{"id":179934,"date":"2025-12-08T12:18:15","date_gmt":"2025-12-08T12:18:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/179934\/"},"modified":"2025-12-08T12:18:15","modified_gmt":"2025-12-08T12:18:15","slug":"memoria-frank-gehry-gigante-da-arquitetura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/179934\/","title":{"rendered":"MEM\u00d3RIA. Frank Gehry, gigante da arquitetura"},"content":{"rendered":"<p>Frank O. Gehry, um dos talentos mais formid\u00e1veis e originais na hist\u00f3ria da arquitetura dos Estados Unidos, morreu na sexta-feira em sua casa em Santa Monica, na Calif\u00f3rnia. Ele tinha 96 anos.<\/p>\n<p>Meaghan Lloyd, sua assessora direta, confirmou a morte, consequ\u00eancia de uma breve doen\u00e7a respirat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O sucesso mais reconhecido de Gehry, e o edif\u00edcio pelo qual ele mais ser\u00e1 lembrado, \u00e9 o Museu Guggenheim em Bilbao. Situado em uma cidade industrial que estava em decad\u00eancia na costa norte da Espanha, este museu \u2013 revestido de tit\u00e2nio e de exuber\u00e2ncia selvagem \u2013 foi uma sensa\u00e7\u00e3o internacional quando abriu em 1997, ajudando a revigorar a cidade e tornando Gehry o arquiteto americano mais reconhec\u00edvel desde Frank Lloyd Wright. Sua apar\u00eancia alegre \u2013 a composi\u00e7\u00e3o de formas prateadas e cintilantes que pareciam irromper do solo \u2013 sinalizava a chegada de uma arquitetura nova, carregada de emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gehry, um dos primeiros arquitetos a compreender o potencial libertador do design feito por computador, passou a criar uma s\u00e9rie de outros edif\u00edcios celebrados, muitos deles considerados obras-primas cuja bravura escultural e poder visceral igualam ou at\u00e9 superam a arquitetura barroca do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>Entre eles, o <strong>Walt Disney Concert Hall<\/strong> em Los Angeles, com seu interior semelhante a um casulo, conclu\u00eddo em 2003; o New World Center (2011), uma sala de concertos em Miami recheada de espa\u00e7os de ensaio cil\u00edndricos; e a Fondation Louis Vuitton (2014), um museu em Paris et\u00e9reo a ponto de parecer feito de vidro soprado.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-91991 size-large\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/GettyImages-1225194811-1024x683.jpg\" alt=\"GettyImages 1225194811\" width=\"1024\" height=\"683\" title=\"MEM\u00d3RIA. Frank Gehry, gigante da arquitetura 1\"  \/><\/p>\n<p>Walt Disney Concert Hall<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas Gehry, que ganhou o prestigioso Pr\u00eamio Pritzker de Arquitetura em 1989, j\u00e1 havia feito seu nome muito antes disso. Ele apareceu no cen\u00e1rio do mundo arquitet\u00f4nico em 1978 com a conclus\u00e3o de uma casa em Santa Monica, na Calif\u00f3rnia, que ele projetou e onde viveu por quatro d\u00e9cadas \u2014 um bangal\u00f4 barato com estrutura de madeira, no estilo Cape Cod, que ele desmembrou e envelopou em uma nova camada de compensado, metal corrugado e tela de arame.<\/p>\n<p>A colis\u00e3o de formas, rude e at\u00e9 violenta, parecia capturar as rupturas pol\u00edticas e geracionais que vinham tensionando a sociedade americana, e a fam\u00edlia americana em particular, desde a d\u00e9cada de 1960, o que consolidou Gehry como uma for\u00e7a na arquitetura.