{"id":215834,"date":"2026-01-05T12:32:12","date_gmt":"2026-01-05T12:32:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/215834\/"},"modified":"2026-01-05T12:32:12","modified_gmt":"2026-01-05T12:32:12","slug":"arquivar-a-vida-na-era-do-colapso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/215834\/","title":{"rendered":"Arquivar a vida na era do colapso"},"content":{"rendered":"<p>Na mesma semana em que chefes de Estado, ativistas e pesquisadores se reuniam em Bel\u00e9m para mais uma confer\u00eancia do clima, em busca de solu\u00e7\u00f5es para garantir que ainda haja Terra habit\u00e1vel no futuro, um grupo de cientistas e artistas se trancava numa sala em Paris para desenhar um disco de safira a ser enviado \u00e0 Lua com imagens, conceitos e hist\u00f3rias da vida no planeta a serem gravadas num arquivo lunar de milh\u00f5es de anos. \u00c9 dif\u00edcil pensar numa coincid\u00eancia mais sintom\u00e1tica do colapso que nos assombra em nosso atual momento geol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Passei a segunda semana de novembro em Paris, naquela sala de reuni\u00f5es do Bellechasse \u2013\u00a0 um prestigioso espa\u00e7o hist\u00f3rico pertencente \u00e0 Acad\u00e9mie d\u2019Agriculture de France \u2013, rodeado de livros, computadores e projetores. As not\u00edcias vindas da capital paraense falavam de invas\u00f5es da \u201czona azul\u201d por ind\u00edgenas e acordos fracassados\u00a0 sobre a descontinua\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Enquanto isso, na mesa \u00e0 minha frente, bi\u00f3logos discutiam a melhor forma de representar a \u00e1rvore da vida em preto e branco, numa \u00e1rea do tamanho de tr\u00eas fios de cabelo.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse descompasso de escalas \u2013 de pol\u00edticas clim\u00e1ticas pensadas para d\u00e9cadas versus um projeto lunar concebido para milh\u00f5es de anos \u2013 que entra o projeto Sanctuary on the Moon. Trata-se de uma iniciativa cient\u00edfico-art\u00edstica internacional, patrocinado pelo presidente franc\u00eas Emmanuel Macron, com apoio da Nasa e da Unesco, que pretende depositar na Lua um arquivo anal\u00f3gico composto por 24 discos de safira, cada um dedicado a um grande eixo do conhecimento, tais como tempo, vida, \u00e1gua, mat\u00e9ria e sociedade.<\/p>\n<p>Os discos s\u00e3o gravados tanto em escalas microsc\u00f3picas quanto macrosc\u00f3picas, convertendo fotografias e diagramas em aproximadamente 3,5 e 7 bilh\u00f5es de p\u00edxeis por disco. Eles medem cerca de 10 cm de di\u00e2metro, pesam 31 gramas\u00a0 e carregam narrativas inteiras em matrizes preto e branco. O conte\u00fado \u00e9 amplo: \u00e1rvores filogen\u00e9ticas, ciclos biogeoqu\u00edmicos, gr\u00e1ficos, mapas, express\u00f5es matem\u00e1ticas, fotografias, esquemas cosmol\u00f3gicos, diagramas. Tudo miniaturizado, compondo desde imagens vis\u00edveis a olho nu at\u00e9 diagramas do tamanho de gr\u00e3os de poeira, a ponto de sugerir \u2013 embora n\u00e3o demandar \u2013 o uso de um microsc\u00f3pio para que a leitura seja qualificada. O formato consiste\u00a0 menos em uma mensagem digital e mais de uma biblioteca anal\u00f3gica a ser enterrada na Lua, distante de algoritmos, inc\u00eandios e obsolesc\u00eancia programada que nos afligem.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o \u00e9 que os discos sejam depositados entre 2028 e 2029, como parte do programa Artemis, nova etapa da explora\u00e7\u00e3o lunar inaugurada pela Nasa que prev\u00ea o retorno de astronautas \u00e0 superf\u00edcie a partir da segunda metade desta d\u00e9cada. Diferentemente do programa Apollo, que entre 1969 e 1972 realizou pousos r\u00e1pidos e epis\u00f3dicos, o Artemis foi concebido para instalar uma habitabilidade humana na Lua, em coopera\u00e7\u00e3o com outras ag\u00eancias espaciais e empresas privadas, incluindo o primeiro pouso no Polo Sul da Lua e a ida da primeira mulher e da primeira pessoa negra a pisar no solo lunar.