{"id":220285,"date":"2026-01-08T09:55:46","date_gmt":"2026-01-08T09:55:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/220285\/"},"modified":"2026-01-08T09:55:46","modified_gmt":"2026-01-08T09:55:46","slug":"os-misterios-mais-atraentes-da-neurobiologia-vegetal-sao-os-que-questionam-as-categorias-do-pensamento-moderno-entrevista-especial-com-guilherme-soares-instituto-humanitas-unisinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/220285\/","title":{"rendered":"Os mist\u00e9rios mais atraentes da neurobiologia vegetal s\u00e3o os que questionam as categorias do pensamento moderno. Entrevista especial com Guilherme Soares &#8211; Instituto Humanitas Unisinos"},"content":{"rendered":"<p>&#13;<\/p>\n<p>Por: <strong>Patricia Fachin | <\/strong>08 Janeiro 2026<\/p>\n<p>    &#13;<\/p>\n<p>Longe de ser um campo de estudo estritamente biol\u00f3gico, que busca entender como as plantas captam, processam e respondem \u00e0s informa\u00e7\u00f5es do ambiente, a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/628145-podemos-anestesiar-todas-as-plantas-%20isso-e-extremamente-fascinante-entrevista-com-stefano-mancuso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">neurobiologia vegetal<\/a>\u00a0reflete um \u201csintoma mais amplo das tens\u00f5es contempor\u00e2neas em torno dos limites do humano, do vivo e do pens\u00e1vel\u201d, afirma <strong>Guilherme Soares<\/strong>, autor da pesquisa Neurobiologia das plantas: uma perspectiva interespec\u00edfica sobre o debate, desenvolvida na <strong>Universidade Federal do Amazonas<\/strong> (<strong>UFAM<\/strong>).<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Segundo ele, a discuss\u00e3o em torno de se e como as plantas aprendem, ajustam respostas, tomam decis\u00f5es ou otimizam fun\u00e7\u00f5es \u2013 atividades que parecem particularmente humanas \u2013, n\u00e3o \u00e9 sustentada apenas em observa\u00e7\u00f5es emp\u00edricas, mas em \u201cdisputas sem\u00e2nticas com consequ\u00eancias ontol\u00f3gicas\u201d. Nesse sentido, assegura, \u201cfalar em <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> significa entrar deliberadamente numa zona de fric\u00e7\u00e3o conceitual\u201d.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>As diverg\u00eancias na \u00e1rea envolve m disputas entre tend\u00eancias te\u00f3ricas conflitantes, mas a principal controv\u00e9rsia, na avalia\u00e7\u00e3o de <strong>Soares<\/strong>, \u00e9 ontol\u00f3gica e, consequentemente, de narrativas. \u201cTrata-se de decidir que tipo de entidade uma <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/647591-os-misterios-da-inteligencia-nas-plantas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">planta<\/a> pode ser: um conjunto de mecanismos fisiol\u00f3gicos otimizados pela sele\u00e7\u00e3o natural, ou um organismo ativo, sens\u00edvel, dotado de comportamentos integrados e modos pr\u00f3prios de rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Nesse sentido, o debate sobre as correntes te\u00f3ricas da <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> \u00e9, no fundo, um debate sobre os limites da imagina\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. At\u00e9 onde estamos dispostos a ir na amplia\u00e7\u00e3o de nossos conceitos para acompanhar formas de vida radicalmente diferentes da humana? Que tipos de ag\u00eancia reconhecemos como leg\u00edtimos? Que narrativas aceitamos como cient\u00edficas? A neurobiologia das plantas n\u00e3o oferece respostas definitivas a essas perguntas, mas tem o m\u00e9rito de recoloc\u00e1-las no centro da discuss\u00e3o, tensionando os pressupostos mais arraigados do <strong>pensamento moderno<\/strong> sobre o vivo\u201d, esclarece.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao <strong>Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU<\/strong>, <strong>Guilherme Soares<\/strong> apresenta as principais correntes te\u00f3ricas da <strong>neurobiologia vegetal<\/strong>. Para ele, o ponto fundamental nesta discuss\u00e3o consiste em observar que \u201ca controv\u00e9rsia n\u00e3o op\u00f5e simplesmente ci\u00eancia \u2018rigorosa\u2019 a especula\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica. Ela revela uma disputa mais profunda sobre o que conta como explica\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, sobre os limites do <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/600862-o-naturalismo-e-a-metafisica-mais-idiota-o-pensamento-mais-estupido-da-historia-e-vai-destruir-a-humanidade-entrevista-especial-com-markus-gabriel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">naturalismo moderno<\/a>\u00a0e sobre quem tem autoridade para definir os termos atrav\u00e9s dos quais a vida vegetal pode ser conhecida\u201d. E acrescenta: \u201cTrata-se tamb\u00e9m de uma controv\u00e9rsia sobre narrativas: <strong>narrativas reducionistas<\/strong>, centradas em c\u00e9lulas e genes, versus \u2018<strong>narrativas mais ricas<\/strong>\u2019, orientadas ao organismo, ao comportamento e aos modos de rela\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Soares<\/strong> tamb\u00e9m reflete sobre a relev\u00e2ncia das florestas para enfrentar os desafios do novo regime clim\u00e1tico. Sem discordar da centralidade delas, o pesquisador acrescenta que \u201c<a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/631020-como-salvar-a-floresta-amazonica-entrevista-com-philip-m-fearnside\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">salvar florestas<\/a>\u00a0sem garantir os <strong>direitos territoriais dos povos<\/strong> que as habitam, sem reconhecer seus conhecimentos e sem transformar radicalmente nossas formas de produ\u00e7\u00e3o, consumo e rela\u00e7\u00e3o com o mundo vivo, \u00e9 apenas adiar o colapso\u201d.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg\" alt=\"\"\/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/06-01_guilherme_soares_foto_arquivo_pessoal.jpg\" alt=\"\"\/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Guilherme Soares<\/strong> (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares<\/strong> \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Sociais e mestre e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). H\u00e1 13 anos \u00e9 pesquisador do N\u00facleo de Estudos da Amaz\u00f4nia Ind\u00edgena (NEAI).<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nConfira a entrevista.&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Como surgiu seu interesse em estudar a neurobiologia das plantas?