{"id":190097,"date":"2025-12-16T00:43:21","date_gmt":"2025-12-16T00:43:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/190097\/"},"modified":"2025-12-16T00:43:21","modified_gmt":"2025-12-16T00:43:21","slug":"nao-podemos-aceitar-este-discurso-da-inevitabilidade-da-guerra-a-europa-esta-a-beira-de-uma-guerra-irracional-mas-seremos-capazes-de-a-impedir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/190097\/","title":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o podemos aceitar este discurso da inevitabilidade da guerra&#8221;: a Europa est\u00e1 \u00e0 beira de uma &#8220;guerra irracional&#8221;, mas seremos capazes de a impedir?"},"content":{"rendered":"<p>\t                O fil\u00f3sofo Viriato Soromenho Marques aponta o dedo aos EUA e \u00e0 Europa pela forma como trataram a R\u00fassia e subestimaram Vladimir Putin. E espera que no meio da escalada a que temos vindo a assistir, os l\u00edderes pol\u00edticos de hoje tenham a intelig\u00eancia que outros tiveram no passado e saibam dar um passo atr\u00e1s. At\u00e9 porque, os desafios que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o enfrenta v\u00e3o muito al\u00e9m da possibilidade de uma guerra: &#8220;A guerra nuclear ser\u00e1 um ataque card\u00edaco. Por outro lado, a esclerose generalizada, que \u00e9 um processo de morte, mas mais lento, \u00e9 a crise ambiental&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">A Europa est\u00e1 \u00e0 beira de uma guerra nuclear? Viriato Soromenho Marques, que se diz um otimista, quer acreditar que n\u00e3o, que haver\u00e1, ainda, l\u00edderes pol\u00edticos suficientemente inteligentes para porem um trav\u00e3o na escalada que vivemos nas rela\u00e7\u00f5es entre a Europa e a R\u00fassia. Mas o fil\u00f3sofo confessa que h\u00e1 momentos em que \u00e9 dif\u00edcil ter esperan\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Eu fiz as contas. No dia 12 de janeiro do pr\u00f3ximo ano, a <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/aominuto\/6207bf6c0cf2cc58e7e276ff\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">guerra na Ucr\u00e2nia<\/a>, a tal opera\u00e7\u00e3o especial, como dizem os russos, ter\u00e1 mesma dura\u00e7\u00e3o da guerra da Alemanha com a R\u00fassia na Segunda Guerra Mundial. S\u00e3o 1.418 dias. De 22 de junho de 1941, quando Hitler invade a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica at\u00e9 8 de maio de 1945.&#8221; No dia 12 de janeiro de\u00a02026, completam-se 1.418 de guerra da Ucr\u00e2nia. &#8220;E n\u00e3o me parece que neste momento a R\u00fassia esteja esgotada&#8221;, diz. &#8220;Tudo indica que este esfor\u00e7o de guerra est\u00e1 a acontecer com economia de meios e com economia de baixas&#8221;, diz Soromenho Marques. Podemos estar numa\u00a0escalada que obrigue a R\u00fassia ou a desistir ou ent\u00e3o a passar para a fase seguinte, com as armas nucleares, antecipa. &#8220;A verdade \u00e9 que n\u00e3o temos nenhum exemplo de uma guerra anterior entre pot\u00eancias nucleares. O meu receio \u00e9 que ningu\u00e9m saiba controlar esta escalada&#8221;.<\/p>\n<p>Foi na passada sexta-feira, numa noite de inverno, fria e chuvosa, que um grupo de &#8220;corajosos&#8221;, como lhe chamou Viriato Soromenho Marques, se juntou no audit\u00f3rio da Funda\u00e7\u00e3o Arpad Szenes &#8211; Vieira da Silva para o debate\u00a0&#8220;Guerra e paz: respostas, causas e solu\u00e7\u00f5es de hoje&#8221;, o \u00faltimo dos tr\u00eas debates do <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/conferencias\/maria-helena-vieira-da-silva\/harmonia-precisa-se-numa-sociedade-tao-conturbada-como-a-nossa-temos-de-encontrar-a-capacidade-de-a-sociedade-se-pensar-em-conjunto\/20251023\/68f8c9b0d34ee0c2fed18acc\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">ciclo &#8220;Uma ideia de harmonia&#8221;<\/a>, comissariado pela jornalista Alexandra Carita. Na mesa estava tamb\u00e9m Tatiana Moura, diretora da plataforma masculinidades.pt e investigadora do CES &#8211; Centro de Estudos Sociais\u00a0da Universidade de Coimbra. Mas foi o fil\u00f3sofo e professor da Universidade Nova de Lisboa que, inegavelmente, dominou a conversa.