{"id":179023,"date":"2025-12-07T17:58:11","date_gmt":"2025-12-07T17:58:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/179023\/"},"modified":"2025-12-07T17:58:11","modified_gmt":"2025-12-07T17:58:11","slug":"da-dor-a-criacao-uma-artista-que-renasceu-nos-acores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/179023\/","title":{"rendered":"Da dor \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, uma artista que renasceu nos A\u00e7ores"},"content":{"rendered":"<p>A artista Angela Fernandes possui uma trajet\u00f3ria de vida e obra que se caracteriza por movimentos intensos, perdas marcantes e reinven\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais. Nasceu no Paran\u00e1, sul do Brasil, mas a inf\u00e2ncia foi pontuada por v\u00e1rias mudan\u00e7as: aos 11 anos mudou-se para o Maranh\u00e3o, onde viveria at\u00e9 \u00e0 adolesc\u00eancia e passaria pelo trauma do assassinato pol\u00edtico do pai, epis\u00f3dio que abalou profundamente a fam\u00edlia e silenciou, durante anos, o seu entusiasmo pelas artes.\u200b<\/p>\n<p>Foi na casa da av\u00f3 que Angela Fernandes teve a primeira imagem da arte. Como a av\u00f3 era muito cat\u00f3lica e frequentava muito a missa, sempre que a celebra\u00e7\u00e3o terminava havia uma apresenta\u00e7\u00e3o no coreto. Angela Fernandes conta que \u201cera louca por aquilo\u201d e sentia \u201cuma forte vontade de subir ao coreto\u201d. \u201cEu queria subir, eu queria falar os textos que os atores estavam falando ou, quando era uma palestra, eu queria palestrar\u201d, recorda.\u00a0<\/p>\n<p>Contudo, apesar desta fase muito viva, essa paix\u00e3o pela arte \u201cmorreu\u201d com o assassinato pol\u00edtico do pai, quando tinha 15 anos, e ficou adormecida. S\u00f3 mais tarde, aos 29 anos, ap\u00f3s um per\u00edodo de questionamento interior sobre o porqu\u00ea de n\u00e3o conseguir prosseguir com a faculdade, decidiu voltar \u00e0 arte.\u200b<\/p>\n<p>Frequentou a escola de Wolf Maya, integrou grupos de renome (como o TAPA) e chegou a conquistar distin\u00e7\u00e3o em espet\u00e1culos.\u00a0<\/p>\n<p>Aos 39 anos voltou a sentir um \u201cvazio\u201d e come\u00e7ou a questionar tudo. \u201cUm dia a minha terapeuta disse-me: \u2018Olha, isso vai vir num momento em que voc\u00ea esteja trabalhando com a arte, o teatro vai te ajudar nisso, fica tranquila, isso voc\u00ea vai entender\u2019\u201d, recorda, contando que isso aconteceu durante um exerc\u00edcio num grupo de teatro. Depois dessa catarse, a terapeuta aconselhou-a: \u201cou voc\u00ea pinta ou voc\u00ea escreve sobre o que voc\u00ea est\u00e1 vendo a\u00ed, sobre o que voc\u00ea est\u00e1 sentindo\u201d. Foi neste ponto que Angela Fernandes descobriu na pintura uma forma de liberta\u00e7\u00e3o, estreando-se com a t\u00e9cnica de esp\u00e1tula e produzindo, num curto espa\u00e7o de tempo, um conjunto marcante de obras expressionistas.\u200b<\/p>\n<p>Sobre essa transi\u00e7\u00e3o, explica: \u201ca\u00ed veio a primeira pintura 15 dias depois, porque eu n\u00e3o conseguia escrever. Eu n\u00e3o conseguia escrever, mas eu via uma rede aqui, um rasgado assim, um emaranhado. Eu via algo muito vermelho aqui, todo o meu peito assim como um v\u00f3rtex\u201d, e acrescenta: \u201ca\u00ed comecei a chorar porque eu achava que eu n\u00e3o era atriz, que eu era artista pl\u00e1stica e eu n\u00e3o queria ser artista pl\u00e1stica eu queria ser s\u00f3 atriz\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A sua primeira exposi\u00e7\u00e3o \u201cEstranhas entranhas\u201d ocorreu em S\u00e3o Paulo, tendo o sucesso da mesma a levado a voltar aos estudos, agora na Escola Pan-Americana de Arte, em S\u00e3o Paulo, onde durante quatro anos aprofundou t\u00e9cnicas, consolidando o estilo pr\u00f3prio que a distingue.