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, ele produziu v\u00e1rias outras casas cujas composi\u00e7\u00f5es brutas evocavam estruturas em fase de constru\u00e7\u00e3o. Philip Johnson, decano da arquitetura, tentou descrever a sensa\u00e7\u00e3o de estar dentro de uma dessas casas: \u201cN\u00e3o \u00e9 beleza ou fei\u00fara,\u201d ele disse \u00e0 The New York Times Magazine em 1982, \u201cmas um tipo perturbador de satisfa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea n\u00e3o encontra nos espa\u00e7os de mais ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu estava me rebelando contra tudo,\u201d Gehry disse em uma entrevista ao The Times em 2012, explicando sua antipatia pelos movimentos arquitet\u00f4nicos dominantes da \u00e9poca, como exemplificado pela Farnsworth House em Illinois, um pavilh\u00e3o modernista austero, plano, de a\u00e7o e vidro, projetado por Mies van der Rohe.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o conseguiria viver em uma casa assim,\u201d ele disse. \u201cEu teria que chegar em casa, limpar minhas roupas, pendur\u00e1-las de forma correta. Eu achava esnobe e decadente. Simplesmente n\u00e3o parecia se encaixar na vida.\u201d<\/p>\n<p>Gehry mais tarde expandiu seu repert\u00f3rio com designs cada vez mais esculturais, incluindo as formas contorcidas de estuque branco do Vitra Design Museum (1989), em Weil am Rhein, Alemanha, e duas torres cil\u00edndricas unidas em um selvagem abra\u00e7o de ballet em Praga \u2014 um edif\u00edcio de 1996 chamado Casa Dan\u00e7ante, ou Ginger e Fred, em homenagem \u00e0 dupla de dan\u00e7arinos Ginger Rogers e Fred Astaire.<\/p>\n<p>Para alguns, seu trabalho era mais ligado \u00e0 escultura do que \u00e0 arquitetura. Outros o viam como emblema de uma cultura global que reduzia a arquitetura a uma forma de branding. Gehry, cujo nome era reconhecido em todo o mundo, foi por vezes ridicularizado como um \u201cstar-quiteto\u201d.<\/p>\n<p>Mas a ferocidade emocional de sua obra podia empoderar, como se a arquitetura tivesse redescoberto uma parte de si que havia sido perdida ap\u00f3s d\u00e9cadas de funcionalismo mon\u00f3tono e clich\u00eas p\u00f3s-modernistas. E o foco generalizado nos exteriores deslumbrantes de seus edif\u00edcios podia desviar a aten\u00e7\u00e3o dos objetivos mais profundos de Gehry: criar uma arquitetura que n\u00e3o fosse apenas emocionante, mas de esp\u00edrito democr\u00e1tico e evocativa do caos da vida humana.<\/p>\n<p>Frank Owen Goldberg nasceu em 28 de fevereiro de 1929, em um bairro de classe trabalhadora de Toronto, filho de Irving e Sadie (Caplan) Goldberg. Seu pai teve uma s\u00e9rie de empregos, incluindo gerente de uma mercearia e vendedor de m\u00e1quinas de pinball e ca\u00e7a-n\u00edqueis. Frank e sua irm\u00e3, Doreen, viviam com os pais em uma casa para duas fam\u00edlias revestida de tijolos e telhas de papel piche (um material que ele usaria em alguns de seus designs).<\/p>\n<p>Quando menino, ele trabalhava meio per\u00edodo na loja de ferragens de seu av\u00f4 materno, reabastecendo as prateleiras com ferramentas, parafusos e porcas, uma experi\u00eancia que, segundo ele, gerou seu amor por materiais do cotidiano.<\/p>\n<p>Uma vez por semana, sua av\u00f3 materna voltava do mercado com uma carpa viva, outra experi\u00eancia formativa que que mais tarde inspiraria a imagem do peixe em sua obra. \u201cN\u00f3s a coloc\u00e1vamos na banheira,\u201d Gehry relembrou, \u201ce eu brincava com aquele peixe por um dia at\u00e9 que ela o matasse e fizesse peixe recheado.