{"id":212765,"date":"2026-01-03T00:17:20","date_gmt":"2026-01-03T00:17:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/212765\/"},"modified":"2026-01-03T00:17:20","modified_gmt":"2026-01-03T00:17:20","slug":"a-arvore-de-antonio-filipe-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/212765\/","title":{"rendered":"a \u00e1rvore de Ant\u00f3nio Filipe \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Exclusivo assinantes: Ofere\u00e7a artigos aos seus amigos.<\/p>\n<p>Em agosto de 1725, Cust\u00f3dio Gomes Correia escreveu uma carta ao Santo Of\u00edcio: queria ser aceite como agente local da Inquisi\u00e7\u00e3o na zona onde vivia, Pombeiro da Beira \u2014 na altura, um territ\u00f3rio razoavelmente povoado para os padr\u00f5es rurais. Seguiram-se dilig\u00eancias para apurar a sua pureza de sangue (que n\u00e3o era mouro ou crist\u00e3o novo e tamb\u00e9m aferir condutas morais e sociais) e Cust\u00f3dio foi admitido. \u201cBandido\u201d, havia de lhe chamar 300 anos depois o seu s\u00e9timo neto.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Filipe desconhecia este antepassado, bem como os primos a que o av\u00f4 Cust\u00f3dio, nascido em Coimbra e casado com Maria de S\u00e3o Bernardo, o liga. Deste ramo, que vem do lado materno do candidato presidencial, h\u00e1 um visconde e dois pol\u00edticos no ativo, do lado oposto do espectro partid\u00e1rio.<\/p>\n<p>A poucas semanas das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, o Observador tra\u00e7ou a \u00e1rvore geneal\u00f3gica dos principais candidatos para conhecer a hist\u00f3ria familiar de cada um. Atrav\u00e9s de uma parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cient\u00edfica, foi poss\u00edvel recuar v\u00e1rios s\u00e9culos para descortinar a sucess\u00e3o de acasos hist\u00f3ricos e familiares que conduziram ao nascimento de cada um dos candidatos.<\/p>\n<p>No caso de Ant\u00f3nio Filipe, foi poss\u00edvel recuar at\u00e9 ao s\u00e9culo XVII e documentar mais de sessenta ascendentes diretos, sobretudo no norte e centro do pa\u00eds. S\u00f3 nas gera\u00e7\u00f5es mais recentes, a partir dos trisav\u00f3s e bisav\u00f3s do candidato, \u00e9 que os seus antepassados come\u00e7am a aparecer na regi\u00e3o de Lisboa, ou mais perto dela, em Alcanena, onde o candidato se lembra de ter passado f\u00e9rias na casa dos av\u00f3s. Ant\u00f3nio Filipe nasceu em Lisboa em 1963, que foi j\u00e1 a cidade onde os seus pais se casaram.<\/p>\n<p>Os antepassados do comunista s\u00e3o na maioria trabalhadores \u2014 rurais e n\u00e3o s\u00f3. Um dos bisav\u00f3s do candidato, que vivia na Ajuda, foi criado de servir da Casa Real \u2014 mas h\u00e1 propriet\u00e1rios e at\u00e9 um visconde. E tamb\u00e9m h\u00e1 pol\u00edticos. Os antigos l\u00edderes do PSD Pedro Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite s\u00e3o primos em 14.\u00ba grau do candidato apoiado pelo PCP, tamb\u00e9m eles descendentes de Cust\u00f3dio Gomes Correia, o agente da Inquisi\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVII. A revela\u00e7\u00e3o surpreendeu Ant\u00f3nio Filipe.<\/p>\n<p>Quando o Observador lhe apresentou estas descobertas, preferiu logo focar-se noutro primo afastado, Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is. O escritor do s\u00e9culo XX que se opunha ao antigo regime chegou a estar ligado ao PCP e incumbido de ser o elo de liga\u00e7\u00e3o dos comunistas portugueses aos dos EUA, onde viveu exilado. Navegue pela \u00e1rvore geneal\u00f3gica do candidato apoiado pelos comunistas para descobrir as hist\u00f3rias que se escondem por tr\u00e1s de quatro s\u00e9culos de linhagem familiar.