{"id":185630,"date":"2025-12-12T16:49:07","date_gmt":"2025-12-12T16:49:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/185630\/"},"modified":"2025-12-12T16:49:07","modified_gmt":"2025-12-12T16:49:07","slug":"ultraprocessados-representam-62-dos-novos-alimentos-no-brasil-e-impulsionam-aumento-de-obesidade-e-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/185630\/","title":{"rendered":"Ultraprocessados representam 62% dos novos alimentos no Brasil e impulsionam aumento de obesidade e c\u00e2ncer"},"content":{"rendered":"<p>Com um faturamento anual que rivaliza com o Produto Interno Bruto (PIB) de na\u00e7\u00f5es inteiras, girando em torno de US$ 1,9 trilh\u00e3o, a ind\u00fastria de alimentos ultraprocessados \u00e9 o setor mais lucrativo, e, segundo um crescente consenso cient\u00edfico, o mais nocivo do complexo alimentar global.<\/p>\n<p>No Brasil, esse avan\u00e7o j\u00e1 \u00e9 constatado nos dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, que revelam que, dos 39 mil novos produtos lan\u00e7ados entre 2020 e 2024, 62% s\u00e3o ultraprocessados, enquanto apenas 18,4% s\u00e3o in natura ou minimamente processados. Paralelamente, a participa\u00e7\u00e3o desses itens na dieta dos brasileiros mais que dobrou desde os anos 1980, saltando de 10% para 23%.\u00a0<\/p>\n<p>Em entrevista ao <strong>Jornal Op\u00e7\u00e3o<\/strong>, a presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia de Goi\u00e1s (SBEM-GO), Mar\u00edlia Gabriela Zanier Gomes, recorre \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que embasa o Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>\u201cA gente tem visto muito essa quest\u00e3o de ultraprocessados atualmente, o que a gente observa s\u00e3o v\u00e1rias pesquisas que mostram que esses alimentos podem aumentar o risco de obesidade e v\u00e1rias outras doen\u00e7as cr\u00f4nicas, incluindo c\u00e2nceres\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Ela explica os quatro grupos da classifica\u00e7\u00e3o NOVA, desenvolvida pelo N\u00facleo de Pesquisas Epidemiol\u00f3gicas em Nutri\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade da Universidade de S\u00e3o Paulo (Nupens\/USP). No topo, est\u00e3o os alimentos in natura e minimamente processados (Grupo 1), seguidos pelos ingredientes culin\u00e1rios de base, que s\u00e3o processados\u00a0 ou minimamente processados (Grupo 2), como \u00f3leos e sal.<\/p>\n<p>\u201cA\u00ed o grupo 3, alimentos processados, e o 4 entraria, ent\u00e3o, os alimentos e bebidas ultraprocessados\u201d, detalha. Esses \u00faltimos, segundo a endocrinologista, sequer entram na pir\u00e2mide alimentar tradicional. \u201cIsso porque o ideal \u00e9 que a gente evite ao m\u00e1ximo esses alimentos\u201d.<\/p>\n<p>Para ilustrar a diferen\u00e7a, a m\u00e9dica contrasta exemplos: \u201cA gente tem alimentos que s\u00e3o processados, por exemplo, a fruta em calda, queijo, uma conserva de legumes\u201d.<\/p>\n<p>Em oposi\u00e7\u00e3o, define o ultraprocessado: \u201cUltraprocessado seria mais refrigerante, comida de saquinho, bolacha recheada\u2026 A gente sabe que s\u00e3o coisas que n\u00e3o precisa\u201d.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 a \u201chiperpalatabilidade\u201d que desregula o c\u00e9rebro e a sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>A principal preocupa\u00e7\u00e3o da endocrinologia, segundo Mar\u00edlia, concentra-se no impacto metab\u00f3lico desses produtos. \u201cA gente sabe que s\u00e3o alimentos que s\u00e3o muito palat\u00e1veis. Come\u00e7amos a comer e queremos mais\u201d.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno, conhecido como hiperpalatabilidade, interfere diretamente nos centros de saciedade do c\u00e9rebro. \u201cEnt\u00e3o essa comida de saquinho, esse refrigerante, a gente come\u00e7a a comer, parece que o nosso c\u00e9rebro n\u00e3o processa t\u00e3o bem e a gente vai querendo mais e mais e mais\u201d, descreve. Consequentemente, esse ciclo leva ao aumento do consumo cal\u00f3rico, elevando os \u00edndices de pessoas acima do peso.<\/p>\n<p>A obesidade, por sua vez, atua como porta de entrada para uma cascata de comorbidades. \u201cEla traz junto a diabetes, a hipertens\u00e3o\u201d, alerta a especialista. Al\u00e9m disso, o elo com o c\u00e2ncer \u00e9 direto e duplo.<\/p>\n<p>Primeiro, por componentes espec\u00edficos: \u201cA gente sabe que, por exemplo, consumindo mais de 50 gramas por dia dessas carnes processadas podem aumentar o risco de c\u00e2ncer de intestino\u201d. Depois, pela pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de obesidade que os ultraprocessados fomentam. \u201cA gente tem isso comprovado, que a obesidade se relaciona tamb\u00e9m a v\u00e1rios tipos de c\u00e2nceres\u201d.