\u201d<\/p>\n<p><b>Mudan\u00e7a para os Estados Unidos<\/b><\/p>\n<p>O mundo de Frank desmoronou abruptamente em meados da d\u00e9cada de 1940, quando seu pai, um bebedor inveterado, sofreu um ataque card\u00edaco enquanto os dois discutiam no gramado da frente de casa, uma mem\u00f3ria que Gehry dizia assombr\u00e1-lo por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Seu pai nunca se recuperou totalmente. Depois que um m\u00e9dico alertou que ele n\u00e3o sobreviveria a outro inverno em Toronto, a fam\u00edlia mudou-se para Los Angeles, alugando um apartamento apertado de US$ 50 por m\u00eas em um bairro deteriorado no oeste da cidade. Gehry dizia que eles mantinham sua dignidade pela cultura. Em algumas noites, eles ouviam m\u00fasica cl\u00e1ssica no r\u00e1dio; em outras, sua irm\u00e3 praticava violino.<\/p>\n<p>Como arquiteto, Gehry foi um talento tardio. Ap\u00f3s um breve per\u00edodo no Ex\u00e9rcito, casou-se com Anita Snyder, que o ajudou a pagar seus estudos na Universidade do Sul da Calif\u00f3rnia, onde inicialmente cursou Cer\u00e2mica. Mudou para Arquitetura depois que um professor o apresentou a Raphael Soriano, um pilar do Modernismo do p\u00f3s-guerra no sul da Calif\u00f3rnia. (Foi tamb\u00e9m nesta \u00e9poca que ele adotou Gehry como sobrenome, uma escolha um tanto aleat\u00f3ria, inspirada, segundo ele, pelo desejo de evitar o antissemitismo.)<\/p>\n<p>Gehry passou v\u00e1rios anos trabalhando como designer de n\u00edvel m\u00e9dio e gerente de projetos na Gruen Associates, uma firma conhecida por seus shopping centers. Depois que ele abriu seu pr\u00f3prio escrit\u00f3rio em 1962, grande parte de seu trabalho inicial foi para incorporadoras convencionais. Ele projetou uma enorme sede para a Rouse Company em Columbia, Maryland, e duas lojas de departamento sem destaque para Joseph Magnin na Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Mas ele era um outsider por natureza, e come\u00e7ou a procurar inspira\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do trabalho de outros arquitetos. Como muitos moradores de Los Angeles, ele se sentia atra\u00eddo pela atmosfera descontra\u00edda e de \u201cvale-tudo\u201d da cidade, cuja mistura de mans\u00f5es berrantes, bangal\u00f4s fr\u00e1geis, terrenos baldios, cafeterias com estilo Googie moderno e outdoors coloridos era a ant\u00edtese do academicismo arquitet\u00f4nico da Costa Leste.<\/p>\n<p>E ele se tornou pr\u00f3ximo de uma gera\u00e7\u00e3o de artistas de Los Angeles \u2014 Robert Irwin, Billy Al Bengston, Ed Moses, Larry Bell \u2014 cuja est\u00e9tica inspirada em pranchas de surfe e espa\u00e7os de trabalho brutos sugeriam uma alternativa \u00e0 austeridade fria do Modernismo tardio e \u00e0s tend\u00eancias reacion\u00e1rias do p\u00f3s-modernismo.<\/p>\n<p>\u201cOs artistas viviam em pr\u00e9dios industriais e armaz\u00e9ns,\u201d disse Gehry na entrevista de 2012 ao Times. \u201cEles estavam constantemente trocando as coisas de lugar \u2014 mudando os c\u00f4modos, construindo lofts ou espa\u00e7os de armazenamento. Aquilo era livre e despretensioso. Era o que eu queria fazer.