{"id":198133,"date":"2025-12-22T09:29:18","date_gmt":"2025-12-22T09:29:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/198133\/"},"modified":"2025-12-22T09:29:18","modified_gmt":"2025-12-22T09:29:18","slug":"os-150-anos-de-torres-garcia-sao-muito-mais-importantes-do-que-se-imagina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/198133\/","title":{"rendered":"Os 150 anos de Torres-Garc\u00eda s\u00e3o muito mais importantes do que se imagina"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDesejava escrever-lhe uma carta muito longa, em que pudesse conversar sobre a \u2018Arte construtiva\u2019 e sobre esse seu interessant\u00edssimo livro, La tradici\u00f3n del hombre abstracto. Essa carta, grande e minuciosa, n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel fazer hoje, nem nos pr\u00f3ximos dias. Ando ocupada com trabalhos de toda esp\u00e9cie. Mas, ao receber esta sua carta, de t\u00e3o doce camaradagem espiritual, n\u00e3o quero deixar de lhe dizer ao menos duas palavras de agradecimento.&#8221;<\/p>\n<p>Assim come\u00e7a a correspond\u00eancia que a poeta <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/finde\/esqueca-o-pix-exposicao-celebra-e-questiona-moedas-e-cedulas-brasileiras\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Cec\u00edlia Meireles<\/a> endere\u00e7ou, em 8 de abril de 1939, ao artista uruguaio Joaqu\u00edn Torres-Garc\u00eda. A carta abre a <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/finde\/os-quadros-de-la-de-uma-brasileira-simples-e-autodidata-ganham-exposicao-nos-eua\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">exposi\u00e7\u00e3o<\/a> Joaqu\u00edn Torres-Garc\u00eda: 150 anos, em cartaz no <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/finde\/flavio-cerqueira-o-garoto-pobre-fascinado-por-rodin-que-se-tornou-um-dos-grandes-escultores-brasileiros\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Centro Cultural Banco do Brasil<\/a>, em S\u00e3o Paulo, e se apresenta como uma chave de leitura da mostra, que ensaia conex\u00f5es, nem sempre evidentes, entre o artista e a arte brasileira.<\/p>\n<p>A mostra re\u00fane cerca de 500 itens, entre obras de artistas brasileiros, pinturas, manuscritos in\u00e9ditos, desenhos e os brinquedos de madeira produzidos pelo uruguaio. N\u00e3o h\u00e1 longos textos de parede ou legendas explicativas.<\/p>\n<p>Uma linha do tempo discreta, posicionada no rodap\u00e9 e contornando as salas expositivas, oferece apenas o essencial da cronologia de Torres-Garc\u00eda. A op\u00e7\u00e3o, segundo o curador Saulo Di Castro, foi a de n\u00e3o assumir o papel de int\u00e9rprete, mas o de criar condi\u00e7\u00f5es para que o pr\u00f3prio artista falasse por si.<\/p>\n<p>\u201cEu tive a chance de conviver com artistas hist\u00f3ricos e sabia que a hist\u00f3ria de Torres-Garc\u00eda costuma ser vista de maneira estereotipada\u201d, afirma Di Castro em entrevista ao <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/c\/neofeedbrasil\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>NeoFeed<\/strong><\/a>. \u201cEle \u00e9 muito mais importante do que parece \u2014 inclusive para a discuss\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre imagem e palavra, muito anterior \u00e0 poesia concreta.\u201d<\/p>\n<p>Embora tenha passado pelo Brasil e escrito sobre o pa\u00eds, Torres-Garc\u00eda n\u00e3o costuma figurar entre as refer\u00eancias mais imediatas dos artistas brasileiros.<\/p>\n<p>Talvez por isso, \u00e0 primeira vista, a justaposi\u00e7\u00e3o de suas primeiras pinturas com cer\u00e2micas peruanas ancestrais e obras de artistas como Ernesto Neto e Willys de Castro possa soar arbitr\u00e1ria.<\/p>\n<p>A aposta da curadoria, no entanto, \u00e9 provocar o visitante, convidando-o a ir al\u00e9m de conex\u00f5es meramente sem\u00e2nticas e a exercer um esfor\u00e7o ativo de ver, ideia presente no pensamento de Torres-Garc\u00eda.<\/p>\n<p>\u201cBem ao contr\u00e1rio do literato, o artista verdadeiro n\u00e3o sabe as coisas de uma maneira concreta, mas j\u00e1 as viu\u201d, escreveu o artista em Escrits sobre art.