{"id":196910,"date":"2025-12-21T10:09:09","date_gmt":"2025-12-21T10:09:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/196910\/"},"modified":"2025-12-21T10:09:09","modified_gmt":"2025-12-21T10:09:09","slug":"chica-da-silva-real-ganha-vida-sem-estereotipos-20-12-2025-ilustrissima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/196910\/","title":{"rendered":"Chica da Silva real ganha vida sem estere\u00f3tipos &#8211; 20\/12\/2025 &#8211; Ilustr\u00edssima"},"content":{"rendered":"<p><strong>[RESUMO]<\/strong> Ao longo de um s\u00e9culo e meio, livros, filme e novela mostraram Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, como a ex-escravizada lasciva e vingativa do s\u00e9culo 18, que vive um relacionamento pitoresco com um milion\u00e1rio branco. Agora novos projetos iluminam a Chica real, m\u00e3e de 14 filhos em Diamantina.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda vai chegar o dia \/ de nos virem perguntar: \/ Quem foi a Chica da Silva \/ Que viveu neste lugar?&#8221;, indagou <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1994\/7\/24\/mais!\/20.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Cec\u00edlia Meireles<\/a> em &#8220;Romanceiro da Inconfid\u00eancia&#8221;, livro de poemas sobre a hist\u00f3ria de Minas Gerais ao longo dos s\u00e9culos 17 e 18.<\/p>\n<p>Nos anos 1950, quando o livro da poeta foi lan\u00e7ado, Francisca da Silva de Oliveira, a Chica da Silva, j\u00e1 ati\u00e7ava a curiosidade dos brasileiros. Todavia, pouco se sabia sobre ela al\u00e9m do fato de que havia sido uma escravizada brasileira nascida na primeira metade do s\u00e9culo 18 e que tinha recebido a carta de alforria do contratador Jo\u00e3o Fernandes de Oliveira.<\/p>\n<p>Eles viveram juntos por 17 anos, per\u00edodo marcado pela opul\u00eancia proporcionada pela minera\u00e7\u00e3o no Arraial do Tejuco, mais tarde renomeado como Diamantina, na regi\u00e3o central de Minas Gerais. Na terra &#8220;onde os diamantes transbordavam do cascalho&#8221;, no verso de Cec\u00edlia Meireles, o contratador se tornou o homem mais rico do imp\u00e9rio portugu\u00eas.<\/p>\n<p>No \u00faltimo s\u00e9culo e meio, a fama de Chica cresceu gra\u00e7as a uma sucess\u00e3o de livros, especialmente romances, al\u00e9m de um filme, uma telenovela e outros produtos de apelo comercial. Como a maioria desses lan\u00e7amentos desdenhava o rigor das pesquisas de \u00e9poca, o mito tomou definitivamente o lugar da personalidade hist\u00f3rica. E o mito, como se sabe, \u00e9 de todos e n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Livros como &#8220;Mem\u00f3rias do Distrito Diamantino&#8221; (1868), de Joaquim Fel\u00edcio dos Santos; &#8220;Vultos e Fatos de Diamantina&#8221; (1954), de Soter Couto; e &#8220;Chica que Manda&#8221; (1966), de Agripa de Vasconcelos, recorreram a escassos dados hist\u00f3ricos e a por\u00e7\u00f5es fartas de imagina\u00e7\u00e3o e preconceito para moldar a figura de Chica.<\/p>\n<p>Com a colabora\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Fel\u00edcio dos Santos, sobrinho-neto do primeiro autor que escreveu sobre a ex-escravizada, o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/02\/morre-caca-diegues-diretor-de-bye-bye-brasi-e-grande-nome-do-cinema-novo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">diretor Cac\u00e1 Diegues <\/a>preparou um roteiro a respeito dela e lan\u00e7ou &#8220;Xica da Silva&#8221; (1976), assim mesmo, com &#8220;x&#8221;. Em tom carnavalesco, o filme, uma produ\u00e7\u00e3o bem sucedida, enfatizava a sensualidade e as extravag\u00e2ncias da personagem.