{"id":214271,"date":"2026-01-04T07:56:07","date_gmt":"2026-01-04T07:56:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/214271\/"},"modified":"2026-01-04T07:56:07","modified_gmt":"2026-01-04T07:56:07","slug":"filmes-expoem-a-grandeza-e-as-crueldades-do-jornalismo-03-01-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/214271\/","title":{"rendered":"Filmes exp\u00f5em a grandeza e as crueldades do jornalismo &#8211; 03\/01\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/mauriciostycer\/2025\/12\/quatro-documentarios-da-netflix-mostram-que-o-jornalismo-esta-vivissimo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Dois document\u00e1rios lan\u00e7ados<\/a> na Netflix jogam luz sobre o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/jornalismo\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">jornalismo<\/a> realizado na Guerra do Vietn\u00e3. Mais do que revisitar um conflito hist\u00f3rico, interrogam limites, erros, hierarquias e custos humanos da profiss\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/12\/documentario-com-reporter-que-revelou-massacre-o-que-ver-sexta-na-tv-e-streaming.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Em &#8220;Cover Up&#8221;<\/a>, ou &#8220;Seymour Hersh: Em Busca da Verdade&#8221;, e &#8220;The Stringer&#8221;, ou &#8220;O Freelancer: O Homem <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/12\/filmes-e-documentarios-sobre-fotografia-para-assistir-no-streaming.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">por Tr\u00e1s da Foto&#8221;<\/a>, o Vietn\u00e3 aparece como ponto de origem simb\u00f3lico de um jornalismo que passou a confrontar diretamente o poder estatal, mas com dilemas \u2014autoria, verdade, instinto, sil\u00eancio e corre\u00e7\u00e3o tardia\u2014 que continuam a ecoar.<\/p>\n<p>&#8220;Em Busca da Verdade&#8221; \u00e9 o mais ambicioso, complexo e bem resolvido. Dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus, acompanha 60 anos da trajet\u00f3ria de Seymour Hersh, talvez o mais inc\u00f4modo rep\u00f3rter investigativo da hist\u00f3ria recente dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Foi ele quem revelou, em 1969, o massacre de My Lai, quando soldados americanos assassinaram centenas de civis vietnamitas, incluindo mulheres, crian\u00e7as e beb\u00eas. D\u00e9cadas depois, exp\u00f4s a tortura sistem\u00e1tica praticada por militares americanos na pris\u00e3o de Abu Ghraib, no Iraque. Entre os epis\u00f3dios, teve uma carreira marcada por obstina\u00e7\u00e3o, uso extensivo de fontes an\u00f4nimas, conflitos com editores e uma rela\u00e7\u00e3o hostil constante com o poder.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito do filme \u00e9 mostrar o jornalismo como pr\u00e1tica de conflito, n\u00e3o como epopeia moral. Como of\u00edcio imperfeito e profundamente humano. Hersh surge como um rep\u00f3rter movido menos por certezas do que por instinto \u2014algu\u00e9m que erra, admite e segue. O filme n\u00e3o tenta blindar o personagem. Pelo contr\u00e1rio \u2014inclui suas controv\u00e9rsias, leituras equivocadas sobre a guerra na S\u00edria e o regime de Bashar al-Assad, sem fazer delas nota de rodap\u00e9.<\/p>\n<p>O jornalismo surge como exerc\u00edcio cont\u00ednuo de risco, corre\u00e7\u00e3o e responsabilidade p\u00fablica, n\u00e3o um terreno de verdades absolutas.<\/p>\n<p>Poitras acerta ao p\u00f4r o m\u00e9todo \u2014ou pelo menos o da \u00e9poca\u2014 no centro da narrativa. Blocos de notas amarelos empilhados, mesas de trabalho ca\u00f3ticas, telefonemas tensos, fontes protegidas a qualquer custo, paranoia com vazamentos, discuss\u00f5es com editores do New York Times e ataques diretos da Casa Branca \u2014tudo isso constr\u00f3i a ideia de que reportar \u00e9 um trabalho f\u00edsico, mental e \u00e9tico, marcado por desgaste e solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Hersh afirma, j\u00e1 idoso, que aquilo est\u00e1 &#8220;cada vez menos divertido&#8221;, n\u00e3o soa como cinismo, mas pura exaust\u00e3o de quem passou a vida enfrentando v\u00e1rias estruturas poderosas de nega\u00e7\u00e3o, oculta\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Soa, ainda, infelizmente, como um aspecto da realidade atual.<\/p>\n<p>J\u00e1 &#8220;O Freelancer&#8221; entra como contraponto inc\u00f4modo e necess\u00e1rio. O <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/documentario\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">document\u00e1rio<\/a> questiona a autoria de uma das imagens mais famosas de todo o s\u00e9culo 20, a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2022\/06\/nao-somos-simbolos-somos-seres-humanos-diz-ativista-eternizada-em-foto-da-guerra-do-vietna.