{"id":183091,"date":"2025-12-10T17:52:08","date_gmt":"2025-12-10T17:52:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/183091\/"},"modified":"2025-12-10T17:52:08","modified_gmt":"2025-12-10T17:52:08","slug":"pesquisa-comprova-danos-a-saude-mental-de-camponeses-10-anos-apos-instalacao-de-eolicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/183091\/","title":{"rendered":"Pesquisa comprova danos \u00e0 sa\u00fade mental de camponeses 10 anos ap\u00f3s instala\u00e7\u00e3o de e\u00f3licas"},"content":{"rendered":"<p>Dez anos ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o do primeiro empreendimento e\u00f3lico do Brasil, em Caet\u00e9s, no agreste de Pernambuco, a 240 quil\u00f4metros do Recife, o que se v\u00ea \u00e9 uma comunidade, em sua maioria, em sofrimento ps\u00edquico. Uma nova pesquisa da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE) campus Garanhuns constatou que 68% dos camponeses que ali vivem sofrem com problemas de sa\u00fade que ultrapassam a condi\u00e7\u00e3o do corpo, chegando ao adoecimento psicol\u00f3gico e desenvolvimento de transtornos mentais leves, com consequente aumento do uso de rem\u00e9dios psiqui\u00e1tricos.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Intitulado Necropol\u00edtica dos ventos: determina\u00e7\u00e3o social da sa\u00fade mental diante da exposi\u00e7\u00e3o de empreendimentos e\u00f3licos em comunidades camponesas de Pernambuco, o levantamento comprova que, diante dos resultados encontrados, percebe-se uma popula\u00e7\u00e3o que vivencia um trauma psicossocial, uma forma de trauma que transcende o indiv\u00edduo e afeta a dimens\u00e3o social e cultural.<\/p>\n<p>Em 2014, empreendimentos e\u00f3licos foram instalados nas comunidades rurais de S\u00edtio Sobradinho, em Caet\u00e9s, com dist\u00e2ncias que v\u00e3o de 100 e 900 metros entre as casas e as turbinas. Diversos estudos, no entanto, j\u00e1 comprovaram, na \u00faltima d\u00e9cada, que, a at\u00e9 2 quil\u00f4metros, \u00e9 poss\u00edvel perceber preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>A pesquisa entrevistou 50 pessoas, sendo 80% mulheres e 20% homens, de 18 a 89 anos, em sua maioria negros e agricultores familiares. Desse total, 34 corresponderam ao ponto de corte que configura sofrimento ps\u00edquico, representando 68% da amostra. Todas est\u00e3o no territ\u00f3rio h\u00e1 mais de 10 anos, ou seja, antes da implanta\u00e7\u00e3o dos aerogeradores. Segundo o levantamento, muitas est\u00e3o em fase de esgotamento, se recusando a responder question\u00e1rios de pesquisas diante da press\u00e3o das empresas sobre as comunidades.<\/p>\n<p>\u201cComo t\u00eam sido implementadas as energias renov\u00e1veis?\u201d, provoca Felipe Cazeiro, professor da UPE e pesquisador da Fiocruz que est\u00e1 \u00e0 frente dos estudos sobre o impacto das e\u00f3licas no campo da sa\u00fade mental. As e\u00f3licas s\u00e3o hoje a segunda maior fonte de energia el\u00e9trica do Nordeste, atr\u00e1s apenas da h\u00eddrica. A regi\u00e3o tem sido a de maior instala\u00e7\u00e3o dessas turbinas, abrigando mais de 80% dos empreendimentos em opera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os ru\u00eddos de baixa frequ\u00eancia emitidos pelas turbinas costumam gerar sintomas como dor de cabe\u00e7a, zumbido e press\u00e3o nos ouvidos, n\u00e1useas, tonturas, taquicardia, irritabilidade, problemas de concentra\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria e epis\u00f3dios de p\u00e2nico. Tais ru\u00eddos podem ocasionar, al\u00e9m desses sintomas, dist\u00farbios mais graves como a S\u00edndrome da Turbina E\u00f3lica e a Doen\u00e7a Vibroac\u00fastica.<\/p>\n<p><strong>S\u00edndrome da Turbina E\u00f3lica<\/strong><\/p>\n<p>Os sintomas compreendem dist\u00farbios do sono, aumento de frequ\u00eancia e\/ou gravidade de dores de cabe\u00e7a, tonturas, instabilidades, n\u00e1usea, exaust\u00e3o e altera\u00e7\u00f5es no humor; problemas com concentra\u00e7\u00e3o e aprendizagem, al\u00e9m de zumbido nos ouvidos. Indiv\u00edduos com hist\u00f3rico de enxaqueca ou problemas auditivos anteriores ao contato com as e\u00f3licas e pessoas idosas s\u00e3o grupos mais suscet\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Doen\u00e7a Vibroac\u00fastica<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma doen\u00e7a sist\u00eamica causada pela exposi\u00e7\u00e3o prolongada (mais de dez anos) a ru\u00eddo de grandes amplitudes (90 dB) e baixa frequ\u00eancia (\n<\/p>\n<p>O levantamento da Fiocruz com UPE, realizado por 11 pesquisadores, utilizou como metodologia o Self-Report Questionary 20 (SRQ-20), um question\u00e1rio da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) cujo objetivo \u00e9 comprovar sofrimento ps\u00edquico ou transtornos mentais leves, sem a fun\u00e7\u00e3o de diagnosticar, avaliar ou trazer um quadro espec\u00edfico patol\u00f3gico em sa\u00fade mental.