{"id":187228,"date":"2025-12-14T00:26:12","date_gmt":"2025-12-14T00:26:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/187228\/"},"modified":"2025-12-14T00:26:12","modified_gmt":"2025-12-14T00:26:12","slug":"ha-muita-gente-a-espera-que-o-ayatollah-morra-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/187228\/","title":{"rendered":"&#8220;H\u00e1 muita gente \u00e0 espera que o ayatollah morra&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA), Tun\u00edsia, \u00cdndia, Reino Unido e, claro, o Ir\u00e3o. Desde muito jovem o jornalista Hooman Majd viveu em v\u00e1rias partes do mundo. \u00c9 filho de um diplomata que representou em v\u00e1rias embaixadas o regime do x\u00e1 Mohammad Reza Pahlavi, que governou o Ir\u00e3o antes da Revolu\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica. Entre col\u00e9gios privados norte-americanos e brit\u00e2nicos, o jovem circulava entre as elites de v\u00e1rios pa\u00edses e tinha uma vida relativamente desafogada. Mas tudo mudou quando os ayatollahs tomaram o poder.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3o que mal conhecera \u2014 vivera no pa\u00eds durante pouco tempo sucessivamente \u2014 transformou-se de um momento para o outro. O pai, que na altura era o embaixador iraniano no Jap\u00e3o, foi despedido. Hooman Majd estava nos Estados Unidos a estudar e, deixando de receber dinheiro dos pais, ficou quase sem nada. Teve de sobreviver nos EUA, pa\u00eds onde vive hoje em dia, e at\u00e9 chegou a ser um imigrante ilegal no pa\u00eds.<\/p>\n<p>As conex\u00f5es e uma pitada de sorte levaram-no \u00e0 ind\u00fastria musical, onde trabalhou de perto com m\u00fasicos como Carlos Santana, U2 e a banda The Cranberries. Nas fun\u00e7\u00f5es que desempenhava, lembra ao Observador que era um \u201cdiplomata\u201d, ou melhor, um<strong> \u201cministro sem portef\u00f3lio\u201d<\/strong> da PolyGram, a empresa onde trabalhava e onde servia de ponte entre as exig\u00eancias dos artistas e as exig\u00eancias do mundo corporativo. Mas a crise que o setor atravessou com a queda abrupta da venda de CDs \u2014 e a democratiza\u00e7\u00e3o da Internet \u2014 levaram-no a outras carreiras: \u00e0 de jornalista e escritor.<\/p>\n<p>Foi enquanto jornalista que Hooman Majd redescobriu o Ir\u00e3o. Ap\u00f3s 32 anos sem ter estado no pa\u00eds onde nasceu, o cidad\u00e3o norte-americano e iraniano voltou \u00e0s ruas de Teer\u00e3o. E criou uma extensa rede de contactos, colaborando com as autoridades do pa\u00eds e trabalhando para o canal de televis\u00e3o NBC News. No seu novo livro de mem\u00f3rias \u2014\u00a0Minister Without Portfolio: Memoir of a Reluctant Exile (Ministro Sem Portef\u00f3lio: Mem\u00f3rias de um Ex\u00edlio Relutante, sem edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas)\u00a0\u2014, o jornalista recorda o seu percurso da vida: desde ser filho de um diplomata do regime do x\u00e1 at\u00e9 entrevistar os Presidentes da Rep\u00fablica Isl\u00e2mica.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/unnamed-1.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\"\/>    <\/p>\n<p><strong>No livro, aborda o sentimento de nunca pertencer a lado nenhum, de n\u00e3o ter nenhum s\u00edtio para chamar de casa. Pode explicar melhor como esse sentimento influenciou a sua vida?