{"id":194085,"date":"2025-12-19T00:39:12","date_gmt":"2025-12-19T00:39:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/194085\/"},"modified":"2025-12-19T00:39:12","modified_gmt":"2025-12-19T00:39:12","slug":"80-pessoas-foram-abandonadas-numa-ilha-deserta-impossivel-sete-mulheres-e-um-bebe-estavam-vivos-15-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/194085\/","title":{"rendered":"80 pessoas foram abandonadas numa ilha deserta &#8220;imposs\u00edvel&#8221;. Sete mulheres e um beb\u00e9 estavam vivos, 15 anos depois"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\"><a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/Category:Tromelin?uselang=pt#\/media\/File:Tromelin_aerial_photograph.JPG\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" class=\"ext-link\">Jean-Claude Hanon\/Wikipedia<\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-717505 size-kopa-image-size-3\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/476db8b85fe893d04fc78498093a77a2-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">Vista a\u00e9rea da ilha de Tromelin.<\/p>\n<p><strong>Em 1776, franceses abandonaram cerca de 80 malgaxes escravizados numa min\u00fascula ilha praticamente sem nada, aproximadamente do tamanho do Parque da Cidade do Porto. Eis a hist\u00f3ria do naufr\u00e1gio de Tromelin.<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria que se segue parece o enredo de um filme de aventura, mas \u00e9 muito mais abomin\u00e1vel do que o t\u00edtulo indica e aconteceu, no s\u00e9culo XVIII, numa ilha francesa do \u00cdndico que tem sido praticamente um \u201cfantasma\u201d desde a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim que comprou (ilegalmente) 160 negros escravizados no Madag\u00e1scar, a tripula\u00e7\u00e3o da Companhia Francesa das \u00cdndias Orientais, liderada por Jean de La Fargue, seguia para Maur\u00edcia para os vender quando o seu navio, L\u2019Utile, encalhou num recife de coral e ficou gravemente danificado.<\/p>\n<p>O desastre aconteceu a <strong>31 de julho de 1761<\/strong>. Trancados na cave por medo franc\u00eas de um motim, apenas cerca de metade das pessoas escravizadas viria a sobreviver ao desastre, enquanto a maioria dos franceses, que viajava mais protegida, saiu com vida do naufr\u00e1gio.<\/p>\n<p>No entanto, todos os sobreviventes, brancos e negros, encontraram-se perdidos no mesmo local: uma ilha min\u00fascula e desabitada, de apenas <strong>800m\u00b2<\/strong>. O que encontraram l\u00e1? Muito pouco, al\u00e9m de areia e arbustos. N\u00e3o havia \u00e1rvores, nem \u00e1gua pot\u00e1vel. Estavam completamente perdidos no meio do oceano, em cima de um peda\u00e7o cheio de nada.<\/p>\n<p>Contam-nos registos recolhidos em investiga\u00e7\u00f5es mais tardias que, rapidamente, negros e brancos uniram-se e reuniram tudo o que conseguiram aproveitar do naufr\u00e1gio. Em dois meses, conseguiram construir um navio improvisado, batizado de La Providence, para regressar a casa. Mas quando o barco ficou pronto para navegar, os franceses avisaram os escravizados: n\u00e3o havia espa\u00e7o para todos.<\/p>\n<p>Disfar\u00e7ando uma mentira sob a forma de promessa, s\u00f3 os brancos partiram, deixando para tr\u00e1s dezenas de escravizados, que ficaram \u00e0 espera dos seus donos que disseram que voltariam para os ir resgatar.