\u200b<\/p>\n<p>Em 2020, a pandemia funcionou como um novo ponto de viragem, depois de sentir que o seu casamento j\u00e1 n\u00e3o funcionava. Tudo come\u00e7ou com planos para viajar para Barcelona, que n\u00e3o se concretizaram, e acabou por se fixar nos A\u00e7ores, ilha de S\u00e3o Miguel, impulsionada por uma intui\u00e7\u00e3o surgida durante uma medita\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Refletindo sobre esse per\u00edodo da sua vida, Angela Fernandes descreve: \u201ceu me via sempre em cima de uma ponte atirando no escuro. O que ia acontecer ali em baixo, se algu\u00e9m ia me segurar, n\u00e3o sei. Mas eu pressupunha que algu\u00e9m ia me segurar, ia ter uma rede ali para me segurar e eu ia saltar. Essa rede foram os A\u00e7ores\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O processo de adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi f\u00e1cil, uma vez que, para se manter legalmente na ilha, precisou de provar que conseguia sustentar-se atrav\u00e9s da sua arte, enfrentando ceticismo e desafios do contexto local. Com o apoio de amigos e ap\u00f3s uma primeira exposi\u00e7\u00e3o bem-sucedida, ganhou reconhecimento.\u200b\u200b<\/p>\n<p>E, quanto \u00e0 persist\u00eancia, afirma: \u201ceu n\u00e3o estudei 10 anos para trabalhar num caf\u00e9. \u00c9 a arte que vai ser o meu sustento, eu n\u00e3o tenho d\u00favida disso\u201d.\u200b<\/p>\n<p>Ao longo da sua perman\u00eancia na regi\u00e3o, Angela integrou-se na comunidade, realizando trabalhos volunt\u00e1rios e envolvendo-se no teatro com a Dire\u00e7\u00e3o Regional das Comunidades, nomeadamente no projeto \u201cNove ilhas, Nove a\u00e7\u00f5es\u201d, onde interpretou o papel de uma imigrante que conta a sua hist\u00f3ria.\u200b<\/p>\n<p>Esta semana, Angela Fernandes inaugurou a exposi\u00e7\u00e3o \u201cSistemas: natureza corpo\u201d, com curadoria de Ana Feij\u00f3, patente no NONAGON \u2013 Parque de Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Miguel, que marca o in\u00edcio de uma \u201cnova fase da minha vida nos A\u00e7ores\u201d e uma nova dire\u00e7\u00e3o para a sua vida na ilha. \u201cEm julho deste ano, conheci o Lu\u00eds Almeida, o presidente do NONAGON, que leu a minha entrevista no A\u00e7oriano Oriental e contactou-me, dizendo que queria \u2018fazer algo diferente l\u00e1\u2019 e dinamizar o espa\u00e7o\u201d, conta, explicando que lhe foi proposto que a exposi\u00e7\u00e3o dialogasse com o evento que se iria realizar, sobre intelig\u00eancia artificial.\u200b<\/p>\n<p>Assim nasceu \u201cSistemas: natureza corpo\u201d, que resulta de uma \u201clonga conversa com a intelig\u00eancia artificial, sem medo\u201d, acreditando que, se o artista tem coragem de \u201cdescer at\u00e9 \u00e0s profundezas, ele n\u00e3o precisa ter medo da m\u00e1quina\u201d. Dessa investiga\u00e7\u00e3o surgiu tamb\u00e9m uma instala\u00e7\u00e3o que representa o \u201csubsolo vivo\u201d e que traduz a ideia de que, se \u201co mundo acabar\u201d, o que resta e fica \u00e9 o que est\u00e1 por baixo; desse subsolo vivo, brotos come\u00e7am a sair e encontram uma \u00e1rvore j\u00e1 crescida, que tem um \u201c\u00fatero ainda rasgado\u201d, simbolizando o \u201crenascer\u201d e a continua\u00e7\u00e3o da natureza.\u200b<\/p>\n<p>Para Angela Fernandes, esta exposi\u00e7\u00e3o assinala o in\u00edcio de uma \u201cnova fase da minha vida nos A\u00e7ores\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A artista Angela Fernandes possui uma trajet\u00f3ria de vida e obra que se caracteriza por movimentos intensos, perdas&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":164071,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,203,201,202,204,114,115,32,33],"class_list":{"0":"post-179023","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-arts","12":"tag-arts-and-design","13":"tag-artsanddesign","14":"tag-design","15":"tag-entertainment","16":"tag-entretenimento","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115679586123091394","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/179023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=179023"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/179023\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/164071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=179023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=179023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=179023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}