{"id":18738,"date":"2025-08-06T18:45:19","date_gmt":"2025-08-06T18:45:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/18738\/"},"modified":"2025-08-06T18:45:19","modified_gmt":"2025-08-06T18:45:19","slug":"o-livro-que-dividiu-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/18738\/","title":{"rendered":"O livro que dividiu o mundo"},"content":{"rendered":"<p>Ele \u00e9, provavelmente, o <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/noticias-sobre\/livro\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">livro<\/a> mais comentado e menos lido de todos os tempos. Um monumento de 2 384 p\u00e1ginas e 2 kg em sua nova, vermelha e robusta edi\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/www.ubueditora.com.br\/capital-padrao.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">rec\u00e9m-publicada pela Ubu<\/a>. Uma obra que se prop\u00f4s a revolucionar o modo de entender o maior sistema socioecon\u00f4mico vigente at\u00e9 hoje e, junto ao seu autor, inspirou outras <strong>revolu\u00e7\u00f5es<\/strong>, nem sempre bem-sucedidas, tempos depois.<\/p>\n<p><strong>O Capital<\/strong>, do alem\u00e3o <strong>Karl Marx<\/strong> (1818-1883), veio \u00e0 lume com seu primeiro volume em 1867, sendo profusamente reeditado e enxertado nas edi\u00e7\u00f5es publicadas posterior ou postumamente. \u00c9 daqueles <strong>cl\u00e1ssicos<\/strong> que, mais de 150 anos depois de sair, continuam sendo cobrados em cursos universit\u00e1rios, dando origem a teses acad\u00eamicas, mobilizando planos pol\u00edticos, estampando camisetas, sendo xingados (agora nas redes)\u2026<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, in\u00fameras vezes, fala-se mais do <strong>mito<\/strong> \u2013 seu autor virou adjetivo, pai de uma teoria e de um movimento \u2013 e das interpreta\u00e7\u00f5es e apropria\u00e7\u00f5es do catatau do que do seu conte\u00fado em si. Eis, ent\u00e3o, uma oportunidade \u2013 para os corajosos ou interessados que se disp\u00f5em a tomar f\u00f4lego e tempo para encar\u00e1-lo \u2013 de travar contato direto com os tr\u00eas tomos de uma obra que, como entrega seu subt\u00edtulo, buscou fazer a <strong>\u201ccr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>              O Capital<br \/>\n              <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"434\" height=\"672\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ubu_capital.jpg\" class=\"attachment-size-large size-size-large\" alt=\"capital\" title=\"ubu_capital\"\/><\/p>\n<p>O Capital n\u00e3o \u00e9 leitura f\u00e1cil e acolhedora. Em primeiro lugar, \u00e9 preciso penetrar a <strong>l\u00f3gica<\/strong> e o <strong>vocabul\u00e1rio<\/strong> articulados por Marx at\u00e9 chegar a suas <strong>an\u00e1lises hist\u00f3ricas, sociol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas<\/strong> \u2013 mais prazerosas, ao menos para este jornalista e leitor. \u201cS\u00f3 aqueles que n\u00e3o temem a fadiga de galgar escarpas abrutas \u00e9 que t\u00eam a chance de chegar a cimos luminosos\u201d, adverte o pr\u00f3prio autor em um pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o francesa de 1872.<\/p>\n<p>Marx parte de uma revis\u00e3o cr\u00edtica dos pensadores liberais que enxergavam o modus operandi capitalista dos s\u00e9culos XVIII e XIX como o modelo econ\u00f4mico com o qual a natureza havia dotado a humanidade. Ele desmonta essa ideia, defendendo que esse sistema \u00e9 circunscrito a leis e momentos hist\u00f3ricos \u2013 portanto, algo que n\u00e3o seria eterno.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>Para deslindar suas teses, o alem\u00e3o de origem judia faz uma anatomia minuciosa do<strong> metabolismo social <\/strong>\u2013 ele pr\u00f3prio emprega met\u00e1foras e compara\u00e7\u00f5es com a biologia<strong>.<\/strong> Ou seja, exp\u00f5e como a sociedade passou a converter o <strong>trabalho<\/strong> \u2013 no sentido mais abstrato e gelatinoso do termo \u2013 em mercadoria, dinheiro e depois capital\u2026 Investiga, com base em suas observa\u00e7\u00f5es da sociedade inglesa (a mais industrializada de sua \u00e9poca) e dos apontamentos de outros autores, as <strong>metamorfoses<\/strong> que consolidaram um sistema que ultrapassa fronteiras nacionais.