<\/p>\n<p>No dia 27 de setembro de 1761, <strong>a tripula\u00e7\u00e3o branca abandonou a ilha<\/strong> at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida, mas n\u00e3o voltou como tinha prometido. Afinal, os escravos eram para si apenas mercadoria perdida, uma perda de stock aos olhos franceses. Os altos funcion\u00e1rios franceses recusaram enviar ajuda para resgatar os negros que tinham ficado para tr\u00e1s, possivelmente sob o pretexto de que a Guerra dos Sete Anos estava a decorrer. <strong>Ningu\u00e9m regressou \u00e0 ilha \u2014 durante 15 anos<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cCultivo imposs\u00edvel, sem \u00e1gua pot\u00e1vel\u201d. Como (quase) s\u00f3 mulheres sobreviveram ap\u00f3s 15 anos em Tromelin<\/p>\n<p>Em 1776, Jacques Marie Boudin de Tromelin de La Nuguy, alegadamente movido com o objetivo concreto de procurar sobreviventes, voltou a colocar franceses na ilha. Provavelmente nunca pensou que iria encontrar o que encontrou.<\/p>\n<p>Regressando a 2012, um relat\u00f3rio do Senado franc\u00eas descreve uma ilha \u201ccom 1,5 km de comprimento por 0,7 km de largura, [\u2026] sem \u00e1gua pot\u00e1vel e varrida pelos ventos al\u00edsios, o que torna qualquer cultivo imposs\u00edvel e s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis\u201d \u2014 e mesmo assim, quase sem valor econ\u00f3mico, a ilha \u201c\u00e9 ferozmente reivindicada pela Rep\u00fablica da Maur\u00edcia\u201d, descrevia o <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/les-decodeurs\/article\/2017\/01\/18\/qu-est-ce-que-cette-ile-de-tromelin-qui-fait-autant-reagir_5064820_4355770.html\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" class=\"ext-link\">Le Monde<\/a> em 2017.<\/p>\n<p>Livres h\u00e1 15 anos, <strong> sete mulheres e um pequeno rapazinho de oito meses de idade<\/strong> viram o navio La Dauphine chegar ao pequeno ilh\u00e9u. Tinham sobrevivido \u00e0 base de caranguejos, tartarugas e alguns peixes e ovos de aves e constru\u00eddo abrigos a partir de corais, pedras e restos da madeira dos destro\u00e7os. Como roupa, usaram tangas feitas de penas.<\/p>\n<p>E em v\u00e1rias ocasi\u00f5es tentaram sair da ilha, sem sucesso, revelaram, d\u00e9cadas mais tarde (em 2006), escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas lideradas por <strong>Max Gu\u00e9rout<\/strong>, que ajudariam a reconstituir parte desta tr\u00e1gica hist\u00f3ria. Uma hist\u00f3ria dif\u00edcil de ignorar por \u2018meia d\u00fazia\u2019 de meteorologistas da M\u00e9t\u00e9o France, que trabalharam\u00a0 na ilha desde 1954 e ficaram habituados a ver, nomeadamente, a simb\u00f3lica \u00e2ncora do sombrio naufr\u00e1gio \u2014 dos poucos vest\u00edgios que estavam acima da areia antes da equipa de Gu\u00e9rout ir ao local.<\/p>\n<p>\u201cEncontr\u00e1mos documentos sobre a hist\u00f3ria do navio e do naufr\u00e1gio com bastante facilidade, porque os arquivos da Companhia Francesa das \u00cdndias Orientais em Lorient est\u00e3o extraordinariamente bem preservados\u201d, explica Gu\u00e9rout, citado em artigo do <a href=\"https:\/\/www.slate.fr\/story\/137603\/tragedie-esclaves-oublies-tromelin\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" class=\"ext-link\">Slate<\/a>. \u201cNo entanto, n\u00e3o t\u00ednhamos praticamente nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre o que aconteceu durante os quinze anos em que os n\u00e1ufragos estiveram desaparecidos.\u201d<\/p>\n<p>O arque\u00f3logo revelou que foram recolhidos testemunhos dos sobreviventes, que tamb\u00e9m sobreviveram numa carta bem preservada.<\/p>\n<p>\u201cDizem que 18 pessoas partiram rapidamente numa jangada e que v\u00e1rias mulheres morreram durante o parto. Explicam que os n\u00e1ufragos comeram p\u00e1ssaros e tartarugas, que constru\u00edram casas, mantiveram o fogo aceso at\u00e9 ao fim e que usavam tangas feitas de penas de p\u00e1ssaros. Isto \u00e9 praticamente tudo o que sabemos\u201d, adiantou o investigador franc\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cConsiderando que esta hist\u00f3ria \u00e9 extraordin\u00e1ria, a pessoa a quem o relat\u00f3rio foi dirigido deve t\u00ea-lo mostrado \u00e0 pressa ao vizinho, e o documento acabou por ficar num escrit\u00f3rio, sem que ningu\u00e9m pensasse em recuper\u00e1-lo para arquivo\u201d, especula ainda.