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Minha trajet\u00f3ria intelectual nunca se organizou em linha reta. Sou formado em ci\u00eancias sociais, com mestrado e doutorado em antropologia social pela <strong>Universidade Federal do Amazonas<\/strong>. Minha forma\u00e7\u00e3o se construiu, desde o in\u00edcio, em di\u00e1logo com a <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/649518-ontologias-amazonicas-8-mil-anos-de-historia-das-sociedades-contra-o-estado-entrevista-especial-com-eduardo-goes-neves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">etnologia amaz\u00f4nica<\/a>, com os debates sobre ontologias ind\u00edgenas e com a cr\u00edtica \u00e0s separa\u00e7\u00f5es modernas entre natureza e cultura. Foi no <strong>N\u00facleo de Estudos da Amaz\u00f4nia Ind\u00edgena<\/strong> (<strong>NEAI<\/strong>) e nos trabalhos que desenvolvi ainda na gradua\u00e7\u00e3o que as plantas come\u00e7aram a aparecer para mim n\u00e3o como cen\u00e1rio, mas como agentes centrais em cosmologias, pr\u00e1ticas xam\u00e2nicas e regimes de conhecimento <strong>ind\u00edgenas<\/strong> \u2013 ora como mediadoras de cura, ora como seres perigosos, dotados de inten\u00e7\u00f5es e capacidades pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Foi nesse terreno que se formou minha aten\u00e7\u00e3o inicial \u00e0s <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/610730-um-breve-leitura-filosofica-sobre-essa-outra-alteridade-as-plantas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">plantas enquanto alteridades radicais<\/a>: seres cuja vida complexa escapa facilmente \u00e0s categorias do pensamento ocidental moderno. No entanto, o deslocamento decisivo que me levou, no mestrado, a estudar a chamada <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> n\u00e3o veio apenas da etnografia amaz\u00f4nica, mas do encontro \u2013 inicialmente quase fortuito \u2013 com um debate pouco conhecido fora das ci\u00eancias biol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Ao tomar conhecimento de pesquisas que atribu\u00edam \u00e0s plantas capacidades como percep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, comunica\u00e7\u00e3o, aprendizado e comportamento inteligente, reconheci uma estranha resson\u00e2ncia entre essas proposi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas contempor\u00e2neas e aquilo que a antropologia vinha aprendendo com as ontologias ind\u00edgenas e, mais recentemente, com as <strong>etnografias multiesp\u00e9cies<\/strong>. O que parecia, \u00e0 primeira vista, um campo estritamente biol\u00f3gico revelou-se rapidamente um terreno f\u00e9rtil de controv\u00e9rsias epistemol\u00f3gicas, disputas conceituais e compromissos ontol\u00f3gicos divergentes.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<\/p>\n<p>Foi a partir desse inc\u00f4modo produtivo que nasceu minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, Neurobiologia das plantas: uma perspectiva interespec\u00edfica sobre o debate (HENRIQUES SOARES, 2018), posteriormente desdobrada no artigo hom\u00f4nimo publicado na <strong>Revista do Instituto de Estudos Brasileiros<\/strong> (SOARES, 2018). Mais do que tomar partido a favor ou contra a neurobiologia das plantas, o trabalho se prop\u00f4s a mapear o debate, identificar suas tens\u00f5es internas e explorar a hip\u00f3tese de que essas controv\u00e9rsias poderiam sugerir modos alternativos de acessar e enunciar a perspectiva das pr\u00f3prias plantas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Esse percurso foi profundamente marcado pelo di\u00e1logo com uma bibliografia interdisciplinar ampla, que atravessa a fisiologia vegetal, a biologia molecular, a ecologia, a filosofia da ci\u00eancia, a antropologia e os estudos multiesp\u00e9cies, mobilizando autores cl\u00e1ssicos e contempor\u00e2neos como Charles\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/306\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Darwin<\/a>, <strong>Wilhelm\u00a0Pfeffer<\/strong>, <strong>Julius von\u00a0Sachs<\/strong>, <strong>Anthony\u00a0Trewavas<\/strong>, <strong>Frantisek\u00a0Balu\u0161ka<\/strong>, <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/619126-stefano-mancuso-as-plantas-nos-salvarao-do-aquecimento-global\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Stefano\u00a0Mancuso<\/a>, <strong>Carla\u00a0Hustak<\/strong> e<strong> Natasha<\/strong>\u00a0<strong>Myers<\/strong>, entre muitos outros. Mas esse trabalho n\u00e3o se construiu apenas nos livros.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Um momento decisivo dessa trajet\u00f3ria foi minha aproxima\u00e7\u00e3o com os pesquisadores do Laborat\u00f3rio de Estudos de Plantas sob Estresse (<strong>LEPSE<\/strong>), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (<strong>ESALQ\/USP<\/strong>). A conviv\u00eancia, ainda que breve, com os pesquisadores do laborat\u00f3rio \u2013 em especial com aqueles diretamente envolvidos com experimentos em eletrofisiologia vegetal \u2013 me ofereceu n\u00e3o apenas um contato direto com pr\u00e1ticas cient\u00edficas inspiradas pela <strong>neurobiologia das plantas<\/strong>, mas tamb\u00e9m a oportunidade de observar como as controv\u00e9rsias que eu vinha mapeando teoricamente encontravam resson\u00e2ncia concreta no cotidiano do laborat\u00f3rio: nas escolhas metodol\u00f3gicas, nas rela\u00e7\u00f5es entre cientistas e plantas e nas pr\u00f3prias d\u00favidas que atravessam a pr\u00e1tica cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 O que significa falar em neurobiologia das plantas?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Falar em <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> significa entrar deliberadamente numa zona de fric\u00e7\u00e3o conceitual. Desde o in\u00edcio, tanto no artigo quanto na disserta\u00e7\u00e3o, procurei deixar claro que o termo n\u00e3o descreve simplesmente um novo conjunto de fatos emp\u00edricos, mas inaugura \u2013 ou reabre \u2013 uma controv\u00e9rsia cient\u00edfica, epistemol\u00f3gica e ontol\u00f3gica. Durante muito tempo, pensamos as plantas como pano de fundo: um verde indiferenciado contra o qual a vida verdadeiramente interessante \u2013 animal, humana, consciente \u2013 se desenrolaria. Elas estavam ali, silenciosas, im\u00f3veis, obedientes. Se reagiam, era por reflexo. Se cresciam, era por programa. Se sobreviviam, era por adapta\u00e7\u00e3o cega.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Falar em neurobiologia das plantas \u00e9 interromper esse conforto. N\u00e3o porque as plantas tenham neur\u00f4nios ou c\u00e9rebros como os nossos \u2013 isso \u00e9 um falso problema \u2013, mas porque elas percebem, integram e respondem ao mundo de maneira complexa, cont\u00ednua e situada. O que esse campo prop\u00f5e \u00e9 uma mudan\u00e7a de foco: sair da c\u00e9lula isolada, do gene soberano, da m\u00e1quina molecular, e acompanhar o organismo vegetal em sua totalidade viva, atravessada por sinais el\u00e9tricos de longa dist\u00e2ncia, transporte hormonal, fluxos hidr\u00e1ulicos e redes qu\u00edmicas complexas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Ao nomear esse conjunto como \u201c<strong>neurobiologia<\/strong>\u201d, os proponentes do campo acionam deliberadamente uma met\u00e1fora forte, n\u00e3o para antropomorfizar as plantas de forma ing\u00eanua, mas para chamar aten\u00e7\u00e3o para processos que vinham sendo subestimados ou fragmentados pelas abordagens reducionistas cl\u00e1ssicas. Talvez o desconforto que esse termo provoca venha exatamente da\u00ed: para entender as plantas, precisamos abandonar a ideia de que pensar \u00e9 algo que acontece apenas na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Talvez o desconforto que esse termo provoca venha exatamente da\u00ed: para entender as plantas, precisamos abandonar a ideia de que pensar \u00e9 algo que acontece apenas na cabe\u00e7a \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Como explicaria o modo como as plantas funcionam?