{"id":190651,"date":"2025-12-16T13:24:16","date_gmt":"2025-12-16T13:24:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/190651\/"},"modified":"2025-12-16T13:24:16","modified_gmt":"2025-12-16T13:24:16","slug":"o-portugues-que-foi-para-a-polonia-fazer-erasmus-e-se-tornou-um-dos-melhores-treinadores-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/190651\/","title":{"rendered":"O portugu\u00eas que foi para a Pol\u00f3nia fazer Erasmus e se tornou um dos melhores treinadores do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><strong>Gon\u00e7alo Feio \u00e9 um portugu\u00eas mais conhecido na Pol\u00f3nia do que no pr\u00f3prio pa\u00eds. Saiu de Lisboa em 2012, para ir fazer seis meses de Erasmus, e nunca mais voltou. Ou antes, voltou, mas s\u00f3 para f\u00e9rias ou para visitar as pessoas de quem gosta.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entretanto tornou-se uma figura medi\u00e1tica na Pol\u00f3nia, pelo sucesso que tem tido como treinador &#8211; ele que foi o primeiro a vencer em Inglaterra por uma equipa polaca -, mas tamb\u00e9m pela paix\u00e3o que passa: paix\u00e3o pelos jogadores e pelo jogo. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Foi aluno de Jos\u00e9 Mourinho na Faculdade de Motricidade Humana, deixou-se inspirar pelo agora treinador do Benfica, considera-se um metod\u00f3logo, mas diz que o mais importante \u00e9 saber cuidar das pessoas. Venha da\u00ed conhec\u00ea-lo melhor.<\/strong><\/p>\n<p><strong>LEIA TAMB\u00c9M:<\/strong><\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p style=\"margin-bottom:7px\"><strong>Come\u00e7ando pelo in\u00edcio, de onde vem o Gon\u00e7alo Feio?<\/strong><\/p>\n<p>Eu venho de Alc\u00e2ntara, em Lisboa. Cresci na Rua da Alian\u00e7a Oper\u00e1ria, no fim da freguesia de Alc\u00e2ntara, a chegar \u00e0 Ajuda. A minha m\u00e3e trabalhava num banco, o meu pai trabalhava com ferro e madeira numa f\u00e1brica. Nos \u00faltimos anos, antes da reforma, geriram um caf\u00e9 tamb\u00e9m em Alc\u00e2ntara. A minha escola prim\u00e1ria era mesmo debaixo da Ponte 25 de Abril, mais tarde estudei na Escola Rainha Dona Am\u00e9lia e, enfim, andava sempre por ali.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 que o futebol entrou na sua vida?<\/strong><\/p>\n<p>Entrou naturalmente, na escola, na rua. Eu desde muito jovem ia \u00e0 Tapadinha, ia ao Restelo. Mais tarde ia tamb\u00e9m \u00e0 Luz, que j\u00e1 era um bocadinho mais longe.<\/p>\n<p><strong>Ia sozinho \u00e0 Luz?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o, ia com um amigo, o David Ramos, que era meu vizinho. N\u00f3s os dois \u00edamos a todo o lado.<\/p>\n<p><strong>Mas ent\u00e3o esta paix\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com heran\u00e7a familiar?<\/strong><\/p>\n<p>Nada, nada. A minha fam\u00edlia \u00e9 zero ligada ao desporto.<\/p>\n<p><strong>Foi mesmo pelos amigos que se ligou ao futebol?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, foi pelos amigos e pelo que o futebol me dava. Os desportos de equipa transmitem-te disciplina e fundamentos coletivos. No fim de contas, t\u00eam muito a ver com princ\u00edpios comuns: representar uma equipa e pensar de uma forma comunit\u00e1ria. E isso marcou-me sempre.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma disciplina intr\u00ednseca aos desportos coletivos, \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Tem a ver com o que \u00e9 o dia a dia de uma crian\u00e7a ou de um jovem que vai para a escola, estuda, depois vai treinar &#8211; e quanto mais velho se \u00e9, mais tarde s\u00e3o os treinos. Portanto, o desporto coletivo obriga-te a desenvolver capacidades sociais e a ter uma disciplina muito forte. Todas essas coisas sempre me fascinaram muito.<\/p>\n<p><strong>Chegou a jogar futebol?<\/strong><\/p>\n<p>Nada de especial. Comecei a jogar no Atl\u00e9tico, ali na Tapadinha. Depois joguei no Belenenses. Ao lado do Est\u00e1dio do Restelo havia um campo, ao qual cham\u00e1vamos Maracan\u00e3, que era um campo de terra. Ainda me lembro do meu primeiro treino l\u00e1. Estava a chover, trein\u00e1vamos com cal\u00e7\u00f5es brancos e camisola azul, e eu cheguei a casa castanho. A minha av\u00f3 j\u00e1 tinha mais ou menos 90 anos e n\u00e3o gostou nada&#8230; aquilo j\u00e1 nem dava para lavar. Tamb\u00e9m passei pelo Benfica. Joguei at\u00e9 aos 16 anos, mais ou menos. Mas, como bom reconhecedor de talento, entendi rapidamente que n\u00e3o ia chegar longe a jogar futebol.