<\/p>\n<p>O calhama\u00e7o de Marx, portanto, tra\u00e7a um grande <strong>diagn\u00f3stico<\/strong>. Muito embora fale de luta de classes e bote o dedo em problemas no seio desse mecanismo, n\u00e3o oferece, nesta obra, prescri\u00e7\u00f5es para sarar ou expurgar o capitalismo. N\u00e3o se trata da <strong>\u201cb\u00edblia do comunismo\u201d<\/strong>, como desavisados podem pensar, nem se v\u00ea aqui a mesma pegada de manuscritos como o Manifesto Comunista, escrito ao lado do parceiro Frederich Engels, o editor do ambicioso O Capital.<\/p>\n<p>Contudo, no imagin\u00e1rio, esta e outras obras do homem, com seu s\u00e9quito de defensores e detratores, ajudaram a <strong>dividir o mundo<\/strong>. Em ideias, partidos e lutas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O ponto \u00e9 que O Capital, como atesta a did\u00e1tica introdu\u00e7\u00e3o do pesquisador <strong>Fernando Rugitsky,<\/strong> citando outro especialista em Marx, o brit\u00e2nico David Harvey, n\u00e3o desvela s\u00f3 o processo econ\u00f4mico em si, mas o meio hist\u00f3rico e o caldo cultural do qual ele se alimenta: \u201cShakespeare, os gregos, Fausto, Balzac, Shelley, contos de fadas, lobisomens, vampiros e poesia, encontramos tudo isso em suas p\u00e1ginas, ao lado de in\u00fameros economistas pol\u00edticos, fil\u00f3sofos, antrop\u00f3logos, jornalistas e cientistas pol\u00edticos\u2019\u201d.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"fernando rugistky\" class=\"size-large wp-image-5865227\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/fernando-rugistky.jpg\" border=\"0\" title=\"fernando rugistky\" width=\"650\" height=\"877\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Foto: Ubu\" data-image-caption=\"O professor de economia Fernando Rugistky, que assina a introdu\u00e7\u00e3o da nova edi\u00e7\u00e3o\" data-image-title=\"\" data-image-source=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\"\/><br \/>\n     O professor de economia Fernando Rugistky, que assina a introdu\u00e7\u00e3o da nova edi\u00e7\u00e3o (Foto: Ubu\/Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>A<a href=\"https:\/\/www.ubueditora.com.br\/capital-padrao.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> nova e esmerada edi\u00e7\u00e3o da Ubu<\/a> \u00e9 baseada na tradu\u00e7\u00e3o de Regis Barbosa e Fl\u00e1vio Kothe supervisionada por Paul Singer, vem recheada de notas (do pr\u00f3prio autor e dos tradutores e comentadores) e traz as esclarecedoras apresenta\u00e7\u00f5es de Rugitsky, hoje professor da University of West of England Bristol, na Inglaterra. Ela mesma convertida em mercadoria, com box \u00e0 venda por R$ 459,00, \u00e9 a prova de que, sob louvores ou ataques, o sistema que se prop\u00f4s a eviscerar segue adiante\u2026 E de que obras que dividem opini\u00f5es e chacoalham a hist\u00f3ria sobrevivem \u2013 ainda que nem sempre devidamente lidas.<\/p>\n<p>Com a palavra, Fernando Rugitsky.<\/p>\n<p><strong>Pensando nos leigos, nos desavisados e nos enviesados, o senhor poderia resumir o que O Capital \u00e9\u2026 E o que ele n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>O Capital \u00e9 um dos pontos mais altos da cultura moderna. Um livro que leva adiante os legados do que havia de mais avan\u00e7ado no pensamento ocidental em meados do s\u00e9culo XIX. O historiador Eric Hobsbawm argumentou que, com esse livro, Marx tornou-se o herdeiro principal dos fil\u00f3sofos e economistas cl\u00e1ssicos. Como escrevi na introdu\u00e7\u00e3o da nova edi\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 dif\u00edcil pensar em uma obra semelhante em termos de ousadia, abrang\u00eancia e riqueza de detalhes. Ela combina um esfor\u00e7o conceitual extenso e rigoroso com reconstru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas inovadoras e minuciosas. Marx efetivamente buscou articular o conjunto do pensamento que o antecedeu, levando adiante suas contribui\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>O objetivo principal do livro \u00e9 compreender a l\u00f3gica e a din\u00e2mica das sociedades capitalistas e, por essa raz\u00e3o, ele \u00e9 considerado uma refer\u00eancia fundamental mesmo por muitas pessoas que n\u00e3o se identificam com o projeto pol\u00edtico de Marx. O livro n\u00e3o \u00e9, como \u00e0s vezes alguns imaginam, uma discuss\u00e3o sobre o socialismo ou sobre a pol\u00edtica anticapitalista.