<\/p>\n<p><strong>Camponeses pensam em suic\u00eddio<\/strong><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito comum a ideia de que o processo de doen\u00e7a \u00e9 individual, e n\u00e3o que \u00e9 determinado socialmente. Ent\u00e3o, quando vemos esses dados e vemos a determina\u00e7\u00e3o social da sa\u00fade, percebemos que a exposi\u00e7\u00e3o que essas pessoas est\u00e3o vivendo h\u00e1 10 anos junto das e\u00f3licas tem trazido impactos em diferentes \u00e2mbitos, seja na sa\u00fade animal, humana, mental ou vegetal, na terra e no territ\u00f3rio\u201d, comenta Cazeiro, que \u00e9 doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).<\/p>\n<p>Um dado preocupante foi sobre o item \u201cTem tido ideia de acabar com a vida?\u201d do question\u00e1rio. Entre as pessoas que responderam estar com a ideia de tirar a pr\u00f3pria vida, uma delas disse que isso aconteceu ap\u00f3s a chegada das e\u00f3licas e relatou: \u201cme sinto \u2018sem controle\u2019 em alguns momentos, os sintomas atrapalham muito a minha vida, sentindo p\u00e2nico para dormir\u201d.<\/p>\n<p>Outra pessoa respondeu que a ideia de tirar a pr\u00f3pria vida n\u00e3o apareceu com a chegada das e\u00f3licas, ela tinha diagn\u00f3stico pr\u00e9vio de depress\u00e3o, mas relatou que a idea\u00e7\u00e3o suicida piorou com a chegada dos aerogeradores: \u201c\u00e0s vezes, tenho medo de mim\u201d. Ambas tomam psicotr\u00f3picos, por\u00e9m est\u00e3o desassistidas de um acompanhamento de sa\u00fade cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>\u201cO Estado n\u00e3o tem dado nenhuma assist\u00eancia \u00e0s comunidades, essa \u00e9 a maior dificuldade, existe pouca aten\u00e7\u00e3o e h\u00e1 um discurso antag\u00f4nico. O Estado acha que as comunidades s\u00e3o contra o desenvolvimento, mas as comunidades n\u00e3o s\u00e3o contra o desenvolvimento, s\u00e3o contra o desenvolvimento sustent\u00e1vel da forma como ele est\u00e1 sendo feito, sem preocupa\u00e7\u00e3o com as fam\u00edlias. A mesma coisa s\u00e3o as empresas\u201d, adiciona o pesquisador.<\/p>\n<p><strong>Uma pesquisa-a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Esse trabalho desenvolvido em Caet\u00e9s \u00e9 uma pesquisa-a\u00e7\u00e3o. Nesse \u00e2mbito, foi criada a Escola dos Ventos, em parceria com a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT Nordeste II), como um coletivo que possui como objetivo ser um espa\u00e7o baseado no saber popular de Paulo Freire, em que as comunidades passaram a refletir coletivamente sobre seus problemas e tra\u00e7ar estrat\u00e9gias de defesa de seus territ\u00f3rios, al\u00e9m da reivindica\u00e7\u00e3o de direitos, numa iniciativa conjunta com Fiocruz e UPE.<\/p>\n<p>A escola realizou diversos encontros e debates ao longo do ano. O objetivo \u00e9 ampliar o debate e estimular a mobiliza\u00e7\u00e3o contra os impactos causados pelo modelo centralizador e concentrador de gera\u00e7\u00e3o de energia renov\u00e1vel. A ideia do projeto de pesquiusa-a\u00e7\u00e3o \u00e9 procurar sa\u00eddas comunit\u00e1rias para uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa, que respeite verdadeiramente o meio ambiente e as popula\u00e7\u00f5es do campo.<\/p>\n<p>AUTOR<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/771d80332968bc2d97308698dd32e9a04c9093a775577566fa629be3b4db6c43\" alt=\"Foto Ra\u00edssa Ebrahim\"\/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/marcozero.org\/author\/raissa\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ra\u00edssa Ebrahim<\/a><\/p>\n<p class=\"m-0\">Vencedora do Pr\u00eamio Cristina Tavares com a cobertura do vazamento do petr\u00f3leo, \u00e9 jornalista profissional h\u00e1 12 anos, com foco nos temas de economia, direitos humanos e quest\u00f5es socioambientais. Formada pela UFPE, foi trainee no Estad\u00e3o, rep\u00f3rter no Jornal do Commercio e editora do PorAqui (startup de jornais de bairro do Porto Digital). Tamb\u00e9m foi fellowship da Thomson Reuters Foundation e bolsista do Instituto ClimaInfo. J\u00e1 colaborou com Ag\u00eancia P\u00fablica, Le Monde Diplomatique Brasil, G\u00eanero e N\u00famero e Trov\u00e3o M\u00eddia (podcast).\u00a0Vamos conversar? raissa.ebrahim@gmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Dez anos ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o do primeiro empreendimento e\u00f3lico do Brasil, em Caet\u00e9s, no agreste de Pernambuco, a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":183092,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[12924,37356,2807,116,32,33,117,1030],"class_list":{"0":"post-183091","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-energia-renovavel","9":"tag-eolicas","10":"tag-fiocruz","11":"tag-health","12":"tag-portugal","13":"tag-pt","14":"tag-saude","15":"tag-saude-mental"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115696549752637416","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183091","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=183091"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183091\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/183092"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=183091"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=183091"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=183091"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}