<\/p>\n<p>&#8220;Dizem que era feia&#8221;, escreveu Cec\u00edlia Meireles. No filme, com <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/10\/brasil-nao-se-acostumou-a-ver-mulher-negra-em-papel-de-destaque-diz-zeze-motta.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Zez\u00e9 Motta<\/a> no papel principal, Chica aparecia bel\u00edssima.<\/p>\n<p>Apesar de erros hist\u00f3ricos e caracteriza\u00e7\u00f5es manique\u00edstas, &#8220;Xica&#8221; apresentava alguma coer\u00eancia narrativa, qualidade que sumiu na novela lan\u00e7ada duas d\u00e9cadas depois pela TV Manchete. No folhetim, com<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/07\/pais-que-acha-odete-roitman-fada-sensata-pede-um-olhar-critico-afirma-tais-araujo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Ta\u00eds Araujo <\/a>como Chica, houve espa\u00e7o at\u00e9 para uma participa\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/09\/cicciolina-pioneira-da-pornopolitica-amarga-insucessos-e-dividas-na-italia.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">atriz porn\u00f4 italiana Cicciolina.<\/a><\/p>\n<p>Diante de tanta fantasia estereotipada nas p\u00e1ginas e nas telas, Chica passou a ser vista como lasciva, uma mulher pronta para se vingar das negras e brancas que se atreviam a cobi\u00e7ar Jo\u00e3o Fernandes. Sua rela\u00e7\u00e3o com o contratador foi tomada como um epis\u00f3dio pitoresco do per\u00edodo colonial brasileiro \u2014afinal, como poderia um portugu\u00eas branco e milion\u00e1rio manter uma rela\u00e7\u00e3o de quase duas d\u00e9cadas com uma ex-escravizada?<\/p>\n<p>Aos poucos, por\u00e9m, a Chica real, fruto de pesquisas detalhadas em documentos do s\u00e9culo 18, volta a ganhar vida. \u00c9 uma proeza que se deve principalmente a uma historiadora, J\u00fania Ferreira Furtado, professora aposentada da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).<\/p>\n<p>A ex-escravizada nasceu em<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/saopaulo\/2018\/03\/1958717-caminho-dos-diamantes-revela-igrejas-e-casarios-coloniais-na-estrada-real.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Milho Verde<\/a>, a quase 40 quil\u00f4metros de Diamantina, entre os anos de 1731 e 1735 \u2014n\u00e3o h\u00e1 registro de uma data exata. Passados quase tr\u00eas s\u00e9culos, acumulavam-se causos sobre ela, mas nenhum esfor\u00e7o consistente de reconstitui\u00e7\u00e3o da vida de Chica e do seu contexto.<\/p>\n<p>Ao longo de sete anos, Furtado pesquisou livros de batismo, listas de irmandades religiosas, ordens r\u00e9gias, peti\u00e7\u00f5es, entre outros documentos, de bibliotecas e arquivos de Brasil, Portugal e Estados Unidos. Em 2003, lan\u00e7ou <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ilustrada\/ult90u33870.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Chica da Silva e o Contratador de Diamantes &#8211; O Outro Lado do Mito&#8221;, <\/a>biografia que ganhou recentemente uma reimpress\u00e3o pela Companhia das Letras.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>A historiadora mostra que a vida levada por Chica se assemelhava \u00e0 de muitas negras forras do s\u00e9culo 18 na regi\u00e3o de Diamantina. Seus contempor\u00e2neos, ali\u00e1s, n\u00e3o viam seus la\u00e7os com Jo\u00e3o Fernandes como algo peculiar.<\/p>\n<p>&#8220;Na sociedade hierarquizada e excludente da \u00e9poca, o casamento estava encerrado em regras r\u00edgidas. A mobilidade constante dos homens e a desigualdade social, racial e de origem entre os c\u00f4njuges dificultavam e at\u00e9 impediam os matrim\u00f4nios legais. O Estado portugu\u00eas normalmente n\u00e3o permitia a uni\u00e3o de indiv\u00edduos de condi\u00e7\u00f5es desiguais&#8221;, escreve Furtado.