{"id":211585,"date":"2026-01-02T08:34:09","date_gmt":"2026-01-02T08:34:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/211585\/"},"modified":"2026-01-02T08:34:09","modified_gmt":"2026-01-02T08:34:09","slug":"christian-petzold-com-o-streaming-todos-os-filmes-parecem-iguais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/211585\/","title":{"rendered":"Christian Petzold: &#8220;Com o streaming, todos os filmes parecem iguais&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Nos seus filmes vai mudando de musas, entre Nina Hoss e Paula Beer. O que se altera no seu trabalho, em fun\u00e7\u00e3o das suas protagonistas?<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"inread\">H\u00e1 alguns anos, na Berlinale, acho que foi no ano do &#8220;B\u00e1rbara&#8221;, um jornalista austr\u00edaco perguntou-me se a Nina Hoss era a minha musa. Respondi-lhe que n\u00e3o, porque as musas, na \u00c1ustria, s\u00e3o seres meio nus. O que me dizem \u00e9 que com a Paula Beer estou a mudar para um corpo mais jovem. Mas o que posso dizer \u00e9 que com a Nina Hoss e com a Paula Beer encontro coisas diferentes e coisas semelhantes.<\/p>\n<p>Em que aspeto \u00e9 que s\u00e3o semelhantes?<\/p>\n<p>Tenho sempre a sensa\u00e7\u00e3o de que estas atrizes est\u00e3o a trabalhar e a representar numa esp\u00e9cie de ex\u00edlio. N\u00e3o fazem parte deste mundo, est\u00e3o do lado de fora. Como os russos na Paris da d\u00e9cada de 1920, perderam o seu pa\u00eds e est\u00e3o \u00e0 procura de uma nova casa. E h\u00e1 outra coisa de que gosto no trabalho delas, s\u00e3o independentes.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que isso se v\u00ea neste seu \u00faltimo filme?<\/p>\n<p>Por exemplo, na \u00faltima imagem da Paula Beer, quando v\u00ea algo que est\u00e1 fora da imagem, tenho a impress\u00e3o de que \u00e9 ali que ela come\u00e7a uma vida pr\u00f3pria, quando o gen\u00e9rico final come\u00e7a, j\u00e1 n\u00e3o precisa de n\u00f3s. Isso conforta-me. Todos os grandes her\u00f3is do cinema t\u00eam este pequeno momento de ex\u00edlio.<\/p>\n<p>A sua rela\u00e7\u00e3o de trabalho com a Nina Hoss vai manter-se?<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro1\">Fiz seis filmes com a Nina Hoss. E teatro. E \u00e9 curioso porque \u00e0s vezes j\u00e1 n\u00e3o sinto que ela esteja nessa esp\u00e9cie de ex\u00edlio. Tenho a certeza de que vamos voltar a trabalhar.<\/p>\n<p>E as duas juntas, porque nunca aconteceu?<\/p>\n<p>Toda a gente me pergunta porque \u00e9 que n\u00e3o escrevo alguma coisa para a Paula e para a Nina, mas ainda n\u00e3o tive nenhuma ideia.<\/p>\n<p>Nesse plano que referiu faz-nos pensar algo que n\u00e3o vai acontecer&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 uma pergunta muito boa, que toca na ferida. Quando escrevi o gui\u00e3o tinha visto um filme do Claude Sautet, onde dois homens est\u00e3o apaixonados pela Romy Schneider e est\u00e3o a lutar um com o outro. E a Romy Schneider desaparece. E eles ficam sozinhos, sem a mulher. E come\u00e7am a ser amigos, porque j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam ningu\u00e9m sobre quem lutar. Mas no fim do filme a Romy volta e est\u00e1 de p\u00e9 na cerca a olhar para eles, ea beber e a conversar. E come\u00e7a a rir. Gosto imenso de cenas assim.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que transportou essa imagem para o seu filme?