\u201d<\/p>\n<p>Dois edif\u00edcios que ele projetou naquela \u00e9poca eram exemplos de trabalho que fugia \u201cde todas as regras para a \u2018vida civilizada\u2019,\u201d como escreveu o historiador de arquitetura Reyner Banham. Um, em 1965, era o Danziger Studio, um espa\u00e7o de trabalho e moradia para um designer gr\u00e1fico que est\u00e1 entre os melhores trabalhos iniciais de Gehry, com uma fachada de estuque vazia que desaparece em um trecho da Melrose Avenue cercado por bares s\u00f3rdidos e outdoors enormes. O outro era o est\u00fadio de estrutura de madeira, rude e trapezoidal, que ele projetou no in\u00edcio dos anos 1970 para o artista Ron Davis. Ele incorporava o tipo de perspectivas distorcidas com as quais Davis estava experimentando em suas pinturas.<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1960, Gehry e sua esposa se divorciaram e, em 1975, ele se casou com Berta Aguilera. Al\u00e9m dela, ele deixa dois filhos, Sam, designer de arquitetura, e o artista Alejandro, al\u00e9m de uma filha de seu casamento anterior, Brina Gehry, e sua irm\u00e3 Doreen Gehry Nelson. Outra filha de seu primeiro casamento, Leslie Gehry Brenner, morreu em 2008.<\/p>\n<p>Os Gehry compraram sua casa em Santa Monica, uma constru\u00e7\u00e3o de estuque rosa de dois andares, em 1977. \u201cUma casinha simples e charmosa,\u201d Gehry a descreveu certa vez. Por insist\u00eancia de Berta, ele come\u00e7ou a desconstru\u00ed-la.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia r\u00fastica e inacabada da casa atraiu a aten\u00e7\u00e3o dos cr\u00edticos de arquitetura ao mesmo tempo em que irritou os vizinhos. Mas sua forma atormentada \u2014 sugerindo um mundo que havia sido rasgado e suavemente remendado \u2014 tinham seu tipo de beleza pr\u00f3pria. O uso de materiais crus e do cotidiano eram a afirma\u00e7\u00e3o de Gehry de que a est\u00e9tica da classe trabalhadora com a qual ele cresceu poderia ser t\u00e3o atraente quanto qualquer coisa encontrada nos cantos mais refinados da cidade.<\/p>\n<p><b>Criatividade R\u00fastica e Imediata<\/b><\/p>\n<p>\u201cEu estava tentando usar os materiais simples e comuns do bairro,\u201d Gehry disse anos depois. \u201cDevia haver meia d\u00fazia de carros em v\u00e1rios estados de desmonte espalhados pelos gramados; havia tela de arame nos quintais das pessoas. Eles achavam aquilo normal.\u201d<\/p>\n<p>A casa de Gehry parecia oferecer um novo caminho para a arquitetura: nem fria e funcional, nem uma par\u00f3dia de estilos hist\u00f3ricos anteriores, estava imbu\u00edda de um populismo r\u00fastico e imediato que se assemelhava mais ao que Robert Rauschenberg e Jasper Johns estavam fazendo na sua arte. Para os arquitetos que atingiram a maioridade sob a sombra da Guerra Fria e do Vietn\u00e3, era uma evoca\u00e7\u00e3o t\u00e3o poderosa do esp\u00edrito democr\u00e1tico quanto as casas de Frank Lloyd Wright haviam sido para uma gera\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>O que se seguiu foi uma ampla gama de projetos que, na opini\u00e3o de muitos cr\u00edticos, est\u00e3o entre as cria\u00e7\u00f5es mais revolucion\u00e1rias da arquitetura americana. Na Spiller House de 1980, no bairro de Venice Beach, em Los Angeles, Gehry encerrou um interior de compensado forrado com vigas expostas em uma simples concha de metal corrugado. Nos locais onde as formas de madeira irrompiam pelas paredes externas \u2014 para criar, por exemplo, uma sacada enviesada \u2014 a casa parecia o equivalente arquitet\u00f4nico de um casal discutindo na cozinha.