{"id":187972,"date":"2025-12-14T15:38:19","date_gmt":"2025-12-14T15:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/187972\/"},"modified":"2025-12-14T15:38:19","modified_gmt":"2025-12-14T15:38:19","slug":"queridinho-do-cinema-atual-josh-oconnor-vive-um-fracassado-sem-redencao-no-novo-filme-da-mubi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/187972\/","title":{"rendered":"Queridinho do cinema atual, Josh O\u2019Connor vive um fracassado sem reden\u00e7\u00e3o no novo filme da Mubi"},"content":{"rendered":"<p>\u201cThe Mastermind\u201c chegou recentemente ao cat\u00e1logo da Mubi e traz <a href=\"https:\/\/www.revistabula.com\/151077-se-voce-pensava-que-ele-ia-falhar-errou-feio-rian-johnson-entrega-o-melhor-filme-da-franquia-knives-out-na-netflix\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Josh O\u2019Connor<\/a> no papel principal. Ele interpreta J. B. Mooney, pai de fam\u00edlia e carpinteiro aut\u00f4nomo, cuja vida profissional \u00e9 marcada pela instabilidade financeira e pela aus\u00eancia de qualquer perspectiva de ascens\u00e3o. Ambientado no in\u00edcio dos anos 1970, per\u00edodo em que os Estados Unidos enfrentavam a corros\u00e3o do sonho americano, o trauma do Vietn\u00e3 e uma crise econ\u00f4mica crescente, o filme apresenta Mooney como filho de um juiz respeitado, algu\u00e9m que, em tese, teve todas as condi\u00e7\u00f5es para prosperar.<\/p>\n<p>Mesmo inteligente, Mooney abandonou a faculdade e nunca conseguiu converter suas oportunidades em sucesso concreto. Ele tampouco ocupa o lugar da mis\u00e9ria extrema: n\u00e3o \u00e9 pobre o suficiente para ser uma v\u00edtima evidente do sistema, nem bem-sucedido o bastante para dele se beneficiar. Ele permanece num limbo social desconfort\u00e1vel. N\u00e3o foi derrotado por for\u00e7as extraordin\u00e1rias. Ele simplesmente fracassou.<\/p>\n<p>Proposta autoral e abordagem narrativa<\/p>\n<p>Escrito, dirigido e editado por Kelly Reichardt, o longa flerta com um humor melanc\u00f3lico e comportamental, interessado menos no crime em si e mais na anatomia emocional de seu protagonista. O filme observa Mooney com paci\u00eancia, buscando compreender sua sensa\u00e7\u00e3o persistente de falta de prop\u00f3sito, sua insatisfa\u00e7\u00e3o silenciosa e o desejo infantil de provar que \u00e9 mais inteligente do que aparenta.<\/p>\n<p>Sem pressa, a narrativa come\u00e7a com o plano de roubo de obras de arte e s\u00f3 se encerra depois que as consequ\u00eancias desse gesto se instalam. Mooney acredita ser \u201cuma mente brilhante por tr\u00e1s de um crime perfeito\u201d, mas Reichardt constr\u00f3i esse del\u00edrio com ironia delicada: ele n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m especial. O filme acompanha, com aten\u00e7\u00e3o quase cl\u00ednica, o momento em que a ambi\u00e7\u00e3o encontra seus pr\u00f3prios limites.<\/p>\n<p>O anti-heist<\/p>\n<p>Reichardt n\u00e3o parece interessada em oferecer li\u00e7\u00f5es de moral ou grandes reviravoltas. Seu interesse est\u00e1 em acompanhar uma vida comum atravessando o cotidiano em uma tentativa atrapalhada, e fadada ao fracasso, de transforma\u00e7\u00e3o. Em oposi\u00e7\u00e3o direta aos filmes de assalto hollywoodianos, \u201cThe Mastermind\u201c prop\u00f5e um anti-espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Mooney n\u00e3o \u00e9 particularmente corajoso, tampouco engenhoso. Seu desejo de enriquecer roubando obras de arte nasce menos da ousadia do que do t\u00e9dio e da frustra\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o mira grandes museus nem obras de artistas consagrados como Leonardo da Vinci, Picasso ou Klimt. Seu alvo \u00e9 um museu pequeno, regional, e pinturas de Arthur Dove, um modernista americano de import\u00e2ncia hist\u00f3rica, mas sem o prest\u00edgio popular ou o valor simb\u00f3lico imediato dos grandes mestres europeus.<\/p>\n<p>Essas obras n\u00e3o representam poder, glamour ou status social. S\u00e3o discretas, pouco reconhecidas e, justamente por isso, parecem inteligentes, tanto quanto Mooney gostaria de parecer.<\/p>\n<p>Simbolismo<\/p>\n<p>O assalto \u00e9 um reflexo direto de seu protagonista: pequeno, med\u00edocre e sem ousadia real. Ainda assim, \u00e9 uma tentativa desesperada de romper a estagna\u00e7\u00e3o, de produzir algum tipo de ruptura num cotidiano sufocante. Reichardt filma essa tentativa com rigor formal, utilizando uma montagem que privilegia sil\u00eancios, vazios e dura\u00e7\u00f5es alongadas. Pouco se fala. O tempo parece suspenso. A vida, imut\u00e1vel.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o golpe \u00e9 pequeno demais para provocar qualquer transforma\u00e7\u00e3o real. Depois dele, nada se reorganiza. Mooney continua preso ao mesmo lugar social e emocional, engolido por um sistema que n\u00e3o o expulsa, mas tampouco o acolhe. N\u00e3o \u00e9 pobre, n\u00e3o \u00e9 rico. \u00c9 algu\u00e9m que falhou em se encaixar.<\/p>\n<p>Em \u201cThe Mastermind\u201c, Kelly Reichardt constr\u00f3i uma cr\u00edtica silenciosa ao sonho americano ao observar n\u00e3o os que ca\u00edram do topo, mas os que nunca conseguiram escalar. Mooney n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i tr\u00e1gico nem um vil\u00e3o carism\u00e1tico. Ele \u00e9 apenas um homem comum confrontado com a percep\u00e7\u00e3o tardia de que esfor\u00e7o, intelig\u00eancia e oportunidade nem sempre conduzem a lugar algum. E talvez seja exatamente isso que faz de seu fracasso algo t\u00e3o perturbador.<\/p>\n<p>\n<strong>Filme: <\/strong><br \/>\nThe Mastermind<\/p>\n<p>\n<strong>Diretor: <\/strong><\/p>\n<p>Kelly Reichardt                <\/p>\n<p>\n<strong>Ano: <\/strong><br \/>\n2025<\/p>\n<p>\n<strong>G\u00eanero: <\/strong><br \/>\nCrime<\/p>\n<p>\n<strong>Avalia\u00e7\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p>9\/10<br \/>\n1<br \/>\n1<\/p>\n<p>Fer Kalaoun<\/p>\n<p>\n\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cThe Mastermind\u201c chegou recentemente ao cat\u00e1logo da Mubi e traz Josh O\u2019Connor no papel principal. 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