<\/p>\n<p>No topo da c\u00e1psula de armazenamento dos 24 discos ficar\u00e1 gravado um \u201ccalend\u00e1rio universal\u201d baseado na posi\u00e7\u00e3o dos planetas no dia de seu lan\u00e7amento. Um tipo de carimbo astron\u00f4mico dizendo: \u201c\u00c9 daqui que estas imagens vieram; foi neste momento do sistema solar que a Terra se arquivou.\u201d \u00c9 uma arca sem a promessa da salva\u00e7\u00e3o. Um arquivo sem leitor garantido. Um gesto de patrimonializa\u00e7\u00e3o para um futuro desconhecido.<\/p>\n<p>Fui convidado pelo engenheiro Beno\u00eet Faiveley e pelo astrof\u00edsico S\u00e9bastien Carassou \u2013 respectivamente, o idealizador e o coordenador cient\u00edfico do Sanctuary on the Moon \u2013 para me integrar ao grupo de pesquisadores de um dos workshops do projeto, dedicado ao disco Life. Enquanto antrop\u00f3logo brasileiro, eu comporia, por cinco dias, o grupo respons\u00e1vel pelo eixo \u201cLife and Society\u201d ao lado da cientista ambiental indiana Krithi K. Karanth, da primat\u00f3loga canadense Ammie K. Kalan e do designer gr\u00e1fico franc\u00eas Guillaume Monnain.<\/p>\n<p>Assim que me juntei a eles, pensei em Bel\u00e9m. O encontro da COP e o workshop do disco Life pertenciam a universos opostos, separados por oceanos e escalas de tempo. Mas, talvez por isso mesmo, pareciam conversar entre si. Em ambos havia essa sensa\u00e7\u00e3o difusa de que estamos vivendo depois do depois \u2013 e que atualmente qualquer gesto, seja diplom\u00e1tico, ambiental ou lunar, nasce sob a sombra do colapso.<\/p>\n<p>Nos anos 1970, no auge do otimismo tecnocient\u00edfico modernista, essa sombra n\u00e3o existia. A Nasa ainda respirava o otimismo da corrida espacial quando lan\u00e7ou dois dos mais emblem\u00e1ticos experimentos de \u201cdiplomacia c\u00f3smica\u201d: a Placa Pioneer e os Discos de Ouro das Voyager. Ambos foram concebidos sob influ\u00eancia direta do astr\u00f4nomo e divulgador cient\u00edfico Carl Sagan (1934\u201396), que coordenou as equipes respons\u00e1veis por imaginar como apresentar a Terra a poss\u00edveis intelig\u00eancias extraterrestres.<\/p>\n<p>A Placa Pioneer, enviada em 1972 e 1973, condensava em um \u00fanico painel met\u00e1lico diagramas que buscavam ser universalmente leg\u00edveis: a posi\u00e7\u00e3o do Sol na gal\u00e1xia, o \u00e1tomo de hidrog\u00eanio, um homem e uma mulher. Poucos anos depois, em 1977, Sagan liderou o comit\u00ea que elaborou os Golden Records das Voyager, algo como uma antologia da humanidade gravada em cobre dourado: sauda\u00e7\u00f5es em 55 l\u00ednguas, m\u00fasicas de diversas tradi\u00e7\u00f5es, sons do planeta, imagens cient\u00edficas e cenas cotidianas. Se esses objetos cristalizavam a ideia de que bastava encontrar uma linguagem universal para \u201cfalar ao cosmos\u201d, eles tamb\u00e9m revelam um momento hist\u00f3rico em que ainda parecia poss\u00edvel representar a Terra de modo un\u00edvoco.<\/p>\n<p>A \u00e9poca pedia coragem e permitia um tipo de ingenuidade tecnout\u00f3pica: condensar a humanidade em f\u00f3rmulas matem\u00e1ticas, trechos de m\u00fasica, desenhos, mapas estelares\u2026 e despach\u00e1-los para o vazio como quem envia uma garrafa ao mar. A cosmologia de ent\u00e3o expressava um narcisismo tecnol\u00f3gico: se houvesse vida inteligente em algum lugar, ela seria como a nossa, ainda que, provavelmente, superior. Ela reconheceria pelo menos a matem\u00e1tica, alguns princ\u00edpios b\u00e1sicos de f\u00edsica, talvez certos padr\u00f5es visuais. Bastaria uma linguagem universal, clara e organizada. Bastaria \u201cfalar ao cosmos\u201d, dizer quem somos, onde estamos, o que sabemos.