<\/p>\n<p><strong>Mas era um apaixonado pelo jogo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Era, e por isso apareceu a paix\u00e3o por estudar futebol. At\u00e9 porque nos meus anos de jovem \u00e9 quando nasce o fen\u00f3meno Mourinho. Que tem uma influ\u00eancia brutal no que \u00e9 a minha gera\u00e7\u00e3o de treinadores. Acho que o sonho de ser treinador apareceu muito cedo por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align:center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765891455_796_800.webp\" width=\"800\"\/><\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p> A inspira\u00e7\u00e3o do professor Jos\u00e9 Mourinho e a import\u00e2ncia de tratar das pessoas <\/p>\n<p><strong>Quando vai para a Faculdade de Motricidade Humana j\u00e1 \u00e9 com a ideia de ser treinador?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, mas n\u00e3o \u00e9 uma ideia que eu partilhasse ou que fizesse disso uma coisa p\u00fablica. Sempre mantive as minhas coisas muito minhas, muito fechadas, apesar de ser uma pessoa de equipa. Mas eu tinha claro que o objetivo era esse.<\/p>\n<p><strong>Escolheu desporto para ser treinador ou podia ser outra coisa ligada ao desporto?<\/strong><\/p>\n<p>Era o caminho de me formar. A FMH, sendo eu de Lisboa e novamente por influ\u00eancia de Mourinho, era o caminho normal para me formar como metodologista de treino.<\/p>\n<p><strong>E como \u00e9 que foi ser aluno de Jos\u00e9 Mourinho?<\/strong><\/p>\n<p>Ele vinha algumas vezes, dava-nos palestras curtas no audit\u00f3rio da FMH e, claro, era uma pessoa que chegava de outro mundo. O melhor treinador do mundo. Acho que a grande inspira\u00e7\u00e3o &#8211; para al\u00e9m de todas aquelas publica\u00e7\u00f5es que sa\u00edram depois, de V\u00edtor Frade, de Jos\u00e9 Mourinho, da periodiza\u00e7\u00e3o t\u00e1tica e dessa parte cient\u00edfica &#8211; era aquele discurso que ele nos dava de \u2018saber muito de futebol n\u00e3o chega para ser bom treinador de futebol\u2019.<\/p>\n<p><strong>Lembro-me de uma vez, numa dessas palestras na FMH, ele ter respondido a um aluno qualquer coisa como: \u2018eh p\u00e1, se a tua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 saber t\u00e1ticas, compra um livro\u2019.<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Ou seja, h\u00e1 uma holisticidade associada \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para a profiss\u00e3o de treinador, em termos de lideran\u00e7a, de psicologia, de gest\u00e3o de equipa, de gest\u00e3o do saber fisiol\u00f3gico, de gest\u00e3o do saber t\u00e1tico&#8230; Para a minha gera\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Mourinho foi uma grande inspira\u00e7\u00e3o, por essa jun\u00e7\u00e3o da parte cient\u00edfica e humana. Eu acredito muito que o modelo de jogo tem de ser ligado ao modelo de trabalho, o modelo de trabalho tem de ser ligado ao modelo de comunica\u00e7\u00e3o, o modelo de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligado ao modelo de lideran\u00e7a e o modelo de lideran\u00e7a tem influ\u00eancia direta no modelo de jogo. Agora parece que tudo isto faz sentido e \u00e9 muito claro, mas esta causalidade de um modelo de lideran\u00e7a provocar um determinado modelo de jogo foi a\u00ed que come\u00e7ou.<\/p>\n<p><strong>Como dizia o prof. Manuel S\u00e9rgio, quem s\u00f3 sabe de futebol n\u00e3o sabe nada de futebol.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma coisa que eu fa\u00e7o muito, seja no campo ou aqui no meu gabinete, que \u00e9 chamar dois ou tr\u00eas jogadores por dia para uma conversa mais direta. \u00c0s vezes nem \u00e9 sobre futebol, \u00e9 sobre a fam\u00edlia, sobre as coisas da vida. E h\u00e1 algo que lhes digo muito: n\u00f3s, treinadores, pensamos que o ponto n\u00famero um do nosso trabalho \u00e9 preparar um bom treino ou fazer uma boa palestra t\u00e1tica. E obviamente a parte metodol\u00f3gica \u00e9 important\u00edssima, porque \u00e9 o que a equipa vai mostrar no campo. Mas n\u00e3o \u00e9 o ponto n\u00famero um.