{"id":193028,"date":"2025-12-18T08:35:14","date_gmt":"2025-12-18T08:35:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/193028\/"},"modified":"2025-12-18T08:35:14","modified_gmt":"2025-12-18T08:35:14","slug":"o-portuense-das-montanhas-zangou-se-com-portugal-foi-se-embora-farto-das-cunhas-e-dos-salarios-de-800e-passou-logo-para-1-600e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/193028\/","title":{"rendered":"O &#8220;portuense das montanhas&#8221; zangou-se com Portugal: foi-se embora farto das cunhas e dos sal\u00e1rios de 800\u20ac, passou logo para 1.600\u20ac"},"content":{"rendered":"<p>\t                Em Berlim h\u00e1 um pr\u00e9dio de bet\u00e3o de Siza com Bonjour Tristesse escrito no topo. A mesma fachada, anos depois, ganhou um segundo aviso, mais urgente que po\u00e9tico: BITTE LEBN, &#8220;por favor vive&#8221;. Entre estas duas frases, como entre os lados menos tur\u00edsticos da trilogia de Berlim de David Bowie, cabe uma gera\u00e7\u00e3o portuguesa que fez as malas na grande crise da troika, deixou recibos verdes e chaves de casa em cima da mesa e foi aprender para Berlim como se respira noutra l\u00edngua. Esta \u00e9 a primeira reportagem de uma trilogia que segue algumas dessas vidas adiadas, divididas entre o pa\u00eds que empurrou e a cidade que acolheu: trabalho qualificado pago como se fosse favor, invernos que n\u00e3o acabam, l\u00ednguas que se aprendem \u00e0 pressa, regressos que tanto salvam como doem. Mais do que hist\u00f3rias de emigra\u00e7\u00e3o, s\u00e3o tr\u00eas cartas escritas de Berlim para um lugar chamado Portugal, a tentar dizer, com todas as s\u00edlabas: adeus, tristeza. Esta quinta-feira \u00e9 Dia Internacional dos Migrantes<\/p>\n<p>\n    \u00a0\n  <\/p>\n<p>\n    ADEUS, TRISTEZA &#8211; TRILOGIA\n  <\/p>\n<p>\n    \u00a0\n  <\/p>\n<p> CAP\u00cdTULO 1\n  <\/p>\n<p>\n    O portuense das montanhas\n  <\/p>\n<p>\n   Quando chegou ao pa\u00eds novo vindo de Portugal, o portuense das montanhas foi recebido com &#8220;trancos e barrancos&#8221; e pasmou-se: &#8220;Em Portugal sou s\u00f3 mais um branco, aqui sou considerado &#8216;person of color&#8217;. \u00c9 curioso como a perce\u00e7\u00e3o muda conforme o lugar&#8221;\n <\/p>\n<p>\n    \u201cVou sentar-me imediatamente e esperar pelo dom do som e da vis\u00e3o\u201d\n  <\/p>\n<p>\n   fa\u00e7a scroll para ler o cap\u00edtulo 1\n <\/p>\n<p>\n    \u00a0\n  <\/p>\n<p>\n    IN\u00cdCIO DE REPORTAGEM\n  <\/p>\n<p>\n    \u00a0\n  <\/p>\n<p>Um grupo de portugueses segura cartazes improvisados \u00e0 porta da embaixada de Portugal em Berlim, um dos cartazes diz \u201cMenschen statt Banken\u201d, que quer dizer \u201cpessoas em vez de bancos\u201d numa tradu\u00e7\u00e3o literal mas que quer dizer \u201cprioridade \u00e0s pessoas, n\u00e3o aos bancos\u201d numa tradu\u00e7\u00e3o mais clarificadora e que quer dizer tamb\u00e9m \u201cp\u00f4r as pessoas acima dos lucros\u201d numa tradu\u00e7\u00e3o mais ideol\u00f3gica, as palavras est\u00e3o em letras azuis e vermelhas pintadas num enorme peda\u00e7o de cart\u00e3o. S\u00e3o 30 a 40 pessoas que se manifestam, \u00e9 15 de setembro de 2012, uns s\u00e3o estudantes e outros trabalhadores, s\u00e3o os \u201cfilhos da crise\u201d: deixaram Portugal naquele in\u00edcio de d\u00e9cada em que o pa\u00eds estremeceu com a austeridade da troika, sair de Portugal tornou-se para alguns um ato de sobreviv\u00eancia. \u201cMenschen statt Banken.