<\/p>\n<p>Em 1983, em plena Guerra Fria, Viriato Soromenho Marques era um jovem a fazer inter-rail e passou algum tempo em casa de um amigo em Witten, na Alemanha. A estadia coincidiu com\u00a0muitas manifesta\u00e7\u00f5es pela paz devido \u00e0 crise dos &#8220;eurom\u00edsseis&#8221;. &#8220;Nessa altura, a tens\u00e3o entre o Parque de Vars\u00f3via e a Nato tinha crescido de forma exponencial. Novos m\u00edsseis estavam a ser colocados, quer no lado do lado sovi\u00e9tico, quer do lado norte-americano e europeu&#8221;, recorda o fil\u00f3sofo que tem atualmente tem 68 anos. &#8220;S\u00f3 que nessa altura existia uma literacia sobre guerra nuclear que hoje est\u00e1 completamente ausente&#8221;, diz, lembrando, por exemplo, que a m\u00e3e do amigo, que era dona-de-casa, &#8220;sa\u00eda da sua casa e ia para a rua protestar&#8221;; ou ainda que havia uma can\u00e7\u00e3o &#8220;muito med\u00edocre&#8221; que nesse ver\u00e3o foi um sucesso na Alemanha, intitulada &#8220;Besuchen Sie Europa (solange es noch steht)&#8221; &#8211; &#8220;Visita a Europa enquanto ela ainda l\u00e1 est\u00e1&#8221;, que falava precisamente dessa ideia de que &#8220;isto vai acabar tudo em breve&#8221;.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 sido esta viv\u00eancia que o despertou para o problema da guerra na Europa. Depois dessa viagem, Viriato come\u00e7ou a pesquisar e a fazer entrevista e, em 1985, publicou o livro &#8220;Europa, o risco do futuro: a incerteza estrat\u00e9gica dos anos 80&#8221;. O livro foi publicado duas semanas antes de Gorbachev ter tomado posse, iniciando o caminho para o fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>&#8220;Isto que est\u00e1 a acontecer agora [na Europa], para mim, tem 42 anos. Isto n\u00e3o come\u00e7ou no dia 24 de fevereiro de 2022&#8221;, diz, concluindo: &#8220;Para mim, isto \u00e9 um pesadelo, porque eu, nessa altura, j\u00e1 era ambientalista e olhava para estas duas grandes amea\u00e7as. Por um lado, o ataque card\u00edaco. A guerra nuclear ser\u00e1 um ataque card\u00edaco. Por outro, a esclerose generalizada, que \u00e9 um processo de morte, mas mais lento, que \u00e9 a crise ambiental&#8221;, diz, introduzindo aqui um tema que \u00e9 essencial no seu pensamento. Mas j\u00e1 l\u00e1 vamos. Para entender o que se passa hoje na Europa o professor recua, precisamente, at\u00e9 \u00e0 Guerra Fria e ao modo como esta terminou. E talvez, at\u00e9, seja preciso recuar um pouco mais, para perceber porque \u00e9 que existem guerras.<\/p>\n<p>As guerras s\u00e3o evit\u00e1veis? <\/p>\n<p>&#8220;Em toda guerra existe viol\u00eancia, mas nem toda viol\u00eancia \u00e9 guerra. Isto \u00e9 importante porque a viol\u00eancia pode ser exercida pelo indiv\u00edduo, est\u00e1 relacionada, individualmente, com a agressividade.\u00a0Mas a condi\u00e7\u00e3o fundamental para a guerra \u00e9 a exist\u00eancia de uma entidade artificial, que \u00e9 o estado &#8211; uma estrutura que \u00e9 uma pessoa coletiva, uma estrutura sem paix\u00e3o, que decide do uso da viol\u00eancia b\u00e9lica&#8221;, explica Viriato Soromenho Marques.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que para perceber as guerras \u00e9 preciso entender o conceito de estado soberano.\u00a0&#8220;A guerra e a paz entre na\u00e7\u00f5es est\u00e1 tamb\u00e9m associada \u00e0 teoria do contrato social, que se parece um pouco com a f\u00edsica at\u00f3mica&#8221;, diz. &#8220;Temos os indiv\u00edduos que s\u00e3o pequenos \u00e1tomos e que depois se organizam em mol\u00e9culas que s\u00e3o sociedades.&#8221; Na ordem pol\u00edtica e na ordem legal, existe um poder de san\u00e7\u00e3o. Mas, neste aspeto, &#8220;a analogia com a sociedade das na\u00e7\u00f5es \u00e9 imperfeita. Porque na sociedade das na\u00e7\u00f5es n\u00e3o existe esse poder de san\u00e7\u00e3o, \u00e9 um direito imperfeito. Isto \u00e9, podem existir tribunais internacionais. H\u00e1 tratados. H\u00e1 uma Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Mas n\u00e3o existe um poder comum capaz de aplicar a san\u00e7\u00e3o. As grandes pot\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o sancion\u00e1veis.&#8221;<\/p>\n<p>Thomas Hobbes, pensador dos s\u00e9culos XVI e XVII,\u00a0dizia que &#8220;os pr\u00edncipes e os Estados est\u00e3o permanentemente em estado de natureza, ou seja, preparados para a guerra. E n\u00e3o h\u00e1 nenhum tratado, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma lei internacional que leve os pr\u00edncipes a dormir descansados. \u00c9 por isso que t\u00eam ex\u00e9rcitos permanentes. Porque h\u00e1 uma desconfian\u00e7a permanente&#8221;.