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">fotografia conhecida como &#8220;Garota do Napalm<\/a>&#8220;, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/demetriomagnoli\/2022\/06\/a-foto-da-guerra.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">s\u00edmbolo do horror da Guerra<\/a> do Vietn\u00e3 e da virada da opini\u00e3o p\u00fablica internacional contra o conflito.<\/p>\n<p>Durante mais de 50 anos, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/01\/fotografia-da-garota-do-napalm-pode-ter-sido-atribuida-ao-autor-errado.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">o clique foi atribu\u00eddo a Nick Ut<\/a>, f<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2015\/06\/1640222-autor-de-foto-historica-da-guerra-retrata-vietna-com-smartphone.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">ot\u00f3grafo da Associated Press<\/a> e vencedor do Pulitzer. O filme sustenta que o autor real teria sido Nguyen Thanh Nghe, um freelancer vietnamita cuja autoria <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2025\/05\/world-press-photo-poe-em-duvida-autoria-de-iconica-foto-da-guerra-do-vietna.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">teria sido vergonhosamente apagad<\/a>a no processo editorial da ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Mais do que resolver quem apertou o disparador, o filme exp\u00f5e uma camada menos discutida do jornalismo \u2014suas hierarquias internas, assimetrias coloniais e mecanismos de apagamento.<\/p>\n<p>Seu tema \u00e9 extremamente atual. Em muitos casos, esses profissionais, contratados \u00e0s pressas em regi\u00f5es remotas ou onde n\u00e3o h\u00e1 praticamente jornalistas locais, sofrem decep\u00e7\u00f5es \u2014v\u00e3o \u00e0 linha de frente, n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos, seu pagamento \u00e9 irris\u00f3rio e s\u00f3 s\u00e3o acionados de vez em quando. \u00c9 um trabalho quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Freelancers locais, especialmente em contextos de guerra, raramente controlam cr\u00e9dito, circula\u00e7\u00e3o ou mem\u00f3ria hist\u00f3rica. O filme mostra que Nghe perdeu n\u00e3o apenas o reconhecimento, mas a pr\u00f3pria possibilidade de existir como autor dentro da hist\u00f3ria do fotojornalismo e receber centenas de pr\u00eamios. A verdade da imagem permaneceu intacta; a justi\u00e7a que ele merecia, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de &#8220;Em Busca da Verdade&#8221;, aqui n\u00e3o h\u00e1 erro assumido em tempo h\u00e1bil nem corre\u00e7\u00e3o plena poss\u00edvel. H\u00e1 uma culpa tardia, sil\u00eancio prolongado e uma tentativa de repara\u00e7\u00e3o que chega quando muitos dos envolvidos j\u00e1 morreram e Nghe esta numa carreira de rodas depois de sofrer um infarto, enfraquecido, desgastado pelos anos de injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>O jornalismo mostra sua face cruel, de eterna competi\u00e7\u00e3o, onde predominam o medo, a conveni\u00eancia ou a l\u00f3gica corporativa.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo entre os dois filmes \u00e9 o que d\u00e1 a eles for\u00e7a conjunta. Em um, o jornalista enfrenta o Estado, erra, corrige e insiste. No outro, o erro est\u00e1 na pr\u00f3pria engrenagem jornal\u00edstica, que consagra um nome e apaga outro. Ambos mostram que a verdade n\u00e3o circula em linha reta \u2014ela \u00e9 mediada por interesses, hierarquias, instintos e escolhas editoriais.<\/p>\n<p>Ao escalar o Vietn\u00e3 como origem simb\u00f3lica, a da investiga\u00e7\u00e3o moderna e da imagem que abalou consci\u00eancias, os document\u00e1rios sugerem que o jornalismo contempor\u00e2neo nasceu desse choque frontal com a viol\u00eancia e o poder. Mas tamb\u00e9m lembram que, sem disposi\u00e7\u00e3o para se examinar, admitir falhas e revisitar seus pr\u00f3prios arquivos, a profiss\u00e3o corre o risco de repetir os mesmos padr\u00f5es que diz combater.<\/p>\n<p>No fim, &#8220;Em Busca da Verdade&#8221; e &#8220;O Freelancer&#8221; n\u00e3o oferecem conforto \u2014ao contr\u00e1rio, demonstram a sordidez e a crueldade de sua pr\u00f3pria l\u00f3gica interna. Por outro lado, a relev\u00e2ncia das obras \u00e9 estimular que o jornalismo s\u00f3 mant\u00e9m sua import\u00e2ncia quando aceita ser permanentemente questionado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Dois document\u00e1rios lan\u00e7ados na Netflix jogam luz sobre o jornalismo realizado na Guerra do Vietn\u00e3. 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