<\/p>\n<p>&#8220;Arqueologia do futuro&#8221;<\/p>\n<p>Di Castro explica que a presen\u00e7a de Ernesto Neto, por exemplo, funciona como um ponto de inflex\u00e3o. O artista brasileiro \u00e9 herdeiro de uma tradi\u00e7\u00e3o construtiva que passa, em especial, por <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/finde\/a-arte-para-ser-vivida-com-lygia-clark\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Lygia Clark<\/a>, que nunca separou rigor formal e experi\u00eancia sensorial.<\/p>\n<p>Sua escultura t\u00eaxtil, afirma o curador, \u201camolece uma estrutura rigorosa que o concretismo carregava\u201d, deslocando-a para o campo do tato e da experi\u00eancia sinest\u00e9sica. \u201cO Neto estabelece um di\u00e1logo profundo entre escultura e pintura, porque a escultura \u00e9 feita de tecido \u2014 uma deriva\u00e7\u00e3o do suporte da pintura\u201d, explica.<\/p>\n<p>Segundo Di Castro, essa mesma l\u00f3gica se estende \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a cer\u00e2mica peruana, cuja temporalidade milenar ecoa nas pesquisas de Torres-Garc\u00eda. O artista uruguaio estudava povos ancestrais em busca de uma geometria universal que pudesse ser rearticulada em sua obra.<\/p>\n<p>\u201cEu procurei falar me colocando no lugar em que Torres-Garc\u00eda se colocava\u201d, diz o curador. \u201cEle identificou simbologias de civiliza\u00e7\u00f5es diferentes e as incorporou \u00e0 sua obra. Estranhamente, ao se aprofundar tanto no passado, acabou produzindo algo que se assemelha a uma esp\u00e9cie de arqueologia do futuro.\u201d<\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-7.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                Torres-Garc\u00eda queria \u201cconstruir todo um mundo: uma arte popular, na qual o mais elevado e universal seja dito numa linguagem mais simples e, por isso, mais pr\u00f3pria\u201d (Foto: Museo Torres Garc\u00eda)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-1.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                &#8220;Quatro figuras e charrete em cinco tons&#8221;, 1946\u00a0(Foto: Cole\u00e7\u00e3o Paulo Kuczynski Galeria de Arte)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-11.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                &#8220;Retrato de Manolita&#8221;, 1920 (Foto: Museo Torres Garc\u00eda)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-8.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                &#8220;Hoje&#8221;, 1919 (Foto: Institut Valenci\u00e0 d&#8217;Art Modern, IVAM\/Juan Garc\u00eda Rosell, IVAM)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-2.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                Sem t\u00edtulo, 1942 (Foto: Colecci\u00f3n Museo de la Solidaridad Salvador Allende Chile)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-6.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                &#8220;Planos de cor com duas madeiras superpostas&#8221;, 1928 (Foto: Colecci\u00f3n Macba\/Fundaci\u00f3n Macba\/Gasull)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-3.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                &#8220;Psiqu\u00ea&#8221;, 1929 (Foto: Cortes\u00eda de Fundaci\u00f3n Telef\u00f3nica\/Colecci\u00f3n Telef\u00f3nica\/Fernando Maquieira)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/torres-garcia-10.jpeg\"\/><\/p>\n<p>\n                                &#8220;Cachorro&#8221;, 1920 (Foto: Cole\u00e7\u00e3o Marta e Paulo Kuczynski)\n                            <\/p>\n<p>Filho de imigrantes espanh\u00f3is, Joaqu\u00edn Torres-Garc\u00eda nasceu no Uruguai, em 1874. Aos 17 anos, mudou-se com a fam\u00edlia para Barcelona, afastando-se da terra natal por cerca de quatro d\u00e9cadas. E, em 1920, foi para os <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/economia\/um-economista-republicano-e-outro-democrata-concordam-inflacao-nao-vai-a-2-nos-eua\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Estados Unidos<\/a> com a esposa Manolita Pi\u00f1a e os filhos.