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Filipe Gai\u00e3o Rodrigues \u00e9 o nome completo do candidato que na pol\u00edtica teve de deixar o seu nome de fam\u00edlia de parte para n\u00e3o ser confundido com o hom\u00f3nimo social-democrata, Ant\u00f3nio Rodrigues. Tudo come\u00e7ou na faculdade quando, na corrida \u00e0 associa\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica de Direito, j\u00e1 l\u00e1 estava o membro da JSD. Mais tarde, no Parlamento, o mesmo Ant\u00f3nio Rodrigues tamb\u00e9m j\u00e1 l\u00e1 estava como deputado do PSD. Optou por Ant\u00f3nio Filipe como nome de combate para a arena pol\u00edtica.  <\/p>\n<p>\u00c9 um nome com hist\u00f3ria na fam\u00edlia, onde os nomes Ant\u00f3nio e Rodrigues se repetem at\u00e9 ao trisav\u00f4 da parte do pai, Ant\u00f3nio Trindade Rodrigues. O pai do candidato chamava-se Ant\u00f3nio Filipe Rodrigues e o pai deste tamb\u00e9m. O bisav\u00f4 paterno tinha Domingos como primeiro nome \u2014 e Ant\u00f3nio Rodrigues logo de seguida.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi poss\u00edvel recuar al\u00e9m do s\u00e9culo XIX na linha do apelido paterno do candidato. A escassez de registos dispon\u00edveis permitiu apenas chegar ao trisav\u00f4 de Ant\u00f3nio Filipe, Ant\u00f3nio Trindade Rodrigues, que nasceu na freguesia de Samil (em Bragan\u00e7a) e casou com Maria dos Santos Martins. Toda a descend\u00eancia imediata deste Ant\u00f3nio Rodrigues, at\u00e9 ao av\u00f4 paterno de Ant\u00f3nio Filipe, nasceu no distrito de Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Filipe j\u00e1 nasceu em Lisboa, em 1963, mas as suas ra\u00edzes v\u00eam sobretudo do norte do pa\u00eds, com a movimenta\u00e7\u00e3o dos seus antepassados a refletirem o padr\u00e3o de migra\u00e7\u00e3o das zonas rurais para Lisboa nos s\u00e9culos XIX e XX. O seu pai, Ant\u00f3nio Filipe Rodrigues, tamb\u00e9m j\u00e1 nasceu em Lisboa. A m\u00e3e do candidato nasceu no lugar de Filh\u00f3s, na freguesia de Bugalhos (Alcanena).<\/p>\n<p>O pai de Ant\u00f3nio Filipe casou uma primeira vez em 1944 com Isabel Peixoto Lu\u00eds, mas divorciou-se. O div\u00f3rico era legal desde 1910 (m\u00eas imediatamente a seguir \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica). Com a Concordata de 1940, passou a ser proibido, mas apenas para os casamentos cat\u00f3licos \u2014 que eram a esmagadora maioria das uni\u00f5es celebradas em Portugal, n\u00e3o sendo o caso deste em particular.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Filipe Rodrigues tinha casado pelo civil e foi tamb\u00e9m desta forma que, em 1959, voltou a casar, desta vez com Maria da Nazar\u00e9 Gai\u00e3o. Ant\u00f3nio Filipe nasceria quatros anos depois, em Lisboa, onde os pais residiam.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/lei-divorcio-1910.jpg\"\/><\/p>\n<p>Lei do div\u00f3rcio, 1910<\/p>\n<p>O primeiro antepassado conhecido do candidato a nascer em Lisboa foi a sua av\u00f3 paterna, Maria das Dores Ferreira, em 1878. Mas \u00e9 filha de pais com origem noutras regi\u00f5es: S\u00e1t\u00e3o e Abrantes. A sua linha ascendente \u00e9, no entanto, dif\u00edcil de seguir porque a m\u00e3e de Maria das Dores, Aur\u00e9lia da Concei\u00e7\u00e3o, foi uma crian\u00e7a exposta na roda da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia de Abrantes, em 1847, n\u00e3o sendo poss\u00edvel determinar quem eram os seus pais.