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o moldou mais do que um experimento cient\u00edfico. Criou um g\u00eanero inteiro: o das mensagens da humanidade para o espa\u00e7o. Uma diplomacia c\u00f3smica que se pretendia universal e que fabricava um \u201cn\u00f3s\u201d no pr\u00f3prio gesto de enviar a mensagem.<\/p>\n<p>Mas o cosmos, de hoje, \u00e9 outro. As \u00faltimas d\u00e9cadas dissolveram a ideia moderna de que a Terra fosse um lugar est\u00e1vel. Inc\u00eandios, derretimentos, pandemias e \u201cpontos de n\u00e3o retorno\u201d tornaram-se rotina. Nesse clima, a fronteira entre futuro e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ficou ainda mais porosa. Surgiram ent\u00e3o propostas para preservar a vida terrestre fora da Terra: a Lua transformada em arca, em reposit\u00f3rio criog\u00eanico de sementes, esporos, tecidos, mol\u00e9culas; fragmentos congelados, guardados a -180 \u00b0C para algum futuro improv\u00e1vel. Essas iniciativas partiam de uma premissa clara: a Terra n\u00e3o \u00e9 mais de confian\u00e7a. Inst\u00e1vel, imprevis\u00edvel, talvez incapaz de proteger aquilo que ela mesma produz. A lua passaria, ent\u00e3o, a figurar como dep\u00f3sito seguro: uma fantasia tecnocient\u00edfica de ressurrei\u00e7\u00e3o vegetal e zool\u00f3gica para um planeta devastado.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse intervalo, entre a diplomacia c\u00f3smica do passado e as arcas tecnol\u00f3gicas do presente, que se instala o Sanctuary on the Moon. Mas como uma proposta que n\u00e3o se limita a reproduzir nenhuma das duas tradi\u00e7\u00f5es anteriores. Em vez de enviar uma mensagem ou congelar bancos biol\u00f3gicos, dedica-se a algo diferente: arquivar. N\u00e3o arquivar para restaurar algo, nem para comunicar uma ess\u00eancia reconhec\u00edvel por intelig\u00eancias distantes. Arquivar por acreditar que preservar a multiplicidade da Terra ainda pode produzir algum futuro, mesmo que nunca haja o tal arque\u00f3logo do futuro.<\/p>\n<p>Durante o workshop, essa mudan\u00e7a de paradigma se tornava vis\u00edvel nos pr\u00f3prios m\u00e9todos de trabalho. N\u00e3o havia obsess\u00e3o por s\u00ednteses. As discuss\u00f5es se espalhavam: disbiose ou simbiose? Preda\u00e7\u00e3o ou reciprocidade? O que \u00e9 uma floresta? O que \u00e9 uma sociedade? Qual imagem pode sustentar uma forma de vida sem reduzi-la? O processo importava tanto quanto o conte\u00fado: os gestos, os rascunhos, as hesita\u00e7\u00f5es, as categorias que falhavam.<\/p>\n<p>Quando me sentei \u00e0 mesa do subgrupo Life and Society, percebi que a verdadeira tarefa n\u00e3o era escolher imagens, mas ficcionalizar como a Terra pensa a si mesma quando sabe que est\u00e1 sendo arquivada. Era como se o disco exigisse uma nova honestidade: nem heroica, como os antigos discos de ouro, nem salvacionista como os imagin\u00e1rios que reproduzem as arcas de No\u00e9 contempor\u00e2neas, mas uma forma de cuidado que reconhece que o planeta sempre foi mais do que qualquer narrativa sobre ele.<\/p>\n<p>Por isso, o projeto Sanctuary n\u00e3o se contenta em traduzir a Terra, mas ambiciona transduzir suas heterogeneidades, suas zonas de atrito, seus contrastes, suas ontologias d\u00edspares. Enquanto a tradu\u00e7\u00e3o sup\u00f5e a passagem de um mesmo conte\u00fado est\u00e1vel entre c\u00f3digos j\u00e1 dados (por exemplo, de uma l\u00edngua a outra), a transdu\u00e7\u00e3o, em sentido empregado pelo fil\u00f3sofo franc\u00eas Gilbert Simondon, \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que acompanha a pr\u00f3pria g\u00eanese dos objetos e dos problemas, transformando ao mesmo tempo forma e mat\u00e9ria. Colocada nestes termos, a inscri\u00e7\u00e3o dos discos do Sanctuary n\u00e3o apenas converte mensagens humanas para outro suporte, mas faz com que elas se re-individuem na safira e no ambiente lunar, como parte de um processo aberto de produ\u00e7\u00e3o de vida mais-que-terrestre.