<\/p>\n<p><strong>E qual \u00e9 o ponto n\u00famero um?<\/strong><\/p>\n<p>Cuidar das pessoas. Eu acredito muito que h\u00e1 um ponto antes de tudo o resto, que \u00e9 o cuidar das pessoas. O futebol no campo \u00e9 um jogo de equipa, mas fora do campo \u00e9 um desporto individual. A prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica n\u00e3o \u00e9 igual para todos os jogadores, a prepara\u00e7\u00e3o mental n\u00e3o \u00e9 igual para todos os jogadores, h\u00e1 uma s\u00e9rie de coisas que \u00e9 diferente de jogador para jogador. Por isso \u00e9 preciso cuidar das pessoas, porque n\u00e3o h\u00e1 duas pessoas iguais, n\u00e3o h\u00e1 duas pessoas com o mesmo entorno, n\u00e3o h\u00e1 duas pessoas com os mesmos problemas, n\u00e3o h\u00e1 duas pessoas com a mesma forma de pensar. \u00c9 necess\u00e1rio estar com as pessoas quando elas mais necessitam. Joguem ou n\u00e3o joguem, o apoio tem de ser igual para todos e o tratamento tem de ser igual para todos. Ser sempre honesto com os jogadores. Eu prefiro sempre dizer uma verdade dif\u00edcil a uma mentira doce. N\u00e3o acredito em mentiras doces.<\/p>\n<p><strong>Pode dizer-se que um treinador para si tem de ter um pouco do prof. V\u00edtor Frade e um pouco do prof. Manuel S\u00e9rgio?<\/strong><\/p>\n<p>Entendo a pergunta. Ser treinador para mim \u00e9, antes de mais, uma grande responsabilidade. E, l\u00e1 est\u00e1, a parte do prof. Manuel S\u00e9rgio \u00e9 a responsabilidade de tomar conta das pessoas \u2013 e n\u00e3o falo apenas dos jogadores, falo de toda a gente no clube -, de inspirar as pessoas, de fazer com que evoluam todos os dias. E depois, sim, h\u00e1 a parte t\u00e1tica do treino. A\u00ed normalmente um treinador tem o apoio da sua equipa t\u00e9cnica, apesar de eu ser o estilo de treinador que \u00e9 um l\u00edder metod\u00f3logo, porque gosto de preparar o treino, gosto de estar na prepara\u00e7\u00e3o t\u00e1tica, n\u00e3o sou s\u00f3 um manager, digamos assim.<\/p>\n<p style=\"text-align:center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765891455_39_800.webp\" width=\"800\"\/><\/p>\n<p> ______________________<br \/>\n Pol\u00f3nia, Alemanha, Ucr\u00e2nia&#8230; e a vontade de fazer Erasmus <\/p>\n<p><strong>Voltando \u00e0 sua hist\u00f3ria, estava na FMH e um dia decidiu ir fazer Erasmus.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, era um semestre em que tinha apenas de acabar Estat\u00edstica e Psicologia. Era uma altura da minha vida em que n\u00e3o estava preso a nada, podia viajar, sair, ver outro futebol. Tinha pensado Pol\u00f3nia, Ucr\u00e2nia, Alemanha, algo assim para abrir horizontes.<\/p>\n<p><strong>Mal imaginava como isso ia mudar a sua vida&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Acabei por vir para a Pol\u00f3nia e acabei por entrar no futebol polaco, no maior clube da Pol\u00f3nia, pura e simplesmente porque fui l\u00e1 pedir.<\/p>\n<p><strong>Essa hist\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 engra\u00e7ada porque ia a passar \u00e0 porta e entrou, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi bem. Fui bater \u00e0 porta do Legia e pedir um bocadinho com o diretor da academia. Apresentei-me, mostrei-lhe uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o das escolinhas do Benfica e disse-lhe: eu n\u00e3o quero dinheiro, n\u00e3o quero trabalho e tamb\u00e9m n\u00e3o vos quero incomodar, s\u00f3 quero, j\u00e1 que vou estar c\u00e1, ver os treinos, passar os dias no clube e entender a vossa forma de trabalhar.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a resposta?<\/strong><\/p>\n<p>Eles abriram-me as portas e foi o in\u00edcio de um caminho que nunca imaginei que fosse assim.<\/p>\n<p><strong>E passava os dias nas instala\u00e7\u00f5es do Legia?<\/strong><\/p>\n<p>De manh\u00e3, para ter uns dinheirinhos, dava aulas de portugu\u00eas. \u00c0 tarde, sim, ia para o Legia e passava l\u00e1 o tempo todo, a ver treinos e a conversar com os poucos que na altura falavam ingl\u00eas. Ao fim de dois ou tr\u00eas meses, o diretor da academia veio falar comigo e disse-me: n\u00f3s queremos que tu fiques, queremos dar-te um contrato e pegas nos sub-10.