\u201d<\/p>\n<p>Aquele 15 de setembro de 2012 \u00e9 aquele mesmo dia inteiro e hist\u00f3rico em que quase um milh\u00e3o de pessoas sai para as ruas de Portugal contra o traumatizante an\u00fancio da redu\u00e7\u00e3o da TSU das empresas de 23,75% para 18% e do aumento de 11% para 18% dos descontos para a seguran\u00e7a social dos trabalhadores. \u201cQue se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!\u201d tornou-se nome de movimento e palavras de ordem naquele 15 de setembro que uniu pobres e ricos, esmerados e som\u00edticos, canhotos e destros, famintos e saciados. Naquele 15 de setembro, em Berlim e diante da bandeira portuguesa, o protesto dos portugueses \u00e9 pequeno, quase \u00edntimo mas n\u00e3o por isso menos fervoroso.<\/p>\n<p>No centro do plano das imagens daquele dia em Berlim v\u00ea-se um homem de cabelo escuro e espesso, ondulado a cair-lhe para a testa, barba rala, chama-se Pedro Monterroso, tem 28 anos a 15 de setembro de 2012. Fala para um canal de entrevistas online sobre um pa\u00eds que \u201cvive uma cat\u00e1strofe\u201d, o pa\u00eds \u00e9 o dele, o pa\u00eds Portugal, fala para aquele canal de entrevistas sobre uma gera\u00e7\u00e3o que \u201cempacotou os sonhos\u201d num voo low-cost, a gera\u00e7\u00e3o \u00e9 a dele, a gera\u00e7\u00e3o Pedro Monterroso. Veste um casaco gasto verde-azeitona de bolsos grandes, tem a mochila aos ombros, olha para cima e para baixo para ver onde est\u00e3o as palavras certas em alem\u00e3o para explicar o que sente em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c0 esquerda dele est\u00e1 uma mulher jovem de cachecol vermelho que sorri subtilmente para a rep\u00f3rter, \u00e0 direita dele h\u00e1 um homem mais velho e corpulento que ouve atentamente as declara\u00e7\u00f5es do seu conterr\u00e2neo Monterroso, tanto aquela mulher como este homem h\u00e3o de dizer coisas durante aquela entrevista, quando as dizem misturam palavras alem\u00e3s de dic\u00e7\u00e3o quase perfeita com outras de dic\u00e7\u00e3o menos h\u00e1bil. A entrevista termina com um desejo da entrevistadora, \u201cich dr\u00fccke euch hier in Berlin die Daumen, aber auch in Portugal\u201d, que quer dizer \u201ceu aperto os polegares por voc\u00eas aqui em Berlim, mas tamb\u00e9m em Portugal\u201d numa tradu\u00e7\u00e3o literal mas que quer dizer \u201cestou a torcer por voc\u00eas aqui em Berlim, mas tamb\u00e9m em Portugal\u201d na tradu\u00e7\u00e3o de quem deseja o fim dos apertos que os portugueses estavam a passar.<\/p>\n<p>Passaram 13 anos.<\/p>\n<p>Pedro Monterroso continua em Berlim. Vive num apartamento modesto com vista para o cen\u00e1rio vangoghiano da Pl\u00e4nterwald, onde os pr\u00e9dios viram costas aos mais curiosos camuflando-se nas longas \u00e1rvores e nos infind\u00e1veis tons de castanho das folhas. \u00c9 outono em Berlim, \u00e9 um outono belo mas: o frio \u00e9 cortante, o sol t\u00edmido. Valham as casas aquecidas.<\/p>\n<p>Pedro Monterroso, que agora vive a juventude dos 41 anos, abre a porta: recebe de voz quente e convidativa como o caf\u00e9 que carrega cuidadosamente nas m\u00e3os. \u201cAqui n\u00e3o temos Delta, desculpem.