{"id":193098,"date":"2025-12-18T09:58:11","date_gmt":"2025-12-18T09:58:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/193098\/"},"modified":"2025-12-18T09:58:11","modified_gmt":"2025-12-18T09:58:11","slug":"nisia-trindade-fala-sobre-a-geopolitica-das-pandemias-instituto-humanitas-unisinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/193098\/","title":{"rendered":"N\u00edsia Trindade fala sobre a geopol\u00edtica das pandemias &#8211; Instituto Humanitas Unisinos"},"content":{"rendered":"<p>Relat\u00f3rio internacional sustenta: n\u00e3o bastam novos f\u00e1rmacos. Para enfrentar novas amea\u00e7as, \u00e9 preciso superar l\u00f3gica de patentes, construir conhecimento no<strong> Sul Global<\/strong> e abandonar pol\u00edticas de austeridade. No <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/657982-sus-35-anos-e-hora-de-desprivatizar-o-sistema-publico-de-saude-entrevista-especial-com-leonardo-mattos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">SUS<\/a>, h\u00e1 um embri\u00e3o de resposta, defende ex-ministra e coautora do documento.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de <strong>Gabriela Leite<\/strong>, publicada por <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Outras Palavras<\/a>, 17-12-2025.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o somente os v\u00edrus e bact\u00e9rias que determinam o recrudescimento de <strong>pandemias<\/strong> \u2013 mas a estrutura que mant\u00e9m as <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/661273-desigualdade-faz-mal-a-saude-as-pandemias-e-seus-determinantes-sociais-artigo-de-nisia-trindade-lima\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">desigualdades globais<\/a>. Sem combat\u00ea-las, n\u00e3o haver\u00e1 avan\u00e7o biom\u00e9dico que evite novas crises sanit\u00e1rias. Esse \u00e9 o ponto de partida do relat\u00f3rio <strong>Rompendo o ciclo da desigualdade-pandemia \u2013 Construindo a verdadeira seguran\u00e7a na sa\u00fade em uma era global<\/strong>, lan\u00e7ado ontem (16\/12) no Brasil.<\/p>\n<p>O dossi\u00ea foi elaborado na <strong>UNAIDS<\/strong>, programa da <strong>ONU<\/strong> para combater a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/614993-40-anos-de-uma-pandemia-que-nao-acabou\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">epidemia de HIV<\/a>, pelo <strong>Conselho Global sobre Desigualdades, Aids e Pandemias<\/strong>. <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/648992-por-que-nisia-trindade-caiu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">N\u00edsia Trindade<\/a>, ministra da Sa\u00fade nos dois primeiros anos do governo <strong>Lula<\/strong> e pesquisadora em\u00e9rita do <strong>CEE<\/strong>\/<strong>Fiocruz<\/strong>, \u00e9 uma das membros-fundadoras do Conselho, e contribuiu para a produ\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio. Em entrevista exclusiva ao Outra Sa\u00fade, que pode ser lida abaixo, ela explicou alguns de seus principais aspectos.<\/p>\n<p>\u201cO que o relat\u00f3rio indica \u00e9 que n\u00f3s temos que considerar que a pandemia \u00e9 fruto de fen\u00f4menos n\u00e3o apenas biol\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos. E, portanto, ela n\u00e3o pode ser enfrentada apenas com tecnologias de sa\u00fade\u201d, esclarece <strong>N\u00edsia<\/strong>. E \u00e9 poss\u00edvel observar a volta completa do ciclo, \u00e0 medida em que as pandemias \u2013 como a de<strong> covid-19<\/strong> ou de <strong>HIV<\/strong> \u2013 tamb\u00e9m contribuem para agravar as <strong>desigualdades<\/strong> j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p>Produ\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o \u2013 em uma resposta ao sistema de patentes<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o significa, portanto, que para se preparar contra novas pandemias, o mundo precisa de mais que bons f\u00e1rmacos. Em primeiro lugar porque a<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/609372-por-que-a-crise-da-covid-19-e-mais-seria-do-que-as-anteriores\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"> crise da covid<\/a> deixou claro que os avan\u00e7os da ci\u00eancia acabam concentrados nos pa\u00edses do <strong>Norte Global<\/strong>. \u201cEm 2021, apenas dez pa\u00edses concentravam 75% das doses aplicadas contra a covid-19, deixando o planeta mais suscet\u00edvel ao surgimento de variantes\u201d, descreve o dossi\u00ea.