<\/p>\n<p>Outros projetos mostraram Gehry come\u00e7ando a desmembrar a casa convencional em pe\u00e7as individuais. Na Sirmai-Peterson House de 1988, em Thousand Oaks, Calif\u00f3rnia, um quarto foi separado por uma ponte da \u00e1rea de estar em formato cruzado. As estruturas foram revestidas em um metal cinza suave, agregando uma tranquilidade que fugia da apar\u00eancia ruidosa de sua pr\u00f3pria resid\u00eancia.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de Gehry havia se ampliado e inclu\u00eda m\u00f3veis esculturais \u2014 entre eles, a cadeira lateral e o banco Wiggle, esculpidos em pe\u00e7as com camadas de papel\u00e3o ondulado, produzidos pela empresa su\u00ed\u00e7a Vitra, e suas Lumin\u00e1rias Peixe para a Formica Corporation, inspiradas nas mem\u00f3rias da carpa na banheira de sua av\u00f3.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m havia come\u00e7ado a trabalhar em projetos p\u00fablicos maiores. Em 1983, seu design discreto para o Temporary Contemporary (agora o Geffen Contemporary) no Museu de Arte Contempor\u00e2nea de Los Angeles, que combinava dois armaz\u00e9ns existentes em um vasto sal\u00e3o, permanece um modelo para um espa\u00e7o de arte informal. Gehry deixou os interiores r\u00fasticos e os telhados com dentes de serra intocados e, ao fazer isso, parecia tirar a arte de seu pedestal para coloc\u00e1-la no mundo real.<\/p>\n<p>Em outro projeto, o campus da Loyola Law School (1984) perto do centro de Los Angeles, Gehry flertou com estrat\u00e9gias de design p\u00f3s-moderno. Ele planejou o campus como se fosse uma pequena vila, organizando uma cole\u00e7\u00e3o ecl\u00e9tica de estruturas \u2014 um edif\u00edcio de salas de aula, uma capela, um sal\u00e3o de palestras \u2014 ao redor de um p\u00e1tio. As formas variadas, Gehry explicou depois, buscavam refletir a mistura do bairro de edif\u00edcios comerciais e pr\u00e9dios de apartamentos batidos.<\/p>\n<p>Para alguns, o estilo mais \u00e1spero do trabalho de Gehry pode trazer um aspecto beligerante. Em seu livro de 1990, \u201cCity of Quartz\u201d, o cr\u00edtico Mike Davis se referiu aos edif\u00edcios que Gehry produziu durante este per\u00edodo como \u201carquitetura Dirty Harry\u201d, reclamando que eles n\u00e3o conseguiam se engajar com as comunidades ao seu redor. Mas esses designs tamb\u00e9m podiam ser lidos como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s no\u00e7\u00f5es de pureza ut\u00f3pica que dominaram o pensamento arquitet\u00f4nico durante a maior parte do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Gehry considerava a busca pela pureza como uma forma de elitismo \u2014 que, na sua pior face, era impulsionada por um desejo de purificar o mundo, deixando-o livre do \u201coutro\u201d. Seu objetivo, ele dizia frequentemente, era criar uma arquitetura que abrisse espa\u00e7o para os desajustados da sociedade.<\/p>\n<p>Com o advento de novas tecnologias de computador, o trabalho de Gehry se tornou cada vez mais escultural. Para os Jogos Ol\u00edmpicos de Ver\u00e3o de 1992 em Barcelona, ele projetou uma escultura monumental de peixe usando um software desenvolvido para a ind\u00fastria aeroespacial francesa. Foi uma das v\u00e1rias esculturas maci\u00e7as que ele criou, incluindo o \u201cStanding Glass Fish\u201d de 1986 no Museu de Arte Weisman em Minneapolis (onde depois, em 1993, ele projetaria um edif\u00edcio revestido em placas de a\u00e7o facetadas que pareciam papel alum\u00ednio), e o \u201cFish Dance\u201d, de 1987, em Kobe, no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-91986 