\u201d Ri-se, est\u00e1 a preparar-se para uma caminhada com a fam\u00edlia: \u00e9 domingo e est\u00e1 sol, a luz nunca \u00e9 um bem garantido em Berlim e a que h\u00e1 \u00e9 para aproveitar toda na rua. O cabelo que em 2012 lhe ca\u00eda para a testa chega-lhe agora aos ombros, as orelhas est\u00e3o furadas, a barba mant\u00e9m-se, o velho casaco azeitona foi substitu\u00eddo por uma parca em azul-escuro para a chuva.<\/p>\n<p>Aparece Iara, \u00e9 muito pequena e espevitada: tem tr\u00eas anos, \u00e9 a filha do casal Pedro e Raquel Lima, tamb\u00e9m 41 anos. Iara circula de um lado para o outro sob o olhar atento de Nina e Baumann &#8211; ou \u2018Bau\u2019 ou at\u00e9 \u2018Baubau\u2019 para os amigos -, s\u00e3o dois gatos quase do tamanho de Iara, ela que procura a \u201cFahrrad\u201d, \u201ca bicicleta\u201d, traduz a m\u00e3e. Pedro fala o portugu\u00eas do seu Portugal, Raquel o portugu\u00eas do seu Brasil, Iara o portugu\u00eas de ambos os pais al\u00e9m do alem\u00e3o do jardim de inf\u00e2ncia. Iara mistura express\u00f5es e cria com isso uma musicalidade pr\u00f3pria, mas ainda n\u00e3o domina o c\u00f3digo secreto dos pais: sempre que precisam de falar sem que a filha perceba, Pedro e Raquel usam o ingl\u00eas, ser\u00e1 assim \u201cat\u00e9 que ela o comece a entender tamb\u00e9m\u201d. Sorrisos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\n    \u00a0\n  <\/p>\n<p>\n    &#8220;vIM MUITO ZANGADO COM O MEU PA\u00cdS&#8221;\n  <\/p>\n<p>\n    \u00a0\n  <\/p>\n<p>Pedro Monterroso nasceu em Amarante mas considera-se um portuense \u201cdas montanhas\u201d, fundiu o Porto com um v\u00ednculo robusto a Tr\u00e1s-os-Montes. Foi para a Alemanha durante o Governo de Pedro Passos Coelho, \u201cexausto de est\u00e1gios prec\u00e1rios e contratos a prazo\u201d. \u201cEm Portugal ganhava 800 euros, vivia com a ang\u00fastia de ficar doente, se fic\u00e1ssemos doentes est\u00e1vamos sujeitos ao despedimento. Senti-me muito maltratado enquanto trabalhador e vim muito zangado com o meu pa\u00eds.\u201d \u201cMenschen statt Banken.\u201d<\/p>\n<p>Berlim parecia-lhe uma cidade aberta, alternativa, um lugar onde o curr\u00edculo n\u00e3o precisava de estar carimbado com o \u201cjeitinho\u201d de uma cunha. \u201cO mercado de trabalho \u00e9 muito pequeno em Portugal e, quando h\u00e1 vagas, \u00e9 s\u00f3 para alguns. Depois tens de te encaixar &#8211; se n\u00e3o o fizeres, est\u00e1s fora. Aqui posso ser como sou, com o cabelo comprido, com as minhas roupas.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Soci\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o e educador por voca\u00e7\u00e3o, acabou a ensinar numa escola europeia bilingue, onde as crian\u00e7as aprendiam a dizer \u201cbom dia\u201d e \u201cguten tag\u201d no mesmo f\u00f4lego. O primeiro sal\u00e1rio: 1600 euros. Escasseavam professores portugueses em Berlim naquele 2012, portanto Pedro Monterroso ficou naquela escola durante cerca de 10 anos, entretanto quis sair: \u201cEstava a sentir-me frustrado por n\u00e3o ver avan\u00e7os na minha carreira, n\u00e3o dava para crescer mais\u201d.