<\/p>\n<p>Como combater esse enorme problema de falta de acesso a vacinas e medicamentos? Reformulando o modelo de patentes, respondem os respons\u00e1veis pelo documento. Prop\u00f5em: \u201cRenunciar automaticamente \u00e0s regras globais de propriedade intelectual sobre tecnologia pand\u00eamica quando uma pandemia for declarada\u201d.<\/p>\n<p>Essa a\u00e7\u00e3o simples e ousada poderia ampliar o acesso, por exemplo, ao <strong>lenacapavir<\/strong>, medicamento de a\u00e7\u00e3o prolongada para a preven\u00e7\u00e3o do <strong>HIV<\/strong>. Trata-se de uma inova\u00e7\u00e3o que pode ser transformadora \u2013 mas o pre\u00e7o exorbitante imposto pela farmac\u00eautica <strong>Gilead<\/strong> impede que seja usado por quem mais precisa.<\/p>\n<p>Mas <strong>N\u00edsia Trindade<\/strong> chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que tamb\u00e9m \u00e9 preciso expandir a capacidade dos pa\u00edses do Hemisf\u00e9rio Sul de produzir esses f\u00e1rmacos. \u201c\u00c9 fundamental que os pa\u00edses tamb\u00e9m tenham condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o local e regional. Principalmente no caso de produtos que levam mais tempo no desenvolvimento, como vacinas e imunobiol\u00f3gicos. Os pa\u00edses do <strong>Sul Global<\/strong> t\u00eam que ter condi\u00e7\u00e3o de produzir seus f\u00e1rmacos.\u201d<\/p>\n<p>Para isso, o dossi\u00ea prop\u00f5e mais uma inova\u00e7\u00e3o: pr\u00eamios em vez de patentes. Ou seja, \u201cSubstituir a estrat\u00e9gia atual de pagar pre\u00e7os altos globalmente, por doses de fornecedores limitados, por um fundo para pagar grandes pr\u00eamios iniciais pela descoberta de medicamentos e vacinas e por licenciamento global para produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio, essa iniciativa poderia ser liderada por alian\u00e7as como os <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/639312-brics-da-ambicao-desenvolvimentista-ao-desafio-geopolitico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">BRICS <\/a>e a <strong>Uni\u00e3o Africana<\/strong>, que seriam capazes de criar uma nova estrutura \u201cque complementaria a produ\u00e7\u00e3o ampliada discutida, sem as inefici\u00eancias do monop\u00f3lio\u201d. Em outras palavras, \u201cum novo paradigma de Pesquisa &amp; Desenvolvimento em sa\u00fade global\u201d, descrevem os autores.<\/p>\n<p>Para financiar a sa\u00fade, interromper o pagamento da d\u00edvida<\/p>\n<p>No entanto, nenhuma dessas transforma\u00e7\u00f5es \u2013 nem na produ\u00e7\u00e3o de medicamentos, nem no combate \u00e0s <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/615635-desigualdade-social-o-maior-problema-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">desigualdades sociais <\/a>\u2013 \u00e9 poss\u00edvel sem enfrentar um obst\u00e1culo anterior: o estrangulamento financeiro dos Estados.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio \u00e9 direto: pa\u00edses em desenvolvimento est\u00e3o asfixiados por uma d\u00edvida de US$3 trilh\u00f5es, que consome recursos que deveriam ir para a Sa\u00fade. Para quebrar esse n\u00f3, a proposta mais contundente do dossi\u00ea \u00e9 a mesma que movimentos <strong>antiausteridade<\/strong> defendem h\u00e1 anos: \u201cimplementar uma morat\u00f3ria imediata de pagamentos para pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o de estresse financeiro devido a pandemias at\u00e9 2030\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O documento vai al\u00e9m e identifica a armadilha que se fecha ap\u00f3s a crise: a austeridade fiscal. Ao analisar pandemias das \u00faltimas d\u00e9cadas, os pesquisadores descobriram que a desigualdade aumenta quase tr\u00eas vezes mais nos pa\u00edses que adotam medidas de ajuste ap\u00f3s o choque inicial.