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/registo-batismo-aurelia-da-conceicao.jpg\"\/><\/p>\n<p>Registo de batismo de Aur\u00e9lia da Concei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Aur\u00e9lia da Concei\u00e7\u00e3o, bisav\u00f3 paterna de Ant\u00f3nio Filipe, foi exposta em Abrantes, mas foi viver para Lisboa e, em 1877, foi a\u00ed que casou com Firmino Marques Ferreira. Viveram na zona da Ajuda e Firmino aparece, nos v\u00e1rios registos, referido como &#8220;criado de servir&#8221; e tamb\u00e9m como &#8220;criado da Casa Real&#8221;.<\/p>\n<p>Os genealogistas consideram que isto sugere que poderia prestar servi\u00e7o no Pal\u00e1cio da Ajuda (a resid\u00eancia oficial da fam\u00edlia real, desde o reinado de D. Lu\u00eds I at\u00e9 ao final da monarquia), j\u00e1 que residia precisamente nessa zona da cidade.<\/p>\n<p>No lado paterno de Ant\u00f3nio Filipe, as atividades profissionais n\u00e3o eram muito diversas. As mulheres dedicavam-se \u00e0s atividades dom\u00e9sticas. J\u00e1 os homens de que h\u00e1 registo eram trabalhadores (normalmente, nesta altura, trabalhadores agr\u00edcolas, \u00e0 jorna). O av\u00f4 paterno de Ant\u00f3nio Filipe, Ant\u00f3nio Filipe Rodrigues, era &#8220;soldado da guarda fiscal&#8221;, a for\u00e7a militarizada que existia para guardar fronteiras terrestres e mar\u00edtimas, ou controlar a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/antonio-filipe-rodrigues-soldado-guarda-fiscal.jpg\"\/><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Filipe Rodrigues, &#8220;soldado da guarda fiscal&#8221;<\/p>\n<p>Do lado materno, o quadro n\u00e3o \u00e9 muito diferente, identificando-se sobretudo &#8220;trabalhadoras dom\u00e9sticas&#8221;, &#8220;criadas&#8221;, &#8220;lavradores&#8221; ou &#8220;trabalhadores&#8221;. H\u00e1, no entanto, dois &#8220;propriet\u00e1rios&#8221; nos antepassados diretos de Ant\u00f3nio Filipe: um trisav\u00f4 e um bisav\u00f4, ambos do lado materno, Manuel Dias e Jos\u00e9 Ant\u00f3nio de Oliveira.<\/p>\n<p>Na hierarquia rural do s\u00e9culo XIX, havia uma distin\u00e7\u00e3o entre o trabalhador\/jornaleiro, que vendia a for\u00e7a do trabalho ao dia, o lavrador, que tinha uma pequena parcela de terra (e tamb\u00e9m a trabalhava), e o propriet\u00e1rio, que tinha terras, empregava pessoas e beneficiava de rendas e produtos (podia trabalhar a terra ou n\u00e3o).<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Oliveira, nascido em Coimbra, era propriet\u00e1rio e vivia em Bugalhos, Alcanena, quando teve uma filha com uma criada de servir.<\/p>\n<p>Perp\u00e9tua de Jesus Dias tinha nascido em Pombal, mas passou \u00e0 freguesia de Bugalhos (Alcanena) e era criada de servir quando iniciou uma liga\u00e7\u00e3o com Jos\u00e9 Ant\u00f3nio de Oliveira, ent\u00e3o casado. Dessa rela\u00e7\u00e3o nasceu, em 1903, uma filha, Filomena de Jesus Oliveira Dias, a av\u00f3 materna do candidato. Os pais de Filomena viriam a casar em 1907, s\u00f3 depois do falecimento da primeira mulher de Jos\u00e9 Ant\u00f3nio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Filomena seria m\u00e3e solteira. A sua filha, Maria da Nazar\u00e9, nasceu em 1929 da liga\u00e7\u00e3o que teve com Gabriel Salgueiro Gai\u00e3o. Gabriel e Filomena viriam a casar apenas em 1948, 19 anos depois do nascimento da filha, na vila de Alcanena. Eram os av\u00f3s maternos de Ant\u00f3nio Filipe.