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"564\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1766046914_742_1000.webp\" width=\"1000\"\/> <\/p>\n<p>   Pedro Monterroso nasceu em Amarante mas considera-se um portuense \u201cdas montanhas\u201d, com forte liga\u00e7\u00e3o a Tr\u00e1s-os-Montes <\/p>\n<p>Encontrou algum alento num projeto de mentoria que acompanhava jovens &#8211; muitos deles filhos de migrantes &#8211; na passagem da escola para o mercado de trabalho ou para o ensino superior. Diz que cerca de 80% dos clientes tinham origem \u00e1rabe ou turca, o contacto di\u00e1rio com essa diversidade acabou por aproxim\u00e1-lo das pol\u00edticas p\u00fablicas e das realidades que raramente chegam \u00e0s manchetes. Foi o \u00faltimo a ficar quando o projeto perdeu financiamento. \u201cTive a sorte de o poder fechar, foi uma grande honra.\u201d<\/p>\n<p>Agora exerce um trabalho de media\u00e7\u00e3o entre escolas, assistentes sociais e tribunais numa associa\u00e7\u00e3o que auxilia as fam\u00edlias nos servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a. \u00c9 tamb\u00e9m respons\u00e1vel por parte dos casos em que a l\u00edngua portuguesa \u00e9 necess\u00e1ria, sobretudo com fam\u00edlias africanas lus\u00f3fonas. Move-o o mesmo de sempre: \u201cTentar perceber as pessoas e ajud\u00e1-las a sentir-se menos sozinhas\u201d. Como outrora ele pr\u00f3prio precisou.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Pedro Monterroso demorou o seu tempo a aprender o alem\u00e3o. Come\u00e7ou a praticar em encontros sociais que organizava, todas as sextas-feiras, em bares e caf\u00e9s de Berlim e dali nasceu \u201cum n\u00facleo duro\u201d a que hoje em dia chama \u201camigos\u201d. J\u00e1 domina a l\u00edngua mas o portugu\u00eas continua a ser o seu territ\u00f3rio mais \u00edntimo &#8211; e abrange n\u00e3o s\u00f3 a vida dentro de casa como pontualmente a sua profiss\u00e3o mas tamb\u00e9m os telefonemas di\u00e1rios \u00e0 m\u00e3e, \u201cpara lhe fazer companhia\u201d a caminho do trabalho.<\/p>\n<p>A escrita tamb\u00e9m permanece em portugu\u00eas, \u201c\u00e9 assim que sei sentir\u201d. Sonhou outrora em ser escritor e chegou a publicar um pequeno livro infanto-juvenil dedicado a Raquel, chamou-lhe \u201cA Velha Bruxa\u201d, mas tratava-se de \u201cum mercado pequeno\u201d, as oportunidades s\u00e3o raras. A escrita n\u00e3o foi embora, permanece &#8211; mas vive em segundo plano, como side job nas horas vagas. Mant\u00e9m um blogue que descreve como <a href=\"https:\/\/garatujos.wordpress.com\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\u201cuma esp\u00e9cie de portf\u00f3lio\u201d<\/a>, onde arquiva pequenos textos e mem\u00f3rias \u201cpara n\u00e3o os perder\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>  <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"562\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1766046914_130_1000.webp\" width=\"1000\"\/> <\/p>\n<p>    Aos 41 anos, Pedro Monterroso vive com a mulher, Raquel, e a filha de ambos, em\u00a0Pl\u00e4nterwald, na antiga Berlim Oriental <\/p>\n<p>Enquanto Iara e Raquel preparam um lanche r\u00e1pido na cozinha, ele pega no telem\u00f3vel para mostrar uma das passagens do blogue &#8211; ei-la ipsis verbis:<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 12 anos. Corro porque sou livre e sinto-me livre nesta Berlim, que me acolheu e me deu oportunidades, pelas quais tamb\u00e9m lutei. E retribuo. (\u2026) Trabalho na l\u00edngua que apenas aos 28 anos resolvi aprender, porque viria a ser definitiva a minha ideia de morar c\u00e1 (\u2026) Sou livre numa cidade que tem hist\u00f3ria de revolu\u00e7\u00e3o e, apesar de \u00e0 sua volta a extrema-direita estar a crescer, na Europa toda, nos seus confins, em Portugal cresce estupidamente, aqui ainda me sinto numa bolha de liberdade que me aceita como sou. Aceita-me muito melhor do que alguma vez me aceitou o meu pa\u00eds de origem.