{"id":195651,"date":"2025-12-20T04:16:57","date_gmt":"2025-12-20T04:16:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/195651\/"},"modified":"2025-12-20T04:16:57","modified_gmt":"2025-12-20T04:16:57","slug":"a-europa-e-os-desafios-da-nova-estrategia-de-seguranca-nacional-dos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/195651\/","title":{"rendered":"A Europa e os desafios da nova \u201cEstrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional\u201d dos EUA"},"content":{"rendered":"<p>A nova Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional (NSS) dos EUA, recentemente publicada, requer uma cuidada an\u00e1lise porquanto se constitui num documento muit\u00edssimo pol\u00e9mico, portador de altera\u00e7\u00f5es radicais e com influ\u00eancia direta no espa\u00e7o geopol\u00edtico europeu. Ao primeiro contacto com esta nova e inesperada realidade, concebida e mantida em segredo por algum tempo, gerou-se uma vis\u00edvel onda de espanto, seguida de um verdadeiro cataclismo junto das principais capitais europeias. Choque \u00e9 a palavra certa, imediatamente secundado por uma sensa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia na rea\u00e7\u00e3o. Este documento materializa, efetivamente, um corte radical com a tradicional postura pol\u00edtica externa seguida pelos EUA ao longo das oito \u00faltimas d\u00e9cadas. Na Europa fica a sensa\u00e7\u00e3o de um verdadeiro amargo de boca. Algo inesperado e at\u00e9 mesmo hostil se n\u00e3o quisermos poupar adjetivos. H\u00e1, inclusivamente, quem classifique o documento como uma perigosa deriva ideol\u00f3gica de inspira\u00e7\u00e3o ultranacionalista; e h\u00e1 quem, menos preocupado, o considere apenas um exerc\u00edcio ser\u00f4dio de um certo \u201cneorrealismo\u201d geoestrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Compreender a ess\u00eancia deste documento-\u00e2ncora da nova pol\u00edtica externa da Casa Branca revela manter, desde logo, a perce\u00e7\u00e3o de que ele se articula, basicamente, \u00e0 volta de tr\u00eas vetores distintos concorrentes para uma mesma finalidade. Um primeiro, representativo de uma diagnose do \u201cestado da arte\u201d no que respeita \u00e0 ordem internacional. Um segundo, ancorado na qualidade de simples ferramenta de poder pol\u00edtico. Finalmente, um terceiro e n\u00e3o menos importante, a\u00ed concebido como uma verdadeira alavanca promotora de mudan\u00e7as de car\u00e1ter ideol\u00f3gico. \u00c9 justamente aqui, nesta invulgar justaposi\u00e7\u00e3o, entre os fatores intr\u00ednsecos de uma an\u00e1lise geoestrat\u00e9gica, de uma vis\u00edvel agenda pol\u00edtico-partid\u00e1ria e de uma escancarada narrativa identit\u00e1ria, no qual este importante documento se torna t\u00e3o intrinsecamente controverso e t\u00e3o dif\u00edcil de enquadrar na costumeira tradi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa norte-americana.<\/p>\n<p>Do meu ponto de vista, um dos aspetos mais marcantes desta nova NSS \u00e9 a forma como os EUA passam a encarar a Europa. Etiquetando-a n\u00e3o como a velha tradicional aliada, mas como um novo palco de competi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O documento culpa os governos europeus de serem respons\u00e1veis por \u201csubverter processos democr\u00e1ticos\u201d e de se constitu\u00edrem como um obst\u00e1culo na procura da paz com a Federa\u00e7\u00e3o Russa. O que \u00e9 caricato. Ao contr\u00e1rio de anteriores documentos que colocavam a t\u00f3nica nos valores partilhados e na responsabilidade coletiva, esta \u201cnouvelle\u201d qu\u00e3o inusitada estrat\u00e9gia adota uma ret\u00f3rica que encontra acolhimento nos mais inflamados discursos dos novos populismos europeus. Numa n\u00edtida intromiss\u00e3o nos assuntos internos dos Estados Europeus, o texto consegue ir ainda mais longe ao tecer rasgados louvores \u00e0 ascens\u00e3o de partidos de raiz patri\u00f3tica, dando cr\u00e9dito e apoio pol\u00edtico-ideol\u00f3gico a for\u00e7as claramente revisionistas no pior sentido como a \u201cAfD\u201d (Alternative f\u00fcr Deutschland) germ\u00e2nica, o \u201cRassemblement National\u201d franc\u00eas (RN) \u2013 identificado como de extrema direita nacionalista \u2013 ou o \u201cReform UK\u201d, o partido brit\u00e2nico, igualmente populista de direita, fundado por Nigel Farage e Catherine Blaiklock. N\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria de um documento oficial dos