<\/p>\n<p>O professor cita ainda o general prusso Carl von Clausewitz (&#8220;uma esp\u00e9cie de Newton da guerra&#8221;), que no s\u00e9culo XIX escreveu a obra &#8220;Vom Krieg &#8211; Da Guerra&#8221;, que \u00e9, nas suas palavras, &#8220;o grande livro contempor\u00e2neo sobre a guerra&#8221;: &#8220;A guerra \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o em que a viol\u00eancia \u00e9 usada como instrumento de objetivos pol\u00edticos&#8221;. Clausewitz diz mais: &#8220;A guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios&#8221; &#8211; uma frase que j\u00e1 todos ouviram. O que \u00e9 que isto significa? &#8220;A guerra tem apenas uma gram\u00e1tica, a pol\u00edtica tem a l\u00f3gica. E deve ser a pol\u00edtica que comanda a guerra. Evidentemente que para fazer a guerra \u00e9 preciso tecnologia, \u00e9 preciso treino, etc. Mas isso \u00e9 a gram\u00e1tica. E no limite, se fosse poss\u00edvel, atingir esses objetivos sem a viol\u00eancia, n\u00e3o haveria guerra. Mas sem a viol\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 coa\u00e7\u00e3o. Agora, o que pode acontecer \u00e9 que, perante amea\u00e7a do uso da for\u00e7a militar, um Estado pode recuar e conceder. Clausewitz considera que quando a diplomacia falha \u00e9 muito improv\u00e1vel que se consiga retom\u00e1-la sem o sucesso das armas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Na guerra existe uma l\u00f3gica essencialmente de custo-benef\u00edcio. O pensamento estrat\u00e9gico militar \u00e9 um pensamento de custo-benef\u00edcio. \u00c9 um pensamento instrumental. A\u00a0ideia de uma guerra com as luvas brancas n\u00e3o existe&#8221;, afirma o fil\u00f3sofo. N\u00e3o existe guerra sem danos colaterais e sem crimes de guerra. O que os pol\u00edticos que tomam a decis\u00e3o de iniciar ou entrar numa guerra fazem \u00e9 tentar avaliar se vale ou n\u00e3o a pena. Isto, dito assim, pode parecer cruel, mas n\u00e3o \u00e9 novo.\u00a0&#8220;Os aliados, que venceram a Alemanha nazi, tamb\u00e9m cometeram imensos crimes. Hamburgo foi destru\u00edda em julho de 1943 e 40 mil pessoas foram mortas com bombas de f\u00f3sforo. Antes das bombas at\u00f3micas, que foram crimes de guerra tamb\u00e9m, porque visaram popula\u00e7\u00f5es civis, tivemos 700 mil japoneses que foram v\u00edtimas de bombardeamentos convencionais pela avia\u00e7\u00e3o americana. Isso s\u00e3o crimes de guerra&#8221;, sublinha.<\/p>\n<p>Uma guerra irracional &#8211; onde todos saem derrotados <\/p>\n<p>&#8220;Hoje em dia, a guerra que podemos ter ser\u00e1 uma guerra absolutamente irracional&#8221;, diz Viriato Soromenho Marques. Porqu\u00ea?\u00a0Segundo Clausewitz, a guerra, at\u00e9 1945, tinha viol\u00eancia, mas tinha racionalidade. &#8220;Ou seja, havia sofrimento, mas havia a possibilidade da vit\u00f3ria. Os povos perdiam milh\u00f5es de vidas, mas atingiam o objetivo e havia vit\u00f3ria. Hoje, uma das caracter\u00edsticas da guerra contempor\u00e2nea \u00e9 a possibilidade de haver uma guerra em que todos saem derrotados&#8221;.<\/p>\n<p>Durante os 40 anos da Guerra Fria, houve um consenso entre os dois lados, explica o professor.\u00a0A crise dos misseis de Cuba em outubro de 1962, em que o mundo esteve \u00e0 beira de uma guerra nuclear, &#8220;fez com que tanto Krushov como o Kennedy percebessem o que seria a irracionalidade da guerra&#8221;, diz Soromenho Marques. &#8220;O que Kennedy fez a seguir a outubro de 62 foi fundamentalmente um processo de constru\u00e7\u00e3o da paz, em colabora\u00e7\u00e3o com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: a cria\u00e7\u00e3o do telefone vermelho, a proibi\u00e7\u00e3o de testes nucleares e outras ideias que ele tinha para a frente, de coopera\u00e7\u00e3o alargada com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e com os pa\u00edses que estavam no Pacto de Vars\u00f3via e que o assassinato impediu. No discurso que fez em Washington em 10 de junho de 63, Kennedy dizia o seguinte: &#8216;Enquanto defendem os seus pr\u00f3prios interesses vitais, as pot\u00eancias nucleares devem evitar os confrontos que levam o advers\u00e1rio a optar entre uma retirada humilhante ou uma guerra nuclear. Adotar esse tipo de atitude, ou seja, querer insistir numa escalada em pot\u00eancias nucleares, na era nuclear, seria apenas uma prova da fal\u00eancia da nossa pol\u00edtica ou de um desejo coletivo de morte&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Ronald Reagan, que foi presidente dos EUA durante a Guerra Fria, &#8220;acolheu positivamente, com entusiasmo, Gorbachev&#8221;, diz o professor, contando algo que percebeu ao ler as mem\u00f3rias do presidente: &#8220;Em novembro de 1983, Reagan foi um dos primeiros americanos a ver o filme &#8216;The Day