{"id":198082,"date":"2025-12-22T08:25:18","date_gmt":"2025-12-22T08:25:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/198082\/"},"modified":"2025-12-22T08:25:18","modified_gmt":"2025-12-22T08:25:18","slug":"mais-do-que-um-cabaz-leva-o-que-sai-do-campo-directamente-para-a-cidade-reportagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/198082\/","title":{"rendered":"\u201cMais do que um cabaz\u201d leva o que sai do campo directamente para a cidade | Reportagem"},"content":{"rendered":"<p>Muito antes de se falar em cadeias de distribui\u00e7\u00e3o e prateleiras de supermercado an\u00f3nimas, a alimenta\u00e7\u00e3o era um elo directo entre quem a produzia e quem a consumia. Foi para resgatar essa proximidade que surgem em Portugal projectos de <a href=\"http:\/\/www.publico.pt\/2023\/09\/28\/local\/noticia\/porto-enche-frutas-legumes-cheiram-terra-2064128\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">agricultura sustent\u00e1vel<\/a> onde produtores e consumidores \u2014 intitulados de \u201cco-produtores\u201d \u2014 partilham um compromisso a longo prazo.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da CSA <a href=\"https:\/\/www.freixoalimento.com\/programa-csa\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Partilhar as Colheitas<\/a>, iniciada em 2015 pela Herdade do Freixo do Meio, no concelho de Montemor-o-Novo. Atrav\u00e9s do projecto, a Herdade entrega os seus produtos em v\u00e1rios pontos de recolha no distrito de \u00c9vora e na \u00c1rea Metropolitana de Lisboa, sendo um deles o restaurante <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/21\/fugas\/reportagem\/receita-avo-miguel-peres-juntou-coracao-pasteis-avo-mercedes-2142238\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">O Pigmeu<\/a>, na freguesia de Campo de Ourique, em Lisboa.<\/p>\n<p>Para o restaurante, a parceria com o projecto \u00e9 fundamental. \u201cO porco que recebemos \u00e9 um dos melhores em Portugal, e em termos de vegetais \u00e9 sempre uma qualidade excelente\u201d, assegura Vasco Santa Marta, subchefe de cozinha d&#8217;O Pigmeu.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 trabalhamos com eles h\u00e1 muitos anos e queremos continuar\u201d, refor\u00e7a. Foi por isso que, quando a Herdade do Freixo do Meio come\u00e7ou a distribuir cabazes enquanto CSA \u2014 comunidade que sustenta a agricultura \u2014, o dono do restaurante, Miguel Peres, aceitou logo ser um dos pontos de recolha em Lisboa.<\/p>\n<p>Uma pr\u00e1tica de \u201ceconomia solid\u00e1ria\u201d<\/p>\n<p>Quase todos os produtos usados n&#8217;O Pigmeu s\u00e3o de origem biol\u00f3gica, mas o restaurante gaba-se acima de tudo de \u201cvirem de pequenos produtores locais e de sabermos como \u00e9 criado\u201d, explica Vasco Santa Marta. \u201cNo caso do porco, por exemplo, temos a rastreabilidade total do produto, o que \u00e9 muito importante para sabermos como \u00e9 que o podemos utilizar.\u201d<\/p>\n<p>A CSA da Herdade do Freixo do Meio \u00e9 um dos v\u00e1rios exemplos de projectos ligados \u00e0 hist\u00f3ria da Regenerar \u2013 Rede Portuguesa de Agroecologia Solid\u00e1ria, um movimento nacional de comunidades que come\u00e7ou a dar os seus primeiros passos em Novembro de 2015, unido para provar que \u00e9 poss\u00edvel transformar o acto de comer num compromisso \u00e9tico e comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Estes projectos podem ser designados de comunidades que sustentam a agricultura (CSA, a piscar o olho para o ingl\u00eas community supported agriculture) ou associa\u00e7\u00f5es para a manuten\u00e7\u00e3o da agricultura de proximidade\u200b (AMAP, inspirado no franc\u00eas association pour le maintien d&#8217;une agriculture paysanne), mas o princ\u00edpio \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>\u201cUm dos grandes mantras da Regenerar era \u2018Isto n\u00e3o \u00e9 um cabaz\u2019\u201d, refere Paula Serrano, co-fundadora da \u200bAMAP Maravilha, criada em 2019, em Palmela\u200b. \u201c\u00c9 muito mais do que isso: estamos a criar uma comunidade e tamb\u00e9m a praticar economia solid\u00e1ria, porque n\u00e3o estamos a obedecer a especula\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe quiseres comprar produtos de origem local e conhecer o seu produtor, \u00e9 um trabalh\u00e3o para conseguires l\u00e1 chegar \u2014 normalmente, a forma mais f\u00e1cil de comprar \u00e9 ir a um hipermercado, mas n\u00e3o tens informa\u00e7\u00e3o de quase nada e n\u00e3o consegues criar rela\u00e7\u00e3o com quem produziu\u201d, diz por seu turno Pedro Horta, um dos membros da AMAP Beja.