{"id":205500,"date":"2025-12-28T08:11:10","date_gmt":"2025-12-28T08:11:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/205500\/"},"modified":"2025-12-28T08:11:10","modified_gmt":"2025-12-28T08:11:10","slug":"quanto-mais-tentamos-evitar-o-sofrimento-mais-ele-se-infiltra-disfarcado-de-ansiedade-e-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/205500\/","title":{"rendered":"Quanto mais tentamos evitar o sofrimento, mais ele se infiltra, disfar\u00e7ado de ansiedade e depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>\t                ENTREVISTA || Num tempo que rejeita a dor e medicaliza a vulnerabilidade, o psiquiatra Jo\u00e3o Perestrelo, autor de &#8220;Aprender a Andar no Escuro&#8221; defende que o sofrimento n\u00e3o \u00e9 um erro a corrigir, mas uma experi\u00eancia humana a compreender. Critica a cultura do evitamento e alerta para os riscos de romantizar a dor e lembra: \u201cAprender a andar no escuro \u00e9 perceber que a escurid\u00e3o tamb\u00e9m pode ser atravessada\u201d<\/p>\n<p style=\"margin-bottom:11px\">Numa conversa luminosa sobre a sombra e a escurid\u00e3o, o psiquiatra e psicoterapeuta Jo\u00e3o Perestrelo, que acaba de lan\u00e7ar o livro Aprender a Andar no Escuro desmonta a ideia de que o sofrimento \u00e9 um inimigo a eliminar. Defende que a dor, apesar de dura, \u00e9 tamb\u00e9m um territ\u00f3rio f\u00e9rtil de transforma\u00e7\u00e3o. O importante \u00e9 que n\u00e3o seja romantizada nem negada. Cr\u00edtico da cultura do evitamento, da medicaliza\u00e7\u00e3o excessiva e da ind\u00fastria que promete felicidade instant\u00e2nea, sublinha que aliviar n\u00e3o \u00e9 amputar a experi\u00eancia humana. \u201cAliviar o sofrimento \u00e9 diferente de neg\u00e1-lo. Aliviar implica reconhec\u00ea-lo como parte da vida e aprender a habit\u00e1-lo com mais consci\u00eancia. Negar \u00e9 amputar a nossa vulnerabilidade e substituir a humanidade por um ideal de estabilidade permanente, que n\u00e3o existe\u201d, sublinha, nesta conversa com a CNN Portugal.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Perestrelo refor\u00e7a o papel central da psicoterapia, onde o sofrimento se torna hist\u00f3ria e sentido, e alerta para as falhas estruturais de um sistema de sa\u00fade que responde a fragilidades humanas com protocolos e falta de presen\u00e7a. \u201cContinuamos a responder a um sofrimento essencialmente humano com estruturas desenhadas para tratar doen\u00e7as. Precisamos de um modelo que una a ci\u00eancia \u00e0 presen\u00e7a, que devolva tempo aos profissionais e dignidade aos pacientes\u201d, critica.<\/p>\n<p>Entre reflex\u00f5es sobre vulnerabilidade, limites da ajuda e prop\u00f3sito, deixa uma mensagem essencial: sofrer \u00e9 humano e aprender a caminhar no escuro n\u00e3o elimina a noite, mas devolve-nos a capacidade de avan\u00e7ar dentro dela.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"940\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/693175f4d34e2bd5c6d4bb91.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   No livro &#8220;Aprender a Andar no Escuro&#8221;, o psiquiatra Jo\u00e3o Perestrelo fala-nos da import\u00e2ncia de assumir o sofrimento, para encontrar nele um &#8220;espa\u00e7o f\u00e9rtil de transforma\u00e7\u00e3o&#8221;. (Imagem: Contraponto\/Divulga\u00e7\u00e3o) <\/p>\n<p><strong>O t\u00edtulo do livro, \u201cAprender a Andar no Escuro\u201d, \u00e9 muito evocativo. O sofrimento \u00e9 sempre um lado negro? N\u00e3o pode ser encarado de uma forma\u2026 digamos\u2026 positiva\u2026\u00a0 como uma oportunidade?<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de que o sofrimento \u00e9 negro nasce da nossa tend\u00eancia para dividir o mundo em opostos: o bom e o mau, o claro e o escuro, o prazer e a dor. Guiados por essa vis\u00e3o polarizada, esquecemo-nos de que a vida raramente se exprime em extremos. Na verdade, desenrola-se nas tonalidades interm\u00e9dias. O sofrimento, embora desconfort\u00e1vel e por vezes devastador, pode ser um espa\u00e7o f\u00e9rtil de transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 nele que somos for\u00e7ados a parar, a questionar, a reavaliar o rumo da nossa exist\u00eancia. Quando o encaramos n\u00e3o apenas como um inimigo a derrotar, pode tornar-se numa oportunidade (dolorosa, sim, mas potencialmente libertadora) de crescimento, de reconcilia\u00e7\u00e3o e de transcend\u00eancia. Aprender a andar no escuro \u00e9, no fundo, descobrir que a escurid\u00e3o tamb\u00e9m pode ser atravessada.