<\/p>\n<p>O apelido Gai\u00e3o \u00e9 referido como &#8220;extremamente invulgar&#8221; pelos genealogistas. Foi poss\u00edvel tra\u00e7\u00e1-lo at\u00e9 ao oitavo av\u00f4 do candidato, Jo\u00e3o Duarte Gai\u00e3o, que nasceu em finais do s\u00e9culo XVII no lugar de Vale do Galego, na freguesia de Colmeias (Leiria).<\/p>\n<p>Era filho de Jo\u00e3o Dias e Lu\u00edsa Jo\u00e3o, nenhum deles com apelido registado, n\u00e3o tendo sido poss\u00edvel determinar se esse nome em concreto \u2014 Gai\u00e3o \u2014 ter\u00e1 tido in\u00edcio em Jo\u00e3o Duarte Gai\u00e3o ou se viria de algum dos seus av\u00f3s ou bisav\u00f3s, o que era frequente na \u00e9poca. O que \u00e9 certo \u00e9 que chegou at\u00e9 ao candidato.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Duarte Gai\u00e3o mudou de distrito, para Santar\u00e9m, para a freguesia de Bugalhos, onde casou, em 1696, com Maria Francisca da Rosa. O casal ficou a morar no lugar de Filh\u00f3s, onde a linha deste apelido se manteve durante cerca de 250 anos at\u00e9 \u00e0 chegada a Lisboa da m\u00e3e do candidato, Maria da Nazar\u00e9 Oliveira Gai\u00e3o. Durante este per\u00edodo, o apelido passou por linha feminina, de bisav\u00f4 para bisneto, entre Manuel Duarte Gai\u00e3o e Manuel Jorge Gai\u00e3o, sexto av\u00f4 e trisav\u00f4 do candidato, respetivamente.<\/p>\n<p>\u00c9 no lado materno do candidato que se encontram as maiores curiosidades desta an\u00e1lise geneal\u00f3gica. Nomeadamente, a partir de dois elementos espec\u00edficos, os s\u00e9timos av\u00f3s de Ant\u00f3nio Filipe: Cust\u00f3dio Gomes Correia, que nasceu em Coimbra em 1679, e Maria de S\u00e3o Bernardo, nascida no ent\u00e3o concelho de Pombeiro da Beira no mesmo ano.<\/p>\n<p>Esta uni\u00e3o vai dar origem a v\u00e1rias ramifica\u00e7\u00f5es que levam a tr\u00eas figuras relevantes com parentesco com o candidato. Para l\u00e1 chegar, comecemos por Cust\u00f3dio Gomes Correia, que era escriv\u00e3o dos \u00f3rf\u00e3os da Vila de Pombeiro, uma figura que fazia parte da administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a c\u00edvel e que era respons\u00e1vel por toda a escrita e registo dos assuntos relativos a menores sob tutela da justi\u00e7a, os \u00f3rf\u00e3os. Na altura, era um of\u00edcio interm\u00e9dio, com prest\u00edgio social.<\/p>\n<p>Num certo momento, Cust\u00f3dio quis tamb\u00e9m servir a Inquisi\u00e7\u00e3o e candidatou-se a familiar do Santo Of\u00edcio do Tribunal Inquisitorial de Coimbra.<\/p>\n<p>Nessa altura, j\u00e1 era casado com Maria de S\u00e3o Bernardo, como \u00e9 poss\u00edvel confirmar no registo da verifica\u00e7\u00e3o de habilita\u00e7\u00f5es para familiar do Santo Of\u00edcio, dispon\u00edvel nos arquivos da Torre do Tombo. O documento tem mais de uma centena de p\u00e1ginas, onde consta o resultado de um inqu\u00e9rito \u00e0 genealogia e \u00e0 conduta c\u00edvica, moral e religiosa de Cust\u00f3dio, j\u00e1 que para ser um agente leigo da Inquisi\u00e7\u00e3o era preciso provar a &#8220;pureza de sangue&#8221; (o que significava n\u00e3o ter nos antepassados crist\u00e3os novos, mouros ou escravos) e a pr\u00e1tica religiosa, situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na carta, consta que Cust\u00f3dio, &#8220;suplicante, deseja muito ser admitido a Familiar do Santo Of\u00edcio do distrito da Inquisi\u00e7\u00e3o de Coimbra&#8221;. O processo teve parecer positivo para agente local da Inquisi\u00e7\u00e3o, uma fun\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio social na altura e cujo exerc\u00edcio passava por receber as den\u00fancias da popula\u00e7\u00e3o, transmiti-las ao Tribunal do Santo Of\u00edcio e tamb\u00e9m executar pris\u00f5es.