noruegu\u00eas Jon Fosse sentiu na manh\u00e3 de 5 de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":177698,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[145],"tags":[207,211,210,114,115,1907,236,36705,864,237,170,11311,32,33],"class_list":{"0":"post-177697","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-celebridades","8":"tag-arte","9":"tag-celebridades","10":"tag-celebrities","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-escritores","14":"tag-folha","15":"tag-kafka","16":"tag-literatura","17":"tag-livro","18":"tag-livros","19":"tag-nobel","20":"tag-portugal","21":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115672940757118604","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=177697"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177697\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/177698"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=177697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=177697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=177697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}