{"id":206126,"date":"2025-12-29T11:23:12","date_gmt":"2025-12-29T11:23:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/206126\/"},"modified":"2025-12-29T11:23:12","modified_gmt":"2025-12-29T11:23:12","slug":"antiga-civilizacao-assassinava-as-suas-proprias-casas-ainda-nao-sabemos-porque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/206126\/","title":{"rendered":"Antiga civiliza\u00e7\u00e3o &#8220;assassinava&#8221; as suas pr\u00f3prias casas. Ainda n\u00e3o sabemos porqu\u00ea"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\">Pourlascience<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-719309 size-kopa-image-size-3\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/8f14e45fceea167a5a36dedd4bea2543-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">Assentamento de Maydanets, na regi\u00e3o de Cherkasy, no centro da Ucr\u00e2nia \u2014 possivelmente a grande cidade mais antiga da hist\u00f3ria da humanidade<\/p>\n<p><strong>Os enormes assentamentos da cultura Tripiliana chegavam a ter 40.000 habitantes. Todos eles acabaram por ser consumidos pelas chamas \u2014 e os inc\u00eandios n\u00e3o eram acidentais. Os arque\u00f3logos pensam que estamos perante casos de \u201cdomic\u00eddio\u201d \u2014 ou seja, do \u201cassassinato de uma casa\u201d.<br \/><\/strong><\/p>\n<p>Mil anos antes de os primeiros fara\u00f3s governarem o Egito, a Europa de Leste ostentava uma rede de povoa\u00e7\u00f5es maior do que qualquer outra no mundo. Eram os <strong>megass\u00edtios de Tripilia<\/strong>, centros de produ\u00e7\u00e3o de sal e cobre.<\/p>\n<p>Alguns destes grandes assentamentos chegaram a cobrir v\u00e1rios quil\u00f3metros quadrados e albergar <strong>at\u00e9 40.000 pessoas<\/strong>.<\/p>\n<p>E todos estes megass\u00edtios acabaram por ser <strong>consumidos pelas chamas<\/strong>.<\/p>\n<p>A cultura <strong>Cucuteni-Tripiliana<\/strong> ocupou, entre cerca de 4600 e 3500 a.C. o que \u00e9 atualmente a <strong>Rom\u00e9nia, Mold\u00e1via e Ucr\u00e2nia<\/strong>. Conhecida pela sua cer\u00e2mica elegante, deixou-nos o mais antigo exemplo conhecido de <strong>roda de oleiro<\/strong>.<\/p>\n<p>Os Tripilianos praticavam agricultura, sobretudo cultivo de cereais e produ\u00e7\u00e3o de lactic\u00ednios, o que permitiu o desenvolvimento de pequenas <strong>povoa\u00e7\u00f5es densas<\/strong>, com casas de <strong>\u201cpau a pique\u201d<\/strong>, ou taipa de m\u00e3o \u2014 t\u00e9cnica construtiva ancestral que entrela\u00e7a varas de madeira ou bambu e preenche os v\u00e3os com barro e palha para formar as paredes.<\/p>\n<p>No quarto mil\u00e9nio a.C., estas povoa\u00e7\u00f5es apresentavam um <strong>estilo pr\u00f3prio<\/strong>, com v\u00e1rias centenas ou mesmo milhares de edif\u00edcios organizados em an\u00e9is conc\u00eantricos. Em algumas, as ruas<strong> irradiavam para o centro<\/strong> de uma oval, como os raios de uma roda, conta o <a href=\"https:\/\/explorersweb.com\/this-stone-age-civilization-burned-down-its-own-houses-we-still-dont-know-why\/\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" class=\"ext-link\">Explorersweb<\/a>.<\/p>\n<p>Os <strong>escombros de barro queimado<\/strong>, resultado de inc\u00eandios intensos, s\u00e3o uma caracter\u00edstica marcante das ru\u00ednas tripilianas. A sua presen\u00e7a \u00e9 t\u00e3o comum que, durante d\u00e9cadas, os arque\u00f3logos pensaram que os Tripilianos utilizavam o fogo <strong>durante o processo de constru\u00e7\u00e3o das casas<\/strong>.<\/p>\n<p>No entanto, <strong>n\u00e3o s\u00e3o apenas as paredes das casas<\/strong> que apresentam sinais de danos provocados pelo fogo, como seria de esperar se este fosse utilizado na constru\u00e7\u00e3o. Muitas das casas est\u00e3o <strong>repletas de montes de lixo queimado<\/strong>, cereais carbonizados e m\u00f3veis queimados.<\/p>\n<p>Tudo indica que <strong>estes inc\u00eandios n\u00e3o foram acidentais<\/strong>. Perante este enigma, os investigadores viram uma oportunidade para aplicar a arqueologia experimental cl\u00e1ssica. V\u00e1rias equipas de investigadores compraram ou constru\u00edram casas de \u201cpau a pique\u201d no Leste da Europa <strong>e incendiaram-nas<\/strong>.