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/custodio-gomes-carta.jpg\"\/><\/p>\n<p>Registo da verifica\u00e7\u00e3o para admiss\u00e3o a Familiar do Santo Of\u00edcio<\/p>\n<p>Cust\u00f3dio e Maria de S\u00e3o Bernardo foram pais de Josefa Maria Correia, sexta av\u00f4 de Ant\u00f3nio Filipe, que casou com Manuel Rodrigues. A fam\u00edlia manteve-se em Pombeiro da Beira onde, em 1750, nasceu a filha de Josefa e Manuel, Caetana de S\u00e3o Bernardo Correia, que foi batizada com os apelidos dos seus av\u00f3s maternos. As 21 anos casou com Joaquim Jos\u00e9 Lopes de Frias. E aqui come\u00e7a a hist\u00f3ria de uma das liga\u00e7\u00f5es familiares curiosas de Ant\u00f3nio Filipe.<\/p>\n<p>Caetana e Joaquim Jos\u00e9 Lopes Frias casaram em Pombeiro da Beira em 1771 e foram pais de Sinfr\u00f3sia Maria Correia Frias, em 1775, que \u00e9 tetrav\u00f3 do candidato. Cinco anos, depois foram tamb\u00e9m pais de Bernardo Correia de Frias, que nasceu em Penacova.<\/p>\n<p>Se seguirmos este ramo familiar, vemos que Bernardo voltou a Pombeiro da Beira, de onde era origin\u00e1ria a sua fam\u00edlia, e casou com D. Quit\u00e9ria Maria Correia. Desta uni\u00e3o nasceu, tamb\u00e9m em Pombeiro, Ant\u00f3nio Correia de Frias, em 1822. Aos 42 anos, Ant\u00f3nio casou com D. Ana Machado Sanches da Rocha e foram pais daquele que, anos mais tarde, seria o primeiro Visconde de Sanches de Frias.<\/p>\n<p>David Correia de Sanches de Frias vinha de uma fam\u00edlia de estatuto social elevado, como atesta o uso de Dona pela sua m\u00e3e. O t\u00edtulo Visconde de Sanches de Frias foi criado por D. Lu\u00eds I, em 1887, data em que o atribuiu pela primeira vez e por duas gera\u00e7\u00f5es (&#8220;duas vidas&#8221;) a David Correia Sanches de Frias, pelo trabalho em associa\u00e7\u00f5es sociais e culturais, no tempo em que viveu no Brasil, em Bel\u00e9m do Par\u00e1. A sua vida foi dedicada \u00e0s letras: colaborou com jornais e publicou v\u00e1rias obras, desde romances \u00e0 poesia, sendo a mais conhecida Pombeiro da Beira \u2013 mem\u00f3ria hist\u00f3rica, descritiva e cr\u00edtica.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/visconde-de-sanches-de-frias.jpg\"\/><\/p>\n<p>Visconde de Sanches de Frias<\/p>\n<p>Joaquim e Caetana s\u00e3o quintos av\u00f3s de Ant\u00f3nio Filipe e bisav\u00f3s, por varonia, do primeiro Visconde de Sanches de Frias. Os dois s\u00e3o primos em sexto grau.<\/p>\n<p>Se recuarmos na ascend\u00eancia Correia, comum ao candidato e ao Visconde, \u00e9 poss\u00edvel verificar ainda a exist\u00eancia de um parentesco com duas figuras muito relevantes no PSD. O comunista Ant\u00f3nio Filipe tem liga\u00e7\u00e3o familiar a dois antigos presidentes do partido de que \u00e9 rival na arena pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para chegarmos a esses dois elementos, temos de recuar novamente a Cust\u00f3dio Gomes Correia (o agente local da Inquisi\u00e7\u00e3o, lembra-se?) e \u00e0 sua mulher, Maria de S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p>Dez anos antes de terem sido pais de Josefa Maria, de onde saiu o ramo que vai dar a Ant\u00f3nio Filipe \u2014 e, por outra via, tamb\u00e9m ao Visconde de Ribeiro de Frias \u2014, j\u00e1 tinham sido pais de Ant\u00f3nio. \u00c9 desta linha que surgem, mais de 250 anos depois, os dois social-democratas a que j\u00e1 vamos chegar.