<\/p>\n<p><strong>Acesso e custo fazem um invers\u00e3o da riqueza alimentar<\/strong><\/p>\n<p>Um dos pontos mais cr\u00edticos destacados pela presidente da SBEM-GO \u00e9 o vi\u00e9s socioecon\u00f4mico do consumo. \u201cS\u00e3o alimentos muito baratos. Ent\u00e3o, uma bolacha de pacotinho, um biscoito recheado, a gente v\u00ea muito mais propaganda do que outros alimentos\u201d, observa.<\/p>\n<p>Ela cita a quest\u00e3o tribut\u00e1ria como um fator distorcivo. \u201cOs refrigerantes estavam com pre\u00e7os at\u00e9 melhores que a \u00e1gua, por exemplo. Ent\u00e3o isso facilita o consumo\u201d.<\/p>\n<p>A praticidade, somada ao baixo custo, cria uma armadilha. \u201cA gente fala que \u00e9 muito mais f\u00e1cil, por exemplo, se voc\u00ea estiver na rua e comprar uma comida de saquinho, um refrigerante, do que voc\u00ea comer um alimento mais saud\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno, segundo ela, reflete-se at\u00e9 na agricultura. \u201cA gente v\u00ea alimentos que s\u00e3o muito ricos em distribui\u00e7\u00e3o e planta\u00e7\u00f5es, como o caso das grandes planta\u00e7\u00f5es de soja, milho, e a gente v\u00ea at\u00e9 uma queda de planta\u00e7\u00f5es de outros alimentos, como feij\u00e3o e arroz\u201d.<\/p>\n<p>Recentemente, a m\u00e9dica participou de um debate no Conselho Regional de Medicina do Estado de Goi\u00e1s (Cremego) sobre o tema, que incluiu a exibi\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio \u201cComida de Mentira\u201d. O filme, que ser\u00e1 veiculado por uma plataforma de streaming, refor\u00e7a justamente esses dados nacionais sobre o aumento do consumo entre as popula\u00e7\u00f5es economicamente mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Quais os danos os ultraprocessados podem causar?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A endocrinologista Sandra Fernandes, tamb\u00e9m entrevistada pela reportagem, aprofunda a explica\u00e7\u00e3o sobre os mecanismos fisiol\u00f3gicos dos danos. Ela ressalta que os ultraprocessados s\u00e3o caracterizados por excesso de a\u00e7\u00facar, gordura de m\u00e1 qualidade, sal e um grandeza de aditivos, al\u00e9m da car\u00eancia de nutrientes essenciais.\u00a0<\/p>\n<p>Pela hiperpalatabilidade, esse consumo excessivo e r\u00e1pido provoca picos glic\u00eamicos. Adicionalmente, \u201cs\u00e3o alimentos que alteram a barreira intestinal, ent\u00e3o deixam passar subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias que v\u00e3o para corrente sangu\u00ednea, e isso vai aumentar a quantidade de inflama\u00e7\u00e3o no nosso corpo\u201d.<\/p>\n<p>Esse estado inflamat\u00f3rio cr\u00f4nico de baixo grau \u00e9 o terreno f\u00e9rtil para o desenvolvimento de uma s\u00e9rie de doen\u00e7as. \u201cAumenta o risco de obesidade, de resist\u00eancia insul\u00ednica e tamb\u00e9m de diabetes tipo 2, e tamb\u00e9m contribui para outras doen\u00e7as, como gordura no f\u00edgado, o aumento do colesterol, triglicer\u00eddeos, e para o aparecimento da s\u00edndrome metab\u00f3lica\u201d, enumera Sandra.<\/p>\n<p>A s\u00edndrome metab\u00f3lica, por sua vez, \u00e9 um conjunto de fatores que eleva o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto e AVC.<\/p>\n<p><strong>Dados nacionais confirmam que o excesso \u00e9 regra nos ultraprocessados<\/strong><\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es das especialistas goianas s\u00e3o validadas por pesquisas de abrang\u00eancia nacional. Um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em parceria com o Nupens\/USP, publicado no peri\u00f3dico Scientific Reports, analisou 10 mil produtos ultraprocessados em supermercados brasileiros.<\/p>\n<p>Os resultados mostram que 98,8% continham aditivos cosm\u00e9ticos (corantes, aromatizantes, espessantes), e 97,1% apresentavam pelo menos um ingrediente cr\u00edtico em excesso, como o s\u00f3dio, gorduras ou a\u00e7\u00facares livres.<\/p>\n<p>Essa f\u00f3rmula de sucesso comercial \u2013 hiperpalatabilidade, longa dura\u00e7\u00e3o e apelo visual \u2013 esconde uma composi\u00e7\u00e3o padr\u00e3o danosa. A praticidade estampada nas embalagens coloridas e no marketing agressivo, especialmente voltado para crian\u00e7as, tem um pre\u00e7o oculto.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas acabam substituindo as refei\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis, que s\u00e3o mais equilibradas, por esse tipo de alimento. Por causa disso, vai surgindo mais doen\u00e7as, e voc\u00ea trocar isso por h\u00e1bito saud\u00e1vel depois, \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d, destaca a endocrinologista.