<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro2\">Escrevi uma cena onde a fam\u00edlia est\u00e1 na varanda, a beber caf\u00e9 e a comer ovos e a Laura, a personagem da Paula Beer, chega \u00e0 cerca e v\u00ea a fam\u00edlia. Abre o port\u00e3o e entra. A \u00faltima frase do gui\u00e3o era: &#8220;ela entra para a sala da fam\u00edlia&#8221;. Gosto da frase, e todos os produtores que me deram dinheiro para fazer o filme gostaram, porque era uma frase emocional. Mas na saal de montagem percebi que o significado era &#8220;ela entra de novo para a pris\u00e3o&#8221;. Percebi que tinha cometido um erro grave.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que resolveu ent\u00e3o o problema?<\/p>\n<p>Quatro meses depois das filmagens, e depois de um longo momento de depress\u00e3o, disse aos produtores que tinha de refazer a cena final. Mud\u00e1mos a cena toda e agora a fam\u00edlia est\u00e1 sozinha na varanda, entregue a si mesma. E a Laura est\u00e1 no apartamento dela. \u00c9 esta a verdadeira independ\u00eancia e o verdadeiro conforto para n\u00f3s. Todos tiveram este tempo, mas j\u00e1 n\u00e3o precisam uns dos outros. \u00c9 a vida. Como quando os filhos saem de casa. Os pais ficam em l\u00e1grimas, mas \u00e9 bom ver que podem viver as suas vidas.<\/p>\n<p>Isso encontra eco na sua vida pessoal?<\/p>\n<p>A minha filha saiu de casa h\u00e1 dez anos. E depois o meu filho tamb\u00e9m saiu de casa, para ir viver num apartamento com outros amigos. Um dia estava a andar de bicicleta em Berlim, parei num sem\u00e1foro e vi o meu filho, que estava a rir no meio de um grupo de amigos. Percebi a\u00ed que ele j\u00e1 n\u00e3o precisava de mim. Foi um momento fant\u00e1stico. Era um momento assim que precisava no filme e n\u00e3o um &#8220;happy end&#8221; com toda a fam\u00edlia junta.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do filme que a Laura parece tomada por algo de sobrenatural. Como \u00e9 que definiu esse estado inicial da personagem na fase da escrita do gui\u00e3o?<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro3\">Detesto sentar-me num cinema e que o filme comece por me descrever as personagens, os seus problemas, os seus traumas. Com o streaming, todos os filmes s\u00e3o constru\u00eddos da mesma forma. Os atores precisam um pouco disso, mas evito-o. A Paula perguntou-me o que acontecera \u00e0 Laura antes, mas respondi-lhe que nunca soubemos o que acontecera \u00e0 Alice antes dela entrar na toca do coelho. A Laura n\u00e3o quer saber da vida passada, o que quer \u00e9 uma vida nova. O filme \u00e9 sobre a vida nova dela, n\u00e3o sobre a anterior.<\/p>\n<p>Mas nunca pensou em como seria a vida dela antes do in\u00edcio do filme?<\/p>\n<p>Foi na sala de montagem e n\u00e3o na escrita do gui\u00e3o que me apercebi que estava a criar uma nova biografia de algu\u00e9m. A Laura nasceu no acidente. Algu\u00e9m lhe d\u00e1 um primeiro caf\u00e9, mostra-lhe a natureza `volta, o primeiro jantar, a primeira caminhada em bicicleta, os primeiros amigos, o primeiro dia sem os pais em casa. \u00c9 como quando estamos numa festa e nos apaixonamos por algu\u00e9m,<\/p>\n<p>Pode desenvolver essa ideia, que parece muito interessante?<\/p>\n<p>O efeito passa se perguntamos \u00e0 outra pessoa qual \u00e9 a sua profiss\u00e3o. Se s\u00f3 perguntarmos o nome um do outro \u00e9 como se f\u00f4ssemos Ad\u00e3o e Eva. Temos o Para\u00edso \u00e0 nossa frente. Podemos fazer o que quisermos. Mas se quisermos comer a ma\u00e7\u00e2 e quisermos saber mais sobre os outros, damos cabo de uma fant\u00e1stica possibilidade de rela\u00e7\u00e3o amorosa. E eu sei o que isso \u00e9, dei cabo de muitas na minha vida.