{"id":188287,"date":"2025-12-14T20:03:16","date_gmt":"2025-12-14T20:03:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/188287\/"},"modified":"2025-12-14T20:03:16","modified_gmt":"2025-12-14T20:03:16","slug":"influenciado-por-john-carpenter-bacurau-leva-o-faroeste-para-o-sertao-e-para-a-netflix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/188287\/","title":{"rendered":"Influenciado por John Carpenter, Bacurau leva o faroeste para o sert\u00e3o e para a Netflix"},"content":{"rendered":"<p>\u201cBacurau\u201d parte de um gesto simples e perturbador: uma vila do sert\u00e3o pernambucano deixa de existir nos mapas. N\u00e3o como met\u00e1fora abstrata, mas como dado concreto da narrativa. A hist\u00f3ria acompanha Bacurau, um povoado pequeno, isolado, castigado pela falta de \u00e1gua e pela neglig\u00eancia pol\u00edtica, que passa a sofrer eventos estranhos ap\u00f3s a chegada de estrangeiros. Celulares perdem sinal, o GPS falha, um drone paira sobre as casas. Desde o in\u00edcio, a ideia \u00e9 clara: quem n\u00e3o \u00e9 visto, pode ser eliminado sem ru\u00eddo.<\/p>\n<p>O roteiro investe tempo na vida cotidiana antes de qualquer confronto direto. Teresa, vivida por B\u00e1rbara Colen, retorna \u00e0 vila para o funeral da av\u00f3 e funciona como elo entre o espectador e aquele coletivo. Domingas, interpretada por <a href=\"https:\/\/www.revistabula.com\/80222-pornochanchada-com-sonia-braga-para-maiores-de-18-anos-chegou-a-netflix\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Sonia Braga<\/a>, \u00e9 m\u00e9dica, alco\u00f3latra, agressiva e profundamente ligada ao lugar. Cada personagem existe em fun\u00e7\u00e3o do grupo, n\u00e3o como arco individual cl\u00e1ssico. Essa escolha retira o conforto do protagonismo tradicional e refor\u00e7a a no\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia compartilhada.<\/p>\n<p>Viol\u00eancia hist\u00f3rica como pano de fundo<\/p>\n<p>A amea\u00e7a que se aproxima n\u00e3o surge do nada. \u201cBacurau\u201d dialoga com uma hist\u00f3ria brasileira marcada por exterm\u00ednio, explora\u00e7\u00e3o e desigualdade estrutural. O vilarejo n\u00e3o \u00e9 atacado por engano. Ele \u00e9 escolhido. O filme articula essa escolha com frieza, sem discursos explicativos. A viol\u00eancia n\u00e3o aparece como desvio moral, mas como continuidade l\u00f3gica de uma l\u00f3gica colonial que nunca foi superada.<\/p>\n<p>Michael, personagem de Udo Kier, lidera um grupo de assassinos estrangeiros que tratam o massacre como esporte. A presen\u00e7a de americanos e europeus, com atua\u00e7\u00f5es deliberadamente artificiais, cria um contraste inc\u00f4modo com os moradores de Bacurau. Essa diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 falha de casting; ela explicita a assimetria entre quem invade e quem pertence. A matan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 motivada por \u00f3dio pessoal, mas por prazer e sensa\u00e7\u00e3o de controle.<\/p>\n<p>O drone em forma de disco voador, aparentemente tosco, cumpre fun\u00e7\u00e3o decisiva. Ele vigia, delimita e antecipa a viol\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 fasc\u00ednio tecnol\u00f3gico aqui, apenas uso instrumental. O aparato moderno serve para reafirmar uma hierarquia antiga: quem observa de cima acredita ter direito sobre quem vive abaixo. O desaparecimento digital da vila refor\u00e7a esse mecanismo de apagamento sistem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Lunga e a ruptura do equil\u00edbrio<\/p>\n<p>Quando Lunga entra em cena, interpretado por Silvero Pereira, o filme assume outra temperatura. Figura marginal, temida e mitificada, Lunga representa uma viol\u00eancia acumulada que encontra vaz\u00e3o. N\u00e3o se trata de hero\u00edsmo cl\u00e1ssico, mas de resposta direta a uma amea\u00e7a de exterm\u00ednio. A narrativa n\u00e3o suaviza esse retorno da brutalidade; ela o enquadra como consequ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os ataques se tornam expl\u00edcitos, o ritmo se adensa. O confronto final \u00e9 direto, seco, sem apelo \u00e9pico. A viol\u00eancia \u00e9 gr\u00e1fica, desconfort\u00e1vel e intencionalmente sem glamour. O espectador n\u00e3o \u00e9 convidado a celebrar, mas a compreender o mecanismo que levou at\u00e9 ali. O sangue derramado n\u00e3o purifica nada; apenas interrompe uma invas\u00e3o.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias e identidade<\/p>\n<p>H\u00e1 ecos de western, de filmes de cerco e do horror pol\u00edtico de John Carpenter, mas \u201cBacurau\u201d n\u00e3o se submete a r\u00f3tulos. As refer\u00eancias existem como ferramentas, n\u00e3o como rever\u00eancia. O filme constr\u00f3i identidade pr\u00f3pria ao combinar g\u00eaneros com uma leitura local, profundamente enraizada na realidade brasileira.<\/p>\n<p>O desconforto que fica n\u00e3o vem apenas da viol\u00eancia, mas da clareza do argumento. Bacurau sobrevive porque se reconhece como comunidade. N\u00e3o h\u00e1 promessa de reden\u00e7\u00e3o, nem ilus\u00e3o de vit\u00f3ria duradoura. O que existe \u00e9 a recusa em desaparecer em sil\u00eancio. O filme n\u00e3o pede empatia; ele exige aten\u00e7\u00e3o. E isso, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 um gesto pol\u00edtico raro.<\/p>\n<p>\n<strong>Filme: <\/strong><br \/>\nBacurau<\/p>\n<p>\n<strong>Diretor: <\/strong><\/p>\n<p>Juliano Dornelles e Kleber Mendon\u00e7a Filho                <\/p>\n<p>\n<strong>Ano: <\/strong><br \/>\n2019<\/p>\n<p>\n<strong>G\u00eanero: <\/strong><br \/>\nA\u00e7\u00e3o\/Aventura\/Drama\/Mist\u00e9rio\/Suspense<\/p>\n<p>\n<strong>Avalia\u00e7\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p>10\/10<br \/>\n1<br \/>\n1<\/p>\n<p>Fernando Machado<\/p>\n<p>\n\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cBacurau\u201d parte de um gesto simples e perturbador: uma vila do sert\u00e3o pernambucano deixa de existir nos mapas.&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":188288,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[114,115,147,148,146,716,32,33],"class_list":{"0":"post-188287","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-film","11":"tag-filmes","12":"tag-movies","13":"tag-netflix","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115719713929936462","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/188287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=188287"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/188287\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/188288"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=188287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=188287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=188287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}