{"id":179326,"date":"2025-12-07T23:23:11","date_gmt":"2025-12-07T23:23:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/179326\/"},"modified":"2025-12-07T23:23:11","modified_gmt":"2025-12-07T23:23:11","slug":"como-o-lider-venezuelano-nicolas-maduro-desafiou-todas-as-previsoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/179326\/","title":{"rendered":"Como o l\u00edder venezuelano Nicol\u00e1s Maduro desafiou todas as previs\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>\t                O l\u00edder que muitos ridicularizavam \u00e9 agora o presidente que est\u00e1 h\u00e1 mais tempo no poder na Am\u00e9rica Latina. Ser\u00e1 que vai continuar a desafiar as probabilidades?<\/p>\n<p _d-id=\"9873\">Nicol\u00e1s Maduro acredita que o seu antecessor e pai pol\u00edtico, o falecido Hugo Ch\u00e1vez, lhe apareceu sob a forma de um pequeno p\u00e1ssaro e de uma borboleta. Ele tamb\u00e9m acha que celebrar o Natal dois meses mais cedo &#8211; por decreto presidencial &#8211; ajuda a \u201clevantar o \u00e2nimo dos venezuelanos\u201d.<\/p>\n<p _d-id=\"9877\">Confunde \u201cgremlin\u201d com \u201cgrinch\u201d, inventa palavras em espanhol e comete frequentemente deslizes lingu\u00edsticos. As decis\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es do presidente da Venezuela podem ser t\u00e3o exc\u00eantricas que muitos venezuelanos e latino-americanos t\u00eam um nome para elas: \u201cmaduradas\u201d.<\/p>\n<p _d-id=\"9879\">No entanto, h\u00e1 anos que Maduro tem provado que subestim\u00e1-lo pode ser um erro para os seus cr\u00edticos.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/6935cda5d34e3caad84c1ff3.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Maduro cumprimenta o povo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es em 14 de abril de 2013, em Caracas, Venezuela (Gregorio Marrero\/LatinContent\/Getty Images) <\/p>\n<p _d-id=\"9882\">O esc\u00e1rnio em rela\u00e7\u00e3o a Maduro j\u00e1 existia mesmo antes de ele tomar posse como presidente da Venezuela em 2013, quando era apenas um entre v\u00e1rios potenciais sucessores do l\u00edder doente de cancro, apesar de ter servido como ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros e vice-presidente. Maduro tinha um apoio minorit\u00e1rio dos seguidores do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), e o seu c\u00edrculo, segundo relatos, estava em forte tens\u00e3o com os apoiantes do influente Diosdado Cabello, ent\u00e3o presidente da Assembleia Nacional, por ser o escolhido num pa\u00eds dominado pela incerteza.<\/p>\n<p _d-id=\"9887\">Mas, abatido pela doen\u00e7a, no in\u00edcio de dezembro de 2012, Ch\u00e1vez p\u00f4s fim \u00e0s disputas internas e aben\u00e7oou inequivocamente Maduro para liderar o chavismo e a Venezuela. O \u201cfilho de Ch\u00e1vez\u201d inaugurou ent\u00e3o um governo no qual, ano ap\u00f3s ano, desafiou as cr\u00edticas ao\u00a0sistema eleitoral, os protestos, as san\u00e7\u00f5es, os mandados de pris\u00e3o, as poss\u00edveis rebeli\u00f5es, o isolamento internacional e as especula\u00e7\u00f5es sobre o seu futuro.<\/p>\n<p _d-id=\"9889\">O l\u00edder que alguns ridicularizavam \u00e9 agora o presidente que est\u00e1 h\u00e1 mais tempo no poder na Am\u00e9rica Latina: 12 anos e sete meses. Maduro sobreviveu \u00e0s previs\u00f5es e ao rid\u00edculo, mas, pelo caminho, a Venezuela perdeu milh\u00f5es de habitantes, 72% da sua economia, legitimidade democr\u00e1tica aos olhos de grande parte do mundo e muitos dos seus mais importantes aliados internacionais. O presidente venezuelano diz que enfrenta agora uma \u201csitua\u00e7\u00e3o existencial\u201d. Ser\u00e1 capaz de desafiar novamente as previs\u00f5es e sobreviver \u00e0 press\u00e3o militar e diplom\u00e1tica do presidente dos EUA, Donald Trump?