size-large\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/GettyImages-1296846252-1024x683.jpg\" alt=\"GettyImages 1296846252\" width=\"1024\" height=\"683\" title=\"MEM\u00d3RIA. Frank Gehry, gigante da arquitetura 2\"  \/><\/p>\n<p>Museu Guggenheim<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><b>O Efeito Bilbao<\/b><\/p>\n<p>Em 1991, Thomas Krens, ent\u00e3o diretor da Funda\u00e7\u00e3o Solomon R. Guggenheim, fechou um acordo com o governo espanhol para abrir uma filial do <strong>Museu Guggenheim<\/strong> de Nova York em Bilbao. Ele abordou Gehry para projet\u00e1-lo, e os dois escolheram um local ao longo do que era ent\u00e3o um cais decr\u00e9pito ao lado de uma ponte de a\u00e7o enferrujada.<\/p>\n<p>Conclu\u00eddo seis anos depois, o \u201cBilbao\u201d, como a maioria das pessoas chamava, foi uma erup\u00e7\u00e3o de metal e luz emoldurada por cenas de ru\u00edna industrial. Uma grande escadaria sa\u00eda em cascata de uma pra\u00e7a ao n\u00edvel da rua para um \u00e1trio que dava para um cal\u00e7ad\u00e3o \u00e0 beira-mar. As galerias se ramificavam do \u00e1trio em todas as dire\u00e7\u00f5es, evocando uma vers\u00e3o indisciplinada do interior em espiral do Guggenheim de Frank Lloyd Wright em Nova York. O maior destes \u2014 um espa\u00e7o cavernoso cujo teto era sustentado por treli\u00e7as em arco \u2014 sugeria a barriga de uma baleia.<\/p>\n<p>A grande escadaria ao contr\u00e1rio era outra forma de tirar a arte de seu pedestal, atraindo os visitantes \u2014 incluindo a popula\u00e7\u00e3o majoritariamente de classe trabalhadora da cidade \u2014 para dentro do edif\u00edcio, em vez de desafi\u00e1-los a escalar \u00e0s suas alturas. As formas esculturais que se agrupavam em torno do \u00e1trio sugerem um clamor de vozes concorrentes que divergiam das galerias bem organizadas da maioria dos museus, enquanto as curvas voluptuosas do edif\u00edcio representavam um novo tipo de impulso expressivo.<\/p>\n<p>Philip Johnson afirmou que chorou quando viu o pr\u00e9dio pela primeira vez. O cr\u00edtico de arquitetura do The Times, Herbert Muschamp, comparou-o a Marilyn Monroe com sua saia voando. Tanto a atriz quanto o edif\u00edcio, ele escreveu na The Times Magazine, representavam \u201cum estilo americano de liberdade\u201d que era \u201cdestemido, radiante e t\u00e3o fr\u00e1gil quanto um rec\u00e9m-nascido\u201d.<\/p>\n<p>O edif\u00edcio se tornou uma visita obrigat\u00f3ria para viajantes, atraindo 1,3 milh\u00e3o de visitantes em seu primeiro ano, e deu nova vida \u00e0 ideia de que a arquitetura atraente poderia ser tanto um chamariz popular quanto um motor econ\u00f4mico para cidades em dificuldade. Construtores e l\u00edderes pol\u00edticos de todo o mundo seguiram o exemplo, investindo em novos edif\u00edcios culturais chamativos em um esfor\u00e7o para reproduzir o que ficou conhecido como o \u201cEfeito Bilbao\u201d.<\/p>\n<p>Bilbao foi sucedido v\u00e1rios anos depois por outra conquista de alto padr\u00e3o, o Walt Disney Concert Hall. Ao lado do Dorothy Chandler Pavilion, em formato de caixa, do Los Angeles Music Center, constru\u00eddo em 1964, e do outro lado da rua de uma estrutura de estacionamento multin\u00edvel que aparentava cair aos peda\u00e7os, o exterior de a\u00e7o da sala evocava enormes velas ondulantes. As superf\u00edcies c\u00f4ncavas e convexas do interior, no entanto, lembravam as formas arquitet\u00f4nicas sensuais de artistas do s\u00e9culo XVII como Gian Lorenzo Bernini.