{"id":187822,"date":"2025-12-14T12:34:14","date_gmt":"2025-12-14T12:34:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/187822\/"},"modified":"2025-12-14T12:34:14","modified_gmt":"2025-12-14T12:34:14","slug":"o-nazismo-visto-a-partir-de-uma-aldeia-nos-alpes-da-baviera-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/187822\/","title":{"rendered":"O nazismo visto a partir de uma aldeia nos Alpes da Baviera \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>O facto de, em 1933, uma ideologia violenta, desumana e radical ter conseguido impor-se, atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas (ainda que condicionadas e manipuladas) numa na\u00e7\u00e3o europeia com elevados n\u00edveis de instru\u00e7\u00e3o e numerosos e inestim\u00e1veis contributos nos campos das ci\u00eancias, da filosofia, das artes e das letras, e ter-se mantido no poder durante 12 anos, sem significativa contesta\u00e7\u00e3o interna, mesmo quando a sorte da guerra se tornou adversa e as condi\u00e7\u00f5es de vida se tornaram extremamente penosas, \u00e9 um enigma que tem suscitado intermin\u00e1veis discuss\u00f5es e variadas hip\u00f3teses explicativas. As reflex\u00f5es sobre os factores e mecanismos que ter\u00e3o levado cidad\u00e3os alem\u00e3es de natureza pacata e com mundivid\u00eancias e aspira\u00e7\u00f5es burguesas a apoiar o regime nazi, ou, pelo menos, a aceitarem-no docilmente, t\u00eam gerado livros suficientes para preencher muitas estantes, mas o assunto est\u00e1 longe de estar esgotado, como prova A village in the III Reich: How ordinary lives were transformed by the rise of fascism (2022), da escritora brit\u00e2nica Julia Boyd (com contributos de Angelika Patel), que a D. Quixote editou recentemente em portugu\u00eas, com tradu\u00e7\u00e3o de Isabel Amaral e o t\u00edtulo Uma aldeia no III Reich: Como vidas vulgares foram transformadas pela ascens\u00e3o do fascismo.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08165755\/uma-aldeia-no-terceiro-reich.webp\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"535\" height=\"800\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A capa de \u201cUma Aldeia no Terceiro Reich\u201d, de Julia Boyd, na edi\u00e7\u00e3o portuguesa da Dom Quixote<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do nazismo tende a escolher uma perspectiva ampla e a dar particular relev\u00e2ncia aos grandes centros urbanos, \u00e0s figuras not\u00e1veis, \u00e0s reviravoltas pol\u00edticas e aos grandes embates b\u00e9licos, mas Boyd escolheu analisar o fen\u00f3meno a partir de um insignificante povoado rural numa regi\u00e3o perif\u00e9rica da Alemanha: \u201cAo colocar uma aldeia sob o microsc\u00f3pio, este livro pretende contribuir [\u2026] para compreendermos por que raz\u00e3o os alem\u00e3es reagiram a Hitler da forma como reagiram [e] como \u00e9 que as suas atitudes em rela\u00e7\u00e3o ao regime evolu\u00edram\u201d (pg. 27). No que respeita ao foco e \u00e0 inten\u00e7\u00e3o, Uma aldeia no III Reich tem afinidades com a obra cl\u00e1ssica de Milton Mayer, Eles pensavam que eram livres: Os alem\u00e3es 1933-1945 (1955, They thought they were free: The Germans 1933-1945), publicada em 2025 pela Tinta-da-China. Mayer elegeu Marburg (referida no livro como \u201cKronenberg\u201d), uma cidade universit\u00e1ria de 20.000 habitantes no estado de Hesse, e Boyd escolheu Oberstdorf, uma aldeia nos Alpes de Allg\u00e4u (Allg\u00e4uer Alpen), no sul da Baviera (talvez fosse mais rigoroso chamar-lhe vila, uma vez que a sua popula\u00e7\u00e3o residente rondava, na d\u00e9cada de 1930, c.4000 habitantes, mas, uma vez que a edi\u00e7\u00e3o portuguesa adoptou a designa\u00e7\u00e3o \u201caldeia\u201d, \u00e9 esta que se emprega neste artigo).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170019\/karte-allgauer-alpen.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"960\" height=\"554\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">A regi\u00e3o dos Alpes de Allg\u00e4u, com Oberstdorf no centro<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as abordagens de Mayer e Boyd foram completamente diferentes. O livro de Mayer assenta quase exclusivamente nas entrevistas que fez, em 1953, a dez habitantes de Marburg (todos homens adultos) que tinham vivido uma parte substancial da sua vida sob o III Reich e com os quais Mayer estabeleceu uma rela\u00e7\u00e3o de proximidade, ou at\u00e9 mesmo de amizade (refere-se a eles, ao longo do livro, como \u201camigos\u201d). Mayer considerou que os seus entrevistados eram \u201csuficientemente diferentes entre si no que diz respeito ao meio social de origem, ao car\u00e1cter, \u00e0 intelig\u00eancia e ao temperamento para, em conjunto, serem representativos de alguns milh\u00f5es ou dezenas de milh\u00f5es de alem\u00e3es e parecidos o bastante para terem sido nazis\u201d, mas uma das cr\u00edticas mais correntes e pertinentes ao seu livro \u00e9 precisamente a falta de representatividade da amostra \u2013 para come\u00e7ar, por n\u00e3o incluir uma \u00fanica mulher.