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Ao contr\u00e1rio dos <strong>animais<\/strong>, as <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/619115-diferente-dos-seres-humanos-as-plantas-sempre-sustentam-e-promovem-a-diversidade-entrevista-com-michael-marder\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">plantas<\/a> n\u00e3o organizam suas respostas em torno de um centro nervoso. Elas funcionam como redes distribu\u00eddas, altamente descentralizadas, nas quais m\u00faltiplos tecidos e regi\u00f5es participam simultaneamente da percep\u00e7\u00e3o e da resposta ao ambiente. Uma planta n\u00e3o possui centro \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o, mas uma pot\u00eancia.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Seu funcionamento ocorre por redes: ra\u00edzes, folhas, vasos condutores, tecidos sens\u00edveis. Cada parte percebe algo do mundo e responde a partir dessa percep\u00e7\u00e3o. O crescimento, aqui, n\u00e3o \u00e9 apenas consequ\u00eancia, \u00e9 decis\u00e3o encarnada. Uma raiz contorna a pedra. Uma folha ajusta seu \u00e2ngulo. Um caule redistribui energia. Nada disso acontece por acaso, tampouco por comando central. A planta pensa crescendo.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Na disserta\u00e7\u00e3o, ao dialogar com autores como <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/646067-seriam-as-plantas-capazes-de-olhar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Balu\u0161ka<\/a>, <strong>Mancuso<\/strong> e <strong>Trewavas<\/strong>, procurei mostrar que esse funcionamento exige uma mudan\u00e7a de escala anal\u00edtica. N\u00e3o basta olhar para genes isolados ou c\u00e9lulas individuais. \u00c9 preciso acompanhar fluxos, ritmos, integra\u00e7\u00f5es. A planta \u201cfunciona\u201d como um organismo que sente o mundo atrav\u00e9s do corpo inteiro, ajustando-se continuamente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es locais e globais em que est\u00e1 inserida. Trata-se de uma forma de intelig\u00eancia que n\u00e3o se separa do corpo nem do ambiente, e que responde no contato, por acoplamento, e n\u00e3o por representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 O que significa dizer que as plantas t\u00eam um comportamento inteligente?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Essa talvez seja a afirma\u00e7\u00e3o mais controversa do campo. No meu trabalho, sempre insisti que o desacordo aqui n\u00e3o \u00e9 emp\u00edrico, mas conceitual. Quando se diz que plantas s\u00e3o inteligentes, a rea\u00e7\u00e3o costuma ser defensiva, como se algo estivesse sendo retirado dos humanos. Mas o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o das plantas \u2013 \u00e9 o rebaixamento de uma defini\u00e7\u00e3o excessivamente estreita de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Se intelig\u00eancia for definida exclusivamente a partir de crit\u00e9rios antropoc\u00eantricos, como consci\u00eancia reflexiva, intencionalidade ou representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ent\u00e3o, evidentemente, plantas n\u00e3o s\u00e3o inteligentes. Mas essa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 hist\u00f3rica, situada e profundamente limitada. Autores centrais no debate, como <strong>Anthony Trewavas<\/strong>, prop\u00f5em entender intelig\u00eancia como crescimento e desenvolvimento adaptativamente vari\u00e1veis ao longo do tempo, capazes de resolver problemas colocados pelo ambiente.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Sob essa defini\u00e7\u00e3o, plantas demonstram comportamentos claramente inteligentes: aprendem com experi\u00eancias passadas, memorizam estresses, reconhecem parentes, antecipam amea\u00e7as, cooperam por vias subterr\u00e2neas e modulam respostas futuras conforme o contexto. Nada disso exige consci\u00eancia reflexiva. Exige sensibilidade, mem\u00f3ria incorporada e tempo. Talvez o inc\u00f4modo venha do fato de que essa intelig\u00eancia n\u00e3o se reflete em espelhos. Ela n\u00e3o se reconhece, n\u00e3o se nomeia, n\u00e3o se representa. Ela simplesmente acontece.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Minha contribui\u00e7\u00e3o foi mostrar que a recusa dessa linguagem por parte dos cr\u00edticos est\u00e1 menos ligada \u00e0 aus\u00eancia de dados e mais ao medo de que termos como \u201cintelig\u00eancia\u201d, \u201cdecis\u00e3o\u201d ou \u201caprendizado\u201d dissolvam fronteiras ontol\u00f3gicas que sustentam o naturalismo moderno.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Como podemos entender a afirma\u00e7\u00e3o de que as plantas s\u00e3o sens\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Quando <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/600441\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Stefano Mancuso<\/a>\u00a0afirma que as plantas s\u00e3o sens\u00edveis, ele n\u00e3o est\u00e1 falando de uma sensibilidade psicol\u00f3gica ou emocional nos moldes humanos. Trata-se de uma sensibilidade corp\u00f3rea e relacional. As plantas existem em estado cont\u00ednuo de afeta\u00e7\u00e3o. Tudo nelas \u00e9 interface: a luz, o vento, o toque, a qu\u00edmica do solo, a presen\u00e7a de outros corpos. Essa percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre em um \u00f3rg\u00e3o especializado, mas emerge da integra\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos sinais distribu\u00eddos pelo corpo inteiro. Uma planta sente com as ra\u00edzes, com as folhas, com os vasos, com o ritmo do dia e da noite. Elas n\u00e3o se defendem do mundo fechando-se, mas sobrevivem abrindo-se com precis\u00e3o.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Na disserta\u00e7\u00e3o, associei essa sensibilidade \u00e0 ideia de <strong>aten\u00e7\u00e3o vegetal<\/strong>, proposta por autores que buscam deslocar o foco da computa\u00e7\u00e3o para a responsividade situada. A planta n\u00e3o reage mecanicamente, ela se mant\u00e9m aberta ao mundo, modulando continuamente sua forma de estar e crescer. H\u00e1 algo de profundamente antidualista nisso: corpo e ambiente n\u00e3o est\u00e3o separados, mas acoplados. Talvez por isso essa sensibilidade nos escape, porque estamos habituados a confundi-la com rea\u00e7\u00e3o imediata. As plantas sentem em outro tempo.