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a Lua nunca devolva esse arquivo. Que ningu\u00e9m o encontre. Que ele se torne apenas mais um f\u00f3ssil entre tantos. Penso que parte da for\u00e7a desse gesto est\u00e1 justamente a\u00ed: nem esperan\u00e7a nem desespero, mas de testemunho lan\u00e7ado ao escuro. Estamos tentando lembrar como viv\u00edamos, antes que deixemos de saber. E, de algum modo, isso parece mais adequado ao nosso tempo do que qualquer mensagem dourada enviada \u00e0s pressas durante a Guerra Fria. Porque agora, pela primeira vez, n\u00e3o estamos mais tentando dizer quem somos.<\/p>\n<p>Como antrop\u00f3logo que sou, em vez de tratar o projeto Sanctuary como um objeto acabado a ser etnografado, decidi acompanh\u00e1-lo de modo propriamente transdutivo: compondo seus gestos, discutindo de dentro seus conceitos e delineando, \u00e0 companhia de meus anfitri\u00f5es, os padr\u00f5es que emergiam desse exerc\u00edcio improv\u00e1vel de arquivar a Terra na Lua.<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-462898 size-full\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image15.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1281\"  \/><\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n\t\t\t\t\t\tPesquisadores reunidos no projeto Sanctuary Moon\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Foto: Phillippe Servent&#13;\n\t\t\t\t\t<\/p>\n<p>Meu primeiro interesse ao integrar a equipe de pesquisadores do projeto Sanctuary foi a dimens\u00e3o material do arquivo. Nada ali \u00e9 metaf\u00f3rico: safira, alum\u00ednio, v\u00e1cuo lunar e acelera\u00e7\u00f5es de foguete foram parte da conversa. Os engenheiros nos mostraram prot\u00f3tipos de discos e suportes. Explicaram que todo o sistema, com seus discos, c\u00e1psula, estrutura que vai presa na nave, precisa ser \u201cspace-qualified\u201d. Em termos menos glamourosos, isso significa: sobreviver a vibra\u00e7\u00f5es violentas, varia\u00e7\u00f5es brutais de temperatura, choques mec\u00e2nicos e d\u00e9cadas, talvez milh\u00f5es de anos, exposto a radia\u00e7\u00e3o no solo lunar. Antes de ganhar o direito de sair da Terra, cada pe\u00e7a passa por simula\u00e7\u00f5es por computador, os tais modelos de Finite Element Modeling (FEM), e depois por sess\u00f5es intensas de teste f\u00edsico, que eles descrevem com certa alegria como \u201ctorture testing\u201d. Se as microcamadas gravadas na safira racharem, tudo volta \u00e0 prancheta.<\/p>\n<p>Mas o gesto t\u00e9cnico n\u00e3o termina no laborat\u00f3rio. Ele se reapresenta quando algu\u00e9m projeta, no tel\u00e3o ou em tela touchscreen de um tablet, o que acontece quando uma fotografia colorida \u00e9 reduzida a pixels de 1,4 micr\u00f4metro, em apenas duas cores: preto e branco. Uma paisagem, vista ao microsc\u00f3pio, vira uma trama de pontos. Um quadro da hist\u00f3ria da arte se dissolve em textura granulada. Uma c\u00e9lula, um organismo e at\u00e9 mesmo uma teia de rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas precisam caber naquela escala microsc\u00f3pica, mas ainda assim serem leg\u00edveis para algum leitor futuro \u2013 humano ou n\u00e3o. A cada nova proposta de imagem, e gr\u00e1ficos, os cientistas se perguntam: \u201cIsso ainda funciona em preto e branco?\u201d; \u201cD\u00e1 para entender sem legenda?\u201d; \u201cE se ningu\u00e9m souber o que \u00e9 DNA?