<\/p>\n<p>O &#8216;filho de Ch\u00e1vez&#8217;<\/p>\n<p _d-id=\"9893\">\u201cSe surgir alguma circunst\u00e2ncia imprevista que me impe\u00e7a de continuar como presidente da Venezuela, a minha opini\u00e3o firme, t\u00e3o firme como a lua cheia, \u00e9 que, nesse cen\u00e1rio, que exigiria a convoca\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es presidenciais, devem escolher Nicol\u00e1s Maduro\u201d, disse Ch\u00e1vez em dezembro de 2012, horas antes de viajar para Cuba para continuar o seu tratamento. O presidente voltaria a Caracas apenas para morrer, mas o nome do seu herdeiro j\u00e1 estava claro.<\/p>\n<p _d-id=\"9895\">O pr\u00f3prio Maduro diz que n\u00e3o sabe por que Ch\u00e1vez o escolheu entre v\u00e1rios candidatos, porque ele nunca aspirou a \u201cser presidente\u201d. \u201cMas ele estava a preparar-me\u201d, afirrmou pouco depois da morte de Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"530\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/6935cda5d34e2bd5c6d4d80c.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   O presidente venezuelano Hugo Ch\u00e1vez na sua primeira confer\u00eancia de imprensa ap\u00f3s vencer as elei\u00e7\u00f5es em 9 de outubro de 2012, em Caracas, Venezuela (Gregorio Marrero\/LatinContent\/Getty Images) <\/p>\n<p _d-id=\"9898\">Filho de um ativista pol\u00edtico de um partido tradicional venezuelano, Maduro come\u00e7ou a preparar-se muito cedo. Enquanto estudante, aderiu \u00e0 Liga Socialista e come\u00e7ou a trabalhar como motorista no Metro de Caracas.<\/p>\n<p _d-id=\"9903\">O seu ativismo levou-o a tornar-se dirigente sindical, de onde saltou para a pol\u00edtica. A atividade sindical e pol\u00edtica permitiu-lhe conhecer duas pessoas decisivas na sua vida: Cilia Flores e Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p _d-id=\"9905\">Flores era uma jovem advogada e Maduro era um l\u00edder sindical em ascens\u00e3o. Ela foi uma das defensoras legais de Ch\u00e1vez durante a tentativa de golpe de 1992. Flores e Maduro visitaram-no na pris\u00e3o de Yare.<\/p>\n<p _d-id=\"9907\">Come\u00e7ou o caminho do amor, da pol\u00edtica e da lealdade. Flores tornou-se parceira de Maduro e, eventualmente, a primeira mulher a liderar a Assembleia Nacional e a pessoa que muitos hoje veem como o \u201cpoder por tr\u00e1s do trono\u201d, diz \u00e0 CNN Carmen Arteaga, doutorada em Ci\u00eancia Pol\u00edtica e professora da Universidade Sim\u00f3n Bol\u00edvar. E ele tornou-se o \u201cfilho de Ch\u00e1vez\u201d.<\/p>\n<p>Os mist\u00e9rios do apoio cubano <\/p>\n<p _d-id=\"9911\">Quando Ch\u00e1vez foi eleito presidente em 1999, Maduro entrou para a Assembleia Nacional. \u00c0 medida que o ent\u00e3o presidente ganhou poder dentro e fora da Venezuela, Maduro subiu na hierarquia, primeiro na Assembleia Nacional e depois no governo como \u201cum bom n\u00famero dois, sempre obediente\u201d, explica \u00e0 CNN Ronal Rodr\u00edguez, investigador do Observat\u00f3rio da Venezuela na Universidad del Rosario, na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p _d-id=\"9913\">&#8220;Maduro sempre foi um l\u00edder subestimado. Havia muitos sucessores poss\u00edveis quando Ch\u00e1vez adoeceu. Mas nenhum conseguiu o que ele conseguiu: por um lado, o apoio cubano e, por outro, a distribui\u00e7\u00e3o de poder dentro do chavismo&#8221;, aponta Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p _d-id=\"9915\">A rela\u00e7\u00e3o de Maduro com Cuba estende-se por d\u00e9cadas e tem v\u00e1rias formas e mist\u00e9rios. Uma das poucas biografias n\u00e3o autorizadas de Maduro &#8211; \u201cDe Verde a Maduro: el sucesor de Hugo Ch\u00e1vez\u201d (um jogo de palavras, j\u00e1 que Maduro tamb\u00e9m significa maduro) &#8211; diz que o atual presidente pode ter sido formado em pol\u00edtica revolucion\u00e1ria na ilha durante a sua juventude.