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>As plantas existem em estado cont\u00ednuo de afeta\u00e7\u00e3o. Tudo nelas \u00e9 interface: a luz, o vento, o toque, a qu\u00edmica do solo, a presen\u00e7a de outros corpos \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Em que contexto hist\u00f3rico, cient\u00edfico e cultural surge a neurobiologia das plantas?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> A <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> n\u00e3o surge de forma isolada nem pode ser compreendida apenas como um desdobramento t\u00e9cnico das ci\u00eancias biol\u00f3gicas. Ela emerge na conflu\u00eancia de transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, cient\u00edficas e culturais mais amplas, que colocam em crise certos pressupostos centrais do pensamento moderno sobre a vida.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Em <strong>primeiro lugar<\/strong>, seu aparecimento est\u00e1 intimamente ligado a uma crise do reducionismo gen\u00e9tico e molecular que marcou boa parte da biologia do s\u00e9culo XX. Durante d\u00e9cadas, apostou-se que a vida poderia ser plenamente explicada a partir do <strong>DNA<\/strong>, dos genes e de seus mecanismos de regula\u00e7\u00e3o. Embora essa agenda tenha produzido avan\u00e7os ineg\u00e1veis, tornou-se cada vez mais evidente que ela \u00e9 insuficiente para dar conta do comportamento dos organismos, especialmente quando se trata de processos distribu\u00eddos, integrados e sens\u00edveis ao contexto ambiental. A neurobiologia das plantas emerge justamente nesse momento p\u00f3s-gen\u00f4mico, em que cresce o interesse por abordagens sist\u00eamicas, por redes de intera\u00e7\u00e3o, por fluxos de informa\u00e7\u00e3o e por din\u00e2micas que atravessam o organismo como um todo, e n\u00e3o apenas suas partes.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Em <strong>segundo lugar<\/strong>, esse campo se apoia em um retorno cr\u00edtico a autores cl\u00e1ssicos da bot\u00e2nica e da biologia, frequentemente esquecidos ou simplificados pelas narrativas mecanicistas posteriores. Figuras como <a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/300\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Charles Darwin<\/a>, <strong>Wilhelm Pfeffer<\/strong> e <strong>Julius von Sachs<\/strong> j\u00e1 descreviam, no s\u00e9culo XIX, as plantas como organismos ativos, sens\u00edveis e dotados de comportamento. <strong>Darwin<\/strong>, por exemplo, ao investigar os movimentos das plantas, chegou a sugerir que as pontas das ra\u00edzes funcionariam como centros de coordena\u00e7\u00e3o, hip\u00f3tese que hoje \u00e9 retomada criticamente por autores ligados \u00e0 neurobiologia das plantas. O que a historiografia mais recente tem mostrado \u00e9 que essas vis\u00f5es foram, em grande medida, \u201cdomesticadas\u201d por narrativas posteriores que privilegiaram explica\u00e7\u00f5es mecanicistas, adaptacionistas e centradas em unidades isoladas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A neurobiologia das plantas n\u00e3o inventa ex nihilo uma nova forma de pensar as plantas, mas reativa e rearticula tradi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que haviam sido marginalizadas \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A neurobiologia das plantas, nesse sentido, n\u00e3o inventa ex nihilo uma nova forma de pensar as <strong>plantas<\/strong>, mas reativa e rearticula tradi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que haviam sido marginalizadas. Ao faz\u00ea-lo, ela se coloca em tens\u00e3o com um establishment cient\u00edfico ainda fortemente comprometido com princ\u00edpios como a parcim\u00f4nia, a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s met\u00e1foras e a defesa de um vocabul\u00e1rio estritamente funcionalista.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Em <strong>terceiro lugar<\/strong>, a emerg\u00eancia desse campo precisa ser situada em um contexto cultural mais amplo, marcado pelo questionamento das grandes dicotomias modernas, especialmente aquelas que separam humanos e n\u00e3o humanos, natureza e cultura, sujeito e objeto. Esse contexto inclui debates internos \u00e0s \u201cci\u00eancias naturais\u201d \u2013 como aqueles em torno da cogni\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, da biologia dos sistemas e da ecologia comportamental \u2013 e contribui\u00e7\u00f5es vindas de outras \u00e1reas do conhecimento, ou as ditas \u201chumanidades\u201d, como as etnografias multiesp\u00e9cies, a filosofia da ci\u00eancia e as cr\u00edticas antropol\u00f3gicas ao <strong>naturalismo<\/strong> moderno.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A neurobiologia das plantas emerge na conflu\u00eancia de transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, cient\u00edficas e culturais mais amplas, que colocam em crise certos pressupostos centrais do pensamento moderno sobre a vida \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nDebate atual&#13;<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que o debate sobre a neurobiologia das plantas deixa de ser apenas cient\u00edfico e se torna explicitamente epistemol\u00f3gico e ontol\u00f3gico. O conflito atual n\u00e3o se resume \u00e0 validade ou n\u00e3o de determinados dados experimentais, mas envolve disputas em torno do vocabul\u00e1rio, das met\u00e1foras e dos compromissos ontol\u00f3gicos que sustentam diferentes formas de explicar a <a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7823-um-sopro-do-mundo-animal-e-vegetal-na-literatura-que-desajusta-nosso-eu-antropocentrico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">vida vegetal<\/a>. O que podemos dizer legitimamente sobre as plantas? At\u00e9 onde podemos ir ao falar em intelig\u00eancia, sensibilidade, comportamento ou decis\u00e3o sem violar certos limites considerados \u201caceit\u00e1veis\u201d pela ci\u00eancia moderna?<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Como procuro argumentar tanto na disserta\u00e7\u00e3o quanto no artigo, essas n\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es triviais de linguagem. Cada escolha terminol\u00f3gica implica uma concep\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do que \u00e9 um organismo, de como ele se relaciona com o ambiente e de que tipo de ag\u00eancia lhe pode ser atribu\u00edda. Por isso, a controv\u00e9rsia em torno da <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> \u00e9 tamb\u00e9m, necessariamente, antropol\u00f3gica: ela exp\u00f5e os limites do naturalismo moderno para lidar com formas de vida que n\u00e3o cabem facilmente em suas categorias cl\u00e1ssicas e nos obriga a repensar n\u00e3o apenas as plantas, mas os pr\u00f3prios fundamentos a partir dos quais produzimos conhecimento sobre o mundo vivo.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A controv\u00e9rsia em torno da neurobiologia das plantas \u00e9 tamb\u00e9m antropol\u00f3gica \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Que contribui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas esse campo tem oferecido?