{"id":198556,"date":"2025-12-22T15:39:15","date_gmt":"2025-12-22T15:39:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/198556\/"},"modified":"2025-12-22T15:39:15","modified_gmt":"2025-12-22T15:39:15","slug":"biografia-de-uma-belga-que-se-tornou-francesa-e-depois-norte-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/198556\/","title":{"rendered":"Biografia de uma belga que se tornou francesa e depois norte-americana"},"content":{"rendered":"<p>Da leitura deste romance biogr\u00e1fico fica a pergunta sobre <strong>a rela\u00e7\u00e3o de Yourcenar com Grace: ter\u00e1 sido a \u00abresolu\u00e7\u00e3o mais acertada\u00bb? Para Cristina Carvalho, a resposta \u00e9: \u00abNo caso de Marguerite Yourcenar\u00a0e\u00a0tanto quanto se conhece sobre a sua vida, aparentemente, poder\u00e1 ter sido uma decis\u00e3o acertada,<\/strong> olhando para as dezenas de anos que viveram\u00a0em conjunto\u00a0e\u00a0quase solitariamente,\u00a0ela\u00a0e\u00a0Grace Frick, num s\u00edtio daqueles t\u00e3o\u00a0ermo, quase selvagem, longe de vizinhan\u00e7as \u2013 que as havia, no ver\u00e3o\u00a0e\u00a0nas magn\u00edficas casas de f\u00e9rias de gente muito rica\u00a0e\u00a0durante todo o ano os alde\u00f5es naturais que l\u00e1 nasciam\u00a0e\u00a0morriam. Sabemos que o m\u00fatuo\u00a0entendimento\u00a0era precioso\u00a0e\u00a0em v\u00e1rias vertentes, desde a alimenta\u00e7\u00e3o confecionada quase sempre por ambas, cada uma com sua\u00a0especialidade culin\u00e1ria, os passeios ao longo do lago, as conversas com os p\u00e1ssaros, o amor pelos animais\u00a0e\u00a0pelas \u00e1rvores\u00a0e\u00a0pelas plantas at\u00e9 aos interesses muito intensos, muito s\u00e1bios sobre literatura\u00a0em geral\u00a0e\u00a0sobre as obras da\u00a0escritora\u00a0em particular. <strong>Grace foi a sua tradutora para ingl\u00eas\u00a0e\u00a0desde sempre a ajudou, organizou\u00a0e\u00a0cultivou uma imensa\u00a0e\u00a0m\u00fatua sabedoria.<\/strong> Por tudo isto\u00a0esta rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o longa teve, aparentemente, uma luminosidade de vida harmoniosa\u00a0e\u00a0feliz.\u00bb \u00a0<\/p>\n<p>Seguindo-se\u00a0Yourcenar\u00a0a v\u00e1rios protagonistas desta s\u00e9rie, pergunta-se a Cristina Carvalho o qu\u00e3o f\u00e1cil ou dif\u00edcil \u00e9 a descoberta de novos biograf\u00e1veis. Considera que \u00abseria f\u00e1cil no sentido\u00a0em que gosto tanto\u00a0e\u00a0admiro v\u00e1rias pessoas que \u201cconhe\u00e7o\u201d\u00a0em \u00e1reas diversas, como por\u00a0exemplo na literatura, no cinema, na pintura, nas\u00a0explora\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que v\u00e3o desde as \u201cexcurs\u00f5es\u201d \u00e0 Lua como os mergulhos nas profundezas dos mares ou as\u00a0escaladas aos p\u00edncaros das montanhas, como na culin\u00e1ria ou na fotografia\u2026 foram pessoas reais, j\u00e1 desaparecidas, cuja\u00a0exist\u00eancia\u00a0e\u00a0obra me t\u00eam sido apresentadas ao longo da minha vida. <strong>Seria, pois, f\u00e1cil\u00a0escolher novos protagonistas para os meus romances biogr\u00e1ficos, mas para isso\u00a0e\u00a0para continuar a\u00a0escrever\u00a0este g\u00e9nero de literatura teria de ter agora menos vinte ou trinta anos.\u00a0Estes livros obrigam a imensa\u00a0e\u00a0variada investiga\u00e7\u00e3o, consulta, visitas, desloca\u00e7\u00f5es como todo\u00a0e\u00a0qualquer\u00a0escrito sobre a vida de algu\u00e9m<\/strong>, seja a cl\u00e1ssica biografia, seja o romance biogr\u00e1fico,\u00a0estilo\u00a0este que se apresenta mais curto, muito mais condensado\u00a0e\u00a0com varia\u00e7\u00f5es particulares sem nunca distorcer nem \u201cinventar\u201d as realidades dessas vidas\u00bb.