{"id":18231,"date":"2025-08-06T10:59:21","date_gmt":"2025-08-06T10:59:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/18231\/"},"modified":"2025-08-06T10:59:21","modified_gmt":"2025-08-06T10:59:21","slug":"viagem-rumo-a-ancestralidade-quatro-cinco-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/18231\/","title":{"rendered":"Viagem rumo \u00e0 ancestralidade &#8211; Quatro cinco um"},"content":{"rendered":"<p>Depois de ter embarcado rumo \u00e0 Guin\u00e9-Bissau em 2010 para conhecer suas origens familiares oeste-africanas, o f\u00edsico e diplomata Ernesto Man\u00e9 re\u00fane as mem\u00f3rias dessa travessia em Antes do in\u00edcio, que chega \u00e0s livrarias pela <strong>Tinta-da-China Brasil<\/strong>, selo editorial da <strong>Associa\u00e7\u00e3o Quatro Cinco Um<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>Nascido em Jo\u00e3o Pessoa, Man\u00e9 \u00e9 filho de m\u00e3e paraibana e pai guineense, que emigrou para o Brasil nos anos 70. Inquieto para conhecer a fam\u00edlia paterna, o autor cruzou o Atl\u00e2ntico e, em seu retorno, trouxe consigo reflex\u00f5es sobre negritude, racismo e a \u00c1frica hoje, as quais ele compartilha no livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Em seu relato, Man\u00e9 analisa as diferen\u00e7as culturais e de perspectiva entre Guin\u00e9-Bissau e Brasil \u2014 ele revela seu choque ao ser chamado de \u2018branco\u2019 no pa\u00eds africano \u2014, refor\u00e7a a import\u00e2ncia de se conhecer o passado e conta sua decis\u00e3o de pedir a dupla cidadania.<\/p>\n<p>Trecho de \u2018Antes do in\u00edcio\u2019<\/p>\n<p>Madri, ter\u00e7a-feira, 24 de maio de 2022<\/p>\n<p>\t\t\t<a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3008\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3008-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n<p>O contexto espec\u00edfico dos fatos narrados no meu di\u00e1rio da viagem \u00e0 Guin\u00e9-Bissau de 2010 e 2011 j\u00e1 se desmanchou. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel voltar para aquela por\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o-tempo. Resta confiar na mem\u00f3ria, que, agora come\u00e7o a perceber, \u00e9 falha. Por vezes, me sinto como se tentasse me agarrar a algo que aos poucos desaparece.\u00a0<\/p>\n<p>Em uma d\u00e9cada, houve mudan\u00e7as radicais na minha fam\u00edlia do Brasil e da Guin\u00e9-Bissau. Se eu voltasse para a Guin\u00e9-Bissau hoje, encontraria outro ambiente. Muitas das pessoas que conheci quando estive l\u00e1 morreram ou foram embora do pa\u00eds. Entre os que morreram est\u00e3o meu pai e meu av\u00f4, os tios Tib\u00farcio, Irineu e, nesta semana, a tia Nen\u00ea. Os \u00fanicos parentes que ainda est\u00e3o na Guin\u00e9-Bissau s\u00e3o minha irm\u00e3 Mira, que se tornou enfermeira e parteira e ainda mora em Bissau, e meu primo Papa, que ficou em S\u00e3o Domingos com a esposa, a Joana. \u00c9 estranho imaginar que daqui a alguns anos essas pessoas, inclusive eu, n\u00e3o ter\u00e3o mais exist\u00eancia concreta, e que aquilo que escrevo, em certa medida, servir\u00e1 para manter viva na mem\u00f3ria a exist\u00eancia delas.\u00a0<\/p>\n<p>Tenho pensado muito na morte, em particular na morte de corpos negros. Nesta semana soube que o Genivaldo de Jesus Santos foi torturado e morto por policiais rodovi\u00e1rios, asfixiado numa c\u00e2mara de g\u00e1s improvisada dentro de um cambur\u00e3o, em Sergipe. No in\u00edcio de 2022, o imigrante congol\u00eas Mo\u00efse Kabagambe foi amarrado num poste, torturado e assassinado \u00e0 luz do dia, num quiosque de praia no Rio de Janeiro. Em 2021, George Floyd foi estrangulado at\u00e9 a morte, nos Estados Unidos, por um policial que j\u00e1 o tinha imobilizado; em 2020, o ator guineense Bruno Cand\u00e9 foi morto a tiros, num bairro de Lisboa, por um veterano da guerra colonial portuguesa; no mesmo ano, Jo\u00e3o Alberto Silveira Freitas foi espancado e estrangulado por seguran\u00e7as de uma unidade do hipermercado Carrefour em Porto Alegre. A morte banal de homens negros, quase sempre violenta, \u00e9 continuamente utilizada por agentes p\u00fablicos e privados como instrumento para disciplinar essa popula\u00e7\u00e3o por meio do terror.