EUA que tenha perfilhado o prop\u00f3sito de interferir t\u00e3o descaradamente nos assuntos de pol\u00edtica interna europeia \u2014 numa intromiss\u00e3o t\u00e3o absolutamente inqualific\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como, muito bem, referiu Ursula von der Leyen em recentes declara\u00e7\u00f5es ao Politico, o executivo norte-americano, n\u00e3o deveria imiscuir-se em assuntos internos da democracia europeia. &#8220;N\u00e3o nos cabe, quando se trata de elei\u00e7\u00f5es, decidir quem ser\u00e1 o l\u00edder de um pa\u00eds, mas sim ao povo desse pa\u00eds&#8230; esse \u00e9 o espa\u00e7o de soberania dos eleitores, e isso \u00e9 algo que deve ser protegido&#8221;. &#8220;Ningu\u00e9m mais deve interferir, sem qualquer d\u00favida&#8221;, acrescentou ainda a Presidente da Comiss\u00e3o Europeia em resposta a uma pergunta sobre a nova Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA que causou vis\u00edvel alvoro\u00e7o no espa\u00e7o europeu.<\/p>\n<p>Sejamos claros. Para Washington, uma UE cada vez mais supranacional \u2013 intervindo nas quest\u00f5es clim\u00e1ticas, tecnol\u00f3gicas, fiscais ou mesmo na regula\u00e7\u00e3o digital \u2013 apresenta-se como um ator com potencial para amea\u00e7ar a liberdade de a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica norte-americana. Nunca devemos deixar de ter em conta que a UE, em si mesma, \u00e9 a segunda maior economia a n\u00edvel mundial. Patrocinar movimentos de cariz nacionalista afigura-se como um m\u00e9todo de conten\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gico da crescente influ\u00eancia de Bruxelas. Uma a\u00e7\u00e3o de tipo indireto, de natureza vincadamente ideol\u00f3gica, considerada pela UE como inaceit\u00e1vel e politicamente nefasta para a sua liberdade e democracia. Nada de muito diferente daquilo que fazia a ent\u00e3o URSS quando patrocinava globalmente a vertente ideol\u00f3gica do comunismo internacionalista, como forma de unir os povos do mundo e alcan\u00e7ar a almejada hegemonia de poder.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 mais\u2026 A forma ben\u00e9vola como a Federa\u00e7\u00e3o Russa \u00e9 aqui retratada por Washington constitui mais um tra\u00e7o distintivo \u2014 e altamente preocupante \u2014 deste novo documento formalmente subscrito por Donald Trump. Nele, o Kremlin nunca \u00e9 qualificado como uma amea\u00e7a militar, o que menoriza os riscos do seu expansionismo e sugere que o regresso de Moscovo \u00e0 ordem europeia e mundial \u00e9 algo desej\u00e1vel e muito bem-vindo.<\/p>\n<p>A notada aus\u00eancia de compromissos inequ\u00edvocos com o Artigo 5.\u00ba do Tratado de Washington e a firme resist\u00eancia ao futuro alargamento da Alian\u00e7a deixam a Ucr\u00e2nia e muitos outros Estados que aspiram \u00e0 integra\u00e7\u00e3o na NATO numa clara posi\u00e7\u00e3o de grande e cada vez maior fragilidade. O objetivo impl\u00edcito parece confluir para a desconstru\u00e7\u00e3o progressiva da arquitetura de seguran\u00e7a e defesa euro-atl\u00e2ntica laboriosamente constru\u00edda no final da Segunda Guerra Mundial. Com efeito, estamos a deparar-nos com um sinal de retirada estrat\u00e9gica dos EUA da Europa. Algo que, desde a reelei\u00e7\u00e3o do presidente norte-americano, t\u00ednhamos a no\u00e7\u00e3o que poderia acontecer. \u00c9 agora chegado o momento de nos bastarmos a n\u00f3s pr\u00f3prios e de sermos capazes de nos defender autonomamente. Esta, \u00e9 a hora de assumirmos a inteira responsabilidade pela nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a \u2014 esse \u00e9 realmente o caminho certo.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s dos anteriores documentos de Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional, este n\u00e3o \u00e9 apenas um mero documento estrat\u00e9gico norte-americano. Na realidade, \u00e9 bem mais do que isso, assumindo-se como um incontorn\u00e1vel manifesto de car\u00e1ter ideol\u00f3gico. Alus\u00f5es como \u201cdecl\u00ednio civilizacional europeu\u201d, \u201csubstitui\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica\u201d ou \u201crecuperar a identidade ocidental\u201d s\u00e3o transfus\u00f5es diretas do discurso da extrema-direita Republicana. A finalidade, essa, \u00e9 clara. Para al\u00e9m de estabelecer as principais diretrizes e prioridades da pol\u00edtica externa dos EUA \u00e9 tamb\u00e9m agora influenciar as