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Mais do que respostas fechadas, a neurobiologia das plantas produziu novas perguntas. Ela recolocou no centro da biologia vegetal temas como comunica\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, comportamento e integra\u00e7\u00e3o sist\u00eamica. Contribuiu para o avan\u00e7o do estudo dos sinais el\u00e9tricos em <strong>plantas<\/strong>, das <strong>redes de comunica\u00e7\u00e3o subterr\u00e2neas<\/strong> mediadas por micorrizas e da plasticidade do comportamental vegetal.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>No meu entendimento, sua principal contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 metodol\u00f3gica e conceitual: ela obriga a ci\u00eancia a considerar o organismo inteiro e seus modos de rela\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas seus componentes isolados. Ao fazer isso, desloca o olhar da planta como objeto para a planta como processo vivo.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Como a neurobiologia das plantas tem sido abordada interdisciplinarmente?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Desde o in\u00edcio, tratei a <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> como um campo atravessado por controv\u00e9rsias, e n\u00e3o como uma disciplina consolidada. Ela envolve fisiologia vegetal, biologia molecular, ecologia, filosofia da ci\u00eancia, antropologia e estudos multiesp\u00e9cies. Essa interdisciplinaridade n\u00e3o \u00e9 acess\u00f3ria, mas constitutiva do campo.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Minha pr\u00f3pria abordagem foi explicitamente antropol\u00f3gica: mapear tens\u00f5es, narrativas e compromissos ontol\u00f3gicos implicados no debate. Em vez de decidir quem est\u00e1 certo ou errado, procurei entender o que est\u00e1 em disputa quando cientistas discordam sobre o que as plantas fazem \u2013 e sobre como devemos falar delas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Quais s\u00e3o as correntes te\u00f3ricas mais significativas?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Ao mapear o debate em torno da <strong>neurobiologia das plantas<\/strong>, identifiquei a presen\u00e7a de duas grandes tend\u00eancias te\u00f3ricas, que n\u00e3o se organizam como blocos homog\u00eaneos, mas como campos de gravita\u00e7\u00e3o em torno de certos problemas, vocabul\u00e1rios e compromissos ontol\u00f3gicos. A controv\u00e9rsia n\u00e3o se reduz a uma oposi\u00e7\u00e3o simples entre \u201ca favor\u201d e \u201ccontra\u201d, mas envolve diferentes maneiras de conceber o que \u00e9 um organismo vegetal e como ele pode ser conhecido.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nPrimeira tend\u00eancia te\u00f3rica&#13;<\/p>\n<p>A <strong>primeira tend\u00eancia<\/strong> pode ser descrita como computacional-funcional. Nela, as <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/595068-as-plantas-sao-inteligentes-talvez-mais-do-que-nos-entrevista-com-francis-halle\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">plantas<\/a> s\u00e3o interpretadas como sistemas distribu\u00eddos de processamento de informa\u00e7\u00e3o, capazes de integrar sinais provenientes do ambiente e produzir respostas coordenadas ao longo do corpo. Autores como <strong>Anthony Trewavas<\/strong>, <strong>Franti\u0161ek Balu\u0161ka<\/strong>, <strong>Stefano Mancuso<\/strong> e <strong>Eric Brenner<\/strong> operam, com varia\u00e7\u00f5es importantes entre si, nesse registro.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, conceitos como intelig\u00eancia, aprendizado, mem\u00f3ria e decis\u00e3o s\u00e3o redefinidos em termos funcionais, afastando-se de associa\u00e7\u00f5es diretas com consci\u00eancia ou intencionalidade reflexiva. A <strong>intelig\u00eancia vegetal<\/strong>, por exemplo, aparece como a capacidade de resolver problemas adaptativos ao longo do tempo, por meio de ajustes finos no crescimento, na fisiologia e no comportamento. O interesse central aqui n\u00e3o \u00e9 equiparar plantas a animais ou humanos, mas demonstrar que muitos processos tradicionalmente associados \u00e0 cogni\u00e7\u00e3o podem emergir de sistemas distribu\u00eddos, sem centro nervoso ou c\u00e9rebro. Trata-se, portanto, de uma amplia\u00e7\u00e3o do que conta como processamento cognitivo na biologia.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nSegunda tend\u00eancia te\u00f3rica&#13;<\/p>\n<p>A <strong>segunda tend\u00eancia<\/strong>, que dialoga parcialmente com a primeira, mas dela se distingue, pode ser caracterizada como relacional e expressiva. Nessa abordagem, a \u00eanfase se desloca do processamento de informa\u00e7\u00e3o em sentido estrito para os modos de aten\u00e7\u00e3o, de express\u00e3o e de rela\u00e7\u00e3o que as plantas estabelecem com o ambiente e com outros organismos. Aqui, o comportamento vegetal n\u00e3o \u00e9 pensado apenas como resposta funcional a est\u00edmulos, mas como um engajamento situado historicamente e ecologicamente configurado.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Essa vertente se aproxima de debates mais amplos sobre cogni\u00e7\u00e3o incorporada, ecologia psicol\u00f3gica e, no meu caso, das contribui\u00e7\u00f5es das <strong>etnografias multiesp\u00e9cies<\/strong>, como as propostas por <strong>Carla Hustak<\/strong> e <strong>Natasha Myers<\/strong>. A no\u00e7\u00e3o de uma \u201cnarrativa mais rica\u201d, que mobilizo no artigo, emerge justamente dessa sensibilidade: a ideia de que explicar o comportamento das plantas exige narrativas capazes de acompanhar o organismo em seus modos de rela\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas decompor seus mecanismos internos.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o a essas duas tend\u00eancias, h\u00e1 os cr\u00edticos da <strong>neurobiologia das plantas<\/strong>, como <strong>Paul Struik<\/strong> e <strong>Richard Firn<\/strong>, que defendem explica\u00e7\u00f5es baseadas exclusivamente na fisiologia cl\u00e1ssica, na gen\u00e9tica e na biologia evolutiva. Esses autores reconhecem a complexidade da vida vegetal, mas rejeitam o vocabul\u00e1rio mobilizado pela neurobiologia das plantas, argumentando que termos como intelig\u00eancia, decis\u00e3o ou aprendizado introduzem ambiguidades conceituais desnecess\u00e1rias, violam o princ\u00edpio da parcim\u00f4nia e correm o risco de antropomorfismo.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nControv\u00e9rsia ontol\u00f3gica&#13;<\/p>\n<p>O ponto central, no entanto, \u00e9 que essa diverg\u00eancia n\u00e3o se limita a uma disputa metodol\u00f3gica ou terminol\u00f3gica. Como procuro demonstrar na disserta\u00e7\u00e3o, a controv\u00e9rsia \u00e9 fundamentalmente ontol\u00f3gica. Trata-se de decidir que tipo de entidade uma planta pode ser: um conjunto de mecanismos fisiol\u00f3gicos otimizados pela sele\u00e7\u00e3o natural, ou um organismo ativo, sens\u00edvel, dotado de comportamentos integrados e modos pr\u00f3prios de rela\u00e7\u00e3o com o mundo.