\u201d<\/p>\n<p>Talvez essa seja a voca\u00e7\u00e3o cosmopol\u00edtica do projeto Sanctuary: em vez de afirmar, hesitar e desacelerar diante das certezas modernas sobre o que \u00e9 \u201co mundo\u201d e quem pode falar em nome dele. N\u00e3o se converter em um \u201cn\u00f3s\u201d falando para o cosmos, nem numa arca fugindo da cat\u00e1strofe. Mas sim um objeto silencioso que tenta registrar aquilo que estamos prestes a perder: a pluralidade biot\u00e9cnica frente a uma era das homogeneiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Percebo, ent\u00e3o, que cada escolha \u201ccuratorial\u201d \u00e9 tamb\u00e9m uma decis\u00e3o cosmopol\u00edtica, no sentido que a fil\u00f3sofa belga Isabelle Stengers d\u00e1 ao termo: n\u00e3o apenas uma quest\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o, mas de quem e do que \u00e9 autorizado a compor um mundo em comum. Ao decidir incluir uma \u00e1rvore da vida, um ciclo do carbono, uma cena de manejo do fogo, n\u00e3o estamos s\u00f3 selecionando temas ilustrativos; estamos tomando partido sobre quais rela\u00e7\u00f5es entre humanos, outros seres vivos, t\u00e9cnicas e ambientes devem ter o direito de existir e integrar esse arquivo lunar. Em outras palavras, perguntamo-nos como essas imagens poder\u00e3o um dia ser reconhecidas, reconstru\u00eddas ou at\u00e9 mal-entendidas em outro tempo, em outro mundo, por olhos \u2013 ou sensores \u2013 que talvez n\u00e3o sejam os nossos, e ainda assim sejam chamados a negociar conosco o que conta como \u201cvida na Terra\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 o cont\u00eainer lunar vira um problema conceitual. Ele tem uma restri\u00e7\u00e3o de peso \u2013 cerca de 650 gramas, suficiente para empilhar os 24 discos \u2013 e uma superf\u00edcie externa que ser\u00e1 fotografada pela nave antes de ser deixada na Lua. O resultado \u00e9 que o Sanctuary n\u00e3o envia apenas \u201cconte\u00fados sobre a vida\u201d. Ele envia tamb\u00e9m um conjunto de modos de fazer: um repert\u00f3rio de gestos de inscri\u00e7\u00e3o, de escolhas de material, de pedagogias visuais. O disco n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um objeto que arquiva a vida; ele performa uma certa ideia de como a vida deve ser gravada, traduzida e ensinada a partir de uma superf\u00edcie mineral.<\/p>\n<p>Se a engenharia do projeto impressiona, o que realmente nos desestabiliza \u00e9 o debate sobre o que, afinal, estamos chamando de \u201cvida\u201d.<\/p>\n<p>Numa das sess\u00f5es, o paleont\u00f3logo Jean-S\u00e9bastien Steyer abriu sua apresenta\u00e7\u00e3o dizendo que j\u00e1 foram propostas mais de 130 defini\u00e7\u00f5es acerca da no\u00e7\u00e3o de \u201cvida\u201d. Em algumas, o foco est\u00e1 na membrana celular. Em outras, na capacidade de replica\u00e7\u00e3o do material gen\u00e9tico. H\u00e1 defini\u00e7\u00f5es termodin\u00e2micas, que veem a vida como um fluxo de energia que se mant\u00e9m longe do equil\u00edbrio. A astrobiologia, por sua vez, prefere um certo pragmatismo: se conseguirmos detectar algo que se auto-organiza, se replica e interage com o ambiente de forma minimamente est\u00e1vel, talvez possamos cham\u00e1-lo de vida, mesmo que n\u00e3o use \u00e1gua, carbono ou DNA como a nossa.<\/p>\n<p>No grupo de Life and Society, onde passei a maior parte do tempo, as coisas ficam ainda mais complicadas. Ali, discutimos palavras como domina\u00e7\u00e3o, domestica\u00e7\u00e3o, preda\u00e7\u00e3o, simbiose, espiritualidade, cosmologia, agricultura, ca\u00e7a, turismo, com\u00e9rcio. Palavras que, \u00e0 primeira vista, parecem familiares, mas que mudam completamente de sentido conforme a lente \u2013 biol\u00f3gica, econ\u00f4mica, antropol\u00f3gica, ind\u00edgena \u2013 por meio da qual s\u00e3o vistas.