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/647904-a-austeridade-e-um-projeto-profundamente-antidemocratico-artigo-de-clara-e-mattei-e-aditya-singh\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">austeridade <\/a>prejudica a sa\u00fade, enfraquece a capacidade dos pa\u00edses de responder aos determinantes sociais das pandemias e construir respostas m\u00e9dicas, al\u00e9m de aumentar o impacto das pandemias sobre a <strong>desigualdade<\/strong>\u201d, conclui o relat\u00f3rio. A mensagem \u00e9 um alerta direto aos governos que, em nome do equil\u00edbrio das contas, repetem as pol\u00edticas que deixaram o mundo mais vulner\u00e1vel \u00e0<strong> covid-19<\/strong>.<\/p>\n<p>O papel de sistemas universais como o SUS<\/p>\n<p>Se as recomenda\u00e7\u00f5es do relat\u00f3rio soam como um plano para um futuro distante, \u00e9 preciso olhar para o que j\u00e1 temos. O Brasil guarda uma pe\u00e7a central desse quebra-cabe\u00e7a da sa\u00fade global: o<strong> Sistema \u00danico de Sa\u00fade<\/strong> (<strong>SUS<\/strong>). Para o Conselho, um sistema que garanta acesso universal \u00e9 justamente o ant\u00eddoto contra a <strong>desigualdade<\/strong> que alimenta as pandemias. Mas como traduzir esse princ\u00edpio em pr\u00e1tica, especialmente quando o <strong>SUS<\/strong> vive sob um subfinanciamento hist\u00f3rico?<\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 em enxergar que verdadeira for\u00e7a do <strong>SUS<\/strong> para preparar o pa\u00eds contra novas crises est\u00e1 na sua capacidade \u00fanica de agir sobre os determinantes sociais da sa\u00fade \u2013 aquelas condi\u00e7\u00f5es de vida, trabalho e renda que definem quem adoece e quem morre primeiro. \u00c9 essa virtude que esbarra de frente nas pol\u00edticas de austeridade, como o atual <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/647011-arcabouco-fiscal-e-um-ataque-direto-a-classe-trabalhadora-e-um-marco-negativo-na-trajetoria-de-lula-entrevista-especial-com-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Arcabou\u00e7o Fiscal<\/a>, que estrangulam a capacidade de a\u00e7\u00e3o do Estado justamente onde ele \u00e9 mais necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>N\u00edsia Trindade<\/strong> aponta, ainda, outro pilar essencial, que nasceu com o <strong>SUS<\/strong>: a participa\u00e7\u00e3o social. \u201cTudo isso depende de uma pol\u00edtica de Estado, por um lado, e da mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, por outro\u201d, afirma. Para ela, por\u00e9m, esse controle social precisa ser din\u00e2mico e vivo, garantindo que \u201cesse processo de constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas esteja muito pr\u00f3ximo dos grupos sociais, principalmente aqueles em situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade\u201d.<\/p>\n<p>Eis a entrevista.<\/p>\n<p><strong>N\u00edsia, o relat\u00f3rio leva o t\u00edtulo de \u201cRompendo o ciclo da desigualdade-pandemia\u201d. Explique como esse ciclo funciona.<\/strong><\/p>\n<p>O que o relat\u00f3rio prop\u00f5e \u00e9 uma outra abordagem sobre pandemias. Normalmente, n\u00f3s pensamos muito nos aspectos de vigil\u00e2ncia, ou seja, em identificar eventos de <strong>sa\u00fade p\u00fablica<\/strong> que fujam a um certo padr\u00e3o em termos de adoecimento de pessoas. N\u00f3s temos hoje uma tecnologia muito avan\u00e7ada para essa vigil\u00e2ncia e isso \u00e9, de fato, um fator muito importante.<\/p>\n<p>Mas o que o relat\u00f3rio indica \u00e9 que n\u00f3s temos que considerar que a <strong>pandemia<\/strong> \u00e9 fruto de fen\u00f4menos n\u00e3o apenas biol\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m sociais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos. E, portanto, ela n\u00e3o pode ser enfrentada apenas com tecnologias de sa\u00fade. Esse \u00e9 o primeiro ponto.<\/p>\n<p>Isso depende de cada tipo de doen\u00e7a, claro, mas se n\u00f3s pensarmos na <strong>covid-19<\/strong>, por exemplo, a alta transmiss\u00e3o est\u00e1 diretamente relacionada a fatores sociais, condi\u00e7\u00f5es de moradia, transporte, educa\u00e7\u00e3o, acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade\u2026 Isso leva a din\u00e2micas diferentes da pandemia, com impacto na vida das pessoas.