{"id":177809,"date":"2025-12-06T16:15:45","date_gmt":"2025-12-06T16:15:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/177809\/"},"modified":"2025-12-06T16:15:45","modified_gmt":"2025-12-06T16:15:45","slug":"alemanha-em-queda-livre-vive-pior-crise-desde-o-pos-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/177809\/","title":{"rendered":"Alemanha \u201cem queda livre\u201d vive pior crise desde o p\u00f3s-Guerra"},"content":{"rendered":"<p>        Produ\u00e7\u00e3o industrial continua abaixo do pr\u00e9-Covid, apenas dois trimestres viram crescimento positivo nos \u00faltimos dois anos e as proje\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o as mais animadoras, arriscando prolongar a atual recess\u00e3o em 2026. Governo n\u00e3o est\u00e1 a fazer o suficiente, acusam os empres\u00e1rios do pa\u00eds.    <\/p>\n<p>epa12566341 German Chancellor Friedrich Merz looks on during a meeting of the cabinet at the Chancellery in Berlin, Germany, 03 December 2025.  EPA\/CLEMENS BILAN<\/p>\n<p>Os avisos vinham de in\u00fameras vozes e ouviam-se h\u00e1 largos trimestres, mas o mais recente \u00e9 de peso: a Federa\u00e7\u00e3o de Ind\u00fastrias Alem\u00e3s (BDI), a maior confedera\u00e7\u00e3o industrial germ\u00e2nica, v\u00ea o motor econ\u00f3mico europeu na maior crise desde o p\u00f3s-guerra e acusa o governo liderado por Friedrich Merz de ina\u00e7\u00e3o perante o que classificam de \u201cqueda livre\u201d da maior economia do bloco. O modelo de crescimento das \u00faltimas d\u00e9cadas est\u00e1 esgotado perante o fim da energia barata, a concorr\u00eancia chinesa e a pol\u00edtica tarif\u00e1ria dos EUA e, com a Europa em transforma\u00e7\u00e3o, a aus\u00eancia do fulgor alem\u00e3o faz-se sentir.<br \/>A Alemanha atravessa \u201ca crise mais profunda desde a funda\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica federal\u201d, afirmou Peter Leibinger, presidente da BDI, que acusa o governo de Merz de \u201cn\u00e3o responder com a determina\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria\u201d. Para o representante industrial, o pa\u00eds precisa de \u201cuma invers\u00e3o de pol\u00edtica com prioridades claramente definidas para a competitividade e crescimento\u201d, o que incluiria um conjunto ambicioso de reformas.<br \/>Os dados s\u00e3o, de facto, preocupantes. Al\u00e9m de ter registado apenas dois trimestres de crescimento positivos nos \u00faltimos dois anos, o consumo privado contribuiu negativamente para a leitura mais recente, quando a economia voltou a estagnar em cadeia, tal como as exporta\u00e7\u00f5es, outrora o principal motor do crescimento alem\u00e3o. Mais, a produ\u00e7\u00e3o industrial est\u00e1 em contra\u00e7\u00e3o h\u00e1 quatro anos e a BDI projeta nova queda de 2% no pr\u00f3ximo ano, deixando o pa\u00eds cada vez mais longe do pico do sector secund\u00e1rio registado antes da pandemia.<br \/>As raz\u00f5es desta crise s\u00e3o j\u00e1 amplamente conhecidas. Anos de desinvestimento, uma confian\u00e7a exagerada num modelo exportador, a concorr\u00eancia industrial cada vez mais sofisticada vinda da China, o fim da energia barata vinda da R\u00fassia e, por fim, a escalada tarif\u00e1ria dos EUA resultaram no regresso do \u2018doente da Europa\u2019, designa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 havia sido usada para a Alemanha no in\u00edcio do s\u00e9culo. Ainda assim, o cen\u00e1rio na altura n\u00e3o era t\u00e3o preocupante, dado que o crescimento entre 1988 e 2005 chegou a 1,2%, bastante acima da atual estagna\u00e7\u00e3o.<br \/>E \u201cao debater [a ideia de] \u2018crescimento zero\u2019, devemos considerar os trabalhadores industriais que perderam o emprego e o peso que estes anos de estagna\u00e7\u00e3o colocaram nos sistemas de seguran\u00e7a social\u201d, escrevem os analistas do banco ING, lembrando a onda de despedimentos que assolou o sector industrial alem\u00e3o, com grandes nomes como a VW, Bosch ou Thyssenkrupp a n\u00e3o conseguirem evitar os lay-offs. Segundo uma an\u00e1lise do BNP Paribas, o emprego na Alemanha caiu 220 mil postos, com destaque para os sectores industrial e da constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Est\u00edmulos suficientes?<\/strong><br \/>Perante este cen\u00e1rio, o governo liderado por Friedrich Merz apressou-se a introduzir altera\u00e7\u00f5es ao famoso trav\u00e3o da d\u00edvida, de forma a estimular a economia, e anunciou um novo fundo para revitalizar a infraestrutura do pa\u00eds, degradada ap\u00f3s anos de neglig\u00eancia pol\u00edtica. Ser\u00e3o 500 mil milh\u00f5es de euros ao longo de 12 anos, ou seja, cerca de 11,6% do PIB de 2024, e, para o economista Pedro Brinca, o resultado \u00e9 incerto.<br \/>\u201cA Alemanha precisa de um programa de infraestruturas \u2013 e n\u00e3o estamos a falar s\u00f3 de ferrovia e autoestradas, mas tamb\u00e9m do digital e das novas tecnologias emergentes. [\u2026] Os 500 mil milh\u00f5es s\u00e3o um passo na dire\u00e7\u00e3o certa, mas n\u00e3o \u00e9 um valor extraordin\u00e1rio\u201d, argumenta, lembrando que n\u00e3o chega a corresponder a 1% do PIB ao ano.