{"id":191038,"date":"2025-12-16T19:15:24","date_gmt":"2025-12-16T19:15:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/191038\/"},"modified":"2025-12-16T19:15:24","modified_gmt":"2025-12-16T19:15:24","slug":"o-ignobel-da-economia-vai-para-portugal-em-1-o-segundo-a-the-economist","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/191038\/","title":{"rendered":"O IgNobel da Economia vai para\u2026 Portugal em 1.\u00ba segundo a The Economist"},"content":{"rendered":"<p>Nesta semana, o Governo festejou a distin\u00e7\u00e3o da revista The Economist, que colocou Portugal como a <strong>\u00abEconomia do ano\u00bb<\/strong> na OCDE em 2025, <strong>\u00abDoce como um pastel de nata\u00bb<\/strong>, ajudando a sustentar o discurso de que tudo vai bem na economia do \u2018Pa\u00eds das Maravilhas\u2019.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia deixar de comentar, pois como \u00e9 sabido, sou fortemente cr\u00edtico desta leitura complacente do discurso dominante, que contrario abaixo de forma veemente.<\/p>\n<p>Reitero que, sem reformas de fundo, voltaremos ao crescimento m\u00e9dio an\u00e9mico de 1% ao ano registado desde 1999, passado um conjunto de fatores extraordin\u00e1rios que t\u00eam permitido a economia crescer um pouco acima da Uni\u00e3o Europeia (UE) nos anos mais recentes: (i) o PRR, que acaba em 2026; (ii) o surto de turismo p\u00f3s-confinamento, j\u00e1 a abrandar; (iii) a guerra na Ucr\u00e2nia, que travou o resto da UE e nos deu vantagens tempor\u00e1rias na atra\u00e7\u00e3o de turistas adicionais e alguns investimentos (pela imagem de pa\u00eds seguro, longe do conflito), mas que cessar\u00e3o quando houver paz; (iv) a entrada desregulada de imigrantes devido ao regime de Manifesta\u00e7\u00e3o de Interesse, criado em 2017 e findo em 2024, pois mesmo que uma parte significativa esteja (ou tenha estado) na economia paralela, como sugerem os dados, beneficia sempre alguma coisa o PIB oficial por via do consumo.<\/p>\n<p>Crescer apenas ligeiramente acima da UE face a este assomo de ventos favor\u00e1veis s\u00f3 confirma que o potencial da economia \u00e9 baixo e que h\u00e1 bloqueios urgentes a remover.<\/p>\n<p>Passo agora a uma an\u00e1lise breve, mas contundente, sobre o ranking da revista, que deveria fazer corar de vergonha os seus respons\u00e1veis e lev\u00e1-los a terminar a divulga\u00e7\u00e3o o mais depressa poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Os cinco crit\u00e9rios de an\u00e1lise do referido ranking, reportados ao ano em causa, s\u00e3o: o crescimento do PIB; a evolu\u00e7\u00e3o do emprego; a infla\u00e7\u00e3o e o seu desvio face \u00e0 OCDE; e a valoriza\u00e7\u00e3o do mercado de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, faz pouco sentido, a meu ver, uma an\u00e1lise de indicadores que podem melhorar muito num ano apenas porque recuperaram face a um mau ano precedente (problema comum a rankings deste g\u00e9nero, que a meu ver s\u00e3o pouco informativos), como \u00e9 o caso do PIB ou, mais frequentemente, da evolu\u00e7\u00e3o da bolsa. Faria mais sentido usar indicadores de desvio face a tend\u00eancias passadas.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, nos indicadores escolhidos, salta logo \u00e0 vista um erro crucial, que \u00e9 a dupla inclus\u00e3o do emprego \u2013 ao estar tamb\u00e9m presente na evolu\u00e7\u00e3o do PIB, que se reparte entre emprego e produtividade do trabalho, como qualquer economista sabe \u2013, o que favorece economias mais trabalho intensivas, com realce para as do sul da Europa, especializadas em turismo. A sequ\u00eancia de vencedores dos \u00faltimos cinco anos \u2013 It\u00e1lia (2021), Gr\u00e9cia (2022 e 2023), Espanha (2024) e agora Portugal (2025) \u2013 diz mais sobre o pr\u00f3prio ranking do que sobre o m\u00e9rito econ\u00f3mico real dos pa\u00edses distinguidos.<\/p>\n<p>Depois de a revista ter usado extensivamente o acr\u00f3nimo ingl\u00eas PIIGS (Portugal, Italy, Ireland, Greece, Spain) durante a crise de dividas soberanas e, anteriormente, o original PIGS (excluindo a Irlanda), que podem ser considerados ofensivos, talvez tenha sido esta a forma de se tentar redimir, criando um ranking que favorece as economias do sul da Europa, mas que manifestamente faz pouco sentido.<\/p>\n<p>Portugal ficou em primeiro devido aos fatores extraordin\u00e1rios que j\u00e1 referi, necessariamente tempor\u00e1rios, num ranking que mais deveria chamar-se \u2018perdoa-me, Europa do sul\u2019.<\/p>\n<p>Como portugu\u00eas, preferia que o ranking n\u00e3o existisse e, assim, a not\u00edcia nunca tivesse surgido, pois \u00e9 perniciosa a v\u00e1rios n\u00edveis, como expliquei. Elogios injustificados s\u00e3o prejudiciais, tal como doces a mais fazem mal, como qualquer m\u00e9dico sabe \u2013 mesmo a nossa saborosa nata.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, com base na minha an\u00e1lise, penso que o melhor \u00e9 encarar este ranking como uma brincadeira e propor a sua candidatura ao pr\u00e9mio IgNobel da economia na pr\u00f3xima oportunidade. Se fosse governante, evitaria o regozijo do primeiro lugar num ranking de constru\u00e7\u00e3o e natureza muito duvidosos, para dizer o m\u00ednimo, e que n\u00e3o pode ser levado a s\u00e9rio pelos motivos elencados. <\/p>\n<p>Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. <br \/>As opini\u00f5es expressas s\u00f3 responsabilizam o autor. <br \/>Email: <a href=\"https:\/\/sol.sapo.pt\/2025\/12\/16\/o-ignobel-da-economia-vai-para-portugal-em-1-o-segundo-a-the-economist\/mailto:oafonso@fep.up.pt\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">oafonso@fep.up.pt<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nesta semana, o Governo festejou a distin\u00e7\u00e3o da revista The Economist, que colocou Portugal como a \u00abEconomia do&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":191039,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,835,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-191038","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-news","18":"tag-noticias","19":"tag-noticias-principais","20":"tag-noticiasprincipais","21":"tag-opiniao","22":"tag-portugal","23":"tag-principais-noticias","24":"tag-principaisnoticias","25":"tag-pt","26":"tag-top-stories","27":"tag-topstories","28":"tag-ultimas","29":"tag-ultimas-noticias","30":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115730849778161875","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191038","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=191038"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191038\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/191039"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=191038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=191038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=191038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}