{"id":180692,"date":"2025-12-08T23:22:53","date_gmt":"2025-12-08T23:22:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/180692\/"},"modified":"2025-12-08T23:22:53","modified_gmt":"2025-12-08T23:22:53","slug":"o-romancista-que-dava-e-deu-um-romance-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/180692\/","title":{"rendered":"o romancista que dava (e deu) um romance \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Camilo Castelo Branco \u00e9 o para\u00edso de um romancista. Mentiu sobre a pr\u00f3pria vida com todos os dentes que tinha, escreveu mancheias de pap\u00e9is, muitos deles ainda in\u00e9ditos, carteou com meio mundo e polemizou com a outra metade, teve mais casas e mais vidas do que um gato vadio e deixou-nos uma obra romanesca cheia de pistas sobre os seus interesses, documentos, preocupa\u00e7\u00f5es, invejas e amores.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de estranhar, por isso, que M\u00e1rio Cl\u00e1udio lhe tenha dedicado um romance biogr\u00e1fico, ou que Aquilino Ribeiro tenha chamado \u00e0 sua biografia de Camilo O Romance de Camilo: conhece-se aquela vida e n\u00e3o se acredita, mesmo naquilo em que se pode acreditar. O tomo de Aquilino sofre de alguns males. Embrenha-se de tal maneira na vida p\u00edcara do seu biografado, que imagina aventura mesmo quando ela n\u00e3o existe: nesse sentido, parece as Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere, em que Camilo conta as vidas dos seus companheiros de pris\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conceber que, naquela pris\u00e3o espec\u00edfica, todos os homens tivessem uma vida t\u00e3o rom\u00e2ntica quanto Camilo as pinta.<\/p>\n<p>O Romance de Camilo carrega este problema\u2014 e carrega tamb\u00e9m outro, pr\u00f3prio de toda a interpreta\u00e7\u00e3o de Aquilino da hist\u00f3ria liter\u00e1ria de Portugal. Todos os grandes, para ele, s\u00e3o filhos danados da fortuna, homens mal-remediados que vivem nas sombras das arcadas escondidos dos governos, estroinas e malandros, que desafiam a moral vigente. \u00c9 assim que Aquilino pinta Cam\u00f5es, Camilo e, parafraseando um t\u00edtulo do pr\u00f3prio, alguns mais.<\/p>\n<p>No caso de Camilo, isso \u00e9 bastante claro. Aquilino centra quase toda a inf\u00e2ncia do seu biografado em torno do problema de uma falsa fidalguia. Camilo vem, de facto, de uma fam\u00edlia com uma pequena pros\u00e1pia nortenha. Justificada, sim, embora pequena, \u00e0 medida de tantas fam\u00edlias de prov\u00edncia por esse Portugal fora, que numa gera\u00e7\u00e3o conseguem sair da pobreza, e lutam depois para manter um estado que n\u00e3o se garante por si s\u00f3. Para Aquilino, no entanto, s\u00e3o apenas \u201cos Brocas\u201d, apelido com que as l\u00ednguas mais antip\u00e1ticas taxavam a fam\u00edlia, sim, mas que n\u00e3o prova a tese de Aquilino: a de que seria uma fam\u00edlia intoxicada por fumos de fidalguia, que tolhiam as a\u00e7\u00f5es dos seus membros e os lan\u00e7avam numa vida de mentiras, ilus\u00f5es e falsidades de que tinham dificuldade em sair \u2013 e de que o pr\u00f3prio Camilo nunca sairia realmente. Sob a m\u00e3o de Aquilino, o que surge da fam\u00edlia de Camilo \u00e9 uma galeria de malfeitores que Camilo passa toda a vida a dourar, numa tentativa de apeanhar a sua fam\u00edlia a lugares em que nunca esteve.<\/p>\n<p>                    <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/capa-o-romance-de-camilo.