<\/p>\n<p>Nem ele nem as biografias oficiais mencionam essa alegada experi\u00eancia. Mas Maduro construiu, primeiro com o governo de Fidel e Ra\u00fal Castro, e depois com Miguel D\u00edaz-Canel, um v\u00ednculo que est\u00e1 entre os mais importantes para a Venezuela de hoje. E que, segundo antigos respons\u00e1veis da primeira administra\u00e7\u00e3o de Trump, foi decisivo para o presidente antecipar e conter, atrav\u00e9s dos servi\u00e7os de seguran\u00e7a cubanos, a revolta da oposi\u00e7\u00e3o de abril de 2019, entre outras coisas.<\/p>\n<p>Maduro aprofundou os seus la\u00e7os com os Castro quando se tornou ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Ch\u00e1vez, em 2006, e se tornou um \u201cjogador-chave\u201d em 2011, quando o ent\u00e3o presidente adoeceu e viajou para Cuba para tratamento. A partir da\u00ed, ele foi o elo fundamental na gest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica entre os Castro e o chavismo.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o ajudou Maduro a refor\u00e7ar a sua posi\u00e7\u00e3o para ser o sucessor de Ch\u00e1vez, que tinha o carisma e a influ\u00eancia que nenhum dos seus potenciais herdeiros possu\u00eda. E tamb\u00e9m para alimentar uma narrativa aperfei\u00e7oada primeiro por Fidel Castro e depois pelo pr\u00f3prio Ch\u00e1vez &#8211; ambos l\u00edderes da esquerda latino-americana. Era uma narrativa anti-imperialista e anti-americana, amplificada por alian\u00e7as geopol\u00edticas com rivais hist\u00f3ricos dos EUA.<\/p>\n<p>O in\u00edcio de um ciclo recorrente <\/p>\n<p>Maduro apoiou-se nessa epopeia desde o in\u00edcio do seu primeiro governo. O \u201cfilho de Ch\u00e1vez\u201d recebeu a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o todos os seus votos. Nas elei\u00e7\u00f5es de abril de 2013 para escolher o sucessor do falecido presidente, o candidato chavista derrotou o l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o Henrique Capriles por apenas 1,59% dos votos. Seis meses antes, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de outubro de 2012, Ch\u00e1vez tinha vencido Capriles por uma margem de 9,5%.<\/p>\n<p>Suspeitando h\u00e1 anos da transpar\u00eancia eleitoral do governo, Capriles e a oposi\u00e7\u00e3o recusaram-se a aceitar os resultados. At\u00e9 o pr\u00f3prio chavismo, atrav\u00e9s de Cabello, mostrou a Maduro a sua insatisfa\u00e7\u00e3o com o resultado e apelou \u00e0 autocr\u00edtica.<\/p>\n<p>Maduro respondeu que se tratava de uma vit\u00f3ria \u201clegal, justa e constitucional\u201d e celebrou a continua\u00e7\u00e3o do chavismo no poder.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed come\u00e7ou o padr\u00e3o que melhor define o autoproclamado defensor da \u201cdemocracia popular e revolucion\u00e1ria\u201d at\u00e9 hoje: elei\u00e7\u00f5es contestadas, oposi\u00e7\u00e3o nas ruas, alega\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 dissid\u00eancia e distribui\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios dentro do chavismo para evitar desafios internos e manter o poder. Fora da Venezuela, o \u201cmodelo Maduro\u201d contou com o apoio e o saber-fazer\u00a0dos tradicionais advers\u00e1rios dos EUA: China, R\u00fassia e Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir de 2013, todas as elei\u00e7\u00f5es nacionais foram envoltas em d\u00favidas e controv\u00e9rsias entre a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana, as organiza\u00e7\u00f5es internacionais e at\u00e9 os governos aliados: as elei\u00e7\u00f5es constitucionais de 2017, as elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2020 e as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018 e 2024. As elei\u00e7\u00f5es parlamentares de 2015 foram, de facto, ganhas pela oposi\u00e7\u00e3o, mas o chavismo usou manobras pol\u00edticas para neutralizar essa vit\u00f3ria. As elei\u00e7\u00f5es foram repetidamente seguidas de contesta\u00e7\u00f5es e marchas da oposi\u00e7\u00e3o e, tal como documentado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas nos seus relat\u00f3rios, de repress\u00e3o e morte.