After&#8217; [filme fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que imagina o que aconteceria ap\u00f3s uma guerra nuclear]. E ele ficou aterrorizado com o que viu. \u00c9 interessante que em janeiro de 84 ele faz um discurso que causou surpresa. Enquanto o discurso do ano anterior tinha sido o discurso do &#8220;Guerra da Estrelas&#8221;, vamos criar um sistema no espa\u00e7o, o discurso de janeiro de 84 dizia que temos de evitar a autodestrui\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>O fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: uma oportunidade desperdi\u00e7ada <\/p>\n<p>A Guerra Fria prolongou-se, com esse jogo de conten\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, at\u00e9 \u00e0 Perestroika.\u00a0Viriato Soromenho Marques considera que\u00a0a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com a &#8220;dissolu\u00e7\u00e3o pacifica do Pacto de Vars\u00f3via&#8221;,\u00a0&#8220;\u00e9 o \u00fanico caso que temos na Hist\u00f3ria em que um sistema bipolar acaba porque o outro lado desiste&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>Inicialmente, recorda o fil\u00f3sofo, &#8220;houve imensa vontade de estabelecer rela\u00e7\u00f5es, de apoiar economicamente a transi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia porque eles fizeram foi uma coisa brutal&#8221;. Mas logo se percebeu que os interesses econ\u00f3micos se iriam sobrepor aos bem pol\u00edtico. Passou-se &#8220;de uma economia planificada que n\u00e3o funcionava para uma economia de mercado que foi pilhada. O que aconteceu no tempo do Yeltsin foi uma cat\u00e1strofe para a R\u00fassia. A R\u00fassia perdeu cinco anos de esperan\u00e7a de vida. O desemprego galopou. A mortalidade infantil aumentou imenso. O alcoolismo explodiu. A criminalidade, as mortes violentas. Depois, a forma\u00e7\u00e3o dos oligarcas, a privatiza\u00e7\u00e3o com as grandes companhias americanas por tr\u00e1s. No fundo, a R\u00fassia era um cad\u00e1ver gigantesco, 17 milh\u00f5es de quil\u00f3metros quadrados, que estava ali para ser devorado&#8221;, diz Soromenho Marques.<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma trag\u00e9dia. N\u00e3o s\u00f3 econ\u00f3mica, mas tamb\u00e9m pol\u00edtica.&#8221; A Europa poderia ter-se tornado um aliado, um parceiro. &#8220;Para isso seria necess\u00e1rio criar uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a m\u00fatua, e isso n\u00e3o aconteceu. At\u00e9 porque era preciso ter um inimigo, como \u00e9 que n\u00f3s vend\u00edamos a expans\u00e3o da Nato se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos um pap\u00e3o do lado l\u00e1?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O analfabetismo e a russofobia \u00e9 tamb\u00e9m uma coisa que nos est\u00e1 a envenenar. Envenena-nos a alma e corr\u00f3i o pensamento&#8221;, afirma Soromenho Marques.\u00a0<\/p>\n<p>Quando Putin deixou de ser um amigo &#8211; as origens da guerra da Ucr\u00e2nia <\/p>\n<p>Soromenho Marques diz que \u00e9 preciso &#8220;admitir o fracasso de todas as pol\u00edticas que come\u00e7aram em 1991, quando os Estados Unidos recusaram integrar a R\u00fassia no sistema internacional&#8221; e decidiram deixar a R\u00fassia de foram da Nato. &#8220;Esta guerra [na Ucr\u00e2nia] come\u00e7ou porque <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/russia\/porque-razao-putin-invadiu-a-ucrania-o-ponto-de-situacao-e-uma-historia-sobre-o-fim-da-uniao-sovietica-que-o-lider-russo-nunca-aceitou\/20260227\/6217b3da0cf2c7ea0f1b47fd\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">a R\u00fassia n\u00e3o tinha garantias de seguran\u00e7a<\/a>. Pediu primeiramente que a Nato n\u00e3o se alargasse, mas a Nato alargou-se. Depois pediu para n\u00e3o se alargar para zonas que s\u00e3o estrat\u00e9gicas, porque as grandes pot\u00eancias t\u00eam zonas de seguran\u00e7a, a que se chama zonas de influ\u00eancia&#8221;, e, mais uma vez, isso n\u00e3o acontece. Em 2008, em Bucareste, a Nato ofereceu um convite \u00e0 Ucr\u00e2nia. &#8220;E Putin, que nessa altura era convidado a ir \u00e0s reuni\u00f5es da Nato, fez um grande discurso a explicar porque \u00e9 que isso era uma coisa que n\u00e3o podia ser aceite pela R\u00fassia.\u00a0Ent\u00e3o, Sarkozy e Merkel falam com Bush e decidem arrastar isso para n\u00e3o arranjar problemas.