<\/p>\n<p>Como o trabalho de Boyd come\u00e7ou oitenta anos depois da subida de Hitler ao poder, \u00e9 natural que n\u00e3o tenha podido apoiar-se fortemente em testemunhos directos desse tempo. Em contrapartida, beneficiou de ter como ponto de partida um detalhado trabalho de recolha de informa\u00e7\u00e3o: o quinto volume da hist\u00f3ria oficial de Oberstdorf, encomendado pelo munic\u00edpio a Angelika Patel \u2013 descendente de uma das mais antigas fam\u00edlias da aldeia \u2013 e que foi publicado em 2010 com o t\u00edtulo Uma aldeia no espelho do seu tempo: Oberstdorf 1918-1952 (Ein Dorf im Spiegel seiner Zeit: Oberstdorf 1918-1952). Com a inestim\u00e1vel ajuda de Patel e de v\u00e1rios historiadores e arquivistas locais (no activo ou reformados), com entrevistas aos derradeiros sobreviventes e com minucioso trabalho de pesquisa em arquivos oficiais e particulares, not\u00edcias de jornal, actas, cartas e di\u00e1rios (alguns deles in\u00e9ditos), Boyd criou uma detalhada tape\u00e7aria, em que as hist\u00f3rias individuais dos habitantes da pacata aldeia alpina contra o tempestuoso pano de fundo da hist\u00f3ria da Alemanha e do mundo nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940. Ainda que o per\u00edodo fulcral coberto por Uma aldeia no III Reich seja 1933-45, Boyd acaba por encaixar-se nas balizas cronol\u00f3gicas do livro de Patel \u2013 de 1918 ao in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950 \u2013 uma vez que o fen\u00f3meno do nazismo \u00e9 indissoci\u00e1vel da derrota alem\u00e3 na I Guerra Mundial e dos anos conturbados da Rep\u00fablica de Weimar, e tamb\u00e9m porque, para a compreens\u00e3o do nazismo, \u00e9 indispens\u00e1vel saber como se comportaram os alem\u00e3es ap\u00f3s o colapso do III Reich, como reagiram \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o por for\u00e7as estrangeiras, como reergueram um pa\u00eds em ru\u00ednas e como lidaram com um trecho sinistro do seu passado.<\/p>\n<p>Num meio editorial onde abundam os livros sobre o desembarque da Normandia ou a Batalha de Stalingrad, Julia Boyd tem vindo a destacar-se por dar a conhecer a hist\u00f3ria da Alemanha nazi na perspectiva das pessoas comuns, pois em 2017 publicara Travellers in the Third Reich, realizado a partir das impress\u00f5es registadas pelos estrangeiros que visitaram o pa\u00eds, sobretudo na d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170149\/oberstdorf-view.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"624\" height=\"358\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Vista da moderna Oberstdorf no Inverno<\/p>\n<p>Uma aldeia no III Reich e Eles pensavam que eram livres s\u00e3o dois valiosos contributos para a compreens\u00e3o no nazismo e da disponibilidade de mentes burguesas, ordeiras e civilizadas para se deixarem aliciar por ideologias totalit\u00e1rias e sanguin\u00e1rias e funcionam como complemento \u00e0 escala microsc\u00f3pica de obras de perspectiva macrosc\u00f3pica, como a monumental trilogia de Richard Evans sobre o III Reich (publicada em Portugal pelas Edi\u00e7\u00f5es 70): The coming of the Third Reich\u00a0(2003, A ascens\u00e3o do III Reich), que analisa como \u201cos nazis destru\u00edram a democracia e tomaram o poder na Alemanha\u201d, The Third Reich in power (2005, O III Reich no poder), que mostra \u201ccomo os nazis conquistaram o cora\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito de uma na\u00e7\u00e3o\u201d, e The Third Reich at war (2008, O III Reich em guerra), que cobre o per\u00edodo da II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170302\/blick-auf-oberstdorf-im-allgau.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"960\" height=\"540\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Vista da moderna Oberstdorf no Ver\u00e3o<\/p>\n<p>Uma aldeia no III Reich \u00e9 complementada pelo ap\u00eandice \u201cOs alde\u00f5es\u201d, nove p\u00e1ginas de \u201cmicro-fichas\u201d sobre as principais personagens da hist\u00f3ria de Oberstdorf sob o III Reich, mas este, ainda que seja \u00fatil, n\u00e3o substitui, de forma alguma, um \u00edndice remissivo ou, pelo menos, um \u00edndice onom\u00e1stico, uma vez que pelas 340 p\u00e1ginas de texto desfilam, num turbilh\u00e3o incessante, centenas de personagens, umas fugazes e outras recorrentes, umas famosas e outras an\u00f3nimas.<\/p>\n<p>O munic\u00edpio de Oberstdorf tem particularidades que merecem ser destacadas:<\/p>\n<p><strong>1)<\/strong> Situa-se 160 km a sudeste de Munique, no maci\u00e7o montanhoso dos Alpes de Allg\u00e4u e \u00e9 uma das povoa\u00e7\u00f5es alem\u00e3s situadas a maior altitude (813 metros).<\/p>\n<p><strong>2)<\/strong> Dadas as caracter\u00edsticas clim\u00e1ticas e topogr\u00e1ficas, o principal meio de subsist\u00eancia do munic\u00edpio foi, durante s\u00e9culos, a agricultura, a pecu\u00e1ria e a produ\u00e7\u00e3o de queijo.<\/p>\n<p><strong>3)<\/strong> As condi\u00e7\u00f5es naturais e, em particular, a deslumbrante paisagem, fizeram com que Oberstdorf ganhasse fama como est\u00e2ncia de ski e de montanhismo e como est\u00e2ncia termal. O turismo come\u00e7ou a desenvolver-se no terceiro quartel do s\u00e9culo XIX e ganhou impulso com a chegada a Oberstdorf do caminho-de-ferro, em 1888, e com a entrada em opera\u00e7\u00e3o, no final da d\u00e9cada de 1920, do telef\u00e9rico de Nebelhorn (que liga Oberstdorf \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Seealpe, a 1280 metros de altitude. Em 2019, o munic\u00edpio, que tem c.9000 habitantes, recebeu 480.000 visitantes e registou 2.6 milh\u00f5es de dormidas.<\/p>\n<p><strong>4)<\/strong> O munic\u00edpio de Oberstdorf, que faz fronteira com a \u00c1ustria, \u00e9 o territ\u00f3rio mais a sul da Alemanha; 17 km a sul da aldeia de Oberstdorf, no Haldenwanger Eck, a 1931 metros de altitude, um marco fronteiri\u00e7o assinala o ponto mais meridional da Alemanha.