<\/p>\n<p>Todas estas as equipas constataram que um inc\u00eandio natural, deixado ao acaso, <strong>n\u00e3o\u00a0conseguia reproduzir os danos <\/strong>observados nas habita\u00e7\u00f5es tripilianas.<\/p>\n<p><strong>S\u00f3 quando adicionaram combust\u00edvel extra<\/strong> \u00e9 que o calor atingiu temperaturas compar\u00e1veis \u00e0s ru\u00ednas. Al\u00e9m disso, dentro das casas foram encontrados muito <strong>poucos restos humanos ou animais<\/strong>, o que sugere que os inc\u00eandios eram provocados <strong>de forma deliberada<\/strong>.<\/p>\n<p>O mapa abaixo mostra parte da Europa de Leste na Idade da Pedra final. Na \u00e1rea assinalada <strong>a vermelho<\/strong>, a maioria das pessoas queimava as suas pr\u00f3prias casas depois de l\u00e1 viverem durante anos. <strong>Fora dessa linha, isso n\u00e3o acontecia<\/strong>.<\/p>\n<p>Esta linha \u00e9 conhecida como o \u201c<strong>horizonte das casas queimadas<\/strong>\u201d e, at\u00e9 hoje, os arque\u00f3logos continuam sem saber o porqu\u00ea da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text top\">ZAP \/\/ Saukkomies \/ Wikipedia<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-719310 \" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2deb000b57bfac9d72c14d4ed967b572-5-692x452.jpg\" alt=\"\" width=\"530\" height=\"346\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">O \u201chorizonte das casas queimadas\u201d da cultura Tripiliana, na Europa de Leste do neol\u00edtico (a vermelho)<\/p>\n<p>A cena do crime<\/p>\n<p>O modus operandi da destrui\u00e7\u00e3o das casas tripilianas evoluiu ao longo do tempo. Existem exce\u00e7\u00f5es, mas, na maioria dos casos, verificam-se as seguintes regras:<\/p>\n<ul>\n<li>As casas eram queimadas <strong>individualmente ou em pequenos grupos<\/strong>, e n\u00e3o toda a povoa\u00e7\u00e3o de uma vez<\/li>\n<li>As casas eram incendiadas <strong>sem pessoas ou animais no interior<\/strong><\/li>\n<li>As casas eram queimadas <strong>com m\u00f3veis e desperd\u00edcios no interior<\/strong>, ou ao lado de outra casa com esses objetos<\/li>\n<li>As casas eram <strong>destru\u00eddas pelo fogo com alimentos<\/strong> ainda no interior<\/li>\n<li>O fogo atingia <strong>temperaturas t\u00e3o elevadas<\/strong> que cada inc\u00eandio podia consumir entre 100 a 250 \u00e1rvores como combust\u00edvel<\/li>\n<li><strong>Novas casas eram constru\u00eddas<\/strong> sobre os escombros das antigas<\/li>\n<\/ul>\n<p>Juntando todos estes elementos, come\u00e7a a desenhar-se <strong>um quadro mais claro<\/strong>. Os Tripilianos queimavam casas que <strong>ainda estavam em condi\u00e7\u00f5es de uso<\/strong>, e n\u00e3o o faziam apenas para desocupar espa\u00e7o, j\u00e1 que, nesse caso, outros poderiam ter ocupado essas habita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o usavam as casas como cremat\u00f3rios<\/strong> dos mortos, nem s\u00f3 como lixeira, embora nelas queimassem objetos. E eram <strong>verdadeiros especialistas no uso do fogo<\/strong>.<\/p>\n<p>Podemos<strong> excluir imediatamente uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o<\/strong> para estes inc\u00eandios: se <strong>invasores tivessem sido respons\u00e1veis<\/strong> pela destrui\u00e7\u00e3o regular destas povoa\u00e7\u00f5es, encontrar-se-iam outros sinais de conflito nas ru\u00ednas. Corpos, alguns queimados vivos, outros mortos de forma violenta. Armas. Estruturas defensivas mais elaboradas do que uma simples vala de dois metros de largura.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que se confirmou o <strong>car\u00e1cter intencional e n\u00e3o agressivo<\/strong> destes inc\u00eandios, os arque\u00f3logos come\u00e7aram a discutir o conceito de <strong>domic\u00eddio<\/strong>, ou seja, o <strong>\u201cassassinato\u201d de uma casa<\/strong>.