{"id":203722,"date":"2025-12-26T19:45:09","date_gmt":"2025-12-26T19:45:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/203722\/"},"modified":"2025-12-26T19:45:09","modified_gmt":"2025-12-26T19:45:09","slug":"myanmar-e-as-fabricas-de-crime-que-atingem-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/203722\/","title":{"rendered":"Myanmar e as F\u00e1bricas de Crime que Atingem Portugal"},"content":{"rendered":"<p>A dist\u00e2ncia entre as selvas de Myanmar e os ecr\u00e3s dos telem\u00f3veis em Lisboa, no Porto ou noutra regi\u00e3o portuguesa nunca foi t\u00e3o curta. O que come\u00e7ou por ser um problema regional no Sudeste Asi\u00e1tico transformou-se, em 2025, numa crise global com uma &#8220;ponta&#8221; bem assente no mundo lus\u00f3fono. <\/p>\n<p>Investiga\u00e7\u00f5es da ag\u00eancia de not\u00edcias Reuters e relat\u00f3rios de autoridades internacionais revelam que aquele pa\u00eds se consolidou, hoje, como um aut\u00eantico &#8220;Estado de Burlas&#8221;, onde o crime organizado opera com a precis\u00e3o de uma multinacional tecnol\u00f3gica, mas com m\u00e9todos de escravatura medieval. S\u00f3 que, com a tecnologia do mundo moderno, o seu alcance \u00e9 global, com Portugal a ser uma das suas v\u00edtimas. <\/p>\n<p>Esta ascens\u00e3o n\u00e3o ocorreu de forma org\u00e2nica, mas sim pelo aproveitamento de um v\u00e1cuo de poder sem precedentes. Segundo a Reuters e o Gabinete das Na\u00e7\u00f5es Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), a transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 o resultado direto do golpe militar de Fevereiro de 2021. A destitui\u00e7\u00e3o do governo civil mergulhou a antiga Birm\u00e2nia na guerra e num colapso administrativo que deixou as fronteiras sem qualquer controlo efectivo. A Junta Militar, isolada por san\u00e7\u00f5es e desesperada por financiamento, passou a tolerar e a lucrar activamente com actividades il\u00edcitas em troca do apoio de mil\u00edcias locais.<\/p>\n<p>Esta vulnerabilidade atraiu as m\u00e1fias chinesas que, entre 2022 e 2023, foram expulsas do Camboja ap\u00f3s uma repress\u00e3o conjunta entre Pequim e Phnom Penh. Myanmar ofereceu o ref\u00fagio perfeito: &#8220;Zonas Econ\u00f3micas Especiais&#8221; controladas por Grupos Armados \u00c9tnicos, como a Guarda de Fronteira (BGF). <\/p>\n<p>Nestes territ\u00f3rios, onde a pol\u00edcia nacional n\u00e3o tem autoridade, as tr\u00edades encontraram infraestruturas de luxo constru\u00eddas originalmente para casinos, que foram rapidamente convertidas em centros de opera\u00e7\u00f5es de fraude \u00e0 escala industrial. A geografia selou o destino da regi\u00e3o: complexos como Shwe Kokko e Myawaddy localizam-se a escassos quil\u00f3metros da fronteira com a Tail\u00e2ndia, o que inicialmente permitiu o uso de redes de telem\u00f3vel tailandesas. <\/p>\n<p>Mesmo com bloqueios e cortes de energia, o uso massivo de terminais Starlink (de liga\u00e7\u00e3o a internet por sat\u00e9lite) e geradores el\u00e9tricos industriais garante que estas cidades-estado criminosas continuem operacionais, financiando ex\u00e9rcitos privados atrav\u00e9s do roubo digital global, comprovou a Reuters no local.<\/p>\n<p>Os esquemas em detalhe<\/p>\n<p>Dentro destes complexos, a ind\u00fastria do crime est\u00e1 organizada por departamentos especializados que utilizam manuais de psicologia e gui\u00f5es de conversa\u00e7\u00e3o para refinar os ataques. No topo da hierarquia encontra-se o Pig Butchering (abate de porcos, em tradu\u00e7\u00e3o literal). Neste esquema, o criminoso constr\u00f3i uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com a v\u00edtima ao longo de meses, simulando uma amizade ou romance digital. Atrav\u00e9s de plataformas falsas de &#8220;marca branca&#8221; que mostram gr\u00e1ficos de lucro fict\u00edcios, os burl\u00f5es convencem o alvo a investir todas as suas poupan\u00e7as em criptomoedas. O &#8220;abate&#8221; ocorre quando a v\u00edtima tenta levantar os fundos e \u00e9 confrontada com a necessidade de pagar &#8220;taxas de liberta\u00e7\u00e3o&#8221; ou &#8220;impostos&#8221; inexistentes, acabando por perder todo o capital.