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170401\/grenzstein-haldenwanger-eck-blick-nach-deutschland-panoramio.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"960\" height=\"643\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Marco fronteiri\u00e7o 147, em Haldenwanger Eck, fotografado do lado austr\u00edaco<\/p>\n<p>A sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica perif\u00e9rica, a topografia e o modo de vida explicam que Oberstdorf tenha, tradicionalmente, sigo governada por uma assembleia comunit\u00e1ria, de que faziam parte os propriet\u00e1rios das 353 \u201ccasas originais\u201d da aldeia \u2013 e que eram tamb\u00e9m propriet\u00e1rios da maioria das pastagens e florestas do munic\u00edpio: \u201catrav\u00e9s da sua assembleia, os homens do povo administravam a sua heran\u00e7a, como tinham feito durante gera\u00e7\u00f5es para o bem de toda a comunidade. Ferozmente independentes, estes pequenos agricultores, comerciantes e trabalhadores estavam determinados a que nenhum senhor feudal lhes dissesse o que fazer ou ditasse quem deveria herdar as suas terras e direitos hist\u00f3ricos\u201d (Boyd, pg. 34-35).<\/p>\n<p>A partir de 1933, esta arreigada tradi\u00e7\u00e3o de autogoverna\u00e7\u00e3o entrou, inevitavelmente, em colis\u00e3o com a natureza totalit\u00e1ria do III Reich, e os alde\u00f5es n\u00e3o tiveram outro rem\u00e9dio sen\u00e3o acatar as imposi\u00e7\u00f5es do regime. Ainda assim, Oberstdorf gozou, durante algum tempo, de uma certa margem de liberdade, decorrente da sua condi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica e da atmosfera de relativo cosmopolitismo decorrente de v\u00e1rias d\u00e9cadas de afluxo tur\u00edstico.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170435\/345235fbc057644d90d9b4358d72218d.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"736\" height=\"776\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Cartaz tur\u00edstico, 1932<\/p>\n<p>A forma como cidad\u00e3os e comunidades outrora pac\u00edficas e tolerantes se deixaram seduzir pelo fascismo\/nazismo e, por entusiasmo genu\u00edno, conformismo, calculismo, medo ou \u201cesp\u00edrito de rebanho\u201d, pactuaram durante anos com regimes agressivos e desumanos \u00e9 um assunto que ganhou acrescida pertin\u00eancia no s\u00e9culo XXI com a ascens\u00e3o ao poder, nalguns pa\u00edses europeus e nos EUA, de l\u00edderes populistas de extrema-direita, alguns dos quais t\u00eam vindo a tomar uma sucess\u00e3o de medidas que visam o silenciamento da oposi\u00e7\u00e3o e da imprensa livre, o controlo do ramo judicial e a perpetua\u00e7\u00e3o no poder.<\/p>\n<p>O totalitarismo de extrema-direita da primeira metade do s\u00e9culo XX causou destrui\u00e7\u00e3o e sofrimento numa escala inaudita, pelo que poderia pensar-se que as massas teriam ficado \u201cvacinadas\u201d contra ele. Todavia, no s\u00e9culo XXI, a mem\u00f3ria hist\u00f3rica est\u00e1 a ser dilu\u00edda pelas distrac\u00e7\u00f5es, pela sobrecarga informativa e pela desinforma\u00e7\u00e3o difundida pelos pr\u00f3ceres e ide\u00f3logos da moderna extrema-direita, com o intuito de reescrever a hist\u00f3ria e tentar convencer as massas de que o nazi-fascismo n\u00e3o foi t\u00e3o tenebroso como o pintam. Assim, \u00e9 hoje poss\u00edvel ouvir, em \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social de refer\u00eancia, respeitados historiadores afian\u00e7arem que \u201cat\u00e9 1939, a Alemanha nazi foi um pa\u00eds como qualquer outro\u201d \u2013 ou seja, que a ordem pol\u00edtica e social e as liberdades individuais n\u00e3o diferiam significativamente das que vigoravam \u00e0 data na Fran\u00e7a, no Reino Unido ou na Dinamarca.<\/p>\n<p>Esta c\u00ednica e despudorada opera\u00e7\u00e3o de revisionismo hist\u00f3rico pode ser facilmente desmantelada pelo confronto com alguns dos passos dados por Hitler a partir do dia em que foi nomeado chanceler e que Boyd vai relatando ao longo do seu livro para mostrar que \u201ca transi\u00e7\u00e3o do caos pol\u00edtico de Weimar para o totalitarismo nazi foi r\u00e1pida e implac\u00e1vel\u201d (pg. 83) e n\u00e3o poupou nenhum dom\u00ednio da sociedade.<\/p>\n<p>\u25cf As elei\u00e7\u00f5es federais de 5 de Mar\u00e7o de 1933, deram a vit\u00f3ria ao NSDAP (Partido Nacional-Socialista), com 288 lugares no parlamento, o melhor resultado de sempre do partido. \u00c9 importante referir que esta vit\u00f3ria, ainda que exprimindo um forte apoio popular, n\u00e3o foi limpa: por um lado, a campanha eleitoral nazi contara com um generoso apoio financeiro dos maiores empres\u00e1rios e banqueiros alem\u00e3es, obtido numa c\u00e9lebre reuni\u00e3o que teve lugar a 20 de Fevereiro (ver <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/o-caminho-para-a-ii-guerra-mundial-como-o-impensavel-se-tornou-inevitavel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">O caminho para a II Guerra Mundial: Como o impens\u00e1vel se tornou inevit\u00e1vel<\/a>). Por outro lado, o NSDAP recorreu \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia para constranger os seus opositores, tirando partido de deter o cargo de chanceler e v\u00e1rios lugares-chave da governa\u00e7\u00e3o e de possuir uma numerosa, agressiva e bem organizada mil\u00edcia armada. Ainda assim, as regras do sistema pol\u00edtico n\u00e3o permitiam a um partido com 288 deputados \u2013 num total de 647 \u2013 governar sem o assentimento de outros partidos. Isto n\u00e3o constituiu obst\u00e1culo para Hitler, que, a 23 de Mar\u00e7o, dois dias depois de ser reconduzido ao cargo de chanceler, conseguiu fazer aprovar a Lei de Habilita\u00e7\u00e3o (Erm\u00e4chtigungsgesetz). Esta conferia-lhe \u201cplenos poderes para governar a Alemanha sem o Reichstag e prender quem quisesse, durante o tempo que entendesse [\u2026] [e] deu aos nazis meios legais para eliminar r\u00e1pida e brutalmente os seus advers\u00e1rios pol\u00edticos\u201d (pg. 84).