<\/p>\n<p>Este termo descreve um <strong>ato de viol\u00eancia contra os habitantes de uma casa<\/strong>, referindo-se, por exemplo, ao tratamento dado aos nativos americanos durante a Lei de Remo\u00e7\u00e3o dos \u00cdndios. Mais recentemente, um Relator Especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas aplicou o termo aos bombardeamentos na Faixa de Gaza.<\/p>\n<p>O domic\u00eddio no \u201chorizonte das casas queimadas\u201d \u00e9, por\u00e9m, <strong>um fen\u00f3meno diferente<\/strong>. \u00c9 pessoal, caso contr\u00e1rio n<strong>\u00e3o teriam sido deixadas pe\u00e7as de cer\u00e2mica<\/strong> valiosas no interior das casas incendiadas.<\/p>\n<p>Uma das teorias sugere que os Tripilianos viam as casas como tendo uma alma pr\u00f3pria e <strong>ajudavam-nas a \u201cmorrer\u201d no final do seu ciclo de vida<\/strong>. Outra hip\u00f3tese avan\u00e7a que se queimava a casa <strong>ap\u00f3s a morte de um habitante importante<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas o domic\u00eddio acaba por ser, sobretudo, <strong>um reflexo da nossa ignor\u00e2ncia<\/strong>, mais do que uma resposta \u00e0 quest\u00e3o dos inc\u00eandios. Sem registos escritos ou objetos com claro significado espiritual, o papel das casas na sociedade tripiliana permanece <strong>envolto em mist\u00e9rio<\/strong>.<\/p>\n<p>    <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/subscrever-newsletter\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#13;<br \/>\n        <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765389371_545_2d51fe4a0ba54894421ead1809309ed9-1-450x140.jpg\" alt=\"Subscreva a Newsletter ZAP\" width=\"450\" height=\"140\"\/>&#13;<br \/>\n    <\/a><\/p>\n<p>                <a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029VaIC4EE2f3EJZPPSbR34\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" class=\"ext-link\">&#13;<br \/>\n                    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765389371_770_c68c559d956d4ca20f435ed74a6e71e6.png\" alt=\"Siga-nos no WhatsApp\" width=\"175\" height=\"64\"\/>&#13;<br \/>\n                <\/a><\/p>\n<p>                <a href=\"https:\/\/news.google.com\/publications\/CAAiEHRwZondIV71PDjWNoqMduEqFAgKIhB0cGaJ3SFe9Tw41jaKjHbh?hl=en-US&amp;gl=US&amp;ceid=US%3Aen\" data-wpel-link=\"external\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" class=\"ext-link\">&#13;<br \/>\n                    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-575475\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/1765389372_556_5123dd8b087b644fdb8f8603acd1bad4.png\" alt=\"Siga-nos no Google News\" width=\"176\" height=\"64\"\/>&#13;<br \/>\n                <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pourlascience Assentamento de Maydanets, na regi\u00e3o de Cherkasy, no centro da Ucr\u00e2nia \u2014 possivelmente a grande cidade mais&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":206127,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[3440,3504,27,28,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,8666,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-206126","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-antropologia","9":"tag-arqueologia","10":"tag-breaking-news","11":"tag-breakingnews","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-mundo","20":"tag-news","21":"tag-noticias","22":"tag-noticias-principais","23":"tag-noticiasprincipais","24":"tag-paleoantropologia","25":"tag-principais-noticias","26":"tag-principaisnoticias","27":"tag-top-stories","28":"tag-topstories","29":"tag-ultimas","30":"tag-ultimas-noticias","31":"tag-ultimasnoticias","32":"tag-world","33":"tag-world-news","34":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115802603858310209","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206126","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=206126"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/206126\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/206127"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=206126"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=206126"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=206126"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}