{"id":18547,"date":"2025-08-06T15:44:12","date_gmt":"2025-08-06T15:44:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/18547\/"},"modified":"2025-08-06T15:44:12","modified_gmt":"2025-08-06T15:44:12","slug":"um-revolucionario-juramento-da-bandeira-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/18547\/","title":{"rendered":"Um revolucion\u00e1rio juramento da bandeira | Cr\u00f3nica"},"content":{"rendered":"<p>A 21 de Novembro de 1975, o mais revolucion\u00e1rio dos juramentos aconteceu no quartel dos Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS), apelidado de \u201cregimento do povo\u201d (uma daquelas express\u00f5es bem batidas no PREC). De punho bem erguido e, como manda a revolu\u00e7\u00e3o, \u201cao servi\u00e7o da classe oper\u00e1ria\u201d, 170 recrutas fizeram o primeiro juramento naquele quartel depois do 25 de Abril, numa cerim\u00f3nia muito diferente da habitual pr\u00e1tica militar. Para dar legitimidade a todo o acto, tamb\u00e9m l\u00e1 estava ent\u00e3o Chefe de Estado-Maior do Ex\u00e9rcito, Carlos Fabi\u00e3o, mas n\u00e3o serviu de muito: o juramento \u201clesivo para a disciplina militar\u201d foi t\u00e3o pol\u00e9mico que foi anulado uns dias depois por Ramalho Eanes, o novo Chefe de Estado-Maior do Ex\u00e9rcito, j\u00e1 depois do 25 de Novembro.<\/p>\n<p>Mas o que por l\u00e1 se passou de t\u00e3o grave? A ala revolucion\u00e1ria do Movimento das For\u00e7as Armadas estava a ultrapassar pela esquerda (e a grande velocidade) a ala reformista. Os soldados uniam-se \u00e0s comiss\u00f5es de trabalhadores e de moradores \u2014 tamb\u00e9m elas j\u00e1 faziam presen\u00e7as no juramento da bandeira \u2014 e havia, nos sectores mais moderados, o receio de uma revolu\u00e7\u00e3o popular onde os militares mais \u00e0 esquerda teriam um papel essencial \u2014 o famoso Red Threat in Portugal da revista Time.<\/p>\n<p>Os discursos daquele dia podiam servir de pre\u00e2mbulo do 25 de Novembro de 1975. O coronel Leal de Almeida, comandante do RALIS, dizia aos recrutas que era \u201cfundamental o empenhamento de todos os militares\u201d, pedindo que aqueles \u201cque abandonaram as f\u00e1bricas e os campos\u201d n\u00e3o se separassem \u201cdo esp\u00edrito de luta e consci\u00eancia revolucion\u00e1ria de que vindes imbu\u00eddos\u201d. Na pr\u00e1tica, \u201ca presen\u00e7a de representantes dos trabalhadores [no juramento da bandeira] traduz de uma forma inequ\u00edvoca o trabalho que se tem desenvolvido\u201d: os soldados iriam ser os pilares do ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio. J\u00e1 Carlos Fabi\u00e3o, ent\u00e3o Chefe de Estado-Maior do Ex\u00e9rcito, falava na necessidade \u201cde muitos bra\u00e7os armados que garantam a seguran\u00e7a do processo [revolucion\u00e1rio], as conquistas alcan\u00e7adas e, sobretudo, a possibilidade que a hist\u00f3ria ande para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a Povo\/MFA \u00e9 consumada naquela cerim\u00f3nia com a presen\u00e7a com a presen\u00e7a da coordenadora mista das comiss\u00f5es de moradores e trabalhadores da zona da cidade de Lisboa, onde se situava o quartel. Tamb\u00e9m ela teve a palavra, algo in\u00e9dito, mas o discurso foi todo ao lado e falhou absolutamente as suas previs\u00f5es. Ora vejamos: \u201cA possibilidade que me foi concebida de vos falar, mostra que, n\u00e3o mais os soldados dos RALIS jurar\u00e3o uma obedi\u00eancia cega a uma disciplina militarista apostada em usar as armas que o povo paga, n\u00e3o para o defender, mas para o oprimir.&#8221; Na realidade, n\u00e3o mais os soldados dos RALIS jurariam a bandeira sem cumprir a disciplina militar.<\/p>\n<p>Transcrevo na \u00edntegra o mais infame dos juramentos, tal suspiro final de uma corrente que acabou derrotada: \u201cN\u00f3s, soldados, juramos ser fi\u00e9is \u00e0 p\u00e1tria e lutar pela sua liberdade e independ\u00eancia. Juramos estar sempre ao lado do povo, ao servi\u00e7o da classe oper\u00e1ria, dos camponeses e do povo trabalhador. Juramos lutar com todas as nossas capacidades com volunt\u00e1ria aceita\u00e7\u00e3o da disciplina revolucion\u00e1ria contra o fascismo, imperialismo e pela democracia e poder para o povo. Pela vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o socialista.\u201d<\/p>\n<p>Fora do quartel, o Di\u00e1rio de Lisboa destacava tr\u00eas coisas: segundo a intersindical e as comiss\u00f5es de trabalhadores de Lisboa, \u201cs\u00f3 um governo de esquerda\u201d podia \u201cevitar uma guerra civil, o caos e uma anarquia\u201d, tal vacina multipotente contra todas as maleitas. J\u00e1 a direc\u00e7\u00e3o do Sindicato dos Jornalistas estava suspensa \u2013 \u201csabendo-se, como se sabe, que os corpos gerentes eram integrados por jornalistas afectos ou ao PS ou ao MRPP\u201d \u2014 depois de uma vota\u00e7\u00e3o \u00e0 pressa num plen\u00e1rio de jornalistas. A culminar tudo isso, um grupo de alentejanos resolveu acampar em Bel\u00e9m para protestar contra o Governo, mas tinham um problema: n\u00e3o tinham onde cozinhar, uma prioridade para qualquer portugu\u00eas que se preze. L\u00e1 o \u201cpoder popular\u201d disponibilizou o refeit\u00f3rio da Companhia dos Transportes Mar\u00edtimos, naquilo que \u00e9 descrito pelos jornalistas desse jornal como uma \u201cli\u00e7\u00e3o de solidariedade e exemplo de luta contras as tend\u00eancias direitistas do VI Governo\u201d, tamb\u00e9m ele chamado de \u201cgolpista\u201d. Eram outros tempos \u2014 tamb\u00e9m no jornalismo \u2014 e o 25 de Novembro s\u00f3 chegaria na semana seguinte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A 21 de Novembro de 1975, o mais revolucion\u00e1rio dos juramentos aconteceu no quartel dos Regimento de Artilharia&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18548,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,6916,1404,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,6918,6917,32,23,24,33,58,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-18547","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-cromos-do-verao-quente","11":"tag-cronica","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-news","20":"tag-noticias","21":"tag-noticias-principais","22":"tag-noticiasprincipais","23":"tag-p2-verao","24":"tag-p2-verao-2025","25":"tag-portugal","26":"tag-principais-noticias","27":"tag-principaisnoticias","28":"tag-pt","29":"tag-sociedade","30":"tag-top-stories","31":"tag-topstories","32":"tag-ultimas","33":"tag-ultimas-noticias","34":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18547","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18547"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18547\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}