<\/p>\n<p>A primat\u00f3loga Ammie K. Kalan lembrava que, para muitos chimpanz\u00e9s, rela\u00e7\u00f5es de cuidado, alian\u00e7a e luto s\u00e3o t\u00e3o centrais quanto qualquer tra\u00e7o que costumamos chamar de \u201csocial humano\u201d. Uma bi\u00f3loga que integrava outro grupo alertava que n\u00e3o d\u00e1 para falar de vida sem falar de padr\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o: simbioses, mutualismos, ecossistemas inteiros que s\u00f3 existem porque diferentes esp\u00e9cies se ajustam, cooperam ou competem. De minha parte, eu insistia em recorrer a exemplos quilombolas e ind\u00edgenas de manejo do fogo, em que queimar n\u00e3o \u00e9 destruir ecossistemas, mas fertilizar o solo, renovar campos, produzir paisagens de conviv\u00eancia entre gente, plantas, bichos e esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Em certo momento, deixou de ser pol\u00eamica a constata\u00e7\u00e3o de que nossa imagem do mundo estava \u201cencapsulada\u201d por uma maneira muito ocidental de separar natureza e cultura, corpo e esp\u00edrito, humano e n\u00e3o humano. Como representar, num disco feito por cientistas e artistas formados nessa tradi\u00e7\u00e3o, ontologias que n\u00e3o partem dessa divis\u00e3o?<\/p>\n<p>A resposta que encontramos n\u00e3o foi harmoniosa, nem fechada. Em vez de fingir que o naturalismo dos modernos \u00e9 capaz de representar tudo e todos, nosso grupo \u2013 o \u00fanico composto por pessoas racializadas \u2013 decidiu desenhar, no pr\u00f3prio esquema gr\u00e1fico do disco, setas que escapam do c\u00edrculo central, insinuando mundos animistas, totemistas e analogistas que n\u00e3o cabem ali. Linhas de fuga \u00e0 sanha combinat\u00f3ria que orienta qualquer pesquisador formado em tradi\u00e7\u00f5es classificat\u00f3rias de conhecimento. Foi um gesto pequeno, quase discreto, de n\u00e3o apagar as aus\u00eancias daqueles (humanos ou n\u00e3o) que n\u00e3o foram convidados \u00e0quela mesa. Com isso, reconhec\u00edamos algo importante: o arquivo da lua tamb\u00e9m \u00e9 um exerc\u00edcio de sele\u00e7\u00e3o, negocia\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o ontol\u00f3gica, isto \u00e9, um exerc\u00edcio cosmopol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ao fim de dois dias, ficou claro que o Sanctuary precisar\u00e1 se abster de uma defini\u00e7\u00e3o universal de vida. Sua pot\u00eancia consiste em compor um campo de converg\u00eancia parcial entre modos muito distintos de conhecer e habitar a Terra. O pensamento que emerge ali n\u00e3o \u00e9 de uma disciplina s\u00f3. Ele nasce do atrito entre astrobiologia, ecologia, primatologia, antropologia, artes visuais e cosmologias que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 aparecem de modo indireto \u2014 amer\u00edndias, indianas, africanas, andinas\u2026 Se antes se sonhava com uma linguagem universal, agora se trabalha com uma polifonia planet\u00e1ria. Em vez de falar com o cosmos, busca-se colocar em conviv\u00eancia, num mesmo objeto, m\u00faltiplas maneiras de entender o que \u00e9 \u201cvida\u201d. O projeto n\u00e3o representa o planeta: heterogene\u00edza-o.<\/p>\n<p>Se o termo \u201cvida\u201d deixa de ser \u00f3bvio, outra palavra ganha destaque no workshop: padr\u00e3o. Logo nas primeiras falas, bi\u00f3logos insistem que conceitos cl\u00e1ssicos como reprodu\u00e7\u00e3o, metabolismo e evolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 fazem sentido se os enxergarmos como redes de intera\u00e7\u00e3o. Uma c\u00e9lula n\u00e3o existe sem um meio interno e externo; um organismo n\u00e3o vive sem trocar energia e mat\u00e9ria com o ambiente; uma esp\u00e9cie n\u00e3o evolui sem se relacionar com outros seres ao longo do tempo.