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170536\/bundesarchiv-bild-102-14439-rede-adolf-hitlers-zum-ermachtigungsgesetz.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"800\" height=\"551\"\/><br \/>\n    Bundesarchiv<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Berlim, 23 de Mar\u00e7o de 1933: Hitler discursa na sess\u00e3o do Reichstag em que foi aprovada a Lei de Habilita\u00e7\u00e3o. A sess\u00e3o decorreu na Krolloper, j\u00e1 que o edif\u00edcio do Reichstag fora destru\u00eddo recentemente pelo inc\u00eandio que serviu de pretexto para promulgar a Lei de Habilita\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u25cf Um dia antes da promulga\u00e7\u00e3o da Lei de Habilita\u00e7\u00e3o, antevendo a necessidade de acolher a enorme quantidade de presos pol\u00edticos que esta iria gerar, foi inaugurado o campo de concentra\u00e7\u00e3o de Dachau, o primeiro de uma constela\u00e7\u00e3o maligna que, nos anos seguintes, alastraria pela Alemanha e pela Europa conquistada.<\/p>\n<p>\u25cf A 31 de Mar\u00e7o e 7 de Abril, foi promulgada a Lei da Equaliza\u00e7\u00e3o (Gleichsschaltungsgesetz), que estipulava que \u201ctodas as autoridades estatais e locais existentes, bem como todas as associa\u00e7\u00f5es e sociedades [\u2026], deveriam ser dissolvidas e reformadas \u00e0 imagem nazi\u201d (pg. 85).<\/p>\n<p>\u25cf A Lei da Equaliza\u00e7\u00e3o determinava tamb\u00e9m que \u201cmesmo as reuni\u00f5es crist\u00e3s tinham agora lugar sob uma cruz su\u00e1stica [e que] cada evento terminava invariavelmente com a can\u00e7\u00e3o \u2018Horst Wessel\u2019 [um hino nazi] e o triplo \u2018Heil\u201d\u201d (pg. 92).<\/p>\n<p>\u25cf A 1 de Abril o Governo decretou um \u201cboicote nacional \u00e0s lojas judaicas\u201d, que foi executado de acordo com um conjunto de \u201cinstru\u00e7\u00f5es extraordinariamente minuciosas [que] foram distribu\u00eddas por todo o pa\u00eds e publicadas em todos os jornais\u201d (pg. 93).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170612\/bundesarchiv-bild-102-14468-berlin-ns-boykott-gegen-judische-geschafte.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"800\" height=\"528\"\/><br \/>\n    Bundesarchiv<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Berlim, 1 de Abril de 1933: Paramilitares das SA afixam numa loja pertencente a judeus um cartaz onde se l\u00ea \u201cAlem\u00e3es! Defendei-vos! N\u00e3o compreis a judeus!\u201d<\/p>\n<p>\u25cf A 14 de Julho \u201cfoi aprovada uma lei que tornava o NSDAP o \u00fanico partido pol\u00edtico legal na Alemanha\u201d (pg. 90).<\/p>\n<p>\u25cf Foi posta em pr\u00e1tica a \u201celimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos meios de comunica\u00e7\u00e3o hostis\u201d (pg. 94).<\/p>\n<p>\u25cf A 30 de Junho de 1934 teve lugar a Noite das Facas Longas, em que \u201caltos respons\u00e1veis da SA, incluindo o seu l\u00edder, Ernst R\u00f6hm, e muitos outros vistos como uma amea\u00e7a \u00e0 autoridade de Hitler, foram brutalmente mortos\u201d (pg. 118).<\/p>\n<p>\u25cf Com a morte do presidente Von Hindenburg, a 2 de Agosto de 1934, Hitler acumulou o cargo de presidente com o de chanceler, o que foi sancionado por um plebiscito, a 14 de Agosto, em que 89% dos votantes deram o seu assentimento.<\/p>\n<p>\u25cf \u201cEm Setembro de 1935, os nazis promulgaram as Leis de Nuremberga, que negavam aos judeus a cidadania, o voto e a posse de cargos p\u00fablicos. [\u2026] Al\u00e9m disso, a lei sobre a \u2018Protec\u00e7\u00e3o do Sangue e da Honra Alem\u00e3es\u2019 proibia o casamento e o sexo extraconjugal entre judeus e arianos\u201d (pg. 119).<\/p>\n<p>\u25cf Em 1936 tornou-se obrigat\u00f3rio que os rapazes entre os 10 e os 18 anos aderissem \u00e0 Juventude Hitleriana. A obrigatoriedade foi refor\u00e7ada em 1939: \u201cqualquer rapaz que, de alguma forma, conseguisse evitar a entrada na organiza\u00e7\u00e3o verificaria mais tarde ser-lhe imposs\u00edvel conseguir um emprego ou uma vaga na universidade\u201d (pg. 163-64).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170646\/bundesarchiv-bild-133-045-hitlerjugend-zeltlager.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"800\" height=\"502\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Acampamento da Juventude Hitleriana, 1933<\/p>\n<p>Inicialmente, a popula\u00e7\u00e3o de Oberstdorf, que tinha forte pendor conservador, n\u00e3o se deixou seduzir pelo nazismo, tal como aconteceu, de resto, com a Baviera em geral. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1928 para o parlamento estadual da Baviera, a vit\u00f3ria coube ao BVP (Bayerische Volkspartei, Partido Popular B\u00e1varo, democrata-crist\u00e3o), o SPD (social-democrata) ficou em 2.