<\/p>\n<p>Maduro defendeu estes processos como \u201ctransparentes\u201d e o seu sistema eleitoral como \u201cfi\u00e1vel\u201d. Resistiu, cerrou o punho e superou os desafios, mesmo quando muitos pensavam que n\u00e3o o conseguiria. Isso aconteceu, mais do que nunca, em 2024, quando nem mesmo a Col\u00f4mbia e o Brasil, governados pelos presidentes de esquerda Gustavo Petro e Lula da Silva, reconheceram os resultados das elei\u00e7\u00f5es em que Maduro supostamente derrotou a oposi\u00e7\u00e3o de Edmundo Gonz\u00e1lez Urrutia e Mar\u00eda Corina Machado e conseguiu a sua segunda reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO caso de Maduro \u00e9 um caso incomum de sobreviv\u00eancia de regime numa regi\u00e3o onde, diante de desafios semelhantes, outros regimes ca\u00edram\u201d, sublinha o acad\u00e9mico e professor do Amherst College Javier Corrales no seu livro \u201cThe Rise of Autocracy: How Venezuela Transitioned to Authoritarianism\u201d [\u201cA Ascens\u00e3o da Autocracia: Como a Venezuela Transitou para o Autoritarismo\u201d, na tradu\u00e7\u00e3o livre].<\/p>\n<p>O alto custo para os venezuelanos <\/p>\n<p>Para os venezuelanos, o pre\u00e7o do m\u00e9todo de sobreviv\u00eancia de Maduro foi e \u00e9, no entanto, alto e mede-se em vidas, ex\u00edlio e pobreza. Desde 2017, v\u00e1rias ag\u00eancias da ONU e o Tribunal Penal Internacional (TPI) t\u00eam-se dedicado a contabilizar esse custo, \u00e0s vezes at\u00e9 com a colabora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio governo venezuelano, na tentativa de afastar o espetro de um mandado de pris\u00e3o internacional para Maduro por crimes contra a humanidade.<\/p>\n<p>Ano ap\u00f3s ano, os relat\u00f3rios descrevem um aumento das viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, \u201ccoordenadas de acordo com as pol\u00edticas do Estado e parte de uma conduta generalizada e sistem\u00e1tica, constituindo assim crimes contra a humanidade\u201d, como se refere num relat\u00f3rio da miss\u00e3o da ONU de 2020: \u201cA miss\u00e3o encontrou motivos razo\u00e1veis para acreditar que as autoridades e as for\u00e7as de seguran\u00e7a planearam e executaram viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos em grande escala desde 2014.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAs provas obtidas pela miss\u00e3o durante este ciclo de investiga\u00e7\u00e3o confirmam que o crime de persegui\u00e7\u00e3o com base em motivos pol\u00edticos continua a ser cometido na Venezuela, sem que nenhuma autoridade nacional mostre vontade de prevenir, processar ou punir as graves viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos que constituem este crime internacional\u201d, concluiu Marta Vali\u00f1as, relatora do relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>For\u00e7a excessiva, deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias de manifestantes e l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia sexual, tortura, execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais &#8211; todos est\u00e3o presentes, de acordo com os relat\u00f3rios da ONU, no manual de Maduro para gerir a dissid\u00eancia.<\/p>\n<p>Em resposta a cada acusa\u00e7\u00e3o ou investiga\u00e7\u00e3o internacional, Maduro e o seu governo recorrem, como t\u00eam feito desde o in\u00edcio, \u00e0 conhecida narrativa anti-imperialista. \u201c\u00c9 muito preocupante que a alta comiss\u00e1ria ceda \u00e0s press\u00f5es de atores anti-venezuelanos e fa\u00e7a declara\u00e7\u00f5es tendenciosas e inver\u00eddicas, apresentando especula\u00e7\u00f5es ideologizadas como fatos\u201d, respondeu o governo de Maduro em 2021 a Michelle Bachelet, ent\u00e3o Alta Comiss\u00e1ria da ONU para os Direitos Humanos.