<br \/>Destacando que esta medida \u00e9 \u201co maior pacote or\u00e7amental desde a reunifica\u00e7\u00e3o\u201d das Alemanhas, o S&amp;P Global projeta que este v\u00e1 \u201cmodelar o crescimento econ\u00f3mico europeu no pr\u00f3ximo ano\u201d. A an\u00e1lise da institui\u00e7\u00e3o destaca que o multiplicador dos gastos calculado por Berlim, de 0,75, \u00e9 superior ao da m\u00e9dia das proje\u00e7\u00f5es de outras organiza\u00e7\u00f5es, mas ressalva que os efeitos macro s\u00e3o ainda largamente incertos.<br \/>Juntando o fundo para infraestruturas \u00e0s medidas para o sector da defesa e aos gastos p\u00fablicos planeados para os pr\u00f3ximos 12 anos, o montante ascende a 1,1 bili\u00f5es de euros, ou cerca de 25% do PIB alem\u00e3o e 6% do PIB esperado para a UE este ano. Segundo as estimativas da S&amp;P, os efeitos dever-se-\u00e3o sentir sobretudo a partir do pr\u00f3ximo ano, com um impacto de 0,5% do PIB em 2026, 0,7% em 2027 e 0,8% em 2028.<\/p>\n<p><strong>De \u2018milagre\u2019 ao \u2018doente da Europa\u2019<\/strong><br \/>O cen\u00e1rio atualmente \u00e9 o mais preocupante desde o final da II Guerra Mundial, mas a hist\u00f3ria econ\u00f3mica alem\u00e3 n\u00e3o tem sido t\u00e3o f\u00e1cil como se possa imaginar. A parti\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o conflito criou assimetrias claras entre a Rep\u00fablica Federal (RFA), a oeste, e a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica (RDA), a este, com ambas as economias a atravessarem per\u00edodos mais conturbados e uma reunifica\u00e7\u00e3o que constituiu a \u00fanica integra\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o de dois modelos econ\u00f3micos opostos.<br \/>A Alemanha Ocidental, integrada num modelo capitalista e com liga\u00e7\u00f5es fortes \u00e0 Europa Ocidental e aos EUA, beneficiou do plano Marshall, que permitiu uma recupera\u00e7\u00e3o assente essencialmente na ind\u00fastria. Foi aqui que surgiu o \u2018milagre econ\u00f3mico alem\u00e3o\u2019, com taxas de crescimento da produ\u00e7\u00e3o industrial de 25% e 18% em 1950 e 1951, respetivamente.<br \/>No entanto, os gastos p\u00fablicos elevados levaram a uma subida na infla\u00e7\u00e3o e em 1966 a ideia de um milagre perdeu-se, dado o disparo no desemprego (que, ainda assim, chegou apenas a 3,2%) e um abrandamento no crescimento at\u00e9 valores negativos em 1967. Ap\u00f3s este per\u00edodo formou-se um governo de coliga\u00e7\u00e3o que viu a economia da Alemanha Ocidental voltar a ganhar f\u00f4lego e chegar a 7,4% de crescimento dois anos depois, em 1969.<br \/>Do outro lado da fronteira, na RDA, a situa\u00e7\u00e3o foi menos positiva, com largos per\u00edodos de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica. Ap\u00f3s anos sem crescimento na d\u00e9cada de 70, o governo acumulou d\u00edvida que levou a uma crise nos anos 80, um cen\u00e1rio que se foi agravando nos anos seguintes e que culminou com o colapso econ\u00f3mico no final da d\u00e9cada.<br \/>Com a reunifica\u00e7\u00e3o, dois modelos distintos tiveram de ser integrados, bem como popula\u00e7\u00f5es com n\u00edveis bastante d\u00edspares de riqueza e produtividade. No lado oriental, a produ\u00e7\u00e3o industrial caiu a pique, recuando 73% entre 1989 e 1992, e 80% da popula\u00e7\u00e3o ativa perdeu o seu emprego tempor\u00e1ria ou permanentemente. Precisamente em 1992, o crescimento em ambos os territ\u00f3rios anteriormente separados estava a desiludir: a RFA viu o indicador cair de 4,2% no ano anterior para apenas 0,9%, enquanto a RDA registou um avan\u00e7o de 6,1%, bastante abaixo dos 7% a 10% previstos aquando da reunifica\u00e7\u00e3o.<br \/>Como resultado, 1993 registou uma recess\u00e3o de 1,2%, mas foi de pouca dura, regressando o pa\u00eds aos crescimentos positivos no ano seguinte. Ainda assim, muitas assimetrias entre Ocidente e Oriente permanecem at\u00e9 hoje, com mais desemprego na antiga RDA e um tecido de pequenas e m\u00e9dias empresas mais fr\u00e1geis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Produ\u00e7\u00e3o industrial continua abaixo do pr\u00e9-Covid, apenas dois trimestres viram crescimento positivo nos \u00faltimos dois anos e as&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":177810,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[83],"tags":[1305,88,89,90,32,33],"class_list":{"0":"post-177809","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-empresas","8":"tag-alemanha","9":"tag-business","10":"tag-economy","11":"tag-empresas","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115673518760662422","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=177809"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177809\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/177810"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=177809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=177809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=177809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}