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a sua rea\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u2018Estes gajos s\u00e3o doidos, eu n\u00e3o quero ficar aqui\u2019. At\u00e9 porque agora quase n\u00e3o h\u00e1 neve, mas h\u00e1 13 anos tinha neve at\u00e9 aos joelhos. Enfim, disse que ficava s\u00f3 at\u00e9 final da \u00e9poca e aceitei. Peguei nos sub-10 e aquilo correu bem, sair da zona de conforto faz-nos crescer. No fim dessa \u00e9poca, quando pensava que j\u00e1 era altura de voltar para casa, o diretor da academia comunicou-me que estavam muito felizes comigo e que queriam que eu assinasse outro contrato, para coordenar os sub-11 e ao mesmo tempo trabalhar com os sub-15. Ou seja, ia trabalhar num escal\u00e3o em que j\u00e1 havia internacionais polacos. Tive d\u00favidas, mas decidi ficar.<\/p>\n<p><strong>Quando assinou esse novo contrato, j\u00e1 o fez com a ideia de ficar na Pol\u00f3nia?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, nessa altura j\u00e1 foi diferente. Ali\u00e1s, no primeiro ano e sete meses assinei tr\u00eas contratos. Entretanto, a meio da terceira \u00e9poca, na paragem de inverno, o Legia trocou de treinador e veio Henning Berg, que como jogador tinha sido campe\u00e3o europeu com Alex Ferguson. J\u00e1 tinha sido treinador do Blackburn e, quando chegou, sentiu que precisava de um apoio maior do departamento de an\u00e1lise e prepara\u00e7\u00e3o t\u00e1tica do jogo. Foi ent\u00e3o que o clube lhe falou de mim. Houve uma reuni\u00e3o e ele pediu-me uma an\u00e1lise de um jogo do Borussia Dortmund, do Klopp. Obviamente a minha pergunta foi: mas como \u00e9 que n\u00f3s vamos jogar? Porque acho que quando se analisa um advers\u00e1rio, tem de ser dentro de uma ideia do que se quer para a nossa equipa. Fal\u00e1mos ali umas duas ou tr\u00eas horas, ele explicou-me a vis\u00e3o dele e a partir da\u00ed tive tr\u00eas dias. Foram tr\u00eas dias em que dei tudo de mim, porque queria dar aquele passo. Apresentei o relat\u00f3rio, ele ficou contente e passei a ter contrato de primeira equipa como analista. \u00a0<\/p>\n<p><strong>A partir da\u00ed come\u00e7ou o seu caminho no futebol profissional?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. A temporada acabou, ele teve uma conversa comigo e disse-me que ficaria a coordenar o departamento de an\u00e1lise, mas que precisava de mim mais no campo. Aos 24 ou 25 anos passei a ser treinador-adjunto do maior clube da Pol\u00f3nia. Foram mais um ano e meio muito bons, at\u00e9 que, como tudo na vida, esta etapa acabou.<\/p>\n<p><strong>Mas acabou por alguma raz\u00e3o em especial?<\/strong><\/p>\n<p>Foi simples, o Henning Berg foi demitido a meio da \u00e9poca e eu, ap\u00f3s cinco anos no Legia, durante seis meses n\u00e3o tive nenhum clube que me quisesse. Houve interesses, tive conversas, mas nada se concretizou e n\u00e3o ter trabalho fez-me voltar a Portugal. Aproveitei para fazer muitas confer\u00eancias, como educador de treinadores.<\/p>\n<p><strong>Chegou a terminar a licenciatura?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, est\u00e1 suspensa. Nunca mais voltei a Portugal o tempo suficiente para a acabar. \u00c9 uma das pedras que eu tenho aqui no sapato. Quero acab\u00e1-la ainda. Obviamente agora j\u00e1 tenho todos os cursos UEFA e UEFA Pro, est\u00e1 tudo feito, mas essa parte acad\u00e9mica para mim \u00e9 importante.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 porque nesse per\u00edodo em que regressou a Portugal, s\u00f3 ficou seis meses, certo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, passei meio ano em Portugal e outro clube hist\u00f3rico da Pol\u00f3nia, o Wisla Crac\u00f3via, ligou-me para ir coordenar os escal\u00f5es da academia e trabalhar com os sub-18. Eu fui, as coisas estavam a ir bem e ao fim de quatro meses o diretor desportivo disse-me que eu tinha de ir para a primeira equipa.