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>\u201cT\u00ednhamos momentos de partilha n\u00e3o s\u00f3 de saberes como tamb\u00e9m emocional: de ang\u00fastias, do que pass\u00e1vamos na terra\u201d<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\nPaula Serrano                &#13;\n            <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p>Por outro lado, garante, contribuir para uma comunidade \u201c\u00e9 mais do que um acto de compra\u201d. \u201cNo fundo, tamb\u00e9m \u00e9 um momento de partilha, de encontro entre amigos e h\u00e1 aqui rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a com aquilo que n\u00f3s comemos.\u201d<\/p>\n<p>Rela\u00e7\u00e3o \u201csem intermedi\u00e1rios\u201d<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/amap_beja\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">AMAP Beja<\/a> foi criada em Setembro de 2022, nascida das ra\u00edzes lan\u00e7adas pelo Eco-Comunidades na Plan\u00edcie, um grupo de cidad\u00e3os e de agricultores do distrito. \u201cJ\u00e1 abord\u00e1vamos quest\u00f5es relacionadas com o sistema alimentar e cheg\u00e1mos a criar um mercadinho de vendas internas\u201d, relata Pedro Horta.<\/p>\n<p>Foi em 2022 que o cen\u00e1rio mudou, quando Rita Magalh\u00e3es e S\u00e9rgio Correia, um casal de produtores ligados \u00e0 AMAP Sado, no Cercal, lan\u00e7aram uma proposta ao grupo bejense. \u201cDesafiaram-nos para fazer uma pequena oficina para reflectir sobre o sistema alimentar do qual fazemos parte e, no final, fizeram-nos um convite para criarmos uma AMAP\u201d, relembra Pedro Horta.<\/p>\n<p>Rita e S\u00e9rgio foram os primeiros fornecedores da AMAP Beja durante o seu primeiro ano de exist\u00eancia. Quando o casal se retirou do projecto, foi introduzido um n\u00famero maior de produtores, incluindo localidades como M\u00e9rtola. Apesar de reunirem alguns fornecedores a granel, para produtos como azeite ou azeitonas, \u201co cora\u00e7\u00e3o da coisa \u00e9 o fornecedor de cabaz\u201d. \u201c\u00c9 que est\u00e1 o compromisso\u201d, descreve Pedro Horta: \u201cO produtor fornece com frequ\u00eancia, naquela variedade e peso m\u00ednimo, e depois os co-produtores v\u00e3o buscar o cabaz, organizam actividades ou angariam mais pessoas.\u201d<\/p>\n<p>Uma nova associa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a ser criada no distrito, no concelho de Castro Verde, a partir de pessoas desta localidade que j\u00e1 compravam cabazes da AMAP Beja. \u201cIsto \u00e9 muito bom para quem est\u00e1 a fazer a produ\u00e7\u00e3o, porque significa que j\u00e1 tem mais um conjunto de co-produtores com quem podem contar para planear a produ\u00e7\u00e3o e pagar sal\u00e1rios \u00e0s pessoas que trabalham no campo.\u201d<\/p>\n<p>Agricultura com base comunit\u00e1ria<\/p>\n<p>O conceito destas comunidades j\u00e1 estava a ser posto em pr\u00e1tica noutros pa\u00edses quando o primeiro projecto do g\u00e9nero surgiu em Portugal: o Re.Ci.Pro.Co, desenvolvido no Poceir\u00e3o e em Odemira, em 2003. Mais de uma d\u00e9cada depois, em Novembro de 2015, um encontro nacional em Serralves, no Porto, trouxe \u00e0 tona a necessidade de promover ainda mais estas comunidades.<\/p>\n<p>A rede Regenerar acabaria por ser oficialmente criada em Dezembro de 2018, com o objectivo de juntar todas as AMAP existentes em Portugal e definir um conjunto de orienta\u00e7\u00f5es para o seu funcionamento, com base em tr\u00eas princ\u00edpios fundamentais: agroecologia, rela\u00e7\u00e3o de escala humana e a alimenta\u00e7\u00e3o como bem comum.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um processo demorado, at\u00e9 porque as AMAP pressup\u00f5em um compromisso e o envolvimento dos co-produtores com a co-responsabiliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. \u00c9 preciso tempo e muita resili\u00eancia\u201d, refor\u00e7a Paula Serrano, de Palmela. A vantagem \u00e9 que o produtor tem um retorno financeiro garantido e menor desperd\u00edcio, ao passo que o consumidor desfruta de produtos locais e de uma rela\u00e7\u00e3o directa com quem os fornece.<\/p>\n<p>\u201cAs grandes superf\u00edcies comerciais acabam por capturar uma parte substancial do valor dos alimentos e o retorno do produtor normalmente \u00e9 bastante baixo\u201d, explica Pedro Horta. \u201cUma rela\u00e7\u00e3o directa com o consumidor permite praticar pre\u00e7os semelhantes, mas o retorno fica no produtor e n\u00e3o em intermedi\u00e1rios.