{"id":210076,"date":"2026-01-01T03:18:14","date_gmt":"2026-01-01T03:18:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/210076\/"},"modified":"2026-01-01T03:18:14","modified_gmt":"2026-01-01T03:18:14","slug":"ja-tens-namoradinha-em-2026-nao-perguntem-isto-aos-meninos-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/210076\/","title":{"rendered":"J\u00e1 tens namoradinha? Em 2026 n\u00e3o perguntem isto aos meninos! | Cr\u00f3nica"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o, n\u00e3o tem. Uma crian\u00e7a de 9 anos n\u00e3o tem namorado nem namorada. E se a no\u00e7\u00e3o, ou a falta dela, insistir na pergunta, pelo menos que ela seja colocada sem julgamentos pr\u00e9vios. Tens algu\u00e9m mais especial? Perguntar de forma neutra n\u00e3o confunde, n\u00e3o antecipa, n\u00e3o empurra. Perguntar se h\u00e1 algu\u00e9m especial, se gostam de algu\u00e9m, ou simplesmente n\u00e3o perguntar nada, n\u00e3o magoa ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas gay que conhe\u00e7o, e de muitas que conheci tarde demais, diz ter percebido desde muito cedo quem era. Ora, se queremos que filhos, primos ou sobrinhos se sintam livres para sair do arm\u00e1rio, como continuamos a questionar a um menino em desenvolvimento se tem namoradinha? \u00c9 demasiado f\u00e1cil sacudir a \u00e1gua do capote e afirmar que o filho nunca revelou preferir a companhia de meninos, quando na verdade nunca lhe foi concedido espa\u00e7o suficiente para se sentir \u00e0 vontade para dizer se gosta de meninos, de meninas ou de ningu\u00e9m. A pergunta \u201cj\u00e1 tens namoradinha?\u201d n\u00e3o nasce do \u00f3dio, mas da pregui\u00e7a em compreender o outro. \u00c9 um reflexo condicionado, herdado, repetido sem pensamento cr\u00edtico e a que j\u00e1 ningu\u00e9m deveria recorrer.<\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito, alguns leitores e algumas leitoras ter\u00e3o reparado que no t\u00edtulo desta cr\u00f3nica, destaco o g\u00e9nero masculino como foco da observa\u00e7\u00e3o. A escolha \u00e9 intencional. Desde muito nova que durmo com amigas, que ando de m\u00e3os dadas com elas na rua, e nunca senti um olhar condenat\u00f3rio. Os meninos, sobretudo os de outros tempos e de certos contextos, sabem que comportamentos semelhantes s\u00e3o alvo de interpreta\u00e7\u00f5es mais agressivas e, n\u00e3o raras vezes, violentas. Ali\u00e1s, muitas crian\u00e7as de 9 anos ainda n\u00e3o sabem tomar banho ou vestir-se sozinhas, mas j\u00e1 se lhes exige uma orienta\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica clara, preferencialmente heterossexual e definitiva. Ao optar por uma pergunta mais neutra ou simplesmente n\u00e3o perguntar, evita-se um tipo de sofrimento que, tantas vezes, come\u00e7a cedo e dentro da pr\u00f3pria casa. Enquanto na rua ou na escola todos percebem que aquele menino gosta de meninos, no espa\u00e7o que deveria ser de conforto e aceita\u00e7\u00e3o continua a perguntar-se por uma namoradinha que n\u00e3o existe, nem existir\u00e1. N\u00e3o porque queira abra\u00e7ar o celibato, mas porque \u00e9 um namoradinho que tem e ter\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 tens namoradinha?\u201d \u00e9 uma pergunta que pressup\u00f5e existir apenas uma resposta certa. Todas as outras devem ser engolidas em seco, como um embara\u00e7o a evitar. O mais curioso \u00e9 que, mesmo depois da revela\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual, o assunto continua a ser tabu em muitas casas, evitando-se o tema \u00e0 mesa, sobretudo quando est\u00e1 presente aquele tio homof\u00f3bico.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, vemos a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/extremadireita\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">extrema-direita <\/a>a crescer em Portugal e a tentar afastar a educa\u00e7\u00e3o sexual das escolas, remetendo esse papel para pais e m\u00e3es, como se o espa\u00e7o familiar fosse, de forma consistente, um local de aprendizagem segura sobre orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade. Basta ler caixas de coment\u00e1rios nas redes sociais para encontrar pais a afirmarem, com orgulho, que nunca falaram desses temas com os filhos e que \u201ca vida os ensinar\u00e1\u201d, como se a simples men\u00e7\u00e3o da palavra \u201cgay\u201d em casa tivesse o poder m\u00e1gico de alterar orienta\u00e7\u00f5es sexuais, qual moda passageira. Este contexto prolonga a encena\u00e7\u00e3o e o fingimento de uma orienta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 sentida e arrasta-se por anos. Aprende-se a omitir afectos, a esconder desejos, a ensaiar vers\u00f5es aceit\u00e1veis de si pr\u00f3prio para os outros, para ficar bem na fotografia da fam\u00edlia conservadora.<\/p>\n<p>Em 2026, deixemos de fingir que a pergunta \u201cj\u00e1 tens namoradinha?\u201d \u00e9 inofensiva. N\u00e3o \u00e9. Muitas vezes, para algumas pessoas serve para confirmar que est\u00e1 tudo \u201ccerto\u201d com aquele rapaz, sendo que, quem mais se perturba com a possibilidade de uma crian\u00e7a n\u00e3o ser heterossexual s\u00e3o, quase sempre, os adultos, pois temem olhares alheios, explica\u00e7\u00f5es \u00e0 fam\u00edlia, coment\u00e1rios na escola.<\/p>\n<p>E assim o sil\u00eancio volta a instalar-se em casa, apenas interrompido pela pergunta ansiosa, repetida como um ritual: \u201cj\u00e1 tens namoradinha, n\u00e3o j\u00e1?\u201d<\/p>\n<p>A autora escreve segundo o Acordo Ortogr\u00e1fico de 1990.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o, n\u00e3o tem. Uma crian\u00e7a de 9 anos n\u00e3o tem namorado nem namorada. 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