<\/p>\n<p>Isso significa que as <strong>desigualdades<\/strong> determinam o curso da <strong>pandemia<\/strong>, em grande parte. Elas fazem com que a pandemia v\u00e1 mais numa dire\u00e7\u00e3o ou em outra. Quanto maior a desigualdade, maior a dificuldade de um pa\u00eds lidar com eventos pand\u00eamicos, ao mesmo tempo em que a pandemia tamb\u00e9m agrava algumas desigualdades.<\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es muito evidentes que est\u00e3o no relat\u00f3rio: o impacto sobre o<a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7760-trabalho-das-mulheres-na-pandemia-e-um-fluxo-continuo-de-atividades-que-gera-sofrimento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"> trabalho das mulheres<\/a>, a press\u00e3o posterior \u00e0 pandemia de recoloca\u00e7\u00e3o no trabalho, o impacto em \u00e1reas urbanas, de periferias, de favelas, \u00e9 muito maior. O impacto nos povos ind\u00edgenas, que tamb\u00e9m est\u00e1 bem demarcado no relat\u00f3rio. A quest\u00e3o racial como um todo.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, a ideia de que a desigualdade interfere no curso da <strong>pandemia<\/strong> \u2013 e a pandemia amplia as desigualdades existentes. Da\u00ed essa ideia do ciclo e que seria importante romp\u00ea-lo \u2013 essa \u00e9 a proposta.<\/p>\n<p><strong>A senhora foi presidente da Fiocruz durante o auge da pandemia. Foi ministra da Sa\u00fade na reconstru\u00e7\u00e3o tanto do Brasil quanto da Sa\u00fade e do SUS, ap\u00f3s a crise sanit\u00e1ria e a destrui\u00e7\u00e3o do<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/649410-brasil-para-nao-esquecer-os-crimes-na-pandemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"> governo Bolsonaro<\/a><\/strong><strong>. O que, na sua experi\u00eancia, comprova essa tese do relat\u00f3rio, esse ciclo? Pode dar exemplos sobre como esse ciclo pode ser visto no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Isso foi e continua a ser avaliado por pesquisas. Foram avaliadas condi\u00e7\u00f5es de impacto das desigualdades durante a pandemia. Logo no in\u00edcio da <strong>crise sanit\u00e1ria<\/strong>, foi encomendado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade um grande estudo, o <strong>Epicovid<\/strong>, para avaliar e monitorar a transmiss\u00e3o, atrav\u00e9s de testes que foram realizados dentro de par\u00e2metros cient\u00edficos. Mas essa pesquisa foi interrompida, o financiamento foi cessado.<\/p>\n<p>J\u00e1 no primeiro semestre de 2020, essa pesquisa, coordenada pelos pesquisadores <strong>Pedro Hallal<\/strong> e <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/566255-amamentacao-e-uma-questao-da-sociedade-diz-especialista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Cesar Victora<\/a>, dois importantes epidemiologistas brasileiros, identificava de maneira clara uma transmiss\u00e3o mais acentuada em \u00e1reas de maior vulnerabilidade social, de maior pobreza. E a transmiss\u00e3o era cinco vezes maior entre os povos ind\u00edgenas \u2013 uma pandemia dentro da pandemia.<\/p>\n<p>A maior gravidade da pandemia tamb\u00e9m pode ser associada \u00e0 quest\u00e3o de garimpo e outros problemas nas \u00e1reas ind\u00edgenas \u2013 e est\u00e1 na base da<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/648270-voltamos-a-respirar-diz-lideranca-yanomami-sobre-crise-entrevista-com-junior-yanomami\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"> crise Yanomami<\/a>, que n\u00f3s enfrentamos no in\u00edcio do governo do presidente <strong>Lula<\/strong>. Tamb\u00e9m se viu um impacto muito grande naquelas fam\u00edlias chefiadas por mulheres em situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade. Um outro dado \u00e9 a letalidade por regi\u00e3o, que foi muito maior no <strong>Norte<\/strong>. Isso tem a ver com condi\u00e7\u00f5es sociais e com acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade, outro determinante social. Esses s\u00e3o apenas alguns exemplos.