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia mant\u00e9m-se em Pombeiro da Beira e \u00e9 l\u00e1 que Ant\u00f3nio casa com Maria Lopes dos Santos. Desta uni\u00e3o nasce Maria Correia, que casa com Ant\u00f3nio Brand\u00e3o. O casal tem, em 1761, D. \u00c1urea Maria de S\u00e3o Bernardo Correia (vai buscar os apelidos \u00e0 bisav\u00f3 materna). \u00c9 tamb\u00e9m em Pombeiro que \u00c1urea casa com Manuel Gomes da Silva.<\/p>\n<p>\u00c9 esta uni\u00e3o, em 1777, que vai conduzir-nos at\u00e9 Pedro Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite. E que vai ligar os dois a Ant\u00f3nio Filipe.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/manuela-ferreira-leite-e-pedro-santana-lopes.jpg\"\/><\/p>\n<p>Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes<\/p>\n<p>\u00c1urea e Manuel foram pais de D. Margarida e de D. Pulqu\u00e9ria. A primeira \u00e9 tetrav\u00f3 de Santana e a segunda \u00e9 tetrav\u00f3 de Ferreira Leite. O ramo que leva a Santana passa a usar o apelido Silva, que s\u00f3 \u00e9 substitu\u00eddo por Lopes em 1900, ano em que nasce o av\u00f4 paterno de Santana, Lu\u00eds Ab\u00edlio Lopes.<\/p>\n<p>J\u00e1 o ramo que conduz a Manuela Ferreira Leite tem um percurso mais acidentado, com alguns filhos de pais inc\u00f3gnitos (caso de D. Bernarda Pereira de Vasconcelos ou de Jos\u00e9 Eug\u00e9nio Dias Ferreira).<\/p>\n<p>Os apelidos Dias Ferreira entram neste ramo pelo casamento de uma neta de Manuel e D. \u00c1urea, D. Bernarda, com Ant\u00f3nio Ferreira Dias. Os dois foram pais do Conselheiro Dias Ferreira, o \u00faltimo antepassado de Manuela Ferreira Leite a nascer na freguesia de Pombeiro, em 1834. Este ramo passa, depois, para Lisboa.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Filipe \u00e9 do ramo dos Correia, que seguiu de Sinfr\u00f3sia Maria Correia de Frias, irm\u00e3 do av\u00f4 do Visconde de Frias.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de um parentesco entre os dois ex-l\u00edderes do PSD j\u00e1 era conhecida e foi at\u00e9 explorada na altura em que ambos concorreram \u00e0 lideran\u00e7a do partido, em 2008. O que n\u00e3o se conhecia era a liga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aos Correia de Frias, de onde vem Ant\u00f3nio Filipe e tamb\u00e9m o Visconde de Sanches de Frias.<\/p>\n<p>Se regressarmos ao casal Caetano e Maria de S\u00e3o Bernardo, percebemos que s\u00e3o quartos av\u00f3s do Visconde, s\u00e9timos av\u00f3s de Ant\u00f3nio Filipe e oitavos av\u00f3s de Pedro Santana Lopes e de Manuela Ferreira Leite. Isto faz do comunista e dos dois sociais-democratas primos em 14.\u00ba grau.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos antepassados comuns a Ant\u00f3nio Filipe e Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is s\u00e3o Domingos Dias e Francisca Fernandes, que tamb\u00e9m viveram em Pombeiro da Beira, no lugar de Sail, em meados do s\u00e9culo XVII. S\u00e3o os nonos av\u00f3s de Ant\u00f3nio Filipe e sextos av\u00f3s de Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is.<\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o a Ant\u00f3nio Filipe faz-se pela filha deste casal, Maria Fernandes, que casou em 1691 em S\u00e3o Martinho da Corti\u00e7a, com Baltazar Rodrigues. Esta linha ficou por Sail at\u00e9 que um neto destes \u00faltimos, Manuel Rodrigues, casou com Josefa Maria Correia \u2014 os pais de Caetana e Joaquim de Frias, que levam ao tronco Correia de Frias.