<\/p>\n<p>Apesar de existirem casos daqueles em Portugal, a face mais vis\u00edvel deste sistema no nosso pa\u00eds s\u00e3o as &#8220;burlas de tarefas&#8221; via WhatsApp. Nestes casos, estas redes operam atrav\u00e9s de um funil de recrutamento em que a v\u00edtima recebe pequenos pagamentos (5 a 10 euros) por tarefas simples, como p\u00f4r &#8220;likes&#8221; em v\u00eddeos ou avaliar hot\u00e9is, apenas para provar uma falsa legitimidade. Assim que o utilizador \u00e9 atra\u00eddo para grupos de Telegram &#8220;VIP&#8221;, \u00e9-lhe pedido que fa\u00e7a dep\u00f3sitos elevados para desbloquear tarefas de maior valor, momento em que o contacto \u00e9 cortado e o dinheiro desaparece. <\/p>\n<p>Adicionalmente, as autoridades identificaram a ascens\u00e3o das &#8220;Burlas de Recupera\u00e7\u00e3o&#8221;, onde os criminosos contactam v\u00edtimas anteriores fingindo ser advogados que prometem recuperar os fundos mediante novas taxas adiantadas.<\/p>\n<p>Se os portugueses s\u00e3o os alvos financeiros preferenciais, os cidad\u00e3os da CPLP &#8212; com destaque para os brasileiros &#8212; s\u00e3o frequentemente as v\u00edtimas do tr\u00e1fico humano que sustenta esta engrenagem. Na maioria destes casos, os scammers s\u00e3o atra\u00eddos por falsas promessas de emprego tecnol\u00f3gico na Tail\u00e2ndia mas, ao chegarem, s\u00e3o transportados para Myanmar. A\u00ed, os seus passaportes s\u00e3o confiscados e s\u00e3o obrigados a trabalhar 16 horas por dia sob amea\u00e7a de tortura e choques el\u00e9ctricos. Se n\u00e3o atingirem as metas de burla, s\u00e3o vendidos entre complexos como mercadoria.<\/p>\n<p>Alertas da PJ e do BdP<\/p>\n<p>A gravidade da situa\u00e7\u00e3o levou j\u00e1 a Pol\u00edcia Judici\u00e1ria (PJ) e o Banco de Portugal (BdP) a emitirem alertas urgentes nos \u00faltimos meses deste ano. Em outubro e novembro, as autoridades avisaram para a multiplica\u00e7\u00e3o de chamadas de n\u00fameros nacionais que utilizam t\u00e9cnicas de spoofing para simular proximidade. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime (UNC3) da PJ denunciou, em dezembro, campanhas de phishing que utilizam abusivamente o log\u00f3tipo da pol\u00edcia para assustar cidad\u00e3os com falsas notifica\u00e7\u00f5es judiciais, visando apenas a captura de credenciais banc\u00e1rias e dados pessoais.<\/p>\n<p>O desafio permanece herc\u00faleo. A localiza\u00e7\u00e3o destes centros em zonas de impunidade total, controladas por mil\u00edcias aliadas \u00e0 junta militar, torna a extradi\u00e7\u00e3o quase imposs\u00edvel. Como a Reuters descreve, o branqueamento de capitais \u00e9 pulverizado atrav\u00e9s de redes globais de &#8220;mulas de dinheiro&#8221; e stablecoins, como o USDT, tornando o rastreio financeiro extremamente complexo. Perante este cen\u00e1rio, a sensibiliza\u00e7\u00e3o e o ceticismo digital tornaram-se a primeira e mais eficaz linha de defesa para os cidad\u00e3os do mundo, Portugal inclusive.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A dist\u00e2ncia entre as selvas de Myanmar e os ecr\u00e3s dos telem\u00f3veis em Lisboa, no Porto ou noutra&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":203723,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,604,15,16,6178,14,25,26,21,22,62,7964,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-203722","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-crime","11":"tag-featured-news","12":"tag-featurednews","13":"tag-fraude","14":"tag-headlines","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-mundo","20":"tag-myanmar","21":"tag-news","22":"tag-noticias","23":"tag-noticias-principais","24":"tag-noticiasprincipais","25":"tag-principais-noticias","26":"tag-principaisnoticias","27":"tag-top-stories","28":"tag-topstories","29":"tag-ultimas","30":"tag-ultimas-noticias","31":"tag-ultimasnoticias","32":"tag-world","33":"tag-world-news","34":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115787590745312307","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203722\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}