<\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Outra vez a mesma hist\u00f3ria, vem um treinador espanhol, Kiko Ramirez, e eu entrei como adjunto dele e tamb\u00e9m a fazer a tradu\u00e7\u00e3o, porque ele s\u00f3 falava espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align:center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765891456_850_800.webp\" width=\"800\"\/><\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p> A decis\u00e3o de ser treinador principal e o in\u00edcio&#8230; na terceira divis\u00e3o <\/p>\n<p><strong>Quando se d\u00e1 a mudan\u00e7a para treinador principal?<\/strong><\/p>\n<p>Eu estive com o Kiko Ramirez no Wisla, depois fomos para a Gr\u00e9cia, e a meio da \u00e9poca voltei sozinho para a Pol\u00f3nia, para ser adjunto do Rakow. Em dois anos e meio ganh\u00e1mos duas Ta\u00e7as da Pol\u00f3nia e conseguimos dois segundos lugares. Ent\u00e3o eu senti que estava preparado e sa\u00ed para come\u00e7ar uma carreira de treinador principal.<\/p>\n<p><strong>E foi para a terceira divis\u00e3o&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Tive alguns convites, mas o projeto que mais me aliciou foi no terceiro escal\u00e3o, sim, num clube que ao fim de onze jogos estava em \u00faltimo. Houve muita gente que me disse que eu era maluco, mas eu tinha visitado o clube, tinha conhecido as ideias do dono e percebi que era um hist\u00f3rico, com uma boa massa adepta e no qual estava tudo por construir.<\/p>\n<p><strong>Tinha margem para crescer e ajud\u00e1-lo a crescer?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, porque ia ter grandes condi\u00e7\u00f5es de trabalho, mas a n\u00edvel de protocolos, estruturas e profissionalismo estava tudo por fazer. Ou seja, eu ia poder participar na vis\u00e3o e na estrat\u00e9gia de crescimento do clube.<\/p>\n<p><strong>Pegou no clube em \u00faltimo lugar e subiu duas vezes de divis\u00e3o, n\u00e3o foi?<\/strong><\/p>\n<p>Antes disso, na conversa com o dono, ele disse-me que faltavam tr\u00eas anos para o Motor cumprir 75 anos e que gostava que nessa altura o clube subisse \u00e0 Liga. Tinha tr\u00eas anos para subir duas divis\u00f5es. Ele disse-me que j\u00e1 sabia que aquele ano estava perdido, mas que contava comigo para o futuro. A\u00ed eu disse-lhe para ter calma, que s\u00f3 tinham passado onze jornadas. Mais tarde ele confessou-me que, quando lhe disse isto, ele pensou que eu era maluco.<\/p>\n<p><strong>Mas o que \u00e9 certo \u00e9 que conseguiu.<\/strong><\/p>\n<p>Na primeira \u00e9poca, peguei na equipa no \u00faltimo lugar e acab\u00e1mos por subir, n\u00e3o direto, mas atrav\u00e9s dos play-offs, a jogar a meia-final e a final em casa do advers\u00e1rio. Subimos \u00e0 II Liga e a\u00ed, com estruturas muito melhores, sa\u00ed a sete jornadas do fim com a equipa em posi\u00e7\u00e3o de subida. A minha equipa t\u00e9cnica ficou l\u00e1 toda e acabou por concluir o trabalho.<\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p> O regresso ao Legia e uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica em Stamford Bridge <\/p>\n<p><strong>Saiu para voltar ao s\u00edtio onde tudo tinha come\u00e7ado: o Legia.<\/strong><\/p>\n<p>Foi um regresso \u00e0 primeira casa, ao clube que me abriu as portas da Pol\u00f3nia. Foi um reencontro com muitas pessoas que me conheciam desde que era treinador dos sub-10, quando nem sequer falava polaco. N\u00e3o \u00e9 um clube mais, \u00e9 um clube que significa muito para mim.<\/p>\n<p><strong>Mas n\u00e3o foi visto de lado, como se ainda fosse o mi\u00fado que treinava os sub-10?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Vou contar-lhe uma coisa: no Legia, todas as ter\u00e7as-feiras o clube fazia um almo\u00e7o para os trabalhadores n\u00e3o desportivos e havia sempre um convidado para dar um pequeno mind talk. Quando fui convidado, mostrei-lhes um ecr\u00e3 com mensagens que muitos deles me tinham enviado: por exemplo, o Arthur, da manuten\u00e7\u00e3o, a senhora Maria, da contabilidade, a senhora Kinga, das limpezas, o Michal, do departamento de IT. Eram mensagens que eu guardei e que relia para ir buscar for\u00e7a e motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Depois conseguiu um feito hist\u00f3rico: apurou-se para a Liga Confer\u00eancia e tornou-se o \u00faltimo portugu\u00eas a ganhar em Stamford Bridge.