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que se pode transformar a dor em aprendizagem, sem cair em romantiza\u00e7\u00f5es perigosas?<\/strong><\/p>\n<p>O sofrimento n\u00e3o deve ser romantizado, sob risco de se desvirtuar a experi\u00eancia e retira-lhe validade. A dor \u00e9, antes de mais, uma experi\u00eancia humana inevit\u00e1vel. Tentar transform\u00e1-la em algo \u201cbonito\u201d \u00e9 uma forma subtil de a negar. Transform\u00e1-la em aprendizagem n\u00e3o acontece por decreto, nem pela simples passagem do tempo. Depende da fase de vida, da hist\u00f3ria pessoal, do sistema de cren\u00e7as pessoais, da presen\u00e7a de suporte e, sobretudo, da capacidade de permanecer em contacto com o que d\u00f3i sem fugir ou lhe dar um significado for\u00e7ado.<\/p>\n<p>Em alguns momentos, o sofrimento apenas precisa de ser acolhido. Noutras vezes, quando a ferida come\u00e7a a sarar, pode emergir um sentido novo. N\u00e3o porque a dor \u201cvale a pena\u201d, mas porque aprendemos algo sobre os nossos limites, sobre o que realmente importa e sobre a fragilidade que nos torna humanos.<\/p>\n<p><strong>Vivemos num tempo que parece intolerante ao sofrimento. Porque \u00e9 que temos tanta dificuldade em lidar com a dor emocional?<\/strong><\/p>\n<p>Somos biologicamente concebidos para evitar o dano. Se assim n\u00e3o fosse, n\u00e3o ter\u00edamos sobrevivido enquanto esp\u00e9cie. O evitamento \u00e9, por isso, um mecanismo de autopreserva\u00e7\u00e3o profundamente inscrito no c\u00e9rebro. O problema \u00e9 que, na sociedade atual, este mesmo mecanismo, que outrora garantiu a sobreviv\u00eancia, transformou-se num evitamento ativo de tudo o que possa doer, f\u00edsica, emocional ou existencialmente.<\/p>\n<p>Vivemos numa cultura orientada para o prazer imediato, para a distra\u00e7\u00e3o constante e para a ilus\u00e3o de controlo. A dor passou a ser vista como uma anomalia a corrigir, em vez de uma experi\u00eancia a compreender. Mas quando eliminamos o espa\u00e7o para sofrer, eliminamos tamb\u00e9m a possibilidade de integrar e amadurecer. Paradoxalmente, quanto mais tentamos evitar o sofrimento, mais ele se infiltra, disfar\u00e7ado de ansiedade, depress\u00e3o ou vazio.<\/p>\n<p><strong>A ind\u00fastria do bem-estar e a medicaliza\u00e7\u00e3o crescente do nosso dia-a-dia ajudam ou atrapalham este processo de lidar com a dor emocional? N\u00e3o h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre aliviar o sofrimento e negar a experi\u00eancia do sofrimento e n\u00e3o estaremos a caminhar para esta segunda hip\u00f3tese?<\/strong><\/p>\n<p>A vis\u00e3o m\u00e9dica tradicional encara a doen\u00e7a como algo que compromete a estrutura ou o funcionamento do corpo e que, por isso, deve ser identificado, tratado e eliminado. Este modelo \u00e9 extremamente \u00fatil quando falamos do corpo f\u00edsico: de infe\u00e7\u00f5es, tumores, inflama\u00e7\u00f5es. Mas na sa\u00fade mental, o que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 uma \u201cdoen\u00e7a\u201d nesse sentido, mas uma perturba\u00e7\u00e3o. Uma altera\u00e7\u00e3o da forma como sentimos, pensamos ou nos relacionamos com o mundo, muitas vezes em resposta a circunst\u00e2ncias de vida. Enquanto a doen\u00e7a \u00e9 algo que temos, a perturba\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que vivemos. Surge num contexto, tem uma hist\u00f3ria e fala sobre a nossa rela\u00e7\u00e3o com o sofrimento. Por isso, quando aplicamos um modelo m\u00e9dico r\u00edgido \u00e0 sa\u00fade mental, corremos o risco de patologizar a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A medicaliza\u00e7\u00e3o excessiva e a ind\u00fastria do bem-estar acabam por refor\u00e7ar esta ideia de que o sofrimento \u00e9 um erro, algo a corrigir rapidamente. Mas aliviar o sofrimento \u00e9 diferente de neg\u00e1-lo. Aliviar implica reconhec\u00ea-lo como parte da vida e aprender a habit\u00e1-lo com mais