<\/p>\n<p>J\u00e1 a liga\u00e7\u00e3o a Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is vem de Domingos Dias, dito o Novo, outro filho de Domingos Dias e de Francisca Fernandes. Tal como o pai, tamb\u00e9m Domingos casa com uma Francisca (da Cunha) em S\u00e3o Martinho da Corti\u00e7a, em 1695. S\u00e3o pais de Lu\u00edsa da Cunha, que casou com um membro da fam\u00edlia Brand\u00e3o, Cust\u00f3dio Rodrigues Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>A descend\u00eancia desta linha permaneceu em Sail at\u00e9 Ant\u00f3nio Rodrigues, que a\u00ed tinha nascido em 1821, ter passado \u00e0 vila de G\u00f3is. Adotou, no entanto, como apelido o nome da sua terra \u2014 Sail \u2014 dando origem \u00e0 \u00fanica fam\u00edlia portuguesa, segundo os genealogistas, com este raro apelido. Um dos seus filhos, por exemplo, chamou-se Cipi\u00e3o Rodrigues Sail e foi vereador da C\u00e2mara Municipal de G\u00f3is.<\/p>\n<p>Outros filhos de Ant\u00f3nio Rodrigues Sail ficaram com o apelido Rodrigues, como foi o caso de D. Maria Adelaide Rodrigues, que casou com o galego Manuel Maria Migu\u00e9is Pombo, em 1897, na S\u00e9 de Lisboa. Foi desta uni\u00e3o que nasceu Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is.<\/p>\n<p>O escritor \u00e9 visto como um grande prosador do s\u00e9culo XX, tendo publicado, sobretudo, contos e prosas. Mas foi tamb\u00e9m um republicano e combatente do antigo regime, sendo uma voz de esquerda que acabou por se exilar nos EUA devido ao ambiente pol\u00edtico no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nessa altura, chegou a colaborar com o PCP. Um <a href=\"https:\/\/arquivos.rtp.pt\/conteudos\/jose-rodrigues-migueis-um-homem-do-povo-na-historia-da-republica\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">document\u00e1rio da RTP sobre o escritor<\/a> revela mesmo uma carta enviada pelo dirigente comunista J\u00falio Foga\u00e7a a pedir a Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is que fosse &#8220;o referente &#8221; do PCP &#8220;junto do Partido americano&#8221; \u2014 o escritor acabou, mais tarde, por se desiludir com os partidos no geral.<\/p>\n<p>\u00c9 primo em 14.\u00ba grau de Ant\u00f3nio Filipe.<\/p>\n<p>  <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/jose-rodrigues-migueis.jpg\"\/><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is<\/p>\n<p>A \u00e1rvore geneal\u00f3gica de Ant\u00f3nio Filipe tra\u00e7ada pela Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Genealogia mostra exatamente 62 ascendentes do comunista que se candidata \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Nesta lista, h\u00e1 uma bisav\u00f3 deixada na roda dos expostos em Abrantes, h\u00e1 a comum migra\u00e7\u00e3o das zonas rurais para Lisboa, dos s\u00e9culos XIX e XX, e h\u00e1 alguma atividade pol\u00edtica. Nas liga\u00e7\u00f5es familiares de Ant\u00f3nio Filipe h\u00e1 um Visconde, mas tamb\u00e9m dois antigos l\u00edderes do PSD, Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes, e ainda um escritor que chegou a colaborar com o PCP na primeira metade do s\u00e9culo XX, Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Exclusivo assinantes: Ofere\u00e7a artigos aos seus amigos. 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