<\/p>\n<p><strong>Apelo global por regula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No dia 18 de novembro, a revista The Lancet publicou uma s\u00e9rie de artigos assinados por 43 especialistas de todo o mundo, incluindo o brasileiro Carlos Monteiro, criador da classifica\u00e7\u00e3o NOVA. O documento \u00e9 um apelo por pol\u00edticas p\u00fablicas para conter o consumo de ultraprocessados, apontados como drivers globais da pandemia de obesidade e doen\u00e7as cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Os pesquisadores destacam que o poder corporativo concentrado, no qual apenas oito empresas controlam cerca de 42% do mercado global, alimenta esse ciclo, com lucros que \u201campliam sua produ\u00e7\u00e3o, influ\u00eancia pol\u00edtica e presen\u00e7a de mercado, moldando dietas em escala global\u201d.<\/p>\n<p>Entre as medidas defendidas est\u00e3o: a sinaliza\u00e7\u00e3o de aditivos e excessos nutricionais nas embalagens; a restri\u00e7\u00e3o da publicidade, em especial a infantil; a sobretaxa\u00e7\u00e3o de produtos ultraprocessados para subsidiar alimentos frescos para popula\u00e7\u00f5es carentes; e a proibi\u00e7\u00e3o da venda em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Neste \u00faltimo ponto, o Brasil \u00e9 citado como caso de refer\u00eancia positiva. O Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE) estabeleceu que, a partir de 2026, pelo menos 90% dos alimentos ofertados nas escolas da rede p\u00fablica devem ser in natura ou minimamente processados, reduzindo o espa\u00e7o para os ultraprocessados no ambiente escolar.<\/p>\n<p><strong>Qual o melhor caminho?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Questionada sobre uma forma segura de incluir ultraprocessados, Mar\u00edlia \u00e9 direta: \u201c\u00c9 melhor evitar\u201d. Sandra complementa: \u201cN\u00e3o existe recomenda\u00e7\u00e3o para consumir alimento ultraprocessado. O ideal \u00e9 que n\u00e3o fa\u00e7a parte da rotina da gente\u201d.<\/p>\n<p>Ambas ressaltam que o consumo eventual, espor\u00e1dico, tem impacto distinto do consumo habitual, mas a meta deve ser a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>O caminho apontado retorna \u00e0 simplicidade. \u201cO ideal \u00e9 que a gente priorize alimentos naturais, as refei\u00e7\u00f5es caseiras\u201d, afirma Sandra.<\/p>\n<p>J\u00e1 Mar\u00edlia refor\u00e7a a import\u00e2ncia da classifica\u00e7\u00e3o adequada para guiar as escolhas. \u201cEu n\u00e3o posso falar que um presunto, que \u00e9 uma carne processada, e um frango, por exemplo, eles s\u00e3o iguais\u201d.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jornalopcao.com.br\/ultimas-noticias\/cancer-de-pele-e-o-tipo-de-tumor-mais-frequente-no-brasil-medico-alerta-sobre-riscos-e-a-importancia-da-fotoprotecao-774192\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">C\u00e2ncer de pele \u00e9 o tipo de tumor mais frequente no Brasil; m\u00e9dico alerta sobre riscos e a import\u00e2ncia da fotoprote\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jornalopcao.com.br\/ultimas-noticias\/homem-e-preso-em-goiania-apos-tentar-matar-a-companheira-queimada-mulher-esta-em-estado-grave-na-uti-774212\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Homem \u00e9 preso em Goi\u00e2nia ap\u00f3s tentar matar a companheira queimada; mulher est\u00e1 em estado grave na UTI<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com um faturamento anual que rivaliza com o Produto Interno Bruto (PIB) de na\u00e7\u00f5es inteiras, girando em torno&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":185631,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[1468,726,2553,116,32,33,117,2371],"class_list":{"0":"post-185630","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-alimentos","9":"tag-brasil","10":"tag-goias","11":"tag-health","12":"tag-portugal","13":"tag-pt","14":"tag-saude","15":"tag-ultraprocessados"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115707626326699042","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=185630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185630\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/185631"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=185630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=185630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=185630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}