<\/p>\n<p>Bachelet foi a primeira presidente socialista do Chile desde o retorno da democracia ao pa\u00eds. O confronto de Maduro com Bachelet, ent\u00e3o diplomata da ONU, foi um sinal de que o governo venezuelano tamb\u00e9m come\u00e7ava a perder o apoio da esquerda latino-americana.<\/p>\n<p>M\u00e1 gest\u00e3o, economia de guerra, \u00eaxodo e san\u00e7\u00f5es <\/p>\n<p>A narrativa da cruzada anti-EUA foi tamb\u00e9m utilizada por Maduro e pelo seu governo para justificar os p\u00e9ssimos n\u00fameros econ\u00f3micos da Venezuela.<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros, t\u00edpicos de economias de guerra de outros pa\u00edses, exp\u00f5em de forma gritante a fraca gest\u00e3o de um Maduro que conseguiu fazer com que a Venezuela come\u00e7asse a crescer apenas em 2021, oito anos depois de assumir o poder. Atualmente, a economia venezuelana \u00e9 28% do que era em 2013, de acordo com o FMI.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/6935cda5d34e3caad84c1ff1.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Um homem segura um saco de compras em frente a uma loja que exibe cartazes com pre\u00e7os em d\u00f3lares no mercado municipal Quinta Crespo, em Caracas, a 13 de novembro (FEDERICO PARRA\/AFP\/AFP via Getty Images) <\/p>\n<p>Por detr\u00e1s deste colapso est\u00e1 o decl\u00ednio da principal fonte de rendimento da Venezuela nos \u00faltimos 50 anos: o petr\u00f3leo. Atingida por lutas pelo poder, disputas chavistas e falta de investimento, a PDVSA, empresa que controla a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, entrou em colapso. A queda generalizada dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo desde 2014 tamb\u00e9m n\u00e3o ajudou. Atualmente, as receitas da exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo s\u00e3o apenas 20% do que eram em 2013, de acordo com dados da OPEP+.<\/p>\n<p>Maduro e o seu governo culparam e continuam a culpar as san\u00e7\u00f5es dos EUA pelo colapso econ\u00f3mico. Mas foi apenas em 2019 que a administra\u00e7\u00e3o Trump imp\u00f4s san\u00e7\u00f5es \u00e0 PDVSA; at\u00e9 ent\u00e3o, as medidas tinham como objetivo punir Maduro e os seus funcion\u00e1rios individualmente.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que acontece noutros pa\u00edses, a m\u00e1 gest\u00e3o econ\u00f3mica n\u00e3o alterou o controlo de Maduro sobre a Venezuela. Mas alterou a composi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Esmagados pela repress\u00e3o e pela pobreza, que no seu pior momento afetou 90% da popula\u00e7\u00e3o, milh\u00f5es de venezuelanos optaram por partir para destinos onde o futuro parecia poss\u00edvel. O \u00eaxodo da Venezuela, juntamente com o da S\u00edria, est\u00e1 entre as maiores crises de desloca\u00e7\u00e3o a n\u00edvel mundial: quase oito milh\u00f5es de venezuelanos vivem agora noutros pa\u00edses.<\/p>\n<p>A chave para o &#8216;modelo Maduro&#8217; de sobreviv\u00eancia <\/p>\n<p>A Venezuela de Maduro \u00e9 uma sucess\u00e3o de crises que for\u00e7aram os venezuelanos ao ex\u00edlio, mas, ao mesmo tempo, fortaleceram o presidente, que culpa as san\u00e7\u00f5es pelo \u00eaxodo. \u201cMaduro \u00e9 mais h\u00e1bil do que a maioria das pessoas pensa; ele sempre soube tirar proveito das circunst\u00e2ncias e reverter as crises\u201d, diz Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p>Para isso, Maduro come\u00e7ou a construir, logo no in\u00edcio do seu governo, uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em que ele se tornou o garante. Essencial neste mapa foram, desde o in\u00edcio, as For\u00e7as Armadas, um sector com o qual Maduro tinha pouca rela\u00e7\u00e3o antes de ser indicado por Ch\u00e1vez.