\u00ba lugar e o NSDAP ficou-se por 6% dos votos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nas elei\u00e7\u00f5es estaduais de Mar\u00e7o de 1932 o NSDAP ficou a apenas dois mandatos de arrebatar o primeiro lugar ao BVP. O \u00edmpeto ascensional do NSDAP foi confirmado nas elei\u00e7\u00f5es federais de 31 de Julho de 1932, em que foi o partido mais votado, com 37% dos votos, mas quebrou-se nas elei\u00e7\u00f5es de Novembro de 1932 \u2013 as derradeiras elei\u00e7\u00f5es justas e livres no pa\u00eds \u2013, em que obteve 33% dos votos e perdeu 34 deputados no parlamento. Em Oberstdorf, contrariando a tend\u00eancia nacional, o NSDAP obteve quase 40% dos votos nestas elei\u00e7\u00f5es e o resultado atingiu 52% nas elei\u00e7\u00f5es federais de 5 de Mar\u00e7o de 1933 \u2013 em que, a n\u00edvel nacional, o NSDAP teve 44% dos votos e 288 deputados, o que lhe abriu caminho \u00e0 conquista do poder absoluto.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08170907\/1933-german-federal-election-chartssvg.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"960\" height=\"755\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Resultados das elei\u00e7\u00f5es federais de 5 de Mar\u00e7o de 1933<\/p>\n<p>Algumas das leis e medidas repressivas promulgadas pelos nazis n\u00e3o tiveram repercuss\u00f5es imediatas na vida dos habitantes de Oberstdorf, mas a governa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio foi abruptamente alterada. A 21 de Abril de 1933, \u201co conselho municipal democraticamente eleito reuniu-se pela \u00faltima vez\u201d (pg. 87), sendo substitu\u00eddo por um conselho que, dando cumprimento \u00e0 Lei de Equaliza\u00e7\u00e3o, tinha 2\/3 de conselheiros nazis (10 num total de 15). Escreve Boyd que, \u201cquando votaram em Hitler a 5 de Mar\u00e7o [n\u00e3o ocorreu aos habitantes de Oberstdorf] que o governo forte que tanto desejavam resultaria na perda de controlo sobre os seus pr\u00f3prios assuntos. [\u2026] Tr\u00eas meses ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, os novos senhores ocupavam todas as posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a na aldeia\u201d (pg. 95).<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos pontos de contacto entre o antigo e o moderno populismo de extrema-direita: equiparam o parlamentarismo a uma \u201cbandalheira\u201d e a uma \u201cpouca vergonha\u201d; denunciam grupos de parasitas (quase sempre de etnias minorit\u00e1rias) que vivem \u00e0 custa do suor do cidad\u00e3o cumpridor; prometem p\u00f4r ordem no caos e acabar com a corrup\u00e7\u00e3o; e advogam uma governa\u00e7\u00e3o com m\u00e3o firme. Por\u00e9m, quando estas for\u00e7as conseguem alcan\u00e7ar o poder, os cidad\u00e3os que as elegeram descobrem, tardiamente, que a \u201cm\u00e3o firme\u201d, que julgavam ir disciplinar os \u201coutros\u201d, tamb\u00e9m se aplica a eles; que a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi extinta, apenas passou a seguir outros circuitos e a ter outros benefici\u00e1rios; e que a turbul\u00eancia, a imprevisibilidade e os avan\u00e7os e recuos da democracia s\u00e3o prefer\u00edveis \u00e0 camisa-de-for\u00e7as do totalitarismo.<\/p>\n<p>Uma das armas mais poderosas a que os tiranos recorrem desde tempos imemoriais para suprimir a dissid\u00eancia \u00e9 a dela\u00e7\u00e3o. Todos os regimes totalit\u00e1rios se empenham em dotar o aparelho de Estado de uma pol\u00edcia pol\u00edtica numerosa, bem equipada e com amplos poderes discricion\u00e1rios. Por\u00e9m, sabem que esta for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 omnisciente, nem omnipresente, nem infal\u00edvel, pelo que h\u00e1 tamb\u00e9m que convencer os cidad\u00e3os de que eles t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de serem os olhos e ouvidos do Estado e de denunciarem as infrac\u00e7\u00f5es \u00e0 lei e os comportamentos desviantes de que t\u00eam conhecimento efectivo ou de que suspeitam. A dela\u00e7\u00e3o, mesmo quando reporta factos verdadeiros, corr\u00f3i a confian\u00e7a que \u00e9 imprescind\u00edvel ao funcionamento saud\u00e1vel da sociedade e \u00e9 ainda mais perversa quando \u00e9 direccionada para lan\u00e7ar falsas acusa\u00e7\u00f5es sobre pessoas com quem n\u00e3o se simpatiza, de quem se tem inveja ou receio (fundado ou n\u00e3o), com quem se teve ou tem um diferendo, ou cuja queda em desgra\u00e7a poder\u00e1 produzir benef\u00edcios materiais para o delator.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cGuerra Total\u201d, Boyd dedica v\u00e1rias p\u00e1ginas ao tema da dela\u00e7\u00e3o: \u201cQualquer acusa\u00e7\u00e3o, por mais trivial que fosse, era potencialmente perigosa. [\u2026] Criticar o regime, fazer coment\u00e1rios depreciativos sobre os seus l\u00edderes, espalhar boatos, envolver-se em mexericos maliciosos e contar anedotas sobre Hitler estavam entre as in\u00fameras infrac\u00e7\u00f5es criminais que podiam levar a uma longa pena de pris\u00e3o, a um campo de concentra\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo a uma execu\u00e7\u00e3o\u201d (pg. 241). Nalgumas regi\u00f5es, o governo nazi criou tribunais especializados na recep\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o de den\u00fancias, os Sondergerichte (Tribunais Especiais). Por\u00e9m, apesar de a possibilidade permanente de se ser denunciado, justa ou injustamente, ter gerado em toda a Alemanha um \u201cextraordin\u00e1rio clima de medo\u201d, o n\u00famero efectivo de den\u00fancias em Oberstdorf foi relativamente baixo: \u201centre 1939 e 1945, apenas 19 residentes (de uma popula\u00e7\u00e3o que variou entre 4000 no in\u00edcio da guerra e aproximadamente 8000 no final) foram levados ao Tribunal Especial em Munique, tendo sete casos sido arquivados\u201d (pg. 241).