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O ponto em que as coisas realmente se transformaram foi com a Pra\u00e7a Maidan. Foi a\u00ed que as coisas se tornaram mesmo azedas&#8221;, diz o fil\u00f3sofo. &#8220;Esta guerra come\u00e7ou a\u00ed. A Opera\u00e7\u00e3o Especial come\u00e7ou na Pra\u00e7a Maidan. O Viktor Yanukovych foi eleito em elei\u00e7\u00f5es reconhecidas por todos os observadores, incluindo os nossos, da Uni\u00e3o Europeia, que estiveram l\u00e1. A Victoria Nuland, que \u00e9 a vice-secret\u00e1ria de Estado [dos EUA], esteve pessoalmente a comandar as opera\u00e7\u00f5es de montagem da Pra\u00e7a Maidan. Inclusive ela, no inverno, em dezembro de 2013, faz uma pequena interven\u00e7\u00e3o, em que chega a dizer que at\u00e9 agora o nosso investimento na Ucr\u00e2nia foi de cinco milh\u00f5es de d\u00f3lares. Em 2024, o historiador ucraniano Ivan Katchanovski publicou um livro not\u00e1vel a explicar a Pra\u00e7a Maidan.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A Alemanha foi seduzida pela possibilidade de tamb\u00e9m tirar algum partido da Ucr\u00e2nia. E, al\u00e9m disso, ningu\u00e9m acreditava que a R\u00fassia tivesse capacidade para fazer esta guerra. O Biden dizia, em 2017: os russos engolem tudo o que lhe pusermos pela garganta abaixo&#8221;, lembra Soromenho Marques.\u00a0Em 2019, ainda Angela Merkel estava no poder, e a Ren Corporation, que \u00e9 o principal think tank da pol\u00edtica externa americana, publica um livro que se chamava &#8220;Extending Russia&#8221;. Esses analistas diziam que se deviam &#8220;criar dificuldades em muitos pontos \u00e0 R\u00fassia para que ela se parta. E um dos objetivos do Extending Russia \u00e9 impedir a liga\u00e7\u00e3o entre a Alemanha e a R\u00fassia. N\u00e3o s\u00f3 energ\u00e9tica. Avisadamente, eles percebiam que uma boa rela\u00e7\u00e3o entre a Alemanha e a R\u00fassia ia causar problemas a quem queria continuar a ser o dono do mundo&#8221;.<\/p>\n<p>O fim do dom\u00ednio americano e as novas rela\u00e7\u00f5es de poder <\/p>\n<p>&#8220;Os Estados Unidos est\u00e3o, nesta fase, a passar de interveniente principal, para algo diferente&#8221;, afirma Soromenho Marques. &#8220;Reconhecem que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam capacidade para aquele pesadelo que foi o unipolarismo. Biden foi o \u00faltimo representante da ideia tonta de que era poss\u00edvel os Estados Unidos dominarem o mundo e imporem, com recompensas e com viol\u00eancia e com san\u00e7\u00f5es, o dom\u00ednio. Hoje estamos num mundo completamente diferente.&#8221;<\/p>\n<p>E explica: &#8220;Do ponto de vista econ\u00f3mico, os Estados Unidos s\u00e3o uma sombra do que foram. No auge do poderio americano, no tempo do Truman, 50% do produto interno bruto era americano. Hoje, os Estados Unidos t\u00eam uma percentagem muito menor, estamos a falar de 20%, 21%, para ser otimista. Por outro lado, do ponto de vista cient\u00edfico, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente avassaladora. No ano passado, um instituto australiano publicou um estudo que era uma an\u00e1lise de 20 anos de inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no mundo, em 64 tecnologias de ponta. E o contraste \u00e9 absolutamente esmagador. Em 2003, os Estados Unidos dominavam 61 das 64. E a China dominava 3. Em 2023, a China domina 57 das 64. E os Estados Unidos dominam as outras 7.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ou seja, o que temos hoje \u00e9 um novo sistema internacional. Estamos numa fase horr\u00edvel que \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o.\u00a0As transi\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre terr\u00edveis, mesmo na vida dos indiv\u00edduos&#8221;, diz o professor. Mas h\u00e1 algo positivo nesta situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o facto de os Estados Unidos &#8220;j\u00e1 n\u00e3o considerarem a China como um inimigo com o qual poderiam entrar em guerra em 15 anos, mas como um competidor. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre competidor e inimigo&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, na\u00a0<a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/admiravelmundotrump\/este-plano-torna-a-europa-o-inimigo-numero-1-dos-estados-unidos\/2025-12-06\/6932b8bdd34e3caad84c0cb8\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional (ESN)<\/a>\u00a0os EUA assumem o objetivo de &#8220;estabilizar as rela\u00e7\u00f5es com a Europa, nomeadamente com a R\u00fassia. O que n\u00e3o parece uma coisa idiota, parece uma coisa at\u00e9 bastante sensata. N\u00e3o sei como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel algu\u00e9m que conhe\u00e7a um pouco da