<\/p>\n<p>No caso de Marguerite Yourcenar, a\u00a0escritora confessa logo no in\u00edcio que optou por destacar a \u00abinf\u00e2ncia\u00a0e\u00a0a tenra adolesc\u00eancia\u00bb.\u00a0Explica que o faz\u00a0em \u00abtodos os livros deste g\u00e9nero, porque o que me interessa destacar s\u00e3o\u00a0esses per\u00edodos, ou seja, o despertar, o crescer, a\u00a0evolu\u00e7\u00e3o na idade\u00a0e\u00a0logo no conhecimento, o que se aprende\u00a0e\u00a0tudo o que um imagin\u00e1rio tenro vir\u00e1 a reter por toda a vida. Porque a nossa vida come\u00e7ou num dia\u00a0e\u00a0os in\u00edcios determinam\u00a0e\u00a0desenham toda uma futura idiossincrasia\u00bb.\u00a0Da\u00ed que se queira saber o quanto a obra da\u00a0escritora belga\u00a0est\u00e1 modelada pelo local, o\u00a0Ch\u00e2teau, onde viveu at\u00e9 aos nove anos: &#8220;<strong>Essa primeira inf\u00e2ncia foi muito marcante\u00a0e\u00a0reveladora de um futuro\u00a0e\u00a0de um psiquismo pouco vulgar.\u00a0Era uma crian\u00e7a solit\u00e1ria, cresceu num ambiente altamente prop\u00edcio a um desenvolvimento\u00a0introspetivo\u00a0e\u00a0muito interiorizado. O seu maior amigo, nessa altura\u00a0e\u00a0pela vida fora, foi o seu pai<\/strong> que a apresentou a toda uma Natureza de maravilhamento, de comunica\u00e7\u00f5es invis\u00edveis, de conversas conv\u00edvios com os animais da quinta, com as \u00e1rvores, com o tempo invis\u00edvel que corre com os dias\u00a0e\u00a0com as noites. Com quem \u00e9 que Marguerite conversava sem ser com o pai ou com os animais da sua prefer\u00eancia? Com ningu\u00e9m.\u00a0<strong>E\u00a0muito cedo veio a conhecer a arte da leitura, da m\u00fasica, da pintura, dos teatros,\u00a0essas artes que tudo\u00a0ensinam a quem quiser dar-lhes aten\u00e7\u00e3o\u00a0e\u00a0reconhecimento.<\/strong> Foi o que aconteceu com\u00a0ela quando saiu do\u00a0Ch\u00e2teau\u00a0com o seu pai, finalmente fora das garras, avisos\u00a0e\u00a0ralhos da \u201chorrenda\u201d av\u00f3 No\u00e9mie.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma pergunta que foi repetida a Yourcenar ao longo da vida, se a circunst\u00e2ncias do seu nascimento ser seguido da morte da m\u00e3e\u00a0n\u00e3o a derrotaram para a vida. Segundo a autora &#8220;n\u00e3o&#8221;: &#8220;Ela pr\u00f3pria afirmou\u00a0e\u00a0frisou bem,\u00a0em variadas\u00a0e\u00a0extensas\u00a0entrevistas, que o facto de n\u00e3o ter conhecido a m\u00e3e, nunca lhe foi nem importante nem impeditivo de nada. <strong>Fizeram\u00a0essa pergunta in\u00fameras vezes\u00a0e\u00a0sempre respondeu &#8211;\u00a0<\/strong><strong>Como posso\u00a0eu amar algu\u00e9m que nunca conheci?&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>A autora deste livro viajou at\u00e9 alguns locais importantes para a biografia de Yourcenar\u00a0e, diz, \u00abfiz o poss\u00edvel por conhecer\u00a0e\u00a0conheci f\u00edsica\u00a0e\u00a0geograficamente os seus cantos\u00a0e\u00a0dom\u00ednios: <strong>o territ\u00f3rio franc\u00eas da Flandres onde hoje, no Mont Noir,\u00a0existem apenas uns pedregulhos originais provenientes do\u00a0<\/strong><strong>Ch\u00e2teau<\/strong><strong>\u00a0bombardeado\u00a0e\u00a0ca\u00eddo na Segunda Guerra Mundial;<\/strong> conheci bem o dito Mont Noir de inesquec\u00edvel beleza, segredos\u00a0e\u00a0mist\u00e9rios; a aldeia de Saint-Jans-Cappel, onde se situa o Museu Marguerite Yourcenar, a cidade de Bailleul\u00a0e\u00a0a cidade de Lille, territ\u00f3rio avoengo. No caso do museu, que fica situado na rua Marguerite Yourcenar,\u00a0em Saint-Jans-Cappel na Flandres, \u00e9 uma casa com tr\u00eas divis\u00f5es\u00a0e\u00a0um corredor de\u00a0entrada guarnecido, nas paredes de um lado\u00a0e\u00a0do outro, de fotografias variadas. Depois, as duas maiores divis\u00f5es t\u00eam\u00a0estantes com os seus livros\u00a0e\u00a0outros; nas paredes, in\u00fameras