<\/p>\n<p>O seu filme segue uma linha cin\u00e9fila, podemos pensar em muitos outros filmes, como o &#8220;Rebecca, do Hitchcock&#8230;<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro4\">Eu sou um hitchcockiano. Quando est\u00e1vamos a filmar o filme anterior, &#8220;C\u00e9u em Chamas&#8221;, havia uma cena em que o Thomas Schubert, o escritor, estava \u00e0 espera que a Paula lesse o romance dele. Ele est\u00e1 com medo, n\u00e3o sabe o que fazer, tem uma bola de t\u00e9nis na m\u00e3o. Como \u00e9 que conseguia criar uma atmosfera de medo, sem filmar apenas o rosto dele? E lembrei-me precisamente do &#8220;Rebecca&#8221;. O Hitchcock sabia.<\/p>\n<p>O &#8220;Miroirs No.3&#8221; tamb\u00e9m tem essa dimens\u00e3o, com uma mulher que toma o lugar de outra&#8230;<\/p>\n<p>No filme h\u00e1 uma cena em que a Paula se senta ao piano, com uma ch\u00e1vena de caf\u00e9, e a personagem da m\u00e3e, a Barbara Auer, olha para ela como se fosse outra pessoa. \u00c9 como a Rebecca do Hitchcock, Rebecca \u00e9 uma mulher morta. A jovem do filme chega aquele velho castelo e o fantasma daquela mulher morta vai assombr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Pode falar um pouco do t\u00edtulo do filme? Refere-se \u00e0 pe\u00e7a musical de Ravel?<\/p>\n<p>Estava com a minha montadora a fazer a mistura de som de &#8220;C\u00e9u em Chamas&#8221; e disse-lhe que tinha acabado este gui\u00e3o, mas n\u00e3o conseguia arranjar-lhe um t\u00edtulo. Ela sugeriu &#8220;Miroirs No.3&#8221;. Penso que \u00e9 um bom t\u00edtulo. \u00c9 uma express\u00e3o que n\u00e3o significa nada, mas ao mesmo tempo significa qualquer coisa. Ficou como t\u00edtulo de trabalho. Mas o distribuidor achou que era um bom t\u00edtulo. E na realidade toda a gente fala do t\u00edtulo, parece que n\u00e3o tem nada a ver com o filme, mas acaba por ter tanto a ver com o filme.<\/p>\n<p>O que representa para si filmar fora de Berlim?<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro5\">Berlim era uma ilha at\u00e9 1989. N\u00e3o havia o fora de Berlim. Havia um muro \u00e0 volta de Berlim e quando se sa\u00eda de Berlim para se chegar \u00e0 Alemanha Ocidental tinha de se passar por um pa\u00eds estranho, onde as pessoas falavam a mesma l\u00edngua, mas eram completamente diferentes. Com a queda do muto ganh\u00e1mos uma nova paisagem \u00e0 volta da cidade. Muitas pessoas com dinheiro compraram casas antigas nesses terrenos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria come\u00e7ou ent\u00e3o com essa imagem?<\/p>\n<p>Quando andamos de carro por a\u00ed vemos tantas casas renovadas, mas vazias. Muitos jovens renovaram essas casas mas ao fim de quatro anos ou se divorciavam ou j\u00e1 n\u00e3o queriam viver l\u00e1. \u00c9 como um cemit\u00e9rio de casas. Gostei da ideia de ir a esse territ\u00f3rio de casas vazias, mas ver numa delas uma mulher a pintar uma cerca. Alguma coisa estava a acontecer ali. Voltamos a Hitchcock. No filme &#8220;Saboteur&#8221; h\u00e1 uma s\u00e9rie de moinhos de vento que est\u00e3o a andar \u00e0 volta mas um deles est\u00e1 parado. \u00c9 a\u00ed que a hist\u00f3ria come\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nos seus filmes vai mudando de musas, entre Nina Hoss e Paula Beer. 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