\u00a0(\u2026) A cidade aceitou-me aos trancos e barrancos, e eu aceitei-a de cora\u00e7\u00e3o, e \u00e9 nela que acima de tudo, com a minha fam\u00edlia me sinto em casa. Hoje foram 11 km. Algures em 2025 ser\u00e1 a maratona\u201d.<\/p>\n<p>Entre dois pa\u00edses e dois idiomas distintos, a identidade de Pedro Monterroso constr\u00f3i-se no meio. Sente-se em casa na Alemanha mas tamb\u00e9m se sente portugu\u00eas &#8211; embora de uma forma diferente, menos geogr\u00e1fica, mais feita de saudade, de lembran\u00e7as e de novos olhares que o definem fora da sua terra. \u201cEm Portugal sou s\u00f3 mais um branco, aqui sou considerado \u2018person of color\u2019. \u00c9 curioso como a perce\u00e7\u00e3o muda conforme o lugar.\u201d<\/p>\n<p>Interrup\u00e7\u00e3o: \u201cOh, minha patanisca!\u201d, Pedro sorri para Iara, fala com ela: a filha acaba de regressar do quarto, traz uma pequena cole\u00e7\u00e3o de livros em portugu\u00eas, mostra-os. Um desses livros \u00e9 o do pai, que ele escreveu para \u201cdespir as hist\u00f3rias de palavras preconceituosas que excluem quem n\u00e3o fica bem no quadro das personagens bonitas\u201d. \u201cA \u2018Velha Bruxa\u2019 \u00e9 um manifesto da inf\u00e2ncia para o adulto distra\u00eddo &#8211; ou do adulto atento para a crian\u00e7a em crescimento\u201d, l\u00ea-se na sinopse. Raquel, que \u00e9 adulta atenta, senta a filha no sof\u00e1, ficam a folhear o livro diante do pr\u00f3prio autor. Que est\u00e1 embevecido.<\/p>\n<p>Pedro Monterroso aproveita para fazer uma brev\u00edssima visita guiada pelo apartamento, enquanto faz isso trope\u00e7a em pequenos epicentros de nostalgia: um livro de Rui Zink pousado numa prateleira ao lado de literatura inglesa e espanhola; as t\u00edpicas andorinhas de cer\u00e2mica nas paredes da casa de banho, ao lado de uma cole\u00e7\u00e3o de ilustra\u00e7\u00f5es com os locais mais ic\u00f3nicos de Berlim; plantas &#8211; muitas adquiridas orgulhosamente em Portugal &#8211; espalhadas pelas v\u00e1rias divis\u00f5es da casa. Mais de uma d\u00e9cada de recorda\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 a caminho do Treptower Park, Pedro Monterroso caminha devagar com a pequena Fahrrad cor-de-rosa de Iara nos bra\u00e7os; a mulher e a filha seguem \u00e0 frente de m\u00e3o dada. Raquel tem cabelo forte e encaracolado a encher-lhe as costas, veste uma camisa larga de flanela e carrega uma mochila cinzenta com um pequeno capacete branco pendurado; Iara, embrulhada num casaco acolchoado da mesma cor da Fahrrad, vai esmagando com as suas botas as folhas secas. As duas avan\u00e7am por um corredor estreito entre uma veda\u00e7\u00e3o de metal e uma fila de \u00e1rvores, enquanto uma luz quase dourada atravessa as copas e desenha tr\u00eas silhuetas no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma tradi\u00e7\u00e3o