<br \/><\/strong>Penso que muitos emigrantes t\u00eam a mesma sensa\u00e7\u00e3o, ainda que de formas diferentes. A emigra\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de s\u00e9culos de pessoas a andar de um lado para o outro e, especialmente no novo mundo, com a Am\u00e9rica e a Am\u00e9rica do Sul, os emigrantes vieram para criar uma nova vida e tornaram-se cidad\u00e3os e parte desse mundo. Houve sempre um elemento de desloca\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no s\u00e9culo XX, os pa\u00edses vivenciaram grandes convuls\u00f5es pol\u00edticas e h\u00e1 mais refugiados pol\u00edticos do que emigrantes por motivos econ\u00f3micos. Tornou-se mais predominante esse sentimento de \u201cOnde \u00e9 que a minha casa?\u201d O meu caso \u00e9 que fui criado de forma muito particular. Fui sempre criado fora do Ir\u00e3o. Mas, de certa forma, como tinha dois pais iranianos, sentia que era iraniano, apesar de n\u00e3o viver no pa\u00eds. Era algo \u00fanico relativamente aos meus pais \u2014 os meus pais n\u00e3o tinham uma base no Ir\u00e3o, ao contr\u00e1rio de muitas fam\u00edlias. Eles n\u00e3o vieram da aristocracia, onde todos tinham uma casa em Teer\u00e3o. N\u00f3s nem sequer t\u00ednhamos uma casa em Teer\u00e3o.<\/p>\n<p><b>O seu pai era diplomata durante os tempos do x\u00e1\u00a0Mohammad Reza Pahlavi e andava sempre a saltitar de lugar para lugar. No meio desse processo e dessas mudan\u00e7as de casa, sentia-se iraniano?<br \/><\/b>Tinha essa identidade muito forte como iraniano, mas tamb\u00e9m andava em escolas norte-americanas e tinha de jurar lealdade \u00e0 bandeira dos Estados Unidos, algo que na altura era normal. Mas sabia que n\u00e3o era norte-americano. Os amigos eram norte-americanos, mas eu n\u00e3o era. E tamb\u00e9m havia essa sensa\u00e7\u00e3o de que, ao ser-se emigrante, n\u00e3o se tem um lugar a que se possa chamar casa. Se algu\u00e9m me pergunta, por exemplo, de onde sou, posso dizer que sou de Nova Iorque, mas n\u00e3o \u00e9 bem verdade, mesmo tendo passado metade da minha vida na cidade de Nova Iorque e mais de metade da minha vida nos Estados Unidos. E quando digo que sou do Ir\u00e3o, a pessoa que est\u00e1 a colocar a quest\u00e3o n\u00e3o tem ideia de que tipo de pessoa sou. Existe essa confus\u00e3o, que vai sempre existir.<\/p>\n<p><b>Durante a inf\u00e2ncia, passou muito tempo em v\u00e1rios s\u00edtios \u2014 Tun\u00edsia, Reino Unido, Estados Unidos. Como \u00e9 que isso o influencia hoje em dia?<br \/><\/b>A influ\u00eancia \u00e9 que posso viver em qualquer lugar e sobrevivo. Ao estar exposto a tantas culturas diferentes \u2014\u00a0 n\u00e3o vou dizer que estou acostumado a cada uma delas, porque era uma crian\u00e7a \u2014, adapto-me facilmente a diferentes ambientes. Acho que viajar se torna\u00a0mais f\u00e1cil e torna-se mais f\u00e1cil relacionar-me em v\u00e1rios contextos. Vou dar um pequeno exemplo. Vivi na \u00cdndia quando era muito pequeno e n\u00e3o voltei ao pa\u00eds durante muitos anos. At\u00e9 que fui convidado para uma confer\u00eancia e voei para Nova Deli. E n\u00e3o s\u00f3 comi tudo sem ficar doente (o que \u00e9 algo extraordin\u00e1rio para algu\u00e9m que n\u00e3o tinha ido \u00e0 \u00cdndia em 50 anos), como a atmosfera, os cheiros, entrar no t\u00e1xi, andar de um lado para o outro\u2026 Foi algo familiar de uma forma estranha. N\u00e3o tem muito sentido, porque n\u00e3o tenho mem\u00f3rias vividas da \u00cdndia, mas existe uma familiaridade. Outro exemplo que posso dar \u00e9 que, quando comecei a ir para a Jamaica, relacionei-me muito rapidamente com o povo jamaicano. N\u00e3o digo a classe alta jamaicana, com a qual normalmente me relacionava. Mas com as pessoas em bairros mais pobres em Kingston\u2026 Senti-me confort\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA), Tun\u00edsia, \u00cdndia, Reino Unido e, claro, o Ir\u00e3o. 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