<\/p>\n<p>Realmente livres?<\/p>\n<p>Aquele peda\u00e7o de areia viria a ser identificado mais tarde como <strong>ilha de Tromelin<\/strong>, em homenagem a Jacques Marie Boudin de Tromelin de La Nuguy, o capit\u00e3o que resgatou os oito escravizados a quem<strong> foi concedida a liberdade<\/strong>, em Maur\u00edcia. Os oito sobreviventes recusaram regressar a casa, no Madag\u00e1scar, com medo de voltarem a ficar \u00e0 merc\u00ea dos franceses.<\/p>\n<p>E o resto \u00e9 hist\u00f3ria que n\u00e3o se conhece, por falta de registos. Mais um grupo de pessoas silenciadas pela hist\u00f3ria, apagadas desta. Hoje, resta a cicatriz, marcada naquela ilha desabitada, da l\u00f3gica desumana do tr\u00e1fico esclavagista.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses de estadia, no m\u00ednimo<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, os escravizados malgaxes foram os \u00fanicos humanos a habitar a ilha (o funcionamento da esta\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica francesa automatizado h\u00e1 v\u00e1rios anos). Mas ainda h\u00e1 quem l\u00e1 v\u00e1, num regime de \u201creality show\u201d.<\/p>\n<p>Hoje em dia, como contava em 2022 a jornalista Emmanuelle Trecolle na AFP, o territ\u00f3rio ultramarino franc\u00eas abriga rota\u00e7\u00f5es de tr\u00eas meses para garantir presen\u00e7a permanente, manter a pista de aterragem operacional e apoiar programas de estudo e conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cada trimestre, o navio de reabastecimento Marion Dufresne traz uma nova equipa e abastece a base com toneladas de mantimentos e materiais, muitas vezes transportados por helic\u00f3ptero: comida, \u00e1gua e equipamentos essenciais para uma comunidade reduzida viver naquela ilha \u201capertada\u201d que conta com um refeit\u00f3rio, biblioteca, gin\u00e1sio e o m\u00ednimo de quartos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 25px; margin-bottom: 10; font-family: Roboto, Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: 15px\">&#13;<br \/>\n        Tom\u00e1s Guimar\u00e3es, ZAP \/\/ <a href=\"\" data-wpel-link=\"internal\"\/>&#13;\n    <\/p>\n<p>    <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/subscrever-newsletter\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#13;<br \/>\n        <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765389371_545_2d51fe4a0ba54894421ead1809309ed9-1-450x140.jpg\" alt=\"Subscreva a Newsletter ZAP\" width=\"450\" height=\"140\"\/>&#13;<br \/>\n    <\/a><\/p>\n<p>                <a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaIC4EE2f3EJZPPSbR34\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" class=\"ext-link\">&#13;<br \/>\n                    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765389371_770_c68c559d956d4ca20f435ed74a6e71e6.png\" alt=\"Siga-nos no WhatsApp\" width=\"175\" height=\"64\"\/>&#13;<br \/>\n                <\/a><\/p>\n<p>                <a href=\"https:\/\/news.google.com\/publications\/CAAiEHRwZondIV71PDjWNoqMduEqFAgKIhB0cGaJ3SFe9Tw41jaKjHbh?hl=en-US&amp;gl=US&amp;ceid=US%3Aen\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" class=\"ext-link\">&#13;<br \/>\n                    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765389372_556_5123dd8b087b644fdb8f8603acd1bad4.png\" alt=\"Siga-nos no Google News\" width=\"176\" height=\"64\"\/>&#13;<br \/>\n                <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jean-Claude Hanon\/Wikipedia Vista a\u00e9rea da ilha de Tromelin. 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