<\/p>\n<p>Com essas condi\u00e7\u00f5es para o casamento e com a presen\u00e7a escassa de mulheres brancas na regi\u00e3o, eram frequentes as rela\u00e7\u00f5es de concubinato entre homens brancos e mulheres negras, fossem elas escravizadas ou libertas. Alguns senhores, como Jo\u00e3o Fernandes, assinavam a alforria da mulher no in\u00edcio do longo relacionamento; outros, o que era mais comum, tomavam a decis\u00e3o quando estavam prestes a morrer.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma imagem estereotipada das mulheres negras, um fen\u00f4meno que se refor\u00e7ou desde ent\u00e3o, faz essa uni\u00e3o de uma ex-escravizada com um branco no Arraial do Tejuco parecer um exotismo aos olhos de hoje. Na \u00e9poca, contudo, arranjos assim eram corriqueiros.<\/p>\n<p>Como eles tiveram 13 filhos ao longo de 17 anos, \u00e9 razo\u00e1vel supor que fizessem sexo com frequ\u00eancia. N\u00e3o existem registros, contudo, de que Chica tivesse comportamento de uma ninfoman\u00edaca, como se v\u00ea na produ\u00e7\u00e3o de Cac\u00e1 Diegues.<\/p>\n<p>Filha de Maria da Costa, uma africana escravizada, e de Ant\u00f4nio Caetano de S\u00e1, um brasileiro branco, que trabalhava como capit\u00e3o, Chica era parda, conforme atestam fontes confi\u00e1veis do per\u00edodo. N\u00e3o foram encontradas, por\u00e9m, anota\u00e7\u00f5es sobre tra\u00e7os f\u00edsicos mais detalhados. A beleza dela (ou seu contr\u00e1rio) \u00e9, portanto, fruto da imagina\u00e7\u00e3o de romancistas, poetas e roteiristas.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/webstories\/cultura\/2022\/08\/a-musica-de-jorge-ben-jor\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">m\u00fasica de Jorge Ben Jor<\/a><strong><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/webstories\/cultura\/2022\/08\/a-musica-de-jorge-ben-jor\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">,<\/a><\/strong> que embala o filme, \u00e9 um primor de suingue. Mas o compositor tamb\u00e9m se rendeu aos criativos achismos sobre Chica. &#8220;Muito rica e invejada \/ Temida e odiada \/ Pois com as suas perucas \/ Cada uma de uma cor&#8221;, ele canta. Nos invent\u00e1rios das mulheres do Tejuco, pesquisados por Furtado, n\u00e3o aparecem perucas. As cabeleiras, como o item era chamado em Portugal, eram usadas pelos homens, indicam os documentos.<\/p>\n<p>Uma a uma, as fantasias ligadas a Chica foram caindo, e o livro da historiadora da UFMG se firmou como uma das bases principais para novos olhares sobre a personagem. O rec\u00e9m-lan\u00e7ado<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9pg_FVfJnu8\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> document\u00e1rio &#8220;Chica da Silva &#8211; A Descoberta do Testamento&#8221;,<\/a> produzido pelo Tribunal de Justi\u00e7a de Minas Gerais, tem Furtado como sua principal entrevistada.<\/p>\n<p>Encontrado na d\u00e9cada de 1980 no f\u00f3rum de Serro (MG), munic\u00edpio que abrange o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2018\/04\/benzedeiras-sobrevivem-na-terra-de-chica-da-silva-no-interior-de-minas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">distrito de Milho Verde<\/a>, o testamento \u00e9 curioso pelo que diz e tamb\u00e9m pelo que n\u00e3o diz. Mostra, por exemplo, que Chica deixou suas pe\u00e7as de ouro e diamante para as nove filhas. Essa e outras informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas revelam uma m\u00e3e atenta e cuidadosa.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 no testamento qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0 cess\u00e3o de liberdade para as suas escravizadas. Ali\u00e1s, n\u00e3o se conhece registro de assinatura de Chica em cartas de alforria ao longo de toda a sua vida.