<\/p>\n<p>Mas eu gostaria de acrescentar algo: como bem aponta o\u00a0<a href=\"https:\/\/abrasco.org.br\/download\/dossie-abrasco-pandemia-de-covid-19\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Dossi\u00ea Abrasco \u2013 Pandemia de Covid-19<\/a>, h\u00e1 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o em pandemias e em qualquer emerg\u00eancia: a resposta r\u00e1pida e cientificamente embasada. Isso infelizmente n\u00e3o aconteceu no Brasil, e levou a que a gente tivesse um resultado dos piores do mundo. Segundo dados do in\u00edcio de 2022, o Brasil, um pa\u00eds com menos de 3% da popula\u00e7\u00e3o mundial, teve mais de 10% do n\u00famero de mortes. Um percentual que chegou a 23% em mar\u00e7o de 2021, quando pass\u00e1vamos pela situa\u00e7\u00e3o mais grave.\u00a0<\/p>\n<p>Uma <strong>pandemia<\/strong> depende de m\u00faltiplos fatores. Em uma crise como a da <strong>covid-19<\/strong>, antes das vacinas, n\u00f3s t\u00ednhamos recursos muito limitados para minimizar o problema. Depend\u00edamos das chamadas \u201cmedidas n\u00e3o farmacol\u00f3gicas\u201d: m\u00e1scara, distanciamento social. E isso requer confian\u00e7a, que \u00e9 um outro elemento que est\u00e1 presente no relat\u00f3rio. Requer que o governo coordene as a\u00e7\u00f5es, particularmente o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, como autoridade.<\/p>\n<p>Foi a falta dessa coordena\u00e7\u00e3o que levou nosso pa\u00eds a esse resultado \u2013 junto com a demora das vacinas, claro.<\/p>\n<p><strong>O Brasil \u00e9 bastante citado no relat\u00f3rio\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Exato. Al\u00e9m do <strong>Epicovid<\/strong> e do estudo coordenado pela professora <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/610803-a-pandemia-traz-problemas-emocionais-a-todos-mas-nem-todos-tem-acesso-a-diagnostico-entrevista-especial-com-celia-szwarcwald\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">C\u00e9lia Landmann<\/a> sobre desigualdades na educa\u00e7\u00e3o e letalidade na pandemia, tamb\u00e9m foi muito destacado no nosso di\u00e1logo, para a elabora\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio, o <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/652736-bolsa-familia-evitou-mais-de-700-mil-mortes-e-8-2-milhoes-de-hospitalizacoes-entre-os-mais-pobres-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Programa Bolsa Fam\u00edlia<\/a>.<\/p>\n<p>Os programas de transfer\u00eancia de renda no mundo t\u00eam o <strong>Bolsa Fam\u00edlia<\/strong> como uma grande inova\u00e7\u00e3o social. Quando falamos em inova\u00e7\u00e3o na sa\u00fade, muitas vezes pensamos na \u00e1rea de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, de vacinas ou medicamentos. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m a inova\u00e7\u00e3o em programas, em pol\u00edticas p\u00fablicas \u2013 e ele foi bastante citado no relat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Gostaria que a senhora falasse um pouco mais sobre essas feridas que ainda est\u00e3o abertas no Brasil p\u00f3s-pandemia. Como se sabe, o pa\u00eds \u2013 e o mundo \u2013 ainda n\u00e3o est\u00e3o preparados para as pr\u00f3ximas pandemias.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 um impacto muito grande na vida econ\u00f4mica, social e tamb\u00e9m na sa\u00fade. Muitos atendimentos \u00e0 sa\u00fade n\u00e3o puderam ser realizados, por exemplo. Um dos maiores impactos ocorreu na taxa de <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/623296-mortalidade-materna-no-brasil-aumentou-94-durante-a-pandemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">mortalidade materna<\/a>, que dobrou durante a pandemia.\u00a0<\/p>\n<p>Mas, talvez, a ferida maior seja a da confian\u00e7a. Houve uma campanha orquestrada contra vacinas, um descr\u00e9dito sobre as medidas recomendadas a partir de evid\u00eancias cient\u00edficas. Isso nunca havia acontecido desse modo na hist\u00f3ria da sa\u00fade p\u00fablica, em nossa sociedade. Levaremos um tempo para recuperar essa confian\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p>Por isso, no per\u00edodo em que eu estive no <strong>Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong>, celebrei muito o aumento da cobertura vacinal de 16 vacinas das 17 do calend\u00e1rio infantil. Porque, junto com a cr\u00edtica \u00e0 vacina da covid, veio tamb\u00e9m todo um questionamento ao Programa Nacional de Imuniza\u00e7\u00f5es, que nunca havia sido politizado \u2013 no pior sentido da palavra \u2013 no Brasil. E essa \u00e9 a grande pol\u00edtica para proteger e cuidar das pessoas.