situa\u00e7\u00e3o atual e da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica pensar que \u00e9 poss\u00edvel excluir a R\u00fassia do sistema internacional e do sistema europeu, para mim \u00e9 uma ideia completamente absurda&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>E a Europa no meio disto tudo? <\/p>\n<p>&#8220;Estamos a viver o desastre do projeto europeu&#8221;, diz Viriato Soromenho Marques, lembrando que em 2014 publicou livro sobre a crise do euro que se chamava &#8220;Portugal na queda da Europa&#8221;. &#8220;A tese era que a crise de 2008 n\u00e3o foi uma crise das d\u00edvidas soberanas, como se dizia, foi uma crise do euro. O euro foi constru\u00eddo sem qualquer mecanismo que o tornasse uma moeda funcional, n\u00e3o era uma moeda federal. O euro foi criado sem sequer um sistema de preven\u00e7\u00e3o das crises banc\u00e1rias, por exemplo. Nada. E os pa\u00edses endividaram-se nessa altura para socorrer o sistema financeiro, os bancos, que estavam l\u00e1 soltos. Os bancos nessa fase inicial faziam o que queriam. Falh\u00e1mos. O Euro podia ser a primeira etapa do federalismo europeu, e n\u00f3s falh\u00e1mos. Em 2014, a minha perspetiva era que est\u00e1vamos a entrar num processo de decad\u00eancia europeia, de queda&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 que agora j\u00e1 estamos dentro da queda&#8221;, admite, dando como exemplo m\u00e1ximo a forma como a Europa est\u00e1 a conduzir esta guerra na Ucr\u00e2nia. &#8220;Primeiro: n\u00e3o temos nenhuma provid\u00eancia, nenhum artigo que conceda os poderes que a senhora von der Leyen se arrogou para funcionar como se fosse a comandante suprema de uma coisa que n\u00e3o existe, que s\u00e3o as For\u00e7as Armadas Europeias. Segundo: existe uma confus\u00e3o total entre a Uni\u00e3o Europeia e a NATO. Cheg\u00e1mos a este ponto. Confundimos totalmente. Terceiro: o uso de procedimentos, e dia 18 de dezembro vamos ver se isto vai acontecer ou n\u00e3o, procedimentos que v\u00e3o conduzir a uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica&#8221;.<\/p>\n<p>Depois de na passada sexta-feira a Uni\u00e3o ter aprovado, por maioria e com os votos contra da Hungria e Eslov\u00e1quia, uma decis\u00e3o para manter os ativos russos imobilizados indefinidamente no espa\u00e7o comunit\u00e1rio, o tema volta a ser debatido esta semana pelos ministros europeus dos Neg\u00f3cios Estrangeiros que v\u00e3o decidir se esse dinheiro pode ser usado para o empr\u00e9stimo de repara\u00e7\u00f5es \u00e0 Ucr\u00e2nia. &#8220;Se isso for roubado \u00e0 R\u00fassia e entregue \u00e0 Ucr\u00e2nia, eu acho que n\u00e3o somos n\u00f3s, os europeus, que n\u00e3o depositamos mais o nosso dinheiro aqui, s\u00e3o tamb\u00e9m os estrangeiros que c\u00e1 t\u00eam dinheiro que v\u00e3o para outro s\u00edtio&#8221;, antecipa o fil\u00f3sofo. &#8220;A gente do mundo \u00e1rabe, a gente da \u00c1frica, a gente da Am\u00e9rica Latina, os magnatas, etc., v\u00e3o para outro s\u00edtio. E tamb\u00e9m os portugueses. V\u00e3o transformar esses euros em ienes e v\u00e3o p\u00f4-los na China, ou transformam-nos d\u00f3lares e p\u00f5em nos Estados Unidos.&#8221;<\/p>\n<p>A escalada atual: &#8220;N\u00e3o podemos, como cidad\u00e3os, aceitar\u00a0este discurso da inevitabilidade da guerra&#8221; <\/p>\n<p>Chegamos, assim, aos dias de incerteza em que vivemos. Viriato Soromenho Marques &#8220;colecionou&#8221; uma s\u00e9rie de frases proferidas nos \u00faltimos dias por &#8220;altos respons\u00e1veis pol\u00edticos e militares da nossa Europa&#8221; e que mostram bem o estado do mundo:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>3 de novembro:<\/strong> Boris Pistorius, ministro da defesa da Alemanha, falando sobre o plano de reconstru\u00e7\u00e3o armamentista da Alemanha, que est\u00e1 outra vez na <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/bundeswehr\/boris-pistorius\/alemanha-quer-ter-o-exercito-mais-forte-da-europa-uma-nova-lei-de-recrutamento-aproxima-a-do-objetivo\/20251124\/69242548d34e3caad84b9d01\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">corrida dos armamentos<\/a>, est\u00e1 a preparar um sistema que permita a r\u00e1pida passagem para leste, ou seja, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia de 800 mil soldados da NATO, disse: &#8220;H\u00e1 quem fale que a guerra vai ser em 2029. H\u00e1 outros que dizem que vai ser em 2028. Mas h\u00e1 alguns que dizem mesmo que goz\u00e1mos em 2025 o \u00faltimo ver\u00e3o em paz&#8221;.