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08171027\/bundesarchiv-bild-183-j03166-berlin-amtsubernahme-dr-thierack.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"767\" height=\"518\"\/><br \/>\n    Bundesarchiv<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Quatro dos principais respons\u00e1veis por impregnar o sistema judicial alem\u00e3o com a ideologia nacional-socialista: da esquerda para a direita, Roland Freisler, Franz Schlegerberger, Otto Georg Thierack e Curt Rothenberger<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como Boyd n\u00e3o fornece informa\u00e7\u00e3o sobre a preval\u00eancia da den\u00fancia na Alemanha, ficamos sem saber se Oberstdorf foi um caso excepcional \u2013 qui\u00e7\u00e1 por os seus habitantes possu\u00edrem um forte sentido de comunidade e se sentirem mais leais aos seus concidad\u00e3os do que ao Estado central \u2013 ou se n\u00e3o diferia do comportamento m\u00e9dio dos alem\u00e3es. Independentemente do maior ou menor n\u00famero de den\u00fancias formais registadas na vig\u00eancia do III Reich, \u00e9 poss\u00edvel que o temor de se ser denunciado ter\u00e1 sido factor decisivo para que muitos alem\u00e3es n\u00e3o ousassem culpar Hitler pelos seus infort\u00fanios e anelassem pelo seu derrube. Acontece que a den\u00fancia n\u00e3o necessita de ser praticada para ser um mecanismo repressivo eficaz: basta que o Estado a encoraje e forne\u00e7a canais formais para o seu exerc\u00edcio para que se crie um clima de suspei\u00e7\u00e3o e medo e para que os cidad\u00e3os se sintam inibidos de exprimir ideias contr\u00e1rias \u00e0s do regime, de manifestar o seu desagrado com este, ou, pura e simplesmente, de se queixarem das agruras da vida.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, como sublinha Milton Mayer em Eles pensavam que eram livres, apenas uma parte da popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3 se ter\u00e1 sentido constrangida e angustiada por esse clima: \u201cNenhum dos meus dez amigos [os entrevistados], \u00e0 excep\u00e7\u00e3o de Hildebrandt, o criptodemocrata, sentiu desconfian\u00e7a, suspeita ou medo [\u2026] junto daqueles com quem viveu e trabalhou, nenhum foi difamado ou destru\u00eddo. O seu mundo era o mundo do nacional-socialismo. No seu seio, no seio da comunidade nazi, apenas conheceram a boa camaradagem e as preocupa\u00e7\u00f5es corriqueiras da vida quotidiana. [\u2026] N\u00e3o passavam, n\u00e3o viam, nem ouviam al\u00e9m dos limites dessa comunidade\u201d (pg. 64).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08171112\/bundesarchiv-bild-183-c0718-0052-001-volksgerichtshof-prozess-zum-20-juli-1944.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"797\" height=\"578\"\/><br \/>\n    Bundesarchiv<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Berlim, 6 de Agosto de 1944: Roland Freisler, presidente do Tribunal do Povo (Volksgerichtshof), criado em 1934 para julgar crimes pol\u00edticos, l\u00ea a senten\u00e7a dos r\u00e9us do C\u00edrculo de Kreisau, um grupo de dissidentes que se opunham ao regime nazi<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m que considerar que os 12 anos de dura\u00e7\u00e3o do III Reich talvez tenham sido insuficientes para que a grande massa da popula\u00e7\u00e3o transferisse o seu sentido de perten\u00e7a do seu c\u00edrculo de relacionamentos e da comunidade local para o Estado. A dela\u00e7\u00e3o como instrumento repressivo conheceu o seu apogeu nos regimes comunistas da URSS, da China mao\u00edsta e da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3, que duraram tempo suficiente para que houvesse gera\u00e7\u00f5es inteiras que n\u00e3o conheceram outra realidade que n\u00e3o fosse o totalitarismo e que foram doutrinadas desde tenra idade para colocar a fidelidade ao Estado acima de tudo, pelo que n\u00e3o hesitavam em denunciar os comportamentos \u201ctrai\u00e7oeiros\u201d e \u201canti-sociais\u201d dos seus familiares e amigos, incluindo progenitores e c\u00f4njuges.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que, no p\u00f3s-II Guerra Mundial, as pot\u00eancias vencedoras levaram a julgamento os nazis que tivessem cometido, planeado ou ordenado crimes de guerra ou que tivessem desempenhado cargos de relevo na estrutura do III Reich, e tentaram identificar e remover os nazis de todas as posi\u00e7\u00f5es relevantes na sociedade alem\u00e3 \u2013 o c\u00e9lebre programa de \u201cdesnazifica\u00e7\u00e3o\u201d. Menos conhecido \u00e9 o trabalho de \u201cdesnazifica\u00e7\u00e3o\u201d empreendido pela pr\u00f3pria Alemanha, atrav\u00e9s dos Spruchkammern, tribunais civis que \u201cestavam encarregados de afastar todos os nazis de cargos p\u00fablicos e posi\u00e7\u00f5es de responsabilidade no sector privado\u201d (pg. 336). Boyd trata estes assuntos no \u00faltimo cap\u00edtulo de Uma aldeia no III Reich, intitulado \u201cO ajuste de contas\u201d, que tamb\u00e9m trata da reac\u00e7\u00e3o dos alem\u00e3es \u00e0 derrota e a forma como avaliaram retrospectivamente os 12 anos em que o pa\u00eds foi liderado por Hitler.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08171149\/denazification-street.