<\/p>\n<p><strong>Qual seria o legado mais urgente da obra nestes tempos de dom\u00ednio de big techs, ascens\u00e3o chinesa e guerras comerciais?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que essa nova edi\u00e7\u00e3o \u00e9 especialmente bem-vinda por tr\u00eas motivos. Primeiro: porque o livro ainda oferece uma das mais poderosas teorias para compreendermos as sociedades em que vivemos. Segundo: em uma \u00e9poca em que o discurso de extrema-direita tem aproveitado o sofrimento das pessoas para atacar bodes expiat\u00f3rios, Marx oferece uma excelente vacina ao mostrar que os problemas que enfrentamos s\u00e3o causados por uma forma de domina\u00e7\u00e3o impessoal. N\u00e3o se trata, segundo ele, de responsabilizar esse ou aquele grupo, mas de colocar em quest\u00e3o a pr\u00f3pria forma como organizamos nossas sociedades. Terceiro: em\u00a0um momento em que jovens sofrem cada vez mais com depress\u00e3o e desesperan\u00e7a, O Capital pode oferecer uma perspectiva de futuro, ao destrinchar os limites das sociedades capitalistas e as tend\u00eancias que apontam para al\u00e9m delas.<\/p>\n<p><strong>Nesse sentido, Marx foi vision\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Evidentemente, ele n\u00e3o aborda em O Capital fen\u00f4menos que vieram \u00e0 tona muito depois, como as big techs, a ascens\u00e3o chinesa e os conflitos comerciais atuais. Mas sua forma de interpreta\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica capitalista, ao enfatizar os mecanismos que empurram a acumula\u00e7\u00e3o de capital para se expandir e impor sua l\u00f3gica de funcionamento sobre \u00e1reas cada vez maiores da vida, antecipou uma s\u00e9rie de desdobramentos das sociedades em que vivemos e segue sendo uma forma poderosa de interpretar muitos aspectos do presente que t\u00eam sua origem justamente nessa l\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>O Capital faz, digamos, um grande diagn\u00f3stico do sistema capitalista. Em que medida j\u00e1 contempla certas \u201cprescri\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas\u201d ao modelo socioecon\u00f4mico?<\/strong><\/p>\n<p>O foco do livro \u00e9 mesmo compreender o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. E uma de suas contribui\u00e7\u00f5es principais \u00e9 argumentar que se trata de um modo de produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico, isto \u00e9, que surgiu em um certo momento, de um certo modo e que n\u00e3o tende a existir para sempre. Afinal, a hist\u00f3ria das sociedades humanas \u00e9 marcada pela ascens\u00e3o e pelo decl\u00ednio de uma s\u00e9rie de outros modos de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>Um dos principais esfor\u00e7os realizados por Marx no livro foi justamente criticar a economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica (representada por Adam Smith e David Ricardo, principalmente) por naturalizar as sociedades capitalistas, como se elas fossem uma culmina\u00e7\u00e3o natural de certas propens\u00f5es humanas. Al\u00e9m disso, em algumas partes do livro, Marx apresenta uma an\u00e1lise hist\u00f3rica minuciosa para argumentar que as lutas das classes trabalhadoras por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, maiores sal\u00e1rios e jornadas mais curtas s\u00e3o inerentes \u00e0 din\u00e2mica das sociedades capitalistas e garantiram o cumprimento (mesmo que parcial) de algumas promessas n\u00e3o cumpridas dos ideais iluministas. N\u00e3o s\u00e3o exatamente prescri\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas, mas sem d\u00favida balizas para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Compartilhe essa mat\u00e9ria via:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ele \u00e9, provavelmente, o livro mais comentado e menos lido de todos os tempos. 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