<\/p>\n<p>Quando estava no p\u00f3s-doutorado em Vancouver, durante uma rodada de apresenta\u00e7\u00f5es do grupo de capoeira de que participava, lembro de ter comentado que sou filho de africano. \u201cAh, mas todos os brasileiros s\u00e3o descendentes de africanos\u2026\u201d, disse uma das pessoas, como se esse fato fosse um detalhe desimportante. Era uma brasileira branca que, sempre que podia, lembrava com orgulho sua origem italiana. Aos negros brasileiros foi negado o direito \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0s conex\u00f5es com seu passado ancestral, localizadas no continente africano. Ainda que tenha avan\u00e7ado o estudo de mapeamento gen\u00e9tico e que seja poss\u00edvel localizar as regi\u00f5es de origem da di\u00e1spora, \u00e9 imposs\u00edvel recuperar as hist\u00f3rias familiares. Tenho a sorte e o privil\u00e9gio de poder me agarrar ao pouco que me resta e me relacionar n\u00e3o s\u00f3 com um lugar espec\u00edfico da \u00c1frica, mas com pessoas que ainda est\u00e3o do lado de l\u00e1. E tenho o direito de reivindicar essa mem\u00f3ria. Se n\u00e3o fizer isso, ningu\u00e9m far\u00e1 por mim, e temo que em mais uma gera\u00e7\u00e3o a hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia seja esquecida.<\/p>\n<p>Os europeus, que se dizem nascidos no ber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, s\u00e3o conhecidos pelo esfor\u00e7o em preservar seu patrim\u00f4nio cultural. Hoje, tirei o dia para revisitar um dos s\u00edmbolos dessa cultura, o Museu do Prado. A \u00faltima vez que estive l\u00e1 foi em 2004, no final do interc\u00e2mbio em Manchester. Apesar dos seguran\u00e7as, que me acompanharam o tempo todo e me causaram certo inc\u00f4modo, o passeio foi bom. Quase quinze anos depois, revi o tr\u00edptico do Jardim das del\u00edcias terrenas de Bosco, como os espanh\u00f3is chamam Hieronymus Bosch. Essa pintura de mais de quinhentos anos \u00e9 uma das minhas favoritas. Perguntei ao seguran\u00e7a se a obra sai do museu. Ele disse: \u201cClaro que n\u00e3o; caso contr\u00e1rio, ningu\u00e9m viria mais ao Prado\u201d. Pouco se sabe da vida de Bosch; alguns especulam que sofria de alucina\u00e7\u00f5es, outros que consumia, intencional ou acidentalmente, drogas alucin\u00f3genas. Olhando de perto mais uma vez para esse trabalho complexo e rico, chamou minha aten\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a de pessoas negras na obra. Contei uns onze homens e mulheres na parte central do tr\u00edptico. Parecem felizes, vivendo em harmonia com os demais.\u00a0<\/p>\n<p>Quem sabe em algum universo paralelo haja um Jardim das del\u00edcias terrenas de Bosch, uma sociedade p\u00f3s-racial na qual as pessoas n\u00e3o sejam singularizadas pelo seu fen\u00f3tipo? Ou ser\u00e1 que o Bosco, cat\u00f3lico fervoroso, alertava para os \u201cperigos\u201d da miscigena\u00e7\u00e3o racial, como se quisesse dizer que, no dia do Ju\u00edzo Final \u2014 o terceiro ato de seu tr\u00edptico \u2014, a humanidade vai pagar por ter tentado integrar brancos e negros? Seja como for, o colonialismo moderno, inaugurado no s\u00e9culo de Bosch, ainda n\u00e3o acabou, e o racismo ainda \u00e9 uma de suas express\u00f5es m\u00e1ximas, uma forma de organizar o mundo e de decidir sobre a vida e a morte. As consequ\u00eancias disso persistem na atualidade, por exemplo nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que t\u00eam atingido de maneira desproporcional os povos n\u00e3o brancos, ou na vulnerabilidade das popula\u00e7\u00f5es negras durante as pandemias, como tem sido verificado com a covid-19; na precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, na inseguran\u00e7a alimentar. A carne mais barata do mercado ainda \u00e9 a carne negra, como canta a ancestral Elza Soares.<\/p>\n<p>\t<a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3010\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3010-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Depois de ter embarcado rumo \u00e0 Guin\u00e9-Bissau em 2010 para conhecer suas origens familiares oeste-africanas, o f\u00edsico e&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18232,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-18231","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18231\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18232"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}