consci\u00eancia. Negar \u00e9 amputar a nossa vulnerabilidade e substituir a humanidade por um ideal de estabilidade permanente, que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p><strong>Que papel t\u00eam hoje as psicoterapias e o que ainda falta mudar na forma como olhamos para elas em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>A psicoterapia \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do tratamento. \u00c9 o espa\u00e7o onde a pessoa pode compreender o seu funcionamento interno, questionar cren\u00e7as limitantes, transformar padr\u00f5es de comportamento e aprender a relacionar-se consigo com mais compaix\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m o lugar onde se reconstr\u00f3i o sentido e isso n\u00e3o pode ser feito atrav\u00e9s de um comprimido. A medica\u00e7\u00e3o pode estabilizar, atenuar sintomas, criar condi\u00e7\u00f5es para o trabalho psicol\u00f3gico, mas n\u00e3o substitui o processo de autoconhecimento e integra\u00e7\u00e3o que a psicoterapia oferece. Limitar o tratamento das perturba\u00e7\u00f5es mentais \u00e0 toma de f\u00e1rmacos \u00e9 reduzir a complexidade humana ao seu m\u00ednimo denominador biol\u00f3gico, perpetuando um paradigma m\u00e9dico que trata o sofrimento como um erro e n\u00e3o como um sinal.<\/p>\n<p>Em Portugal, ainda h\u00e1 o desafio de desmistificar a psicoterapia, de a ver n\u00e3o como um recurso \u201cpara quando tudo falha\u201d, mas como um espa\u00e7o de crescimento, preven\u00e7\u00e3o e aprofundamento da sa\u00fade mental.<\/p>\n<p><strong>Porque \u00e9 que as pessoas t\u00eam tanta relut\u00e2ncia em procurar ajuda psicoterap\u00eautica? Ser\u00e1 vergonha social? Medo do que v\u00e3o encontrar sobre si mesmos?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, por desconhecimento do que \u00e9 realmente a psicoterapia. Ainda existe a ideia de que se trata apenas de conversar. E, como tantas vezes oi\u00e7o, \u201cpara conversar, converso com um amigo\u201d. Mas a psicoterapia transcende o di\u00e1logo. Implica um trabalho profundo, muitas vezes silencioso, que envolve o corpo, a mem\u00f3ria, a emo\u00e7\u00e3o e a forma como nos relacionamos com o que sentimos.<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 fatores sociais e culturais. Fomos educados para valorizar a autonomia e a for\u00e7a, n\u00e3o a vulnerabilidade. Os homens, em particular, tendem a pedir menos ajuda, muitas vezes por medo de parecerem fracos. E a vergonha continua a ser um elemento central: a vergonha de precisar, de n\u00e3o saber, de se confrontar com o que possa estar por baixo da superf\u00edcie.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que a ci\u00eancia contempor\u00e2nea (da neurobiologia \u00e0 psicologia, passando pela psiquiatria) pode ajudar-nos a compreender o sofrimento sem o reduzir apenas a um desequil\u00edbrio qu\u00edmico ou hormonal?<\/strong><\/p>\n<p>A ci\u00eancia tem vindo a mostrar que o sofrimento \u00e9 um fen\u00f3meno simultaneamente biol\u00f3gico, psicol\u00f3gico e relacional. O c\u00e9rebro \u00e9, sem d\u00favida, o palco onde a dor emocional se manifesta, atrav\u00e9s de altera\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, hormonais e estruturais, mas n\u00e3o \u00e9 o seu \u00fanico protagonista. O sofrimento emerge do encontro entre a biologia e a biografia, entre a vulnerabilidade gen\u00e9tica e as experi\u00eancias de vida que moldam a forma como sentimos e interpretamos o mundo. Reduzir o sofrimento a um desequil\u00edbrio qu\u00edmico \u00e9 negar a sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um limiar entre o sofrimento inevit\u00e1vel e o sofrimento que j\u00e1 se torna patol\u00f3gico? Como distinguir um do outro?<\/strong><\/p>\n<p>O sofrimento \u00e9 inevit\u00e1vel, faz parte da condi\u00e7\u00e3o humana. Todos sofremos &#8211; por perda, por amor, por medo, por mudan\u00e7a. Mas o sofrimento torna-se patol\u00f3gico quando deixa de nos mover e passa a paralisar. Quando o desconforto, em vez de nos transformar, come\u00e7a a consumir a vitalidade, a restringir a liberdade e a capacidade de estar no mundo, ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o estamos apenas diante da dor inevit\u00e1vel da vida, mas de um sofrimento que se cristalizou.