familiar ir ao parque nos fins de semana mais soalheiros, um ritual simples que para Pedro simboliza o que Berlim tem de mais precioso: o espa\u00e7o partilhado. O caminho estreito desemboca numa clareira larga, onde o Treptower Park se abre em relvados compridos e caminhos de cimento por onde passam bicicletas e carrinhos de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Mais ao fundo, quase escondido entre os troncos, est\u00e1 o parque infantil que a fam\u00edlia batizou \u201cparquinho selvagem\u201d. Tem uma estrutura de madeira clara, cheia de cordas, escadas inclinadas e passagens estreitas, montada como se fosse um pequeno forte. Troncos grossos deitados no ch\u00e3o fazem de pontes improvisadas, h\u00e1 rampas para subir de gatas e t\u00faneis por onde s\u00f3 cabem corpos pequenos como o de Iara. Pedro j\u00e1 tinha avisado que \u201cos parquinhos infantis em Berlim s\u00e3o uma coisa incr\u00edvel\u201d, nesta cidade s\u00e3o desenhados por arquitetos e pensados para que as crian\u00e7as os explorem em liberdade.<\/p>\n<p>\u00c0 volta deles, dezenas de pais seguem as respetivas crian\u00e7as com os olhos. J\u00e1 o resto do parque continua horizonte adentro, em alamedas longas onde o som das bicicletas se mistura com as vozes de fam\u00edlias e grupos de jovens que convivem e passeiam os seus animais numa paisagem outonal. Pedro solta um suspiro profundo: encontrou neste quotidiano o sossego que procurava quando partiu. Come\u00e7ou por baixo e degrau a degrau chegou aqui: um parque, uma mulher que ama, uma filha bilingue (pelo menos bilingue), um trabalho com outras fam\u00edlias migrantes.<\/p>\n<p>Pedro Monterroso tem \u201cpena\u201d quando v\u00ea outros portugueses chegarem a Berlim. \u201cD\u00e1-me pena. D\u00e1-me raiva. Comove-me. Ver que esta gente, estes jovens de mente aberta, criativos, trabalhadores, que em Portugal foram t\u00e3o maltratados, como eu, como eu fui\u2026\u201d Retic\u00eancias eloquentes.<\/p>\n<p>Nesses portugueses de agora diz que reconhece o rapaz de casaco verde-azeitona de outrora, \u00e0 porta da embaixada portuguesa a sofrer por um pa\u00eds l\u00e1 longe. E Pedro, tal como David Bowie quando escreveu \u201cSound and Vision\u201d, tamb\u00e9m passou os primeiros dias em Berlim sozinho num quarto arrendado e \u00e0 espera que a vida come\u00e7asse, a tentar encontrar uma nova forma de ver e de ouvir numa cidade estranha. Hoje, o que lhe \u00e9 estranho \u00e9 pensar em voltar a Portugal.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\n   UM PA\u00cdS DE PARTIDAS\n <\/p>\n<p style=\"margin:0 0 10px;\">A emigra\u00e7\u00e3o molda o imagin\u00e1rio portugu\u00eas h\u00e1 v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Nos anos 60 e 70, mais de um milh\u00e3o de portugueses deixou o pa\u00eds rumo a Fran\u00e7a, Alemanha, B\u00e9lgica, Pa\u00edses Baixos, Luxemburgo, Dinamarca, Su\u00e9cia, Su\u00ed\u00e7a e Reino Unido. Eram dias de ditadura, guerra colonial e pobreza rural. Procuravam um sal\u00e1rio certo nas obras, nas f\u00e1bricas, nas casas de fam\u00edlia. Na Alemanha Ocidental eram os Gastarbeiter, trabalhadores convidados, de p\u00e3o partilhado com italianos, espanh\u00f3is, gregos, turcos e jugoslavos.