op\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica interna dos seus tradicionais aliados. O que n\u00e3o pode sen\u00e3o ser tido como absurdo: mesmo os analistas que favorecem um recuo estrat\u00e9gico norte-americano admitem que legitimar este tipo de narrativas, associadas \u00e0s teorias do \u201cGrand Replacement\u201d \u2014 uma Grande Substitui\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas \u2014 de inspira\u00e7\u00e3o nacionalista branca e de extrema-direita n\u00e3o \u00e9 o melhor caminho. Uma viragem que ultrapassa, em muito, a velha \u201cRealpolitik\u201d, convergindo para a esfera pr\u00f3pria de uma muit\u00edssimo dura radicaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>N\u00e3o vale a pena continuar a fingir, iludindo-nos. A Europa est\u00e1 mesmo em risco de vir a enfrentar uma potencial guerra de alta intensidade no seu espa\u00e7o geogr\u00e1fico, com uma R\u00fassia apostada em proceder a altera\u00e7\u00f5es de fronteiras atrav\u00e9s da for\u00e7a. E, como se isso n\u00e3o bastasse, agora vemo-nos confrontados com um aliado hist\u00f3rico que j\u00e1 n\u00e3o pretende continuar a desempenhar o papel de maior garante de uma seguran\u00e7a europeia em risco iminente. As implica\u00e7\u00f5es s\u00e3o profundas. Se os EUA n\u00e3o assegurarem a conten\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Russa, ent\u00e3o a Europa deve faz\u00ea-lo e em todas as vertentes. Se a guerra na Ucr\u00e2nia p\u00f4s a nu a inquestion\u00e1vel vulnerabilidade energ\u00e9tica europeia da R\u00fassia, a NSS demonstra-nos que depender dos EUA em mat\u00e9ria de defesa, tecnologia ou economia suscita um enorme risco futuro. A Europa precisa com toda a urg\u00eancia de lograr uma clara autonomia energ\u00e9tica, de uma capacidade de produ\u00e7\u00e3o militar pr\u00f3pria e de um firme controlo das cadeias de valor consideradas cr\u00edticas. Joga-se atualmente na Ucr\u00e2nia a credibilidade europeia. Se a Europa falhar na defesa deste pa\u00eds, acaba por confirmar plenamente o que a NSS sugere. Que a Europa \u00e9 um ator completamente incapaz de prover as suas pr\u00f3prias necessidades de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>A atual NSS n\u00e3o reproduz apenas uma mudan\u00e7a na pol\u00edtica externa dos EUA. Constitui, em si mesma, um verdadeiro terramoto estrat\u00e9gico para a Europa. Se esta responder com unidade, investimento s\u00e9rio e vis\u00e3o estrat\u00e9gica, poder\u00e1 finalmente emergir como uma entidade geopol\u00edtica aut\u00f3noma, respeitada e capaz de se defender a si pr\u00f3pria, deixando de ser uma pot\u00eancia \u201cherb\u00edvora\u201d.<\/p>\n<p>O futuro dir\u00e1 se este momento vai ficar gravado na Hist\u00f3ria como o \u201cgrande despertar\u201d europeu. Ou, ao inv\u00e9s, materializando um passo decisivo para o in\u00edcio do seu decl\u00ednio estrat\u00e9gico e civilizacional \u2014 dando, neste \u00faltimo caso \u2014 raz\u00e3o a um Donald Trump que nos despreza. Francamente, esperemos que estejamos \u00e0 altura de nos assumirmos em pleno vigor. N\u00e3o o fazermos pode ter consequ\u00eancias dr\u00e1sticas, tanto para a Europa como para a Democracia mundial\u2026<\/p>\n<p>Major General\/\/Escreve no SAPO sempre \u00e0 sexta-feira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A nova Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional (NSS) dos EUA, recentemente publicada, requer uma cuidada an\u00e1lise porquanto se constitui&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":195652,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-195651","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-mundo","18":"tag-news","19":"tag-noticias","20":"tag-noticias-principais","21":"tag-noticiasprincipais","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-top-stories","25":"tag-topstories","26":"tag-ultimas","27":"tag-ultimas-noticias","28":"tag-ultimasnoticias","29":"tag-world","30":"tag-world-news","31":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115749967812038650","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=195651"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/195651\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/195652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=195651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=195651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=195651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}