<\/p>\n<p>Diante da dificuldade de sustentar a fam\u00edlia apenas com a venda de suas obras, fundou, em 1924, em Nova York, a Aladdin Toy Co., dedicada \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de brinquedos de madeira que vinha desenvolvendo desde anos anteriores.<\/p>\n<p>No entanto, j\u00e1 no ano seguinte, um inc\u00eandio destruiu a f\u00e1brica e interrompeu a produ\u00e7\u00e3o. Epis\u00f3dio que, \u00e0 dist\u00e2ncia, soa quase como um aviso para que o artista se concentrasse definitivamente em sua obra.<\/p>\n<p>O fogo, ali\u00e1s, reaparece como uma trag\u00e9dia recorrente em torno de sua produ\u00e7\u00e3o. Em 1936, seis grandes murais pintados na capela espanhola do Sant\u00edssimo Sacramento da Igreja de San Agust\u00edn, em 1908, foram destru\u00eddos em um inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Quase trinta anos ap\u00f3s sua morte, em 1978, durante uma exposi\u00e7\u00e3o individual no <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/finde\/as-seis-decadas-do-paisagismo-modernista-e-revolucionario-de-burle-marx\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro<\/a>, um inc\u00eandio no edif\u00edcio destruiu cerca de oitenta de suas obras.<\/p>\n<p>\u201cEle foi o artista mais incendiado da hist\u00f3ria\u201d, lembra o curador. \u201cEsse fogo tem uma chama de vida. Como se, na hist\u00f3ria de Torres-Garc\u00eda, houvesse uma complementaridade entre for\u00e7as opostas com as quais ele lidava.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma aproxima\u00e7\u00e3o com Piet Mondrian, Theo van Doesburg e os integrantes do neoplasticismo, em uma de suas passagens por Paris, Torres-Garc\u00eda desenvolveu uma po\u00e9tica pr\u00f3pria. Do construtivismo, incorporou as formas geom\u00e9tricas, as cores prim\u00e1rias e a linha preta, mas organizadas em um grafismo e um vocabul\u00e1rio singular.<\/p>\n<p>\u00c9 no Uruguai, a partir de seu retorno em 1934, que o artista \u2014 distante das vanguardas e do passado europeu \u2014 consegue colocar seu projeto mais c\u00e9lebre em pr\u00e1tica: \u201cconstruir todo um mundo: uma arte popular, na qual o mais elevado e universal seja dito numa linguagem mais simples e, por isso, mais pr\u00f3pria\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>Talvez o s\u00edmbolo m\u00e1ximo desse desejo seja o pequeno desenho <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/finde\/o-que-os-mapas-ensinam-sobre-politica-economia-e-ate-religiao\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Am\u00e9rica Invertida<\/a>, em que o continente latino-americano aparece de cabe\u00e7a para baixo, afirmando que o seu norte era o sul.<\/p>\n<p>\u201cA Am\u00e9rica Invertida \u00e9 uma seta cosmol\u00f3gica\u201d, resume Di Castro. \u201cEla est\u00e1 ali com uma grande obra de arte universal, porque ela ensina, para n\u00f3s, valores de agrega\u00e7\u00e3o e de chamado para que as semelhan\u00e7as sejam mais importantes do que as diferen\u00e7as, que geram conflito.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cDesejava escrever-lhe uma carta muito longa, em que pudesse conversar sobre a \u2018Arte construtiva\u2019 e sobre esse seu&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":198134,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,203,201,202,39542,204,114,115,39543,32,33],"class_list":{"0":"post-198133","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-arts","12":"tag-arts-and-design","13":"tag-artsanddesign","14":"tag-centro-cultural-banco-do-brasil","15":"tag-design","16":"tag-entertainment","17":"tag-entretenimento","18":"tag-joaquu00edn-torres-garcu00eda","19":"tag-portugal","20":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115762519785000555","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=198133"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198133\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/198134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=198133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=198133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=198133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}