{"id":180571,"date":"2025-12-08T21:27:11","date_gmt":"2025-12-08T21:27:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/180571\/"},"modified":"2025-12-08T21:27:11","modified_gmt":"2025-12-08T21:27:11","slug":"filme-mostra-cotidiano-de-gaza-em-intimo-retrato-da-morte-08-12-2025-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/180571\/","title":{"rendered":"Filme mostra cotidiano de Gaza em \u00edntimo retrato da morte &#8211; 08\/12\/2025 &#8211; Mundo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/11\/folha-promove-pre-estreia-de-filme-sobre-jornalista-morta-em-bombardeio-em-gaza.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Guarde o Cora\u00e7\u00e3o na Palma da M\u00e3o e Caminhe&#8221;<\/a> tem um sil\u00eancio sepulcral. Um espa\u00e7o que, al\u00e9m de aus\u00eancia, \u00e9 press\u00e3o atmosf\u00e9rica. A diretora iraniana Sepideh Farsi acompanha, \u00e0 dist\u00e2ncia, a fotojornalista <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/palestina\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">palestina<\/a> Fatma Hassona ao longo de um ano da guerra na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/faixa-de-gaza\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Faixa de Gaza<\/a>, e o faz com uma delicadeza que nada suaviza. A guerra entre <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/israel\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Israel<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/hamas\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Hamas<\/a> \u00e9 a vivida por Fatma, e isso basta para o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/documentario\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">document\u00e1rio<\/a>.<\/p>\n<p>O filme recusa a pressa t\u00edpica dos notici\u00e1rios e seus cortes, quase sempre guiados pela urg\u00eancia da destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 no cotidiano, por outro lado, que a ru\u00edna se revela. Farsi constr\u00f3i cenas lentas, dilatadas, com Fatma sem dizer quase nada, com m\u00e3os inquietas, janelas que n\u00e3o protegem e ruas que soam uma suspens\u00e3o no tempo. \u00c9 especialmente nessa esp\u00e9cie de imin\u00eancia constante que a narrativa se fecha. \u00c9 um estado de guerra.<\/p>\n<p>A diretora resgata caracter\u00edsticas t\u00edpicas do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/cinema\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">cinema<\/a> iraniano ao entender que subjetividade \u00e9 m\u00e9todo. N\u00e3o h\u00e1 trilha melodram\u00e1tica nem narra\u00e7\u00e3o que organize o sofrimento contido no filme. O que, ao mesmo tempo, quebra e faz o ritmo existir \u00e9 o som dos drones, os estalos dos bombardeios, e, ao lado de Farsi, o eco das not\u00edcias. A c\u00e2mera, quase sempre fixa ou na m\u00e3o, observa Fatma com a mesma paci\u00eancia com que se acompanha algu\u00e9m tentando sobreviver sem perder a si mesma.<\/p>\n<p>Em meses de conversa, entrecortados por <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/05\/fotojornalista-palestina-morta-em-ataque-de-israel-e-homenageada-em-cannes.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">viagens de Farsi e deslocamentos for\u00e7ados de Fatma<\/a>, a transfigura\u00e7\u00e3o da fotojornalista \u00e9 vis\u00edvel. O rosto, antes vivo e sorridente, acumula ang\u00fastias. Os olhos ganham uma opacidade que passa longe do desinteresse. Soa como cansa\u00e7o inesgot\u00e1vel.<\/p>\n<p>O filme capta o momento em que o corpo come\u00e7a a dizer o que a boca n\u00e3o mais formula. Farsi filma esse desgaste com pudor, sem o transformar em espet\u00e1culo, mas sem nunca recuar diante dele. Os gestos de Fatma tensionam a cada conversa. Ora pela falta de acesso \u00e0 comida, ora pela morte de mais alguma amiga ou parente. \u00c9 a partir dessa evolu\u00e7\u00e3o que o filme parece registrar o instante em que o cotidiano deixa de ser &#8220;normal&#8221;, como repete Fatma, e passa a ser resist\u00eancia. N\u00e3o uma resist\u00eancia heroica, leviana, mas obstinada e pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O que impressiona e, ao mesmo tempo, perturba no document\u00e1rio \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 catarse. Farsi n\u00e3o oferece grandes revela\u00e7\u00f5es ou momentos de virada. Ao contr\u00e1rio, h\u00e1 um ac\u00famulo de pequenas perdas e, ao fim, a mais prevista delas.<\/p>\n<p>A certa altura, o espectador \u00e9 obrigado a confrontar a quase monotonia \u2014para quem v\u00ea e n\u00e3o viveu\u2014 com a realiza\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se trata mais da rotina de uma fot\u00f3grafa em Gaza, mas do processo \u00edntimo de algu\u00e9m que se afasta de quem era. N\u00e3o por op\u00e7\u00e3o. A ocupa\u00e7\u00e3o israelense n\u00e3o cessa os ataques em nenhum momento, lembra Fatma.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o, quando mostrada, n\u00e3o explode na tela. Elas s\u00e3o intrusas. Casas desmoronadas, fuma\u00e7a espessa, peda\u00e7os de concreto se tornam parte da paisagem e vizinhan\u00e7a de Fatma. Tudo com a mesma naturalidade das \u00e1rvores em um campo que ela havia fotografado meses antes.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma \u00e9tica na forma como o filme se recusa a espetacularizar a emo\u00e7\u00e3o. A diretora confia no olhar do espectador, convidado a perceber a eros\u00e3o que cai sobre Fatma. O vi\u00e7o cede lugar a uma esp\u00e9cie de vig\u00edlia permanente que, a quem assiste, mant\u00e9m a imin\u00eancia. Ela est\u00e1 sempre prestes a ouvir o pr\u00f3ximo ru\u00eddo. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/04\/jornalista-palestina-de-filme-selecionado-para-cannes-morre-em-ataque-de-israel.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">E esse sempre pode ser o \u00faltimo<\/a>.<\/p>\n<p>    Maratonar<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Um guia com dicas de filmes e s\u00e9ries para assistir no streaming<\/p>\n<p>Fatma precisou guardar o cora\u00e7\u00e3o na palma da m\u00e3o e caminhar para, nas vezes poss\u00edveis, lembrar que dela jamais escapariam a identidade palestina, a terra de sua fam\u00edlia e os sonhos que sempre teve. O filme mant\u00e9m o t\u00eanue equil\u00edbrio entre intimidade e pol\u00edtica, sil\u00eancio e explos\u00e3o. E, ao faz\u00ea-lo, retrata Fatma seguida de um povo que, contra as for\u00e7as, resiste. Seu sonho era comer um peda\u00e7o de frango e um chocolate.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Guarde o Cora\u00e7\u00e3o na Palma da M\u00e3o e Caminhe&#8221; tem um sil\u00eancio sepulcral. 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