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Nesse sentido, o debate sobre as correntes te\u00f3ricas da <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/ideias\/345cadernosihuideias.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">neurobiologia das plantas<\/a> \u00e9, no fundo, um debate sobre os limites da imagina\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. At\u00e9 onde estamos dispostos a ir na amplia\u00e7\u00e3o de nossos conceitos para acompanhar formas de vida radicalmente diferentes da humana? Que tipos de ag\u00eancia reconhecemos como leg\u00edtimos? Que narrativas aceitamos como cient\u00edficas? A neurobiologia das plantas n\u00e3o oferece respostas definitivas a essas perguntas, mas tem o m\u00e9rito de recoloc\u00e1-las no centro da discuss\u00e3o, tensionando os pressupostos mais arraigados do pensamento moderno sobre o vivo.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A diverg\u00eancia emerge quando passamos do que as plantas fazem para o como devemos descrever, interpretar e nomear esses processos. \u00c9 a\u00ed que o debate deixa de ser estritamente emp\u00edrico e se torna profundamente conceitual. Muitas vezes o conflito gira menos em torno dos fen\u00f4menos observados e mais em torno do vocabul\u00e1rio mobilizado para explic\u00e1-los \u2013 e, com ele, dos compromissos epistemol\u00f3gicos e ontol\u00f3gicos que esse vocabul\u00e1rio carrega \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Quais converg\u00eancias e diverg\u00eancias s\u00e3o mais percept\u00edveis?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> A converg\u00eancia talvez seja mais ampla do que costuma aparecer nas pol\u00eamicas p\u00fablicas em torno da neurobiologia das plantas. Quando observamos o debate com algum distanciamento \u2013 como procurei fazer tanto na disserta\u00e7\u00e3o quanto no artigo \u2013, fica claro que nenhum dos grupos envolvidos nega a complexidade da vida vegetal. N\u00e3o h\u00e1 discord\u00e2ncia substantiva quanto ao fato de que plantas percebem o ambiente, respondem a est\u00edmulos m\u00faltiplos, integram sinais qu\u00edmicos, el\u00e9tricos e hidr\u00e1ulicos, comunicam-se intra e interespecificamente e exibem um repert\u00f3rio comportamental sofisticado. Nesse ponto, h\u00e1 um acordo de base entre proponentes e cr\u00edticos da neurobiologia das plantas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A diverg\u00eancia emerge quando passamos do que as plantas fazem para o como devemos descrever, interpretar e nomear esses processos. \u00c9 a\u00ed que o debate deixa de ser estritamente emp\u00edrico e se torna profundamente conceitual. Como argumento no artigo, muitas vezes o conflito gira menos em torno dos fen\u00f4menos observados e mais em torno do vocabul\u00e1rio mobilizado para explic\u00e1-los \u2013 e, com ele, dos compromissos epistemol\u00f3gicos e ontol\u00f3gicos que esse vocabul\u00e1rio carrega.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<\/p>\n<p>Autores cr\u00edticos como <strong>Struik et al.<\/strong> e <strong>Firn<\/strong>, por exemplo, reconhecem a complexidade dos processos de sinaliza\u00e7\u00e3o e resposta das plantas, mas rejeitam terminologias como \u201cintelig\u00eancia\u201d, \u201caprendizado\u201d, \u201cdecis\u00e3o\u201d ou mesmo \u201cneurobiologia\u201d, por considerarem que esses termos introduzem analogias excessivas com animais e humanos, violam o princ\u00edpio da parcim\u00f4nia e correm o risco de antropomorfismo, como eu disse anteriormente. Para esses autores, as ferramentas cl\u00e1ssicas da fisiologia vegetal, da gen\u00e9tica e da biologia evolutiva seriam suficientes para explicar os fen\u00f4menos em quest\u00e3o, sem a necessidade de recorrer a um l\u00e9xico que, segundo eles, evocaria consci\u00eancia, inten\u00e7\u00e3o ou vontade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>J\u00e1 os proponentes da neurobiologia das plantas \u2013 como <strong>Balu\u0161ka<\/strong>, <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/613125-salvar-se-por-mais-40-anos-artigo-de-stefano-mancuso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Mancuso<\/a>, <strong>Eric\u00a0Brenner<\/strong> e <strong>Trewavas<\/strong> \u2013 n\u00e3o negam a especificidade vegetal nem defendem uma equival\u00eancia direta com sistemas nervosos animais. O que eles colocam em quest\u00e3o \u00e9 justamente o car\u00e1ter antropoc\u00eantrico e restritivo das defini\u00e7\u00f5es tradicionais de termos como intelig\u00eancia, cogni\u00e7\u00e3o ou aprendizado. Para esses autores, o problema n\u00e3o est\u00e1 nos fen\u00f4menos, mas na nossa dificuldade em reconhecer essas capacidades quando elas se expressam de formas radicalmente diferentes das humanas. Da\u00ed a defesa de met\u00e1foras fortes e analogias funcionais, n\u00e3o como descri\u00e7\u00f5es literais, mas como instrumentos heur\u00edsticos capazes de abrir novas perguntas e experimentos.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\nControv\u00e9rsias narrativas&#13;<\/p>\n<p>Nesse sentido, a controv\u00e9rsia n\u00e3o op\u00f5e simplesmente ci\u00eancia \u201crigorosa\u201d a especula\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica. Ela revela uma disputa mais profunda sobre o que conta como explica\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, sobre os limites do <strong>naturalismo moderno<\/strong> e sobre quem tem autoridade para definir os termos atrav\u00e9s dos quais a vida vegetal pode ser conhecida. Como procuro mostrar na disserta\u00e7\u00e3o, trata-se tamb\u00e9m de uma controv\u00e9rsia sobre narrativas: narrativas reducionistas, centradas em c\u00e9lulas e genes, versus \u201cnarrativas mais ricas\u201d, orientadas ao organismo, ao comportamento e aos modos de rela\u00e7\u00e3o, como sugerem <strong>Hustak<\/strong> e <strong>Myers<\/strong>.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Por isso, afirmo que muitas diverg\u00eancias s\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia, disputas sem\u00e2nticas com consequ\u00eancias ontol\u00f3gicas. Discutir se <strong>plantas<\/strong> \u201caprendem\u201d ou apenas \u201cajustam respostas\u201d, se \u201cdecidem\u201d ou apenas \u201cotimizam fun\u00e7\u00f5es\u201d, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o trivial de palavras. Cada escolha vocabular implica uma certa concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 um organismo, de como ele se relaciona com o ambiente e de que tipo de ag\u00eancia lhe pode ser atribu\u00edda. O debate sobre a <strong>neurobiologia das plantas<\/strong>, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas um debate interno \u00e0s ci\u00eancias das plantas, mas um sintoma mais amplo das tens\u00f5es contempor\u00e2neas em torno dos limites do humano, do vivo e do pens\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Como esse conhecimento muda nossa percep\u00e7\u00e3o sobre as plantas?