<\/p>\n<p>Para Gehry, a conclus\u00e3o do edif\u00edcio era algo pessoal: um emblema da ascens\u00e3o cultural de Los Angeles, que ficava a poucos quil\u00f4metros do apartamento onde ele havia morado com sua fam\u00edlia na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Como seria previs\u00edvel, o sucesso trouxe uma nova onda de cr\u00edticas. A forma extravagante do Bilbao, disseram alguns cr\u00edticos, sobrepunha-se \u00e0 arte que ele deveria abrigar. Para outros, os edif\u00edcios de Gehry deste per\u00edodo \u2014 e os projetos menores de outros arquitetos que eles inspiraram \u2014 representavam esfor\u00e7os cada vez mais covardes para inflacionar os pre\u00e7os imobili\u00e1rios.<\/p>\n<p>Gehry certamente fazia parte dessa tend\u00eancia, mesmo que n\u00e3o a tenha causado intencionalmente. Ent\u00e3o uma celebridade mundial, ele assumiu encomendas de grandes or\u00e7amentos, muitas delas concebidas em escala massiva. Em 2003, o incorporador Bruce Ratner anunciou que havia contratado Gehry para projetar um projeto de 90 mil metros quadrados no Brooklyn, que inclu\u00eda pelo menos 15 edif\u00edcios e o que viria a ser a arena Barclays Center. O empreendimento, chamado Atlantic Yards e mais tarde rebatizado como Pacific Park, passou por v\u00e1rias itera\u00e7\u00f5es, principalmente para cortar custos, e Gehry acabou perdendo o trabalho para uma empresa menos experiente.<\/p>\n<p>Poucos anos depois, ele e Krens se uniram novamente para criar uma imensa unidade do Guggenheim em uma ilha in\u00f3spita e deserta fora da cidade de Abu Dhabi, nos Emirados \u00c1rabes Unidos. Dez vezes o tamanho do edif\u00edcio principal do Guggenheim em Nova York, a estrutura, que ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s anos de atrasos, \u00e9 organizada em torno de um \u00e1trio central com sobreposi\u00e7\u00f5es irregulares de galerias em forma de bloco misturadas com grandes espa\u00e7os c\u00f4nicos que se abrem para jardins externos.<\/p>\n<p>Muitos dos edif\u00edcios seguintes de Gehry continuaram a incorporar as qualidades que nortearam seu trabalho desde o in\u00edcio: uma disposi\u00e7\u00e3o para quebrar regras, um desejo de expandir o vocabul\u00e1rio formal da arquitetura e uma consci\u00eancia de seu contexto. Por exemplo, apesar da originalidade de sua camada de a\u00e7o amassada, a torre residencial de 76 andares que ele projetou na 8 Spruce Street em Lower Manhattan, conclu\u00edda em 2011, foi concebida como parte de um tr\u00edptico arquitet\u00f4nico que inclu\u00eda dois marcos pr\u00f3ximos, o Woolworth Building de 1913 e o Municipal Building de 1914.<\/p>\n<p>Outros projetos desse per\u00edodo parecem retomar seus experimentos mais antigos.<\/p>\n<p>Em 2010, Gehry apresentou um design para o memorial ao ex-presidente Dwight D. Eisenhower em Washington que enfureceu os tradicionalistas da arquitetura. Inspirado nas origens de Eisenhower como um garoto de fazenda em Abilene, Kansas, o design apresentava uma fileira de seis colunas simples revestidas de calc\u00e1rio e uma tape\u00e7aria tecida de metal com de 24 metros de altura, que lembrava o uso inicial de tela de arame por Gehry. Alguns membros da fam\u00edlia Eisenhower acharam o projeto indigno, e Gehry foi for\u00e7ado a revisar seu design.