<\/strong><\/p>\n<p>E fomos a primeira equipa polaca a ganhar em Inglaterra.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que esse feito foi recebido na Pol\u00f3nia?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda hoje os sentimentos s\u00e3o um bocadinho agridoces. Obviamente, o Chelsea era o tubar\u00e3o da Liga Confer\u00eancia. Ali\u00e1s, um ou dois meses depois desse jogo em Stamford Bridge foi campe\u00e3o do mundo, portanto era uma equipa estratosf\u00e9rica para aquela competi\u00e7\u00e3o. O Chelsea, o Betis e a Fiorentina eram as equipas a mais na Liga Confer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>E desses tr\u00eas tubar\u00f5es, o Legia venceu dois: o Chelsea e o Betis.<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Essa noite em Stamford Bridge fechou uma longa campanha europeia, que come\u00e7ou com seis jogos de qualifica\u00e7\u00e3o. Na fase de liga, ao fim de quatro jornadas est\u00e1vamos apurados nos oito primeiros, porque fizemos 12 pontos e n\u00e3o sofremos nenhum golo. Portanto aquela noite fechou uma campanha que deixou os adeptos muito orgulhosos. Ca\u00edmos frente a uma equipa melhor do que n\u00f3s, sem d\u00favida, mas, por outro lado, cair nos quartos de final de uma prova europeia deixa aquela sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o era imposs\u00edvel. S\u00e3o sentimentos agridoces, l\u00e1 est\u00e1.<\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p> O gesto que o fez correr mundo e que foi um erro <\/p>\n<p><strong>E \u00e9 nessa caminhada que o Gon\u00e7alo se torna viral em Portugal, por causa daquela rea\u00e7\u00e3o em que faz uns gestos feios para os adeptos advers\u00e1rios.<\/strong><\/p>\n<p>Viral? N\u00e3o sei. Viral sou seguramente aqui na Pol\u00f3nia, porque h\u00e1 muitas pessoas a amarem-me pela minha minha paix\u00e3o, pela minha dedica\u00e7\u00e3o, pelo meu amor ao jogo, \u00e0s minhas equipas e aos meus jogadores.<\/p>\n<p><strong>Se calhar viral \u00e9 exagerado.<\/strong><\/p>\n<p>Foi ainda no ver\u00e3o, na eliminat\u00f3ria com o Brondby, e foi um erro. Um erro que seguramente n\u00e3o voltar\u00e1 a acontecer. Foi uma eliminat\u00f3ria louca, com muitas provoca\u00e7\u00f5es entre equipas t\u00e9cnicas, muita tens\u00e3o no campo, muita tens\u00e3o nas bancadas. Depois de ganhar aquela guerra desportiva, tive aquela rea\u00e7\u00e3o emocional, que foi um erro.<\/p>\n<p><strong>Foi uma rea\u00e7\u00e3o a quente?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, claramente. Nunca devia ter acontecido. Fui multado, aceitei a multa e acho que ela foi obviamente super justa. Foi uma experi\u00eancia que me mostrou que a n\u00edvel do meu desenvolvimento, nessa parte da maturidade emocional, havia trabalho que eu tinha de fazer. Trabalho que eu fiz e continuo a fazer. Foi uma aprendizagem, com alguma dor, porque cometi um erro que me custou bastante, mas ainda assim uma aprendizagem.<\/p>\n<p><strong>De Portugal alguma pessoa mais pr\u00f3xima lhe puxou as orelhas nessa altura?<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas mais pr\u00f3ximas que eu tenho em Portugal s\u00e3o os meus pais, que j\u00e1 est\u00e3o reformados, que est\u00e3o numa idade muito bonita e que sofreram \u00e0 dist\u00e2ncia. Obviamente, preocuparam-se com aquilo que viram. E uma parte disto tudo foi eu dizer a mim pr\u00f3prio: \u2018P\u00e1, n\u00e3o posso fazer isto, n\u00e3o posso mesmo fazer isto\u2019. Foram pessoas que me deram uma base fant\u00e1stica, que me deram tudo e eu quero que eles se sintam orgulhosos pelos meus feitos, mas sobretudo pela pessoa que sou.<\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p> Porque se demitiu do Dunkerke ao fim de&#8230; quinze dias <\/p>\n<p><strong>No in\u00edcio desta \u00e9poca foi para Fran\u00e7a e demitiu-se ao fim de duas semanas. Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Porque aquilo que se falou e a realidade que eu encontrei eram coisas muito diferentes. Era um entorno onde n\u00e3o me encontrei feliz, era um n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o, uma organiza\u00e7\u00e3o e um n\u00edvel desportivo que n\u00e3o correspondia ao que t\u00ednhamos falado, e aten\u00e7\u00e3o que eu rejeitei outras coisas, inclusivamente de Portugal, para ir para Fran\u00e7a. A partir da\u00ed, tive uma conversa muito honesta, ainda faltava muito para come\u00e7ar a temporada, ou seja, o clube tinha tempo para encontrar um treinador e tinha seis semanas para preparar a \u00e9poca. Tive uma conversa muito honesta com o diretor desportivo, expliquei-lhe as coisas e, sem problemas, sem dinheiro, sem nada, eu sa\u00ed prescindido do maior contrato da hist\u00f3ria do Dunkerke, porque o meu contrato era efetivamente o maior da hist\u00f3ria do clube.<\/p>\n<p><strong>Ainda assim, n\u00e3o foi uma sa\u00edda sem alguma pol\u00e9mica.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, depois apareceram muitas hist\u00f3rias, que n\u00e3o correspondem \u00e0 verdade. Imagino que a institui\u00e7\u00e3o teve de encontrar desculpas. Mas lan\u00e7o um desafio aos jornalistas: encontrem um jogador, um s\u00f3, que trabalhou comigo e que diga que foi maltratado por mim, que n\u00e3o t\u00ednhamos boa rela\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 que n\u00e3o aprendeu comigo. \u00c9 um desafio que vos deixo.<\/p>\n<p><strong>Pelo que percebo, o Gon\u00e7alo se n\u00e3o estiver feliz sente que n\u00e3o vale a pena?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. Nada disso. No futebol vivemos bons momentos e maus momentos. No clube em que eu estou neste momento, estamos a passar uma situa\u00e7\u00e3o muito delicada [ndr: est\u00e1 detido por acusa\u00e7\u00e3o de viola\u00e7\u00e3o o m\u00e9dio Ibrahima Camara, ex-jogador do Moreirense e Boavista]. E a\u00ed, eu como l\u00edder sou o primeiro a dar o passo em frente. Sou o primeiro a inspirar as pessoas. Sou o primeiro a defender o clube, a defender o grupo, a defender os meus jogadores.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o foram as dificuldades ou os obst\u00e1culos que o fizeram sair?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o foram. J\u00e1 provei que sair da zona de conforto \u00e9 algo que eu fa\u00e7o com todo o prazer e enfrentar obst\u00e1culos \u00e9 algo que eu fa\u00e7o com toda a dedica\u00e7\u00e3o. Agora, no in\u00edcio de uma colabora\u00e7\u00e3o, quando coisas que se falaram s\u00e3o diferentes da realidade, quando os n\u00edveis de ambi\u00e7\u00e3o diferem muito, quando a \u00e9tica de trabalho n\u00e3o \u00e9 a mesma, acho que n\u00e3o faz muito sentido continuar nesse caminho, porque n\u00e3o ia ser um caminho comum.<\/p>\n<p><strong>E disse que que rejeitou propostas, inclusivamente de Portugal? De I Liga?<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m. Mas sobretudo houve um clube da II Liga que demonstrou muito interesse em mim, muita cren\u00e7a em mim. Foi sem d\u00favida o clube que demonstrou mais interesse e era um grande projeto. Foi uma decis\u00e3o muito dif\u00edcil para mim.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o porque n\u00e3o aceitou?<\/strong><\/p>\n<p>Eu tinha acabado de ganhar um t\u00edtulo, a Ta\u00e7a da Pol\u00f3nia, tinha acabado de jogar os quartos de final de uma competi\u00e7\u00e3o europeia, tinha vencido em Stamford Bridge, portanto, para mim, dar esse dar esse passo para um contexto de II Liga portuguesa, ou at\u00e9 para os contextos que me foram aparecendo de I Liga, n\u00e3o era o passo certo a dar.<\/p>\n<p><strong>Pelo que j\u00e1 ganhou na Pol\u00f3nia, n\u00e3o acha que se calhar j\u00e1 merecia um clube maior em Portugal, um clube que dispute pelo menos as competi\u00e7\u00f5es europeias? <\/strong><\/p>\n<p>Sim, mas vai chegar esse momento. Com trabalho, com dedica\u00e7\u00e3o, com uma \u00e9tica de trabalho muito forte, continuando a desenvolver equipas, a fazer evoluir jogadores e a ajudar clubes a irem para outros patamares, eu acho que isso vai acontecer. Eu entendo que ainda n\u00e3o tenha chegado a um clube desses em Portugal, porque o meu caminho foi feito no estrangeiro. Mesmo com as campanhas europeias que fizemos, a Liga Polaca tem pouca visibilidade em Portugal. Mas, l\u00e1 est\u00e1, \u00e9 outra vez o mesmo: foco em trabalhar com os jogadores e com a minha equipa t\u00e9cnica, para ser melhor todos os dias. Eu tenho a certeza que Portugal vai chegar. N\u00e3o \u00e9 algo com que eu esteja obcecado, porque sei que naturalmente vou treinar em Portugal.