<\/p>\n<p>Iniciativas previstas para os pr\u00f3ximos meses tamb\u00e9m tomam &#8220;Chica da Silva e o Contratador de Diamantes&#8221; como fonte indispens\u00e1vel. S\u00e3o os casos de &#8220;Meu Nome \u00c9 Francisca&#8221;, livro da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2025\/04\/velho-precisa-ser-feliz-e-morrer-com-dignidade-diz-mary-del-priore.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">historiadora Mary<\/a> <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2025\/04\/velho-precisa-ser-feliz-e-morrer-com-dignidade-diz-mary-del-priore.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">del<\/a> <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2025\/04\/velho-precisa-ser-feliz-e-morrer-com-dignidade-diz-mary-del-priore.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Priore<\/a>, que ser\u00e1 lan\u00e7ado em janeiro pela editora Jos\u00e9 Olympio; e &#8220;Chica da Silva&#8221;, \u00f3pera com apresenta\u00e7\u00f5es em setembro em Diamantina e Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Com diferentes linguagens, esses projetos n\u00e3o replicam a obra de Furtado. A rela\u00e7\u00e3o entre eles se d\u00e1, sobretudo, pela recusa em aderir \u00e0 vis\u00e3o folcl\u00f3rica que se formou em torno de Chica.<\/p>\n<p>A \u00f3pera integra as celebra\u00e7\u00f5es dos 55 anos do Pal\u00e1cio das Artes, administrado pela Funda\u00e7\u00e3o Cl\u00f3vis Salgado, de Minas Gerais. A m\u00fasica \u00e9 de Guilherme Bernstein; o libreto, de Marcos Bernstein e Fl\u00e1via Bessone; e dire\u00e7\u00e3o de cena, de Jorge Takla. Sob a dire\u00e7\u00e3o musical da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/12\/quem-e-ligia-amadio-maestra-que-subverte-o-mundo-machista-da-regencia.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">regente Ligia Amadio<\/a>, a mezzo-soprano carioca Monique Galv\u00e3o vai interpretar Chica.<\/p>\n<p>Segundo S\u00e9rgio Rodrigo Reis, presidente da funda\u00e7\u00e3o, elementos dram\u00e1ticos s\u00e3o essenciais em uma \u00f3pera, o que torna invi\u00e1vel a montagem de um espet\u00e1culo apenas com dados hist\u00f3ricos. Mas um dos objetivos principais da \u00f3pera, diz ele, ser\u00e1 a busca pela &#8220;Chica de verdade, n\u00e3o a do Cac\u00e1 Diegues, n\u00e3o a da novela&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/02\/caca-diegues-teve-sucesso-popular-e-prestigio-como-poucos-cineastas-no-brasil.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">O cineasta, que morreu em fevereiro deste ano<\/a>, lan\u00e7ou em 2014 um livro de mem\u00f3rias em que fala, entre muitos assuntos, sobre as controv\u00e9rsias ligadas a &#8220;Xica da Silva&#8221;. Em &#8220;Vida de Cinema&#8221;, ele escreve que n\u00e3o havia &#8220;nenhuma lembran\u00e7a documentada&#8221; sobre a escravizada forra quando fez o filme. Diz ainda que &#8220;n\u00e3o tinha nenhuma inten\u00e7\u00e3o de ensinar hist\u00f3ria, apenas se apropriava de um mito com amor, tratava do que dele podia nos servir em nosso tempo&#8221;.<\/p>\n<p>No breve &#8220;Meu Nome \u00c9 Francisca&#8221;, Priore se ampara em estudos de historiadores como J\u00fania Furtado e Eduardo Fran\u00e7a Paiva, tamb\u00e9m da UFMG, e p\u00f5e Chica descrevendo sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria em primeira pessoa.<\/p>\n<p>&#8220;Resolvi contar no livro a hist\u00f3ria de uma mulher que n\u00e3o se distinguia muito de outras m\u00e3es daquela \u00e9poca. Era algu\u00e9m que gostava do seu companheiro e tinha fam\u00edlia para cuidar&#8221;, diz Priore. &#8220;Al\u00e9m disso, introduzi temas com os quais a historiografia tem que trabalhar, como a import\u00e2ncia da mesti\u00e7agem, que est\u00e1 longe de ser estupro, e a mobilidade social das negras forras.