<\/p>\n<p>&#8220;Uma vez algu\u00e9m me explicou isto: com Ch\u00e1vez, os militares achavam que tinham de lhe agradecer a proemin\u00eancia que tinham. Com Maduro, \u00e9 o contr\u00e1rio. Ele tem de agradecer aos militares e fazer-lhes concess\u00f5es como cargos ou sectores econ\u00f3micos inteiros, para que eles o tolerem. Ele transformou a Venezuela numa confedera\u00e7\u00e3o em que ele \u00e9 o gestor&#8221;, considera o acad\u00e9mico do Amherst College, Javier Corrales.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foram fundamentais nesse esquema de partilha de poder, que Corrales compara ao que os Castro impuseram em Cuba, os l\u00edderes chavistas mais antigos, como Cabello ou o agora desonrado Rafael Ram\u00edrez, ex-presidente da PDVSA, entre outros cargos, ou Tareck el-Aissami, ex-vice-presidente do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas, como em qualquer regime de poder fechado, alguns sucumbiram, sob alega\u00e7\u00f5es de suposta corrup\u00e7\u00e3o, e foram para o ex\u00edlio ou acabaram na pris\u00e3o. Muitos outros continuaram e hoje fazem parte n\u00e3o s\u00f3 da balan\u00e7a do poder e da gest\u00e3o econ\u00f3mica, mas tamb\u00e9m das investiga\u00e7\u00f5es da justi\u00e7a internacional sobre alegados crimes contra a humanidade.<\/p>\n<p>Maduro distribuiu poder, dinheiro e responsabilidades e, ao faz\u00ea-lo, assegurou a sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Na \u201cconfedera\u00e7\u00e3o\u201d de atores que dominam a Venezuela de Maduro, desempenham tamb\u00e9m um papel central os grupos paramilitares que, segundo a ONU, participaram no ciclo de repress\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o durante a agita\u00e7\u00e3o social mais intensa dos \u00faltimos anos. Os \u201ccolectivos\u201d s\u00e3o tamb\u00e9m uma ferramenta fundamental para o equil\u00edbrio de poder de Maduro e para o seu futuro.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o um sector altamente armado. S\u00e3o os xerifes do regime. E t\u00eam muito a perder se o governo cair&#8221;, garante Corrales.<\/p>\n<p>A intensa rela\u00e7\u00e3o com os EUA <\/p>\n<p>Antigos funcion\u00e1rios de Trump e Biden partilham a avalia\u00e7\u00e3o de Corrales. H\u00e1 tantos atores legais e supostamente ilegais envolvidos no governo de Maduro, tantos interesses em jogo, que a sa\u00edda repentina do presidente poderia desencadear o caos e um drama ainda pior do que o que tem corro\u00eddo a Venezuela h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>Quase treze anos depois de Ch\u00e1vez o ter proclamado seu escolhido, Maduro enfrenta outra crise, que a segunda administra\u00e7\u00e3o de Trump espera que seja a \u00faltima.<\/p>\n<p>Com v\u00e1rias t\u00e1ticas, a pol\u00edtica americana de enfraquecimento de Maduro tem sido, nos \u00faltimos anos, t\u00e3o intensa como a ret\u00f3rica anti-americana do presidente venezuelano.<\/p>\n<p>Passou por v\u00e1rias administra\u00e7\u00f5es e incluiu san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, mandados de deten\u00e7\u00e3o exorbitantes, deten\u00e7\u00e3o de familiares por alegadas liga\u00e7\u00f5es ao narcotr\u00e1fico, deten\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o do alegado \u201chomem da frente\u201d, concess\u00e3o e cancelamento de licen\u00e7as petrol\u00edferas, di\u00e1logo direto e conversa\u00e7\u00f5es secretas e at\u00e9 um plano para permitir elei\u00e7\u00f5es livres, justas e transparentes que levou, em 2024, a elei\u00e7\u00f5es em que a oposi\u00e7\u00e3o liderada por Machado surpreendeu o mundo. Nada funcionou, nem as amea\u00e7as, nem o di\u00e1logo com um Maduro que tamb\u00e9m se revelou um especialista em empatar e atrasar negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O l\u00edder venezuelano enfrenta agora o maior bloqueio naval e a\u00e9reo dos EUA nas Cara\u00edbas em d\u00e9cadas. A press\u00e3o militar dos EUA e de Trump est\u00e1 a aumentar e Maduro est\u00e1 mais uma vez a tentar desafiar as probabilidades. 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