<\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p> O Southampton, o Rangers e o sonho do futebol brit\u00e2nico <\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos meses, teve outras hip\u00f3teses, nomeadamente o Southampton e o Rangers, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, a verdade \u00e9 que foram uns meses de ver\u00e3o muito emocionais.<\/p>\n<p><strong>Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Para j\u00e1, deixei um projeto que era muito importante para mim. \u00c9 verdade que o deixei tendo uma proposta de renova\u00e7\u00e3o, mas queria mudar certas coisas no clube, para lutarmos pelo t\u00edtulo nacional, e n\u00e3o foi poss\u00edvel. A partir da\u00ed acabei por sair, de um projeto que era importante para mim e deixando uma equipa com a qual eu tinha um v\u00ednculo muito grande. Depois, porque havia esse sonho de dar um salto a n\u00edvel europeu. Eu tive mais do que uma reuni\u00e3o em Inglaterra, tive propostas da Pol\u00f3nia, tive conversas de v\u00e1rios pa\u00edses, por isso foram meses muito intensos, que podiam mudar j\u00e1 imediatamente o rumo da minha carreira.<\/p>\n<p><strong>Foi um per\u00edodo de muitas decis\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Mas sobretudo decis\u00f5es que levam a consequ\u00eancias. Eu quero trabalhar no futebol. N\u00e3o estou no futebol para me servir dele ou s\u00f3 para ganhar dinheiro. N\u00e3o, eu amo o que fa\u00e7o e sou obcecado pelo jogo.<\/p>\n<p><strong>Foi meio ano sem treinar, tirando aquela pequena experi\u00eancia no Dunkerke. Foram meses muito duros?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acordo todos os dias \u00e0s quatro e meia, \u00e0s cinco estou no clube e s\u00f3 me vou embora \u00e0s nove da noite. S\u00e3o dias em que o telefone n\u00e3o p\u00e1ra, em que toda a gente precisa que eu resolva alguma coisa. De repente passei para uma realidade em que havia dias que o telefone n\u00e3o tocava sequer. O que eu fiz? Concentrei-me numa coisa: posso n\u00e3o ter clube, mas trabalho n\u00e3o falta. Ent\u00e3o vi jogos, estudei equipas e analisei jogadores. Eu ia a Portugal e num fim de semana era capaz de ver oito jogos e analisar todos os jogadores.<\/p>\n<p><strong>Nos v\u00eddeos que vamos vendo, d\u00e1 a impress\u00e3o que o Gon\u00e7alo Feio passa muito paix\u00e3o nas palestras aos jogadores. Tamb\u00e9m sente isso?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eu vou contar uma hist\u00f3ria, a minha av\u00f3 que me perdoe l\u00e1 de cima, mas eu tenho de contar esta hist\u00f3ria. Quando estava na terceira classe, houve um torneio de futebol e n\u00f3s cheg\u00e1mos \u00e0 final, apesar de sermos do terceiro ano. Na final normalmente chegavam sempre as turmas do quarto ano, porque eram maiores. Mas pronto, est\u00e1vamos a jogar a final e houve ali umas decis\u00f5es do \u00e1rbitro, que era diretor de turma da outra equipa, que n\u00f3s n\u00e3o gost\u00e1mos. A\u00ed eu disse: \u2018Isto n\u00e3o pode ser assim. Malta, vamos embora\u2019. E fomos. Deix\u00e1mos a final, fomos para a nossa sala e eu disse novamente: \u2018Malta, isto n\u00e3o pode ser assim, vamos escrever uns pap\u00e9is que somos n\u00f3s ou ele\u2019. E assim foi, col\u00e1mos umas folhas e tal, o que deu grande confus\u00e3o, a minha m\u00e3e foi chamada \u00e0 escola, enfim. Mas o interessante desta hist\u00f3ria \u00e9 que, de forma muito natural, sempre tive de empatizar grande, de ouvir, de apoiar, o que acabou por me dar uma influ\u00eancia grande no meu entorno. Se calhar \u00e9 parte do talento do que \u00e9 ser treinador e algo em que me sinto muito confort\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Gon\u00e7alo Feio \u00e9 um portugu\u00eas mais conhecido na Pol\u00f3nia do que no pr\u00f3prio pa\u00eds. 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