<br \/>\u00a0<\/li>\n<li><strong>16 de novembro:<\/strong> o general Fabien Mandon, que era conselheiro do presidente Macron, da Fran\u00e7a, diz que &#8220;temos de aceitar perder os nossos filhos, sofrer economicamente&#8221;.<br \/>\u00a0<\/li>\n<li><strong>3 de dezembro:<\/strong> o almirante <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/nato\/russia\/nato-admite-resposta-mais-agressiva-as-operacoes-hibridas-da-russia\/20251201\/692d6ddad34e2bd5c6d49c5d\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Giuseppe Cavo Dragone<\/a>, chefe do Comit\u00e9 Militar da Nato, disse ao Financial Times que a Nato deveria considerar a possibilidade de uma a\u00e7\u00e3o preventiva contra a R\u00fassia.<br \/>\u00a0<\/li>\n<li><strong>11 de dezembro:<\/strong> <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/guerra\/ucrania\/nato-recorda-os-nossos-avos-e-bisavos-num-serio-aviso-feito-a-europa\/20251211\/693b021dd34e2bd5c6d4fed9\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Mark Rutte<\/a>, secret\u00e1rio-general da Nato, diz\u00a0\u00a0que &#8220;depois da Ucr\u00e2nia n\u00f3s somos o pr\u00f3ximo alvo da revolu\u00e7\u00e3o. E n\u00f3s precisamos estar prontos. Devemos estar preparados para uma guerra da escala dos nossos av\u00f3s e dos nossos bisav\u00f3s. Preparados para a possibilidade de milh\u00f5es de mortos&#8221; e dizendo que, por isso, n\u00f3s precisamos gastar 5% do PIB na corrida ao armamento.<br \/>\u00a0<\/li>\n<li>Entretanto, <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/russia\/ue\/isto-e-a-russia-a-forcar-a-mao-da-europa-putin-diz-que-esta-pronto-para-a-guerra-mas-estao-os-europeus-e-como-seria-travada\/20251205\/6931b2d6d34e2bd5c6d4bf6f\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Vladimir Putin<\/a>, interrogado numa confer\u00eancia de imprensa, a seguir \u00e0s declara\u00e7\u00f5es de Dragone, diz: &#8220;Se a Europa come\u00e7ar subitamente, o tal ataque preventivo, uma guerra contra n\u00f3s, eu penso que essa guerra acabar\u00e1 rapidamente. Isso n\u00e3o ser\u00e1 a Ucr\u00e2nia. Com a Ucr\u00e2nia n\u00f3s estamos a atuar com precis\u00e3o cir\u00fargica, cuidadosamente, isto n\u00e3o \u00e9 uma guerra no sentido direto, moderno da palavra. Se a Europa come\u00e7ar uma guerra contra a R\u00fassia, em breve, Moscovo n\u00e3o ter\u00e1 ningu\u00e9m com quem negociar.&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n<p>Perante isto, Soromenho Marques questiona-se at\u00e9 que ponto \u00e9 que aquela ideia de Kennedy, que \u00e9 fruto do conceito da &#8220;destrui\u00e7\u00e3o m\u00fatua assegurada&#8221;, ainda estar\u00e1 atualizada. &#8220;Na altura de Kennedy existiam 70 mil armas militares. Hoje existem \u00e0 volta de 13 mil. Mas 13 mil s\u00e3o suficientes para dar cabo de tudo. E eu pergunto-vos, ser\u00e1 que estas pessoas partilham desta preocupa\u00e7\u00e3o?&#8221;, pergunta.<\/p>\n<p>E ainda, mais incisivo: &#8220;A quest\u00e3o que me parece priorit\u00e1ria \u00e9 n\u00e3o aceitarmos, como cidad\u00e3os, este discurso da inevitabilidade da guerra&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Na sua perspetiva, &#8220;uma guerra em que fossem usadas armas nucleares representaria o fim da hist\u00f3ria&#8221;. &#8220;Mas vamos pensar que haver\u00e1 ainda alguma sombra de cuidado com o futuro, e alguma intelig\u00eancia tamb\u00e9m, e que n\u00e3o vamos entrar por a\u00ed&#8221;, diz, recorrendo ao que resta do seu otimismo.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Qual a possibilidade que temos de sobreviver a isto?&#8221; (e &#8220;isto&#8221; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a guerra na Ucr\u00e2nia) <\/p>\n<p>&#8220;Este conflito [na Ucr\u00e2nia] \u00e9 o centro do vulc\u00e3o. Claro que temos conflitos noutros lugares no mundo, mas a Europa \u00e9, mais uma vez, o centro do vulc\u00e3o e \u00e9 onde, de facto, a situa\u00e7\u00e3o pode ficar completamente fora de controlo. Mas eu pergunto: ser\u00e1 apenas na guerra que estamos fora do controlo? N\u00e3o me parece.