<\/p>\n<p><strong>E, no meio de tanta dor, como \u00e9 que se mant\u00e9m uma atitude de esperan\u00e7a, sem cair em positivismos vazios?<\/strong><\/p>\n<p>Substituiria a palavra esperan\u00e7a por prop\u00f3sito. Aquele que tem um \u2018porqu\u00ea\u2019 para viver, suporta quase qualquer \u2018como\u2019\u201d, lembrava-nos o psiquiatra Viktor Frankl. Ter um prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 negar a dor nem acreditar que tudo acabar\u00e1 bem. \u00c9 conseguir olhar para o que existe tal como \u00e9, e, ainda assim, apontar numa dire\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a sentido.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, tal como muitas vezes a entendemos, pode ser uma forma disfar\u00e7ada de fuga &#8211; a expectativa de que algo exterior vir\u00e1 resgatar-nos. O prop\u00f3sito, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um movimento interno. D\u00e1-nos dire\u00e7\u00e3o, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 \u201cluz\u201d. E talvez seja isso, no fundo, o que significa aprender a andar no escuro.<\/p>\n<p><strong>No consult\u00f3rio, o que mais o surpreende nas pessoas que chegam em sofrimento?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 poucas coisas me surpreendem. Depois de tantos anos a lidar de perto com a dor e a mis\u00e9ria humanas, aprendi que aquilo que me diferencia da pessoa \u00e0 minha frente \u00e9 apenas a cadeira que ocupo.<\/p>\n<p>Talvez o que ainda me entriste\u00e7a seja a forma como a vulnerabilidade continua a ser confundida com fraqueza. Na verdade, \u00e9 o contr\u00e1rio: a vulnerabilidade \u00e9 o ponto de encontro entre o medo e a coragem, o lugar onde o humano se revela por inteiro.<\/p>\n<p>No consult\u00f3rio vejo, todos os dias, pessoas que acreditam estar a falhar quando sofrem e, paradoxalmente, \u00e9 nesse reconhecimento da fragilidade que come\u00e7a o verdadeiro processo de cura.<\/p>\n<p><strong>E o que tem aprendido, enquanto terapeuta, sobre os limites da ajuda e sobre a import\u00e2ncia de aceitar esses limites?<\/strong><\/p>\n<p>Os limites da ajuda coincidem com a capacidade de a receber. Se me sento diante do outro em resist\u00eancia, aquilo que posso integrar ser\u00e1 sempre reduzido. Tudo passa pelo filtro da mente e esse filtro, quando r\u00edgido, condiciona profundamente a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Aceitar a vulnerabilidade inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 o primeiro passo para pedir e receber ajuda. Do lado do terapeuta, abandonar o complexo de salvador \u00e9 essencial para que tamb\u00e9m ele sofra menos e n\u00e3o se confunda com o processo do paciente, sentindo-se impotente quando a mudan\u00e7a n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>O resultado terap\u00eautico nasce do encontro entre duas vontades: a de quem procura e a de quem acompanha. O terapeuta \u00e9 o farol que ilumina a noite, mas \u00e9 o paciente quem segura o leme. A luz ajuda a ver melhor, mas n\u00e3o substitui a escolha da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos anos tem-se falado mais de sa\u00fade mental, mas os recursos continuam escassos. Nomeadamente os recursos humanos. O que \u00e9 que ainda est\u00e1 a falhar na forma como o pa\u00eds responde ao sofrimento psicol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n<p>Faltam recursos humanos, mas falta sobretudo forma\u00e7\u00e3o de qualidade. Um psiquiatra, em Portugal, n\u00e3o recebe forma\u00e7\u00e3o psicoterap\u00eautica especializada durante a sua forma\u00e7\u00e3o. Se a quiser, ter\u00e1 de a procurar por iniciativa pr\u00f3pria, investindo tempo e recursos econ\u00f3micos. Isto cria um vazio enorme na pr\u00e1tica cl\u00ednica: o m\u00e9dico fica mais preparado para prescrever do que para escutar. E o paciente perde a possibilidade de uma abordagem verdadeiramente integrativa.