<\/p>\n<p>No grupo dedicado ao tema da diversidade da vida (Diversity of Life), isso se traduz numa decis\u00e3o importante: em vez de listar esp\u00e9cies, optou-se por mostrar estruturas, fun\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es. A diversidade aparece como conjuntos de formas (c\u00e9lulas, tecidos, corpos, paisagens), de fun\u00e7\u00f5es (modos de locomo\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o) e de intera\u00e7\u00f5es (competi\u00e7\u00e3o, coopera\u00e7\u00e3o, parasitismo, mutualismo, preda\u00e7\u00e3o, comensalismo). Os exemplos v\u00e3o de morcegos polinizadores a cupins que cultivam fungos, de esponjas cheias de bact\u00e9rias simbi\u00f3ticas a plantas carn\u00edvoras em solos pobres.<\/p>\n<p>No nosso grupo de Life and Society, os padr\u00f5es ganham outra camada. Quando reorganizamos conceitos como ca\u00e7a, coleta e cria\u00e7\u00e3o, percebemos que eles n\u00e3o s\u00e3o apenas categorias ecol\u00f3gicas ou econ\u00f4micas. S\u00e3o modos de viver: maneiras de organizar a rela\u00e7\u00e3o com outros seres vivos, com a terra, com o tempo. Discutimos, por exemplo, como a preda\u00e7\u00e3o pode ser vista como guerra, mas tamb\u00e9m como reciprocidade, em cosmologias onde o animal ca\u00e7ado continua a existir como pessoa, esp\u00edrito ou for\u00e7a que negocia com os humanos.<\/p>\n<p>Falamos da tecnodiversidade muitas vezes obliterada pelo conceito de \u201cdomestica\u00e7\u00e3o\u201d. Modos de a\u00e7\u00e3o com animais, plantas, microorganismos e for\u00e7as ecol\u00f3gicas que extrapolam uma ideia de controle, comportando um gradiente de rela\u00e7\u00f5es que v\u00e3o da preda\u00e7\u00e3o \u00e0 simbiose. Voltamos v\u00e1rias vezes \u00e0 imagem do microbioma: assim como somos colonizados por bact\u00e9rias, fungos e v\u00edrus, tamb\u00e9m colonizamos e estamos imersos em biomas que nos \u201ccolonizam\u201d de volta. H\u00e1 um padr\u00e3o que se repete em escalas diferentes, do intestino \u00e0 floresta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o surge o problema: como inscrever tudo isso num disco microsc\u00f3pico?<\/p>\n<p>Nosso desafio, para al\u00e9m do debate intelectual, era tamb\u00e9m gr\u00e1fico. Os designers nos lembravam que o disco trabalha em tr\u00eas escalas \u2013 macro, m\u00e9dia e micro \u2013 e que rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser meras justaposi\u00e7\u00f5es. Um predador e uma presa lado a lado, sem contexto, n\u00e3o dizem nada. \u00c9 preciso sugerir movimento, dire\u00e7\u00e3o, depend\u00eancia. Uma simbiose tem que aparecer, de algum modo, como benef\u00edcio m\u00fatuo. Um ciclo bioqu\u00edmico precisa ser reconhec\u00edvel como ciclo, mesmo visto com um microsc\u00f3pio em preto e branco.<\/p>\n<p>De repente, os ec\u00f3logos se tornam designers de padr\u00f5es visuais. E os artistas, por sua vez, viram int\u00e9rpretes de hip\u00f3teses ecol\u00f3gicas. O resultado \u00e9 um tipo curioso de mapa: numa mesma superf\u00edcie de safira, organizam-se padr\u00f5es que v\u00e3o das mol\u00e9culas de ATP aos ciclos de carbono, das culturas animais \u00e0s cosmologias ind\u00edgenas, dos microbiomas invis\u00edveis \u00e0s grandes paisagens biogeogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>O disco, percebo, n\u00e3o grava \u201ca vida\u201d. Ele grava uma arquitetura relacional que faz a vida aparecer.<\/p>\n<p>Volto a pensar em Bel\u00e9m, nas reuni\u00f5es da confer\u00eancia do clima, nas negocia\u00e7\u00f5es sobre metas de carbono e desmatamento. Ali, a escala \u00e9 de anos, d\u00e9cadas. Em Paris, fal\u00e1vamos de milh\u00f5es de anos e da Lua como santu\u00e1rio. Colocados lado a lado, os dois eventos desenham um deslocamento silencioso. As mensagens de Sagan e de seus contempor\u00e2neos ainda acreditavam numa semi\u00f3tica do contato: fal\u00e1vamos com um Outro desconhecido, na esperan\u00e7a de sermos entendidos. O Sanctuary, por sua vez, parece aceitar que talvez ningu\u00e9m venha nos responder.