&#8221;<\/p>\n<p>Negritude<\/p>\n<p>No document\u00e1rio sobre a descoberta do testamento, a historiadora Jaqueline Ribeiro, do Museu do Diamante, de Diamantina, defende que Chica da Silva seja enaltecida como refer\u00eancia de negritude.<\/p>\n<p>Nesse aspecto, surgem diverg\u00eancias. Segundo Furtado, a ex-escravizada &#8220;nunca foi s\u00edmbolo de afirma\u00e7\u00e3o racial&#8221;. &#8220;A trajet\u00f3ria dela simboliza o que, mais tarde, foi chamado de democracia racial, que \u00e9 a tentativa dos negros de entrar no universo dos brancos&#8221;, completa.<\/p>\n<p>Para a historiadora, \u00e9 preciso examinar com cuidado esse processo de branqueamento \u00e9tnico e cultural porque &#8220;revela n\u00e3o as caracter\u00edsticas democr\u00e1ticas das rela\u00e7\u00f5es entre as ra\u00e7as, mas as armadilhas sutis por meio das quais se esconde a opress\u00e3o racial no Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>    Colunas<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o de colunas da Folha<\/p>\n<p>De acordo com Mary del Priore, n\u00e3o existe na historiografia percorrida por ela nada que associe Chica \u00e0 luta contra o racismo. O objetivo dessas mulheres, diz a autora, era &#8220;abandonar a escravid\u00e3o e adquirir conforto financeiro e outros s\u00edmbolos das pessoas livres&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 outra a vis\u00e3o de Adriana Dantas Reis, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Para a pesquisadora do Brasil colonial e da hist\u00f3ria das mulheres, faz sentido que a vida de Chica seja apropriada hoje para falar de afirma\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>Segundo a historiadora da UEFS, Chica deve ser vista como uma mulher de ascend\u00eancia africana que nasceu como escravizada e carregou o peso do racismo por toda a vida, uma marca tamb\u00e9m enfrentada por seus filhos. Nesse sentido, \u00e9 uma &#8220;representa\u00e7\u00e3o importante para a luta antirracista no Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Na sua cama dourada, Chica da Silva n\u00e3o dorme&#8221;, escreveu Cec\u00edlia Meireles.<\/p>\n<p>A nova onda em torno de Chica da Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"[RESUMO] Ao longo de um s\u00e9culo e meio, livros, filme e novela mostraram Francisca da Silva de Oliveira,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":196911,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[145],"tags":[6846,39294,211,210,7195,39292,114,115,39293,236,736,39295,1519,32,33],"class_list":{"0":"post-196910","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-celebridades","8":"tag-belo-horizonte","9":"tag-caca-diegues","10":"tag-celebridades","11":"tag-celebrities","12":"tag-diamantes","13":"tag-diamantina","14":"tag-entertainment","15":"tag-entretenimento","16":"tag-escravidao","17":"tag-folha","18":"tag-historia","19":"tag-mary-del-priore","20":"tag-minas-gerais-estado","21":"tag-portugal","22":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115757014261885787","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=196910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/196910\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/196911"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=196910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=196910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=196910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}