{"id":180646,"date":"2025-12-08T22:33:10","date_gmt":"2025-12-08T22:33:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/180646\/"},"modified":"2025-12-08T22:33:10","modified_gmt":"2025-12-08T22:33:10","slug":"o-vinho-que-a-russia-tentou-eliminar-e-que-a-ucrania-esta-a-transformar-em-simbolo-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/180646\/","title":{"rendered":"O vinho que a R\u00fassia tentou eliminar &#8211; e que a Ucr\u00e2nia est\u00e1 a transformar em s\u00edmbolo de liberdade"},"content":{"rendered":"<p>\t                A Ucr\u00e2nia continua a produzir e a exportar vinho apesar da guerra, enquanto viticultores e sommeliers apostam na recupera\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o milenar para refor\u00e7ar a identidade nacional e abrir caminho aos r\u00f3tulos ucranianos nos mercados europeus<\/p>\n<p>Quando Sergiy Klimov fala de vinho, o entusiasmo \u00e9 contagiante \u2014 mesmo para quem n\u00e3o tem um paladar especialmente apurado.<\/p>\n<p>Desde 2014, Sergiy Klimov tem sido um dos grandes defensores do vinho ucraniano de v\u00e1rias formas.<\/p>\n<p>Gere uma cadeia de wine bars em Kiev, a capital, onde s\u00f3 serve vinho produzido na Ucr\u00e2nia. \u00c9 embaixador informal do vinho ucraniano, promovendo-o no estrangeiro. E agora tem a sua pr\u00f3pria vinha na aldeia de Zarichanka, no oeste do pa\u00eds, onde experimenta novas formas de cultivar uvas e de fazer vinho.<\/p>\n<p>Ao partilhar vinho ucraniano, Sergiy Klimov sente que est\u00e1 a preservar e aprofundar uma tradi\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 sua terra ancestral h\u00e1 milhares de anos.<\/p>\n<p>\u201cTornou-se a minha miss\u00e3o\u201d, diz. \u201cQuero trazer uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria.\u201d<\/p>\n<p>A par dos pa\u00edses vizinhos Mold\u00e1via e Rom\u00e9nia, e de outros da regi\u00e3o como Ge\u00f3rgia e Azerbaij\u00e3o, a Ucr\u00e2nia tem sido solo f\u00e9rtil para o vinho h\u00e1 mil\u00e9nios. Escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas revelaram vasilhas gregas antigas de produ\u00e7\u00e3o de vinho, enquanto restos fossilizados de esp\u00e9cies de uvas encontrados noutros locais remontam entre os s\u00e9culos XI e IX a.C.<\/p>\n<p>Talvez de forma mais conhecida, a Crimeia era casa de vinhas plantadas aos p\u00e9s das montanhas do sul da pen\u00ednsula. Depois de a Crimeia ter sido ilegalmente anexada pela R\u00fassia em 2014, muitas dessas vinhas perderam-se e, nalguns casos, foram minadas e destru\u00eddas pelas for\u00e7as russas, conta Anna Eugenia Yanchenko, cientista cultural ucraniana, sommeli\u00e8re e investigadora especializada na hist\u00f3ria do vinho do seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765233189_312_f_webp.webp\"\/> <\/p>\n<p>    Um produtor de vinho senta-se entre os escombros da sua vinha numa aldeia de Donetsk, depois de esta ter sido destru\u00edda pelas for\u00e7as russas em 2024. (Imagem: Wolfgang Schwan\/Anadolu via Getty) <\/p>\n<p>Desde que a R\u00fassia lan\u00e7ou a invas\u00e3o em grande escala da Ucr\u00e2nia, em fevereiro de 2022, as suas for\u00e7as destru\u00edram ainda mais adegas, incluindo o Ch\u00e2teau Kurin, no sul, e a ARTWINERY, na cidade oriental de Donetsk, diz Anna Yanchenko. Outras, como a vinha Prince Trubetskoy Winery, no sul, e a Wineidea, na regi\u00e3o de Kiev, passaram por per\u00edodos de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A capacidade de produ\u00e7\u00e3o vin\u00edcola do pa\u00eds foi dramaticamente reduzida, mas Sergiy Klimov e outros est\u00e3o determinados n\u00e3o s\u00f3 a manter a ind\u00fastria viva, como a faz\u00ea-la prosperar.<\/p>\n<p>Os seus esfor\u00e7os s\u00e3o motivados, em parte, pelo desejo de refor\u00e7ar a identidade nacional ucraniana perante as tentativas da R\u00fassia de negar a soberania do pa\u00eds.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765233189_923_f_webp.webp\"\/> <\/p>\n<p>    Sergiy Klimov promove vinhos produzidos na Ucr\u00e2nia, tanto no pa\u00eds como no exterior. Recentemente, investiu na sua pr\u00f3pria vinha, onde espera experimentar o cultivo de uvas e a produ\u00e7\u00e3o de vinho.