<\/p>\n<p>N\u00f3s conseguimos que a <strong>Fiocruz<\/strong> e o <strong>Instituto Butantan<\/strong> dessem uma resposta importante em termos de vacinas para a <strong>covid<\/strong>. No caso da Fiocruz, tamb\u00e9m em termos de testes e diagn\u00f3sticos. Uma rede de universidade se mobilizou com conhecimentos e inova\u00e7\u00f5es. Ou seja: n\u00f3s temos os elementos mais fundamentais.\u00a0<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se faz o enfrentamento de pandemias sem coordena\u00e7\u00e3o do Estado, sem o governo atuando fortemente. \u00c9 importante que isso seja visto como um aprendizado pela sociedade<\/p>\n<p><strong>Estamos falando bastante do Brasil, mas o dossi\u00ea trata sobretudo da quest\u00e3o internacional. Ele discorre sobre a arquitetura financeira global, que \u00e9 baseada em d\u00edvidas abusivas, que refor\u00e7am esse ciclo desigualdade-pandemia. Pode falar um pouco mais sobre como a austeridade piora as chances de um pa\u00eds responder \u00e0s crises sanit\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio d\u00e1 um n\u00famero bastante impactante, que \u00e9 o fato de 3,3 bilh\u00f5es de pessoas viverem em pa\u00edses que pagam mais pelos custos de d\u00edvida do que por servi\u00e7os de sa\u00fade e por programas sociais. Esse dado \u00e9 um dado muito forte. Portanto, essa discuss\u00e3o de propostas que transformem d\u00edvidas em investimentos \u2013 seja em sa\u00fade ou clim\u00e1ticos, como se colocou agora na <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/659973-cop30-tera-de-ser-a-mais-importante-de-todas-as-conferencias-do-clima-diz-carlos-nobre\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">COP-30 <\/a>\u2013 \u00e9 uma \u00eanfase do relat\u00f3rio.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 discuss\u00e3o que vem junto sobre a austeridade fiscal. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre responsabilidade fiscal e essas medidas de austeridade. N\u00f3s vimos, inclusive, no mundo todo, o impacto dessas medidas de redu\u00e7\u00e3o de recursos para a sa\u00fade, para a educa\u00e7\u00e3o e para programas sociais.<\/p>\n<p>Essa defesa \u00e9 feita no relat\u00f3rio, que prop\u00f5e mesmo a suspens\u00e3o do pagamento da d\u00edvida. Muitas vezes h\u00e1 dificuldade de se ter uma posi\u00e7\u00e3o mais firme, como gostar\u00edamos, no relat\u00f3rio, mas \u00e9 um caminho important\u00edssimo.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio do nosso conselho global para desigualdades e pandemias \u00e9 tamb\u00e9m uma contribui\u00e7\u00e3o para que a implementa\u00e7\u00e3o do <strong>Acordo de Pandemias<\/strong> leve em conta esses fatores, os determinantes sociais da sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>O relat\u00f3rio fala que as patentes mostraram-se um obst\u00e1culo na conten\u00e7\u00e3o de pandemias. O relat\u00f3rio prop\u00f5e um modelo de\u00a0<\/strong><strong>pr\u00eamios em vez de patentes<\/strong><strong>. Essa \u00e9 uma proposta realista para substituir o sistema atual?<\/strong><\/p>\n<p>Esse caminho tensiona no sentido daquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para eliminar as barreiras de acesso. Essa quest\u00e3o das patentes n\u00e3o \u00e9 nova: o <strong>acordo de Doha<\/strong> j\u00e1 colocava que os interesses da vida, da sa\u00fade, t\u00eam que prevalecer sobre os interesses econ\u00f4micos e a propriedade intelectual \u2013 e essa declara\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto de um acordo entre pa\u00edses.