<\/p>\n<p>Em vez disso, ele prop\u00f5e outra coisa: arquivar a Terra para ela mesma. Um arquivo que n\u00e3o tenta representar o planeta como unidade harmoniosa, mas como multiplicidade inst\u00e1vel, relacional, por vezes conflituosa. Um arquivo que sabe que seleciona e exclui, que privilegia certos modos de ver e de viver, que tenta, ainda assim, deixar rastros suficientes para que futuros arque\u00f3logos, humanos ou n\u00e3o, possam reconstruir alguma coisa dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Visto pelos tr\u00eas \u00e2ngulos que o workshop me ofereceu \u2013 do gesto, dos conceitos e dos padr\u00f5es \u2013 o Sanctuary deixa de ser mais uma \u201cmensagem para ETs\u201d e se torna um laborat\u00f3rio de como pensamos a vida hoje. Ao mesmo tempo em que corremos para tentar evitar a pr\u00f3xima crise clim\u00e1tica, come\u00e7amos a enterrar, na Lua, uma esp\u00e9cie de c\u00e1psula de mem\u00f3ria da Terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se isso \u00e9 reconfortante ou perturbador. Talvez os dois.<\/p>\n<p>O que me interessa, como antrop\u00f3logo, \u00e9 que esse arquivo n\u00e3o fala em nome de uma humanidade abstrata. Ele mostra, ainda que de forma incompleta, que a Terra nunca foi uma s\u00f3. Ela \u00e9 feita de muitas formas de vida e de muitas formas de viver, de muitos modos de conhecer, de muitos conflitos e alian\u00e7as entre humanos e n\u00e3o humanos, entre florestas e cidades, entre bact\u00e9rias e sat\u00e9lites.<\/p>\n<p>Assim, o Sanctuary parece dizer, antes de tudo, como vivemos juntos \u2013 ou como tentamos, nem sempre com sucesso, fazer isso. N\u00e3o \u00e9 pouca coisa, para um punhado de discos de safira deixados num canto da Lua, em plena era do colapso. O projeto, portanto, abdica de uma semi\u00f3tica do contato extraterrestre, para apresentar uma cosmopol\u00edtica do arquivo mais-que-terrestre.<\/p>\n<p>Se em Bel\u00e9m negociavam-se emiss\u00f5es, metas, florestas, direitos territoriais, no espa\u00e7o Bellechasse discut\u00edamos quais imagens poderiam sobreviver \u00e0 eros\u00e3o do tempo profundo. Nos dois casos, tratava-se do mesmo impasse cosmopol\u00edtico: o que merece continuar existindo quando o pr\u00f3prio futuro da Terra se anuncia como colapso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na mesma semana em que chefes de Estado, ativistas e pesquisadores se reuniam em Bel\u00e9m para mais uma&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":215835,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[84],"tags":[109,107,108,32,33,105,103,104,106,110],"class_list":{"0":"post-215834","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ciencia-e-tecnologia","8":"tag-ciencia","9":"tag-ciencia-e-tecnologia","10":"tag-cienciaetecnologia","11":"tag-portugal","12":"tag-pt","13":"tag-science","14":"tag-science-and-technology","15":"tag-scienceandtechnology","16":"tag-technology","17":"tag-tecnologia"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115842511175702924","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215834","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=215834"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215834\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/215835"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=215834"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=215834"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=215834"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}