&#8221;<\/p>\n<p>Viriato Soromenho Marques tem um olhar mais abrangente. &#8220;N\u00f3s, europeus, temos muito orgulho na maturidade, com todo o contributo para a ci\u00eancia e para a tecnologia moderna, mas realmente os grandes des\u00edgnios da modernidade, que eram a emancipa\u00e7\u00e3o humana, que era, como no tempo do gregos, vencer um destino, uma moira, a que est\u00e1vamos condenados pelos deuses, ou, como dizia depois Descartes, vencer a vida curta, prolongar a vida humana, impedir as trag\u00e9dias, o sofrimento &#8211; ser\u00e1 que conseguimos isso? A verdade \u00e9 que n\u00f3s constru\u00edmos um aparato gigantesco para combater esse destino natural, mas temos uma crise existencial na \u00e1rea do ambiente. Portanto, eu colocaria o nosso debate sobre a guerra e a paz no quadro de uma interroga\u00e7\u00e3o ainda mais penetrante: qual \u00e9 a possibilidade que temos de sobreviver a isto? Onde \u00e9 que erramos? E teremos a coragem para primeiro identificar as causas fundamentais e depois agir em consequ\u00eancia? Ou seja, sermos capazes de fazer a ren\u00fancia a tanta coisa que nos acostumamos a considerar fundamentais?&#8221;<\/p>\n<p>A verdade, diz, &#8220;\u00e9 que estamos numa situa\u00e7\u00e3o em que, perante os desafios existenciais que temos, nomeadamente o facto de estarmos a viver num planeta que estamos a destruir, que estamos a devorar&#8221;, dever\u00edamos estar preocupados com outros problemas. &#8220;Quando come\u00e7ou a guerra na Ucr\u00e2nia, surgiu um artigo chamado &#8216;Uma guerra no conv\u00e9s do Titanic&#8217;. N\u00f3s temos que fazer o poss\u00edvel para que ele n\u00e3o afunde. E neste momento n\u00e3o vemos muita gente que esteja preocupada com isto&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Na sua opini\u00e3o, seria necess\u00e1ria &#8220;uma vis\u00e3o integrada&#8221;. Em primeiro lugar, dever\u00edamos &#8220;tomar consci\u00eancia da gravidade da situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 evitar, n\u00e3o, \u00e9 fazer uma adapta\u00e7\u00e3o que permita a continua\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria humana e que permita uma vis\u00e3o de reconstru\u00e7\u00e3o do modo como as nossas institui\u00e7\u00f5es, nomeadamente a nossa economia, que \u00e9 uma economia primitiva. N\u00f3s precisamos de uma economia ecol\u00f3gica, ou seja, de uma economia que considere que \u00e9 um subsistema da ecologia e n\u00e3o o contr\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>C\u00edcero dizia: &#8220;Que salva\u00e7\u00e3o do povo seja a suprema lei&#8221;. O fil\u00f3sofo explicita: &#8220;Quando a gente fala em salva\u00e7\u00e3o do povo, est\u00e1 a falar fundamentalmente da vida das pessoas e da fazenda das pessoas, do que as pessoas t\u00eam. A minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a nossa vida. Porque acho que a fazenda j\u00e1 est\u00e1 perdida.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O fil\u00f3sofo Viriato Soromenho Marques aponta o dedo aos EUA e \u00e0 Europa pela forma como trataram a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":190098,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[609,836,611,27,28,607,608,333,22474,832,604,14074,135,610,476,413,445,15,16,38314,301,830,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,33,839,17,18,840,29,30,31,38313],"class_list":{"0":"post-190097","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-principais-noticias","8":"tag-alerta","9":"tag-analise","10":"tag-ao-minuto","11":"tag-breaking-news","12":"tag-breakingnews","13":"tag-cnn","14":"tag-cnn-portugal","15":"tag-comentadores","16":"tag-conferencias","17":"tag-costa","18":"tag-crime","19":"tag-debate","20":"tag-desporto","21":"tag-direto","22":"tag-economia","23":"tag-eua","24":"tag-europa","25":"tag-featured-news","26":"tag-featurednews","27":"tag-fundacao-arpad-szenes-vieira-da-silva","28":"tag-governo","29":"tag-guerra","30":"tag-headlines","31":"tag-justica","32":"tag-latest-news","33":"tag-latestnews","34":"tag-live","35":"tag-main-news","36":"tag-mainnews","37":"tag-mais-vistas","38":"tag-marcelo","39":"tag-mundo","40":"tag-negocios","41":"tag-news","42":"tag-noticias","43":"tag-noticias-principais","44":"tag-noticiasprincipais","45":"tag-opiniao","46":"tag-pais","47":"tag-politica","48":"tag-portugal","49":"tag-principais-noticias","50":"tag-principaisnoticias","51":"tag-pt","52":"tag-russia","53":"tag-top-stories","54":"tag-topstories","55":"tag-ucrania","56":"tag-ultimas","57":"tag-ultimas-noticias","58":"tag-ultimasnoticias","59":"tag-viriato-soromenho-marques"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=190097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190097\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/190098"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=190097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=190097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=190097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}