fotografias dela pr\u00f3pria s\u00f3\u00a0e\u00a0com seu pai, desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 aos seus intensos amores\u00a0e\u00a0paix\u00f5es como, por\u00a0exemplo\u00a0e\u00a0ser\u00e3o somente alguns, Grace Frick, Andr\u00e9 Fraigneau \u2013 aquele que\u00a0ela tinha amado mais do que a Deus, dizia, \u2013 de Lucy Kyriakus\u00a0e\u00a0v\u00e1rias fotografias de Jerry Wilson, o seu amante americano 45 anos mais novo do que\u00a0ela. <strong>Na terceira divis\u00e3o h\u00e1 fotografias, tamb\u00e9m nas paredes, do dia da sua\u00a0elei\u00e7\u00e3o para a Academia de Letras Francesa,\u00a0em 1980.<\/strong> \u00c9 um pequeno museu, mas revela certos pormenores que me ajudaram a compreender algumas particularidades interessantes da vida desta personagem\u00a0e\u00a0seus relacionamentos.\u00bb<\/p>\n<p><strong>FABUL\u00c1RIO.<\/strong>\u00a0Al\u00e9m deste romance biogr\u00e1fico, Cristina Carvalho publicou recentemente um livro, tamb\u00e9m, para o leitor mais jovem. Trata-se de\u00a0Fabul\u00e1rio ou o pequeno circo do mundo, recheado de personagens imposs\u00edveis\u00a0e\u00a0ins\u00f3litas: &#8220;N\u00e3o pretende ser nem um conto, nem uma novela, nem um romance, pretende antes apresentar um mundo de fantasia \u00e0s vezes\u00a0enlouquecida, \u00e0s vezes t\u00e3o realmente s\u00e9ria\u00a0e\u00a0compenetrada que dar\u00e1 vontade de rir\u00a0e\u00a0quem sabe, vontade de chorar.&#8221; Pelo\u00a0Fabul\u00e1rio\u00a0desfilam porcos, Internet, Verne, Macondo, ou seja, um desnorte de personagens\u00a0e\u00a0lugares\u00a0e, diz a autora, \u00abum retrato do mundo\u00a0e\u00a0das suas personagens inacredit\u00e1veis, bondosos\u00a0e\u00a0enlouquecidos; um mundo dito\u00a0e\u00a0descrito por algu\u00e9m,\u00a0eu, que como toda a gente, nada conhece. Porque, ao contr\u00e1rio do que se julga, nada se conhece\u00a0e\u00a0quem julgar conhecer\u00a0est\u00e1, redondamente,\u00a0enganado. Quem fui, quem sou, quem serei,\u00a0eu, tu\u00a0ele, n\u00f3s, v\u00f3s,\u00a0eles, ningu\u00e9m sabe. As aguarelas magn\u00edficas, secretas, naquele desenhar do mestre Jos\u00e9 Manuel Castanheira s\u00e3o de tal modo inequ\u00edvocas\u00a0e\u00a0sinceras que s\u00f3 por\u00a0elas, pelas aguarelas-ilustra\u00e7\u00f5es vale a pena conhecer\u00a0este livro.\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Da leitura deste romance biogr\u00e1fico fica a pergunta sobre a rela\u00e7\u00e3o de Yourcenar com Grace: ter\u00e1 sido a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":198557,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,306,15,16,14,25,26,8467,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-198556","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-edicao-impressa","11":"tag-featured-news","12":"tag-featurednews","13":"tag-headlines","14":"tag-latest-news","15":"tag-latestnews","16":"tag-livros-da-semana","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-mundo","20":"tag-news","21":"tag-noticias","22":"tag-noticias-principais","23":"tag-noticiasprincipais","24":"tag-principais-noticias","25":"tag-principaisnoticias","26":"tag-top-stories","27":"tag-topstories","28":"tag-ultimas","29":"tag-ultimas-noticias","30":"tag-ultimasnoticias","31":"tag-world","32":"tag-world-news","33":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115763974133558842","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=198556"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/198556\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/198557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=198556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=198556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=198556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}