<\/p>\n<p style=\"margin:0 0 10px;\">Muitos regressaram a Portugal ap\u00f3s a queda do regime. Outros ficaram, para voltarem apenas durante as f\u00e9rias como \u201cturistas\u201d na pr\u00f3pria terra, de passagem para ouvirem palavras familiares e trocar \u201cbons dias\u201d e \u201cboas tardes\u201d. No s\u00e9culo XXI, a hist\u00f3ria repete-se com novos contornos. Os perfis dos emigrantes mudaram: mais jovens, mais escolarizados, mais urbanos. Mas o impulso \u00e9 o mesmo, o de partir para recome\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"margin:0 0 10px;\">Entre 2001 e 2020, 1,5 milh\u00f5es de portugueses deixaram o pa\u00eds, traduzindo-se em 15% da popula\u00e7\u00e3o e numa m\u00e9dia superior a 75 mil portugueses por ano, diz um estudo do Observat\u00f3rio da Emigra\u00e7\u00e3o. O pico migrat\u00f3rio foi registado em 2013, ano em que ter\u00e3o emigrado 120 mil pessoas, durante a crise econ\u00f3mica.<\/p>\n<p style=\"margin:0 0 10px;\">O mesmo relat\u00f3rio indica que em 2024 havia cerca de 2,3 milh\u00f5es de portugueses a viver fora e sabe-se que 70% desses cidad\u00e3os t\u00eam entre 15 e 39 anos. Os dados tamb\u00e9m divulgados nesse ano pelo economista Eug\u00e9nio Rosa revelam ainda que, em 2021, 48,1% dos 1.129.236 portugueses que emigraram entre 2011 e 2022 tinham o ensino superior.<\/p>\n<p style=\"margin:0 0 10px;\">A principal conclus\u00e3o retirada deste fluxo migrat\u00f3rio moderno, refere o documento, \u00e9 que \u201cPortugal exporta fundamentalmente trabalhadores de escolaridade e qualifica\u00e7\u00e3o elevadas\u201d, reacendendo o debate pol\u00edtico sobre a chamada \u201cfuga de c\u00e9rebros\u201d: professores, arquitetos, designers, t\u00e9cnicos de sa\u00fade, investigadores que cresceram a ouvir que estudar era a melhor garantia de futuro mas que descobriram depressa que o futuro, afinal, morava al\u00e9m-fronteiras.<\/p>\n<p style=\"margin:0 0 10px;\">Fran\u00e7a permanece o pa\u00eds com maior n\u00famero de imigrantes residentes nascidos em Portugal (573.000), seguindo-se Su\u00ed\u00e7a (204.000), Estados Unidos (184.000), Reino Unido (156.000), Brasil (138.000), Canad\u00e1 (134.000) e, finalmente, a Alemanha (115.000), segundo um relat\u00f3rio divulgado no site da Assembleia da Rep\u00fablica sobre \u201cmigra\u00e7\u00f5es e ex\u00edlios de ontem e hoje\u201d.<\/p>\n<p style=\"margin:0 0 10px;\">A tend\u00eancia de crescimento das entradas de portugueses na Alemanha mant\u00e9m-se desde 2021, registando em 2024 o valor mais alto desde 2018, com a entrada de 7.410 pessoas. S\u00e3o dados do Observat\u00f3rio da Emigra\u00e7\u00e3o, com base na informa\u00e7\u00e3o do Statistisches Bundesamt Deutschland, que foram divulgados este ano.<\/p>\n<p style=\"margin:0;\">Berlim tornou-se uma esp\u00e9cie de capital paralela para os jovens qualificados, pelo trabalho e pelo modo de vida. Esta nova vaga n\u00e3o viaja com malas de cart\u00e3o mas com diplomas e contratos tempor\u00e1rios. N\u00e3o procuram apenas um emprego, procuram tempo, liberdade e espa\u00e7o para se reinventarem. E partilham o mesmo dilema: o de gostar de Portugal sem conseguir viver nele como sonharam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em Berlim h\u00e1 um pr\u00e9dio de bet\u00e3o de Siza com Bonjour Tristesse escrito no topo. 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