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"500\" height=\"681\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">12 de Maio de 1945: Na cidade alem\u00e3 de Trier, procede-se \u00e0 retirada da placa topon\u00edmica da \u201cRua Adolf Hitler\u201d<\/p>\n<p>Acontece que a maioria dos alem\u00e3es n\u00e3o estavam interessados em \u201cexplorarem no\u00e7\u00f5es de racismo, credulidade, conformidade e culpa colectiva\u201d (pg. 344) e, em vez de se entregarem a um doloroso exerc\u00edcio de rememora\u00e7\u00e3o e introspec\u00e7\u00e3o sobre o per\u00edodo mais tenebroso da sua hist\u00f3ria, preferiram esquec\u00ea-lo. Na verdade, para muitos nem havia nada de vergonhoso a esquecer, pois, como escreve Milton Mayer, \u201cos homens pensam primeiro nas vidas que levam e nas coisas que v\u00eaem. [\u2026] As vidas dos meus [\u2026] amigos [\u2026] melhoraram e tornaram-se mais leves com o nacional-socialismo como eles o conheceram. E agora encaram-no [\u2026] como o melhor tempo das suas vidas; pois o que \u00e9 a vida dos homens? Havia emprego e garantias de trabalho, col\u00f3nias de f\u00e9rias para os filhos e a Juventude Hitleriana para os manter longe das ruas\u201d (pg. 60).<\/p>\n<p>Se esta reac\u00e7\u00e3o egoc\u00eantrica, c\u00ednica e materialista de quem viveu na Alemanha da primeira metade do s\u00e9culo XX \u00e9 compreens\u00edvel, n\u00e3o pode dizer-se o mesmo da opera\u00e7\u00e3o de branqueamento do nazismo que, paulatinamente, tem sido operada, nos anos mais recentes, pela extrema-direita populista alem\u00e3 \u2013 e, em particular pela Alternative f\u00fcr Deutschland (AfD). Em 2018, Alexander Gauland, co-fundador da AfD e seu co-l\u00edder entre 2017 e 2019, defendeu que \u201cse os brit\u00e2nicos podem sentir orgulho em Nelson e Churchill, tamb\u00e9m os alem\u00e3es podem sentir-se orgulhosos dos feitos dos soldados alem\u00e3es nas duas guerras mundiais\u201d e considerou terminado o per\u00edodo de expia\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u201cnenhum outro povo europeu se expurgou t\u00e3o completamente dos seus pecados como o alem\u00e3o\u201d (ver cap\u00edtulo \u201cA hist\u00f3ria, entre a culpa e o orgulho\u201d em <a href=\"http:\/\/observador.pt\/especiais\/como-serias-tu-em-auschwitz-ainda-nao-sabemos-tudo-sobre-o-holocausto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">\u201cComo serias tu em Auschwitz?\u201d<\/a>).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08171224\/960px-2017-04-23-afd-bundesparteitag-in-koln-68.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"960\" height=\"634\"\/><br \/>\n    Olaf Kosinsky<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Alexander Gauland no congresso federal da AfD em Col\u00f3nia, em Abril de 2017, em que Alice Weidel (\u00e0 esquerda) foi eleita para encabe\u00e7ar, com Gauland, as listas de candidatos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es legislativas desse ano; Weidel \u00e9 hoje co-l\u00edder da AfD, com Tino Chrupalla; Gauland \u00e9, desde 2019, secret\u00e1rio honor\u00e1rio do partido e \u00e9 deputado no Bundestag<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas a AfD que assim pensa: em 2025, Elon Musk, o empres\u00e1rio multimilion\u00e1rio e megatroll da Internet que se arvorou em guru da extrema-direita global, interveio (via v\u00eddeo) num com\u00edcio da campanha eleitoral da AfD admoestando a Alemanha por estar \u201cdemasiado focada na culpa relativa ao passado\u201d e exortando-a a \u201cdeixar isso para tr\u00e1s. [\u2026] Os filhos n\u00e3o devem ser culpados pelos pecados dos pais ou dos bisav\u00f3s. [\u2026] \u00c9 bom ter orgulho na cultura alem\u00e3, nos valores alem\u00e3es, e n\u00e3o deixar que estes se percam numa esp\u00e9cie de multiculturalismo que tudo dilui\u201d (ver cap\u00edtulo \u201cUma bifurca\u00e7\u00e3o na estrada da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d em <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/civilizacao-ocidental-quando-o-crepusculo-desce\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">Civiliza\u00e7\u00e3o ocidental: Quando o crep\u00fasculo desce<\/a>).<\/p>\n<p>Para desfazer esta ret\u00f3rica sonsa bastaria ler o pungente cap\u00edtulo 12 de Uma aldeia no III Reich, intitulado \u201cTheodor Weissenberger in memoriam\u201d, que faz uma breve biografia de um rapaz nascido em Oberstdorf em 1921 e que teve o infort\u00fanio de ter nascido cego \u2013 ou, mais provavelmente, de ter cegado \u00e0 nascen\u00e7a em resultado de um erro m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Theodor n\u00e3o tinha sangue judeu ou cigano, provinha de uma fam\u00edlia prestigiada \u2013 o av\u00f4 tinha sido presidente da c\u00e2mara municipal de Oberstdorf \u2013 e desenvolveu-se normalmente do ponto de vista f\u00edsico e mental e a sua boa natureza e o seu bom aproveitamento escolar indicavam que poderia levar uma vida independente quando conclu\u00edsse os estudos. Todavia, algures em 1939, quando tinha 18 anos, o Estado alem\u00e3o determinou que Theodor fosse transferido da escola para cegos de Pfaffenhausen para o Schloss Schweinspoint, uma institui\u00e7\u00e3o para deficientes. Nem Theodor nem os pais o poderiam adivinhar, mas o rapaz fora apanhado pela engrenagem mort\u00edfera da Aktion T4, o programa de elimina\u00e7\u00e3o de \u201cvidas indignas de serem vividas\u201d.