<\/p>\n<p>Ele substituiu uma imagem de terras agr\u00edcolas do Kansas por uma representa\u00e7\u00e3o abstrata do Pointe du Hoc na costa da Normandia, na Fran\u00e7a \u2014 uma refer\u00eancia aos desembarques aliados da Segunda Guerra Mundial, supervisionados pelo General Eisenhower \u2014 e adicionou uma est\u00e1tua de bronze dele comandando soldados. O projeto foi inaugurado em 17 de setembro de 2020.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, Gehry tinha 91 anos. Poucos anos antes, ele e Berta haviam se mudado da pequena casa que lhe trouxera a fama inicial para um im\u00f3vel mais luxuoso com vista para o C\u00e2nion de Santa M\u00f4nica. Projetada com seu filho Sam, a nova casa era uma composi\u00e7\u00e3o expansiva, \u00e0s vezes esquisita, de postes e vigas de madeira pesada angulares. No entanto, ela reteve algumas das qualidades r\u00fasticas e arrojadas da arquitetura anterior de Gehry, e suas formas contrastantes refletiam uma busca ao longo da vida por liberdade emocional e criativa.<\/p>\n<p>Ao longo de todo esse tempo, Gehry continuou trabalhando.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-91992 size-large\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/GettyImages-2227210386-1024x683.jpg\" alt=\"GettyImages 2227210386\" width=\"1024\" height=\"683\" title=\"MEM\u00d3RIA. Frank Gehry, gigante da arquitetura 3\"  \/><\/p>\n<p>Fondation Louis Vuitton<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em 2017, ele havia conclu\u00eddo o Pierre Boulez Hall em Berlim, projetado em colabora\u00e7\u00e3o com o maestro Daniel Barenboim: um espa\u00e7o compacto, em forma de caixa, com um piso afundado e uma varanda el\u00edptica flutuante, contido dentro de um austero edif\u00edcio neocl\u00e1ssico da d\u00e9cada de 1950. E em 2021, o edif\u00edcio da Funda\u00e7\u00e3o Luma em Arles, no sul da Fran\u00e7a, foi finalizado: uma torre retorcida de tijolos de a\u00e7o inoxid\u00e1vel, ele foi parcialmente inspirado pelo terreno rochoso da vizinha cordilheira Alpilles.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca de sua morte, Gehry estava concluindo v\u00e1rios novos projetos para o magnata do luxo Bernard Arnault, incluindo uma loja-\u00e2ncora para a Louis Vuitton em Beverly Hills e a convers\u00e3o de um edif\u00edcio abandonado da d\u00e9cada de 1960 em um espa\u00e7o de exposi\u00e7\u00f5es e sal\u00e3o de eventos na mesma rua da <strong>Fondation Louis Vuitton<\/strong> de Arnault, no Bois de Boulogne, em Paris. Tamb\u00e9m estava dando os retoques finais em uma sala de concertos de 1.000 lugares para a Colburn School of Music, perto de seu Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea entra na arquitetura para tornar o mundo um lugar melhor,\u201d Gehry disse em 2012. \u201cUm lugar melhor para viver, para trabalhar, ou o que for. Voc\u00ea n\u00e3o faz isso pelo seu ego.\u201d<\/p>\n<p>\u201cIsso acontece depois,\u201d acrescentou. \u201cPor causa da imprensa e de tudo mais. No come\u00e7o, \u00e9 algo bem inocente.\u201d<\/p>\n<p>Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times e est\u00e1 sendo republicado sob licen\u00e7a.<\/p>\n<p>                                                        <a href=\"https:\/\/braziljournal.com\/author\/nicolai-ouroussoff\/\" rel=\"author nofollow noopener\" title=\"Nicolai Ouroussoff\" class=\"author url fn\" target=\"_blank\">Nicolai Ouroussoff<\/a>                                                    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Frank O. 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