\u201d<\/p>\n<p>Partilhar alimentos, saberes e emo\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Foi ao lado de Henrique Delgado que, em 2017, Paula Serrano ajudou a fundar a <a href=\"https:\/\/quintamaravilha.coletivos.org\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Quinta Maravilha<\/a>, onde sempre procuraram trabalhar de forma colaborativa com outros produtores.<\/p>\n<p>\u201cHouve um encontro em Lisboa chamado Comboio Cidade-Campo, onde a ideia era ligar as pessoas das cidades \u00e0s que vivem no campo. Foi nesse contexto que ouvi falar em CSA pela primeira vez\u201d, lembra Paula Serrano. \u201cQuando descobrimos que esse modelo existia, percebemos que era isso que n\u00f3s quer\u00edamos.\u201d<\/p>\n<p>A Quinta Maravilha n\u00e3o integrava a rede Regenerar quando esta foi criada, em 2018 &#8211; \u201capanhei-a, talvez, no seu primeiro ano de vida\u201d -, apesar da fundadora da quinta ter estado presente no encontro de Novembro de 2015, no Porto, quando se reconheceu a import\u00e2ncia de dar a conhecer a filosofia das AMAP.<\/p>\n<p>Os encontros da Regenerar eram tamb\u00e9m feitos online, reunindo membros de todo o pa\u00eds: \u201cT\u00ednhamos momentos de partilha n\u00e3o s\u00f3 de saberes como tamb\u00e9m emocional &#8211; de ang\u00fastias, do que pass\u00e1vamos na terra\u201d, relembra Paula Serrano. \u201cEra um momento em que pod\u00edamos partilhar o que est\u00e1vamos a passar com outros agricultores.\u201d<\/p>\n<p>E depois de Regenerar?<\/p>\n<p>Actualmente, as AMAP e CSA continuam o seu caminho de forma independente, j\u00e1 que a rede n\u00e3o se encontra mais activa. Sem m\u00e3os a medir com o trabalho das respectivas AMAP, os membros acabavam por n\u00e3o ter disponibilidade para a coordena\u00e7\u00e3o nacional. \u201cTudo era trabalho volunt\u00e1rio\u201d, descreve Paula Serrano, mencionando a falta de financiamento que permitisse contratar algu\u00e9m para o trabalho administrativo.<\/p>\n<p>O fim da Regenerar n\u00e3o impediu a rede de deixar um legado para o futuro: a co-fundadora da Quinta Maravilha destaca o document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/agroecologia.movimento.filme\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Agroecologia em movimento<\/a>, de Jo\u00e3o Garrinhas, lan\u00e7ado este ano, que faz um retrato destes projectos de agricultura de proximidade no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para tornar este filme poss\u00edvel, conta Paula Serrano, a rede lan\u00e7ou uma campanha em que conseguiu angariar mais de tr\u00eas mil euros em 2021. \u201cFinalmente podemos mostrar o que \u00e9 que s\u00e3o as AMAP em Portugal e o que permaneceu da Regenerar e da sua import\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n<p>Texto editado por Aline Flor<\/p>\n<p>            <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Muito antes de se falar em cadeias de distribui\u00e7\u00e3o e prateleiras de supermercado an\u00f3nimas, a alimenta\u00e7\u00e3o era um&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":198083,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[562,2369,785,1564,27,28,15,16,14,25,26,352,21,22,17598,12,13,19,20,11316,32,23,24,33,3204,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-198082","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-agricultura","9":"tag-alimentacao","10":"tag-azul","11":"tag-beja","12":"tag-breaking-news","13":"tag-breakingnews","14":"tag-featured-news","15":"tag-featurednews","16":"tag-headlines","17":"tag-latest-news","18":"tag-latestnews","19":"tag-local","20":"tag-main-news","21":"tag-mainnews","22":"tag-montemor-o-novo","23":"tag-news","24":"tag-noticias","25":"tag-noticias-principais","26":"tag-noticiasprincipais","27":"tag-palmela","28":"tag-portugal","29":"tag-principais-noticias","30":"tag-principaisnoticias","31":"tag-pt","32":"tag-sustentabilidade","33":"tag-top-stories","34":"tag-topstories","35":"tag-ultimas","36":"tag-ultimas-noticias","37":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115762267747161034","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198082","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=198082"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198082\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/198083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=198082"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=198082"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=198082"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}