<\/p>\n<p>O Brasil viveu uma experi\u00eancia durante o primeiro governo do presidente <strong>Lula<\/strong>, com o ministro <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/581688-se-o-sus-nao-for-prioridade-absoluta-o-brasil-tera-dois-sistemas-de-saude-um-para-os-pobres-e-outro-para-a-classe-media-entrevista-especial-com-jose-gomes-temporao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o<\/a>, que foi o licenciamento compuls\u00f3rio, dentro dos marcos legais, do antirretroviral <strong>efavirenz<\/strong>, para tratar o <strong>HIV<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 importante pensar para al\u00e9m dessa quest\u00e3o. \u00c9 fundamental que os pa\u00edses tamb\u00e9m tenham condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o local e regional. Principalmente no caso de produtos que levam mais tempo no desenvolvimento,<\/p>\n<p>como vacinas e imunobiol\u00f3gicos. Eu gostaria de acentuar esse ponto, da defesa da produ\u00e7\u00e3o regional. Os pa\u00edses do <strong>Sul Global<\/strong> t\u00eam que ter condi\u00e7\u00e3o de produzir seus f\u00e1rmacos. Esse tamb\u00e9m \u00e9 um efeito da pandemia: a necessidade de aumentar a consci\u00eancia sobre essa necessidade.<\/p>\n<p>A <strong>Unitaid<\/strong>, que foi uma importante ag\u00eancia criada para dar conta do acesso a medicamentos para <strong>HIV,<\/strong> mal\u00e1ria etc, ampliou muito o seu escopo e agora considera que acesso precisa vir junto da produ\u00e7\u00e3o local e regional.\u00a0<\/p>\n<p>Numa situa\u00e7\u00e3o de pandemia, para ser concreta e voltar ao Brasil, o fato de n\u00f3s termos a <strong>Fiocruz<\/strong> e o <strong>Butantan<\/strong> fez toda a diferen\u00e7a para a produ\u00e7\u00e3o das vacinas. Mas n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos nem estoque e nem capacidade de produzir a tempo, como era necess\u00e1rio, m\u00e1scaras, ventiladores\u2026 As universidades tinham prot\u00f3tipos, mas n\u00e3o tinham a base industrial.<\/p>\n<p><strong>O relat\u00f3rio tamb\u00e9m cita os medicamentos de a\u00e7\u00e3o prolongada para o HIV, como o lenacapavir, r<\/strong><strong>essaltando que essa pandemia n\u00e3o acabou.<\/strong><\/p>\n<p>Um ponto muito importante \u00e9 reconhecer o <strong>HIV<\/strong>\/<strong>aids<\/strong> como pandemia \u2013 isso nem sempre \u00e9 colocado nesses termos. O HIV foi a segunda grande pandemia do s\u00e9culo XX, e ela continua, nos pa\u00edses com mais dificuldade de acesso, de forma mais aguda.<\/p>\n<p>Esses novos tratamentos est\u00e3o de fato sendo avaliado como algo que vai transformar a prote\u00e7\u00e3o contra o HIV\/aids. Por isso, est\u00e1 no centro das discuss\u00f5es. Est\u00e1 presente tanto no relat\u00f3rio como tamb\u00e9m na pauta de negocia\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. O pre\u00e7o justo desse medicamento \u00e9 uma pauta fundamental.<\/p>\n<p><strong>O dossi\u00ea cita muitas vezes os determinantes sociais da sa\u00fade. Pode falar mais sobre como sistemas universais como o SUS podem contribuir para reduzir desigualdades?<\/strong><\/p>\n<p>O relat\u00f3rio mostra que a Sa\u00fade \u00e9 impactada pelas pol\u00edticas p\u00fablicas. Para n\u00e3o falar de uma maneira t\u00e3o gen\u00e9rica, estudos como os conduzidos pelo professor <strong>Maur\u00edcio Barreto<\/strong>, no <strong>Centro de Integra\u00e7\u00e3o de Dados e Conhecimento para a Sa\u00fade<\/strong> (<strong>Cidacs<\/strong>) mostram claramente o impacto do Programa Bolsa Fam\u00edlia sobre indicadores como a mortalidade infantil, sobre a incid\u00eancia de doen\u00e7as como tuberculose. Recentemente, foi publicado um importante estudo sobre as rela\u00e7\u00f5es entre desigualdades e <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/627275-a-mudanca-climatica-transformara-a-maneira-como-vivemos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a> tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Esse entendimento, do ponto de vista de pol\u00edtica p\u00fablica, tamb\u00e9m levou a que n\u00f3s cri\u00e1ssemos, no <strong>Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/strong>, um grupo interministerial para elimina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as com determina\u00e7\u00e3o social. A rigor, todas as doen\u00e7as t\u00eam alguma determina\u00e7\u00e3o social, inclusive as doen\u00e7as cr\u00f4nicas. Mas \u00e9 importante ter pol\u00edticas p\u00fablicas nesse sentido.