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Esse conhecimento produz um deslocamento profundo na forma como percebemos as plantas \u2013 e, por extens\u00e3o, na forma como nos situamos em rela\u00e7\u00e3o ao mundo vivo. O movimento central n\u00e3o \u00e9 simplesmente passar a \u201csaber mais\u201d sobre as plantas, mas aprender a v\u00ea-las de outro modo. Em vez de organismos passivos, recursos naturais ou pano de fundo da vida animal e humana, as plantas passam a aparecer como presen\u00e7as ativas, dotadas de temporalidades pr\u00f3prias, capacidades relacionais complexas e modos singulares de responder ao ambiente.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Na disserta\u00e7\u00e3o e no artigo, procurei mostrar que esse deslocamento implica abandonar uma postura de dom\u00ednio \u2013 t\u00edpica do naturalismo moderno \u2013 e aproximar-se de uma l\u00f3gica de conviv\u00eancia. Quando reconhecemos que plantas percebem, comunicam-se, lembram experi\u00eancias e ajustam comportamentos, torna-se cada vez mais dif\u00edcil sustent\u00e1-las como simples objetos de manipula\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. O que se altera, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas a descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas o estatuto ontol\u00f3gico que atribu\u00edmos \u00e0s plantas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o exige uma reeduca\u00e7\u00e3o sensorial e intelectual. As <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/noticias\/534212-as-plantas-tem-neuronios-sao-seres-inteligentes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">plantas<\/a> operam em ritmos que frequentemente escapam \u00e0 nossa experi\u00eancia cotidiana: crescem devagar, respondem ao longo de dias, semanas ou esta\u00e7\u00f5es, integram sinais de forma cumulativa. Acompanhar esses processos exige aten\u00e7\u00e3o, paci\u00eancia e disposi\u00e7\u00e3o para desacelerar. N\u00e3o se trata apenas de observar mais, mas de observar de outro modo \u2013 acompanhando fluxos, varia\u00e7\u00f5es, hesita\u00e7\u00f5es, ajustes finos.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Talvez a principal transforma\u00e7\u00e3o que a neurobiologia das plantas promove n\u00e3o esteja nas plantas em si, mas em n\u00f3s \u2013 na maneira como percebemos, narramos e habitamos um mundo compartilhado com outros seres vivos \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nImplica\u00e7\u00e3o \u00e9tica&#13;<\/p>\n<p>Nesse sentido, reconhecer a complexidade da vida vegetal implica tamb\u00e9m uma \u00e9tica. Uma <strong>\u00e9tica do cuidado<\/strong>, da <strong>escuta<\/strong> e da <strong>conviv\u00eancia<\/strong>, que n\u00e3o projeta imediatamente categorias humanas sobre as plantas, mas tampouco as reduz a aut\u00f4matos silenciosos. Trata-se de aprender a acompanhar sem acelerar, a descrever sem violentar os tempos pr\u00f3prios do vegetal, a reconhecer que nem toda forma de intelig\u00eancia ou sensibilidade se manifesta de maneira r\u00e1pida, ruidosa ou centrada.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Por fim, esse conhecimento nos devolve uma pergunta inc\u00f4moda: se as plantas nunca foram simples pano de fundo, mas sempre estiveram ativamente engajadas na produ\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida no planeta, o que diz sobre n\u00f3s o fato de termos aprendido a ignor\u00e1-las? Talvez a principal transforma\u00e7\u00e3o que a neurobiologia das plantas promove n\u00e3o esteja nas plantas em si, mas em n\u00f3s \u2013 na maneira como percebemos, narramos e habitamos um mundo compartilhado com outros seres vivos.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Quais mist\u00e9rios das plantas ainda chamam sua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Talvez os mist\u00e9rios que mais me atraem sejam justamente aqueles que colocam em crise as categorias mais arraigadas do pensamento moderno. A mem\u00f3ria sem c\u00e9rebro, por exemplo, desafia a associa\u00e7\u00e3o quase autom\u00e1tica entre mem\u00f3ria e sistema nervoso central. <strong>Plantas<\/strong> s\u00e3o capazes de registrar experi\u00eancias passadas \u2013 estresses h\u00eddricos, ataques de herb\u00edvoros, varia\u00e7\u00f5es ambientais \u2013 e mobilizar essas informa\u00e7\u00f5es em respostas futuras, sem que isso passe por estruturas an\u00e1logas \u00e0s nossas. Trata-se de uma mem\u00f3ria incorporada, distribu\u00edda pelo corpo, inscrita em tecidos, fluxos e ritmos fisiol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Algo semelhante ocorre com a ideia de decis\u00e3o. Falar em decis\u00e3o sem centro \u2013 sem um \u00f3rg\u00e3o soberano que delibera \u2013 nos obriga a pensar em formas de ag\u00eancia que emergem da integra\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos processos locais. A <strong>decis\u00e3o vegetal<\/strong> n\u00e3o \u00e9 um ato pontual, mas um ajuste cont\u00ednuo, cumulativo, muitas vezes revers\u00edvel. O mesmo vale para a comunica\u00e7\u00e3o sem linguagem: plantas trocam informa\u00e7\u00f5es por sinais qu\u00edmicos, el\u00e9tricos e hidr\u00e1ulicos, por vias a\u00e9reas e subterr\u00e2neas, sem que isso se organize em c\u00f3digos simb\u00f3licos nos moldes humanos. Mas talvez o mist\u00e9rio mais profundo seja a <strong>temporalidade vegetal<\/strong>. As plantas vivem em um tempo que raramente coincide com o nosso. Esse descompasso temporal desafia n\u00e3o apenas nossa percep\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m nossas formas de descri\u00e7\u00e3o e escrita.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Plantas s\u00e3o capazes de registrar experi\u00eancias passadas \u2013 estresses h\u00eddricos, ataques de herb\u00edvoros, varia\u00e7\u00f5es ambientais \u2013 e mobilizar essas informa\u00e7\u00f5es em respostas futuras, sem que isso passe por estruturas an\u00e1logas \u00e0s nossas \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 As florestas podem nos salvar do aquecimento global, <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/660050-stefano-mancuso-neurobiologo-as-florestas-sao-a-unica-coisa-que-nos-salvara-do-aquecimento-global\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">como disse recentemente Stefano Mancuso<\/a>?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Concordo com Stefano Mancuso quando ele afirma que as florestas s\u00e3o fundamentais para o enfrentamento da crise clim\u00e1tica, mas gostaria de complementar. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as florestas desempenham um papel decisivo na regula\u00e7\u00e3o do clima, no ciclo da \u00e1gua, no sequestro de carbono, na manuten\u00e7\u00e3o dos solos e na sustenta\u00e7\u00e3o de uma biodiversidade sem a qual a vida planet\u00e1ria entra em colapso. Qualquer estrat\u00e9gia minimamente s\u00e9ria de enfrentamento das <strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong> passa, necessariamente, pela preserva\u00e7\u00e3o e recomposi\u00e7\u00e3o dos sistemas florestais.