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1792\" height=\"2749\" class=\"news-photo\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\"\/>                <\/p>\n<p class=\"legenda\">\n            \u25b2 A capa da edi\u00e7\u00e3o que re\u00fane num \u00fanico volume os textos de Aquilino Ribeiro que comp\u00f5em &#8220;O Romance de Camilo&#8221; (Bertrand)<\/p>\n<p>Prova disso mesmo, seria a inf\u00e2ncia atribulada do romancista. Camilo foi, como a sua irm\u00e3, perfilhado tardiamente \u2013 tal como o outro grande romancista portugu\u00eas do s\u00e9culo XIX \u2013 e, na verdade, a filia\u00e7\u00e3o durou pouco. Ficou \u00f3rf\u00e3o de m\u00e3e na primeira inf\u00e2ncia, e de pai ainda no tempo de aprender as primeiras letras, coisa que fez em Lisboa, numa pequena escola nas escadinhas do Duque. A orfandade recambiou-o, a ele e \u00e0 irm\u00e3, para o norte, ao cuidado de uma tia que n\u00e3o parece ter tido a maior das estimas pelos sobrinhos. Pelo menos a julgar pelo controverso processo da heran\u00e7a e tutoria dos \u00f3rf\u00e3os: n\u00e3o ter\u00e1 tido escr\u00fapulo nenhum em lesar os sobrinhos e em atir\u00e1-los para um estado pouco condizente com a emp\u00e1fia dos Botelhos.<\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia de Camilo s\u00e3o, assim, as de um enjeitado a que n\u00e3o se sabe bem o que h\u00e1 de fazer. Aprende uns rudimentos de civiliza\u00e7\u00e3o com um padre, uns tiques de letras com outro, vive uns tempos com a irm\u00e3 quando esta (mais velha) casa, saltita entre terras maiores e outras mais pequenas, at\u00e9 acabar ele tamb\u00e9m embrulhado num casamento de horizontes estreitos, pr\u00f3prio do mundo popularucho para o qual a vida o tinha atirado.<\/p>\n<p>Camilo pinta o seu resgate \u00e0 vida comezinha de um bruto de prov\u00edncia com cores semi-napole\u00f3nicas. Por isso \u00e9 que tem tanta import\u00e2ncia para ele a mais que prov\u00e1vel mentira de que ter\u00e1 combatido por D. Miguel, e que no grande elevador social que seria o ex\u00e9rcito p\u00f3s-Napole\u00e3o, teriam dado conta do seu talento, levando-o primeiro a estudar, depois a consagrar-se como homem de letras.<\/p>\n<p>A verdade ter\u00e1 sido mais prosaica e menos lustrosa para o romancista. A certo ponto, abandonou a mulher para ir estudar (pouca) medicina para o Porto \u2013 a expensas da fam\u00edlia dela \u2013 e nunca mais a ter\u00e1 visto, nem a ela, nem \u00e0 filha acabada de nascer. Logo por esta altura, Camilo ensaia umas pol\u00e9micas que poder\u00e3o t\u00ea-lo deixado mal-visto no ambiente familiar e, de facto, liberta-se das amarras dom\u00e9sticas com uma impiedade de que voltar\u00e1 a dar provas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um pormenor curioso sobre as primeiras aventuras liter\u00e1rias de Camilo: h\u00e1 uma carta, citada por Alexandre Pinheiro Torres, em que Camilo admite a sua disponibilidade para escrever, seja sob ponto de vista liberal, seja realista, ultramontano ou \u00edmpio. Camilo queria era escrever, que lhe pagassem, fosse por que ponto de vista fosse. Esta disposi\u00e7\u00e3o, naturalmente, lan\u00e7ou \u2013 numa \u00e9poca menos benevolente com ele, ainda n\u00e3o amaciada pelo reconhecimento do g\u00e9nio \u2013 d\u00favidas sobre o seu car\u00e1cter, d\u00favidas essas que Camilo se encarregou muitas vezes de esclarecer, nem sempre para melhor; no entanto, vemos j\u00e1 aqui, mais do que isso, a disposi\u00e7\u00e3o hesitante do seu c\u00e9rebro, mais interessada em testar a sua elasticidade do que em provar grande coer\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Camilo Castelo Branco \u00e9 o para\u00edso de um romancista. 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