<\/p>\n<p>No caso dos sistemas universais, o interesse pelo SUS cresceu muito com a pandemia. Por mais que saibamos que h\u00e1 desigualdades no funcionamento do sistema, o fato de termos n\u00e3o s\u00f3 o direito, mas uma vis\u00e3o integral que envolve a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0 sa\u00fade, o fortalecimento da Estrat\u00e9gia da Sa\u00fade da Fam\u00edlia, \u00e9 importante.<\/p>\n<p>Uma articula\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria com o sistema de vigil\u00e2ncia \u00e9 fundamental para controlar pandemias no futuro. Os sistemas universais, por darem essa garantia de acesso, mostram de fato como a sa\u00fade pode ser um direito. O <strong>SUS<\/strong> fez diferen\u00e7a, no caso do Brasil, ainda que tenha tido resultados tristes, em especial por tudo que falei \u2013 aus\u00eancia de coordena\u00e7\u00e3o, desmantelamento de pol\u00edticas p\u00fablicas com impacto muito grande na sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>O relat\u00f3rio tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o \u00e0s desigualdades raciais, de g\u00eanero e que atingem outros grupos fragilizados. Como combater tamb\u00e9m essas disparidades?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 important\u00edssimo isso. Eu citei um indicador da mortalidade materna, mas n\u00e3o mencionei um detalhe: ela \u00e9 o dobro em mulheres pretas, em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres brancas. Esse \u00e9 um dos dados, n\u00e3o \u00e9 um \u00fanico. At\u00e9 nas condi\u00e7\u00f5es de <strong>trabalho das mulheres<\/strong> e o impacto da pandemia, como j\u00e1 falamos aqui, tamb\u00e9m a quest\u00e3o racial se coloca a\u00ed com impacto muito grande tamb\u00e9m, no caso das mulheres negras.<\/p>\n<p>Eu creio que h\u00e1 avan\u00e7os, mas que est\u00e3o aqu\u00e9m da nossa necessidade. N\u00f3s vivemos, de 2016 a 2023, um processo muito grande de desmantelamento de pol\u00edticas p\u00fablicas. A <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/649389-como-os-lockdowns-afetaram-a-saude-mental-dos-adolescentes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">sa\u00fade mental<\/a>, em todo o mundo, surge como um outro grande problema, agravado no <strong>p\u00f3s<\/strong>&#8211;<strong>pandemia<\/strong>. Esses s\u00e3o fatores em que a quest\u00e3o racial tamb\u00e9m aparece de maneira diferenciada. E n\u00e3o apenas com a popula\u00e7\u00e3o negra: tamb\u00e9m nos povos ind\u00edgenas, na regi\u00e3o Norte h\u00e1 um racismo muito forte, e esse tema se coloca.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar em desigualdade sem falar das m\u00faltiplas desigualdades de renda, de educa\u00e7\u00e3o, de g\u00eanero, de ra\u00e7a, acho que isso fica muito patente ap\u00f3s uma an\u00e1lise da pandemia.<\/p>\n<p><strong>Que outros pontos importantes a senhora destaca, no dossi\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de ressaltar o quanto o Brasil vem contribuindo para essa abordagem mais integral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para novas pandemias, seja com pol\u00edticas p\u00fablicas, seja com pesquisas. Esse \u00e9 um ponto muito importante. Mas tudo isso depende de uma pol\u00edtica de Estado, por um lado, e da mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade, por outro.<\/p>\n<p>N\u00e3o falamos aqui sobre isso, mas no relat\u00f3rio \u00e9 enfatizada a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o social. No caso do <strong>Sistema \u00danico de Sa\u00fade<\/strong>, o controle social \u00e9 exercido atrav\u00e9s do <strong>Conselho Nacional de Sa\u00fade<\/strong>. Mas temos que tornar essa participa\u00e7\u00e3o cada vez mais din\u00e2mica \u2013 e n\u00f3s vemos o quanto \u00e9 importante que esse processo de constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas esteja muito pr\u00f3ximo dos grupos sociais, principalmente aqueles em situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Leia mais<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Relat\u00f3rio internacional sustenta: n\u00e3o bastam novos f\u00e1rmacos. 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