<\/p>\n<p>Repensar a forma\u00e7\u00e3o em psiquiatria e psicologia \u00e9 urgente. Precisamos de profissionais que saibam olhar para as perturba\u00e7\u00f5es mentais n\u00e3o apenas como um conjunto de sintomas, mas como uma hist\u00f3ria, uma rela\u00e7\u00e3o e uma experi\u00eancia encarnada. O sistema de sa\u00fade continua a responder ao sofrimento com protocolos, quando o que o sofrimento pede \u00e9 presen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Falta literacia emocional? Faltam pol\u00edticas p\u00fablicas? Ou falta tempo para parar e escutar?<\/strong><\/p>\n<p>Falta tudo isso: literacia emocional, pol\u00edticas p\u00fablicas consistentes e tempo para parar e escutar. Mas falta tamb\u00e9m repensar o modelo de assist\u00eancia em sa\u00fade mental. Continuamos a responder a um sofrimento essencialmente humano com estruturas desenhadas para tratar doen\u00e7as. Precisamos de um modelo que una a ci\u00eancia \u00e0 presen\u00e7a, que devolva tempo aos profissionais e dignidade aos pacientes.<\/p>\n<p><strong>O SNS n\u00e3o tem oferta suficiente. Marcar uma consulta no setor privado \u00e9 uma aventura\u2026 demorada. Os seguros de sa\u00fade n\u00e3o t\u00eam cobertura de psicoterapia ou de psicologia. O que \u00e9 que falta para mudarmos este paradigma?<\/strong><\/p>\n<p>Precisamos, antes de mais, de profissionais de sa\u00fade mental inseridos nos grupos pol\u00edticos e em lugares de decis\u00e3o. Enquanto as pol\u00edticas forem desenhadas apenas por quem v\u00ea o sofrimento \u00e0 dist\u00e2ncia, continuaremos a criar medidas desajustadas da realidade. N\u00e3o basta aumentar o n\u00famero de consultas. \u00c9 preciso repensar o sistema a partir da sua base: da preven\u00e7\u00e3o, da educa\u00e7\u00e3o emocional e do acesso equitativo ao cuidado. A sa\u00fade mental n\u00e3o pode continuar a ser um luxo, \u00e9 um direito fundamental.<\/p>\n<p><strong>Que mensagem gostaria que o leitor levasse deste livro?<\/strong><\/p>\n<p>Quem escreve deseja, inevitavelmente, deixar uma marca em quem l\u00ea. A que gostaria de deixar \u00e9 simples: a lembran\u00e7a de que sofrer faz parte da condi\u00e7\u00e3o humana, que a dor n\u00e3o \u00e9 sinal de fraqueza ou incapacidade, mas uma das formas mais puras de estarmos vivos.<\/p>\n<p>Gostaria que o leitor guardasse a ideia de que todo o sofrimento tem um ciclo &#8211; um in\u00edcio, um meio e um fim -, mesmo quando o fim ainda n\u00e3o se vislumbra. Que h\u00e1 sempre um intervalo entre o que se perde e o que se reencontra e que \u00e9 nesse espa\u00e7o que podemos crescer, compreender e transformar.<\/p>\n<p>No fundo, desejo que este livro funcione como um companheiro silencioso, n\u00e3o para apagar a escurid\u00e3o, mas para lembrar que \u00e9 poss\u00edvel caminhar dentro dela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ENTREVISTA || Num tempo que rejeita a dor e medicaliza a vulnerabilidade, o psiquiatra Jo\u00e3o Perestrelo, autor de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":205501,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[609,836,611,27,607,608,333,832,604,135,610,476,301,830,116,40570,603,570,831,833,62,834,13,835,602,52,32,4740,2224,9825,33,117,1030,40569,29],"class_list":{"0":"post-205500","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-alerta","9":"tag-analise","10":"tag-ao-minuto","11":"tag-breaking-news","12":"tag-cnn","13":"tag-cnn-portugal","14":"tag-comentadores","15":"tag-costa","16":"tag-crime","17":"tag-desporto","18":"tag-direto","19":"tag-economia","20":"tag-governo","21":"tag-guerra","22":"tag-health","23":"tag-joao-perestrelo","24":"tag-justica","25":"tag-live","26":"tag-mais-vistas","27":"tag-marcelo","28":"tag-mundo","29":"tag-negocios","30":"tag-noticias","31":"tag-opiniao","32":"tag-pais","33":"tag-politica","34":"tag-portugal","35":"tag-psicologia","36":"tag-psicoterapia","37":"tag-psiquiatria","38":"tag-pt","39":"tag-saude","40":"tag-saude-mental","41":"tag-sofrimento","42":"tag-ultimas"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115796186662806418","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=205500"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/205500\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/205501"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=205500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=205500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=205500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}