\u00a0 (Imagem: Yurii Stefanyak) <\/p>\n<p>Agora a viver em Vars\u00f3via, na Pol\u00f3nia, Anna Yanchenko diz que se sabe pouco sobre quem plantou as primeiras vinhas, h\u00e1 mil\u00e9nios, no territ\u00f3rio que hoje \u00e9 a Ucr\u00e2nia \u2014 mas o que importa \u00e9 que isso aconteceu e que a produ\u00e7\u00e3o continua.<\/p>\n<p>\u201cDesde que o vinho apareceu, o processo de cultivar uvas e consumir vinho nunca parou aqui\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Outra voz ativa na defesa da ind\u00fastria \u00e9 Tania Olevska, que deixou a Ucr\u00e2nia rumo a Londres em julho de 2022, cinco meses depois da invas\u00e3o em grande escala. Ap\u00f3s alguns anos a trabalhar no setor do vinho no seu pa\u00eds, decidiu criar a Ukrainian Wines Company UK, focada em importar vinhos ucranianos para o Reino Unido. Participa em feiras e exposi\u00e7\u00f5es de vinho que muitos produtores, ainda na Ucr\u00e2nia, j\u00e1 n\u00e3o conseguem frequentar.<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio, os vinhos eram rejeitados\u201d, recorda Olevska sobre as tentativas de despertar interesse. Mas isso mudou depois de um produtor ucraniano enviar duas caixas para serem degustadas em eventos. \u201cEm 2023, tivemos oportunidade de apresentar os nossos vinhos na London Wine Fair. V\u00e1rios produtores vieram e houve um enorme interesse por parte dos profissionais. Gostaram dos vinhos\u201d, conta.<\/p>\n<p>Para o entusiasta Sergiy Klimov, isso n\u00e3o \u00e9 surpresa. \u201cO nosso territ\u00f3rio \u00e9 super-\u00fanico\u201d, afirma, explicando como a diversidade da paisagem ucraniana favorece sabores complexos e interessantes. \u201cTemos solos negros, calc\u00e1rio, solo vulc\u00e2nico e mais de 400 castas de uva\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765233190_922_f_webp.webp\"\/> <\/p>\n<p>    Os compradores fora da Ucr\u00e2nia est\u00e3o a demonstrar um interesse crescente pelos seus vinhos, afirmam os importadores internacionais. (Imagem: Yurii Stefanyak) <\/p>\n<p>Victoria Daskal, cr\u00edtica e formadora de vinhos em Londres, considera que o aumento das importa\u00e7\u00f5es de vinho ucraniano para o Reino Unido se deve em parte \u00e0 consci\u00eancia da guerra, mas tamb\u00e9m \u00e0 diversidade do mercado brit\u00e2nico. \u201cMuitos consumidores ficam surpreendidos ao saber que a Ucr\u00e2nia \u00e9 um pa\u00eds produtor de vinho, mas interessam-se em explorar novas regi\u00f5es\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ainda assim, os produtores ucranianos t\u00eam um longo caminho a percorrer para aumentar a notoriedade dos seus vinhos, tanto no estrangeiro como em casa.<\/p>\n<p>Sergiy Klimov e Anna Yanchenko explicam como a era sovi\u00e9tica limitou o setor, privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade.<\/p>\n<p>Antes disso, o Imp\u00e9rio Russo falhara no combate \u00e0 filoxera da vinha \u2014 uma praga semelhante a um pulg\u00e3o que ataca as ra\u00edzes da videira \u2014 causando grandes perdas na Ucr\u00e2nia, como no resto da Europa do s\u00e9culo XIX. Durante s\u00e9culos, a produ\u00e7\u00e3o de vinho foi afetada pela instabilidade pol\u00edtica: partes do territ\u00f3rio estiveram sob dom\u00ednio de Litu\u00e2nia, Pol\u00f3nia e R\u00fassia entre os s\u00e9culos XIV e XVIII, antes de cair totalmente sob controlo russo.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XX, os sovi\u00e9ticos nacionalizaram tudo. Continuou a produzir-se vinho, mas as adegas privadas foram destru\u00eddas e substitu\u00eddas por produ\u00e7\u00e3o em massa, sem preocupa\u00e7\u00e3o pela qualidade. A reputa\u00e7\u00e3o do vinho ucraniano afundou-se rapidamente, diz Anna Yanchenko.<\/p>\n<p>Agora, em plena nova guerra, a Ucr\u00e2nia est\u00e1 comprometida em defender a sua identidade enquanto na\u00e7\u00e3o soberana \u2014 uma identidade que a R\u00fassia procura apagar nos territ\u00f3rios ocupados, denunciam v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos.<\/p>\n<p>Essa tentativa de apagamento faz eco da era sovi\u00e9tica, quando o regime de Moscovo controlava a narrativa hist\u00f3rica. \u201cOs meus pais n\u00e3o aprenderam muito sobre a hist\u00f3ria da nossa terra na escola\u201d, afirma Anna Yanchenko. \u201cSabemos t\u00e3o pouco sobre quem somos. Mas, atrav\u00e9s de descobertas como a verdadeira hist\u00f3ria do vinho, estamos lentamente a juntar as pe\u00e7as de um puzzle maior: \u2018Quem s\u00e3o os ucranianos?\u2019\u201d<\/p>\n<p>Talvez por isso, quando Sergiy Klimov viu uma oportunidade de envolver os vizinhos na produ\u00e7\u00e3o de vinho, n\u00e3o a deixou escapar.<\/p>\n<p>\u201cKiev \u00e9 a capital das vinhas verticais\u201d, diz, descrevendo como as videiras \u2014 muitas plantadas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX \u2014 ainda hoje sobem pelas fachadas dos edif\u00edcios em certas zonas da cidade.<\/p>\n<p>No final de 2023, lan\u00e7ou o desafio aos vizinhos: juntar e doar uvas cultivadas nas ruas de Kiev. Em pouco tempo, tinham recolhido 200 quilos de uvas.<\/p>\n<p>O resultado foram 100 garrafas de vinho natural, de baixa interven\u00e7\u00e3o, engarrafadas e vendidas com um r\u00f3tulo criado pelo artista ucraniano Waone. \u201c\u00c9 como uma obra de arte que nunca tinha existido antes\u201d, diz Sergiy Klimov.<\/p>\n<p>Todas as receitas das vendas foram doada a fundos de apoio \u00e0s for\u00e7as armadas ucranianas, garantiu.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante mostrar que a Ucr\u00e2nia \u00e9 um pa\u00eds de vinho. Tem ra\u00edzes antigas, com vinho nas nossas ruas\u201d, afirmou, acrescentando que espera transformar este esfor\u00e7o comunit\u00e1rio em tradi\u00e7\u00e3o anual.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765233190_408_f_webp.webp\"\/> <\/p>\n<p>    O projeto de vinho de rua de Sergiy Klimov continua a angariar fundos que ele doa para os esfor\u00e7os de guerra da Ucr\u00e2nia, enquanto a na\u00e7\u00e3o luta para proteger a sua soberania contra a vizinha R\u00fassia.\u00a0 (Imagem: Yurii Stefanyak) <\/p>\n<p>Anna Yanchenko deseja que o trabalho que ela e Sergiy Klimov fazem para promover os vinhos ucranianos dentro e fora do pa\u00eds contribua para redefinir a imagem da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>\u201cServe como uma ponte, ligando-nos a outras na\u00e7\u00f5es ao oferecer um sabor da nossa hist\u00f3ria, das nossas tradi\u00e7\u00f5es e da singularidade da nossa terra\u201d, diz.<br \/>\u201c\u00c9 uma forma de nos reconectarmos com as nossas ra\u00edzes e de partilhar com orgulho o que torna a Ucr\u00e2nia verdadeiramente especial.\u201d<\/p>\n<p>Apesar das d\u00favidas de algumas pessoas, Sergiy Klimov diz que muitos ucranianos come\u00e7am agora a preferir produtos nacionais a r\u00f3tulos internacionais.<\/p>\n<p>Depois de participar em feiras de vinho em D\u00fcsseldorf, Londres e outras cidades europeias, Sergiy Klimov afirma tamb\u00e9m ter notado uma mudan\u00e7a no gosto dos consumidores estrangeiros, com mais curiosidade em conhecer as regi\u00f5es vin\u00edcolas ucranianas.<\/p>\n<p>Para Olevska, o apelo vai muito al\u00e9m da guerra: \u201cAs pessoas devem provar vinhos ucranianos n\u00e3o s\u00f3 por causa da guerra, n\u00e3o s\u00f3 por causa desta dor, mas porque \u00e9 um bom vinho, de grande qualidade, e merece estar \u00e0 mesa.\u201d<\/p>\n<p>Sergiy Klimov sente que investir o seu tempo e conhecimento nesta ind\u00fastria \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de apoiar o esfor\u00e7o de guerra do seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cQuando apoias a economia da Ucr\u00e2nia, apoias a cultura da Ucr\u00e2nia \u2014 e esse \u00e9 um pequeno passo que qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, pode dar pela Ucr\u00e2nia.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A Ucr\u00e2nia continua a produzir e a exportar vinho apesar da guerra, enquanto viticultores e sommeliers apostam 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