<\/p>\n<p>A racionalidade \u2013 chamemos-lhe assim \u2013 subjacente a este programa maci\u00e7o de eutan\u00e1sia involunt\u00e1ria foi exemplarmente explanada pelo Dr. Hermann Pfannm\u00fcller, psic\u00f3logo, neurologista, director do departamento de gen\u00e9tica e higiene racial na autoridade local de sa\u00fade de Augsburg e, a partir de Novembro de 1939, assessor da Aktion T4. Escreveu Pfannm\u00fcller que, no contexto da guerra desencadeada pela Alemanha nazi, \u201c\u00e9-me insuport\u00e1vel a ideia de que [\u2026] a flor da nossa juventude deva perder a sua vida na frente de batalha, para que os elementos anti-sociais d\u00e9beis e irrespons\u00e1veis possam ter uma exist\u00eancia segura no asilo\u201d (pg. 187).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08171339\/karl-brandt-ss-arzt-1.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"500\" height=\"637\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Karl Brandt, oficial das SS e m\u00e9dico pessoal de Hitler (at\u00e9 perder influ\u00eancia para o Dr. Theodor Morell), foi nomeado em 1939 para liderar a Comiss\u00e3o para o Registo de Doen\u00e7as Heredit\u00e1rias e Cong\u00e9nitas, que viria a desempenhar papel relevante na Aktion T4<\/p>\n<p>A 14 de Novembro de 1940, poucos dias depois de completar 19 anos, Theodor Weissenberger foi transportado para o hospital psiqui\u00e1trico de G\u00fcnzburg e, em data incerta, daqui para o Schloss Grafenek, um dos seis centros de eutan\u00e1sia da Aktion T4, onde os \u201celementos anti-sociais\u201d eram eliminados por gaseamento com mon\u00f3xido de carbono. Algumas semanas depois, os pais de Theodor receberam, em Oberstdorf, uma carta informando-os de que o filho morrera, \u201cinesperadamente\u201d, com \u201cmeningite\u201d.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/bordalo.observador.pt\/v2\/q:60\/rs:fill:560\/plain\/https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/08171410\/viktor-brach-defendant-in-the-doctors-trial-3x4-cropped.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"500\" height=\"668\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Viktor Brack, um oficial das SS, outro dos principais respons\u00e1veis pela Aktion T4<\/p>\n<p>O regime nazi \u00e9, justamente, verberado pelos crimes de guerra cometidos contra outras na\u00e7\u00f5es (sobretudo na Europa de Leste e nos Balc\u00e3s), pelo exterm\u00ednio em massa de etnias \u201cinferiores\u201d e pela repress\u00e3o implac\u00e1vel de dissidentes e opositores pol\u00edticos, mas \u00e9 menos frequente recordar que se encarni\u00e7ou tamb\u00e9m contra cidad\u00e3os alem\u00e3es absolutamente inofensivos, cujo \u00fanico \u201cpecado\u201d era n\u00e3o se encaixarem na utilitarista e desumana mundivid\u00eancia nazi. Ora, uma vez que estes actos <strong>1)<\/strong> foram excepcionalmente graves, reiterados e amplamente disseminados, <strong>2)<\/strong> n\u00e3o beneficiam de qualquer atenuante circunstancial e <strong>3)<\/strong> n\u00e3o est\u00e3o assim t\u00e3o distantes no tempo, tal implica que nem t\u00e3o cedo deixar\u00e3o de ser um pesad\u00edssimo lastro para a extrema-direita alem\u00e3 (e austr\u00edaca) e impedem que os descendentes dos seus perpetradores possam libertar-se definitivamente da culpa e da vergonha. Ao contr\u00e1rio do que alguma extrema-direita tenta fazer crer, o Holocausto, o genoc\u00eddio das etnias Roma e Sinti, a Aktion T4, os Einsatzgruppen, a morte pela fome ou pela viol\u00eancia de 3.3 milh\u00f5es de prisioneiros sovi\u00e9ticos e as repres\u00e1lias brutais contra popula\u00e7\u00f5es civis na Europa ocupada n\u00e3o foram \u201cdetalhes da hist\u00f3ria da II Guerra Mundial\u201d (recuperando a aprecia\u00e7\u00e3o que Jean-Marie Le Pen fez das c\u00e2maras de g\u00e1s), mas antes elementos nucleares do nazismo e da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX e um desafio, frontal e perturbador, aos conceitos de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ccultura\u201d, \u201cprogresso\u201d e \u201chumanidade\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O facto de, em 1933, uma ideologia violenta, desumana e radical ter conseguido impor-se, atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":187823,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[1305,27,28,315,445,15,16,14,8305,25,26,864,170,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-187822","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-alemanha","9":"tag-breaking-news","10":"tag-breakingnews","11":"tag-cultura","12":"tag-europa","13":"tag-featured-news","14":"tag-featurednews","15":"tag-headlines","16":"tag-histu00f3ria","17":"tag-latest-news","18":"tag-latestnews","19":"tag-literatura","20":"tag-livros","21":"tag-main-news","22":"tag-mainnews","23":"tag-mundo","24":"tag-news","25":"tag-noticias","26":"tag-noticias-principais","27":"tag-noticiasprincipais","28":"tag-principais-noticias","29":"tag-principaisnoticias","30":"tag-top-stories","31":"tag-topstories","32":"tag-ultimas","33":"tag-ultimas-noticias","34":"tag-ultimasnoticias","35":"tag-world","36":"tag-world-news","37":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115717949182468318","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187822","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=187822"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187822\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/187823"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=187822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=187822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=187822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}