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>No entanto, me parece insuficiente \u2013 e at\u00e9 perigoso \u2013 imaginar que as florestas, por si s\u00f3, nos \u201csalvar\u00e3o\u201d. Esse tipo de formula\u00e7\u00e3o corre o risco de manter intacta uma l\u00f3gica instrumental, na qual as florestas aparecem como solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas ou servi\u00e7os ecossist\u00eamicos capazes de compensar os efeitos de um modelo de desenvolvimento predat\u00f3rio, sem que esse modelo seja efetivamente questionado. Nesse sentido, a pergunta n\u00e3o deveria ser apenas se as florestas podem nos salvar, mas como aprendemos \u2013 ou n\u00e3o \u2013 a habitar as florestas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Florestas s\u00e3o sistemas cooperativos, distribu\u00eddos, sem centro, baseados em interdepend\u00eancia, comunica\u00e7\u00e3o silenciosa e ajustes finos entre m\u00faltiplos organismos \u2013 incluindo, de forma decisiva, seres humanos \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nCaso brasileiro&#13;<\/p>\n<p>No caso brasileiro, essa quest\u00e3o \u00e9 incontorn\u00e1vel. As \u00e1reas mais bem preservadas do territ\u00f3rio nacional coincidem, de forma consistente, com as <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/563634-florestas-em-terras-indigenas-podem-render-trilhoes-de-reais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Terras Ind\u00edgenas<\/a>\u00a0e com os territ\u00f3rios ocupados por <strong>povos origin\u00e1rios<\/strong> e <strong>popula\u00e7\u00f5es tradicionais<\/strong>. Isso n\u00e3o \u00e9 um efeito colateral, nem uma coincid\u00eancia hist\u00f3rica, mas o resultado direto de modos espec\u00edficos de rela\u00e7\u00e3o com o ambiente, baseados em formas de manejo, uso e ocupa\u00e7\u00e3o que reconhecem a floresta como um sistema vivo, relacional e historicamente constru\u00eddo. A <strong>conserva\u00e7\u00e3o da sociobiodiversidade no Brasil<\/strong> n\u00e3o pode ser dissociada da presen\u00e7a ativa desses povos e de seus regimes pr\u00f3prios de conhecimento, territorialidade e cuidado. Portanto, \u00e9 preciso reconhecer que <strong>florestas<\/strong> n\u00e3o s\u00e3o apenas conjuntos de \u00e1rvores ou estoques de carbono, mas paisagens habitadas, produzidas ao longo de gera\u00e7\u00f5es por intera\u00e7\u00f5es complexas entre humanos e n\u00e3o humanos. Florestas s\u00e3o sistemas cooperativos, distribu\u00eddos, sem centro, baseados em interdepend\u00eancia, comunica\u00e7\u00e3o silenciosa e ajustes finos entre m\u00faltiplos organismos \u2013 incluindo, de forma decisiva, seres humanos.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>A <strong>neurobiologia das plantas<\/strong> contribui para essa reflex\u00e3o ao mostrar que os sistemas vegetais n\u00e3o s\u00e3o passivos, mas ativos, sens\u00edveis e estrategicamente ajustados ao ambiente. No entanto, sem o di\u00e1logo com os conhecimentos ind\u00edgenas e tradicionais \u2013 que h\u00e1 muito reconhecem a ag\u00eancia das plantas, das florestas e dos territ\u00f3rios \u2013 essa contribui\u00e7\u00e3o corre o risco de permanecer incompleta ou capturada por solu\u00e7\u00f5es tecnocr\u00e1ticas. Salvar florestas sem garantir os direitos territoriais dos povos que as habitam, sem reconhecer seus conhecimentos e sem transformar radicalmente nossas formas de produ\u00e7\u00e3o, consumo e rela\u00e7\u00e3o com o mundo vivo, \u00e9 apenas adiar o colapso.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Talvez, mais do que esperar que as <strong>florestas<\/strong> nos salvem, o desafio posto seja outro: reaprender com aqueles que nunca deixaram de viver com elas.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 O que o ser humano poderia aprender com as plantas?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Talvez as plantas nos ensinem, antes de tudo, a viver sem centro. A existir sem um comando \u00fanico, sem a necessidade de controle absoluto. Elas persistem sem pressa, ajustam-se continuamente \u00e0s circunst\u00e2ncias, cooperam sem hierarquia expl\u00edcita, sem l\u00edderes, sem planos gerais.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>As plantas mostram que intelig\u00eancia n\u00e3o precisa ser ruidosa, veloz ou espetacular. Ela pode ser silenciosa, distribu\u00edda, quase impercept\u00edvel. Existir, nesse registro, \u00e9 um exerc\u00edcio cont\u00ednuo de ajuste: inclinar-se quando necess\u00e1rio, resistir quando poss\u00edvel, recuar sem desaparecer. H\u00e1 a\u00ed uma li\u00e7\u00e3o profunda para uma humanidade acostumada a associar intelig\u00eancia \u00e0 acelera\u00e7\u00e3o, \u00e0 expans\u00e3o e ao dom\u00ednio.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Ainda n\u00e3o fomos educados para conviver com elas?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> De modo geral fomos educados para ignor\u00e1-las. Para v\u00ea-las como pano de fundo, recurso, mat\u00e9ria-prima ou paisagem. Desde cedo, aprendemos a reconhecer animais carism\u00e1ticos, a nomear estrelas distantes, a valorizar m\u00e1quinas complexas \u2013 mas raramente aprendemos a prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s plantas que sustentam silenciosamente nossas vidas.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Recuperar essa conviv\u00eancia exige uma reeduca\u00e7\u00e3o profunda. Reaprender a perceber, a esperar, a escutar. Exige outra pol\u00edtica da aten\u00e7\u00e3o, menos orientada \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e mais \u00e0 conviv\u00eancia. N\u00e3o se trata de romantizar as <a href=\"https:\/\/ihu.unisinos.br\/categorias\/186-noticias-2017\/563634-florestas-em-terras-indigenas-podem-render-trilhoes-de-reais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">plantas<\/a>, mas de reconhecer que nossa sobreviv\u00eancia est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 capacidade de habitar um mundo compartilhado com outros seres vivos.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Talvez seja isso que este tempo nos pede, menos explica\u00e7\u00e3o e mais aten\u00e7\u00e3o. Menos controle e mais escuta. Menos ru\u00eddo, mais ra\u00edzes \u2013 Guilherme Soares<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p><strong>Guilherme Soares \u2013<\/strong> Talvez apenas isto: estudar plantas me ensinou que pensar n\u00e3o \u00e9 apenas um ato mental. Pensar pode ser crescer, inclinar-se, resistir ao vento e insistir na luz. Pode ser persistir sem pressa, ajustar-se sem desaparecer.<\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Talvez seja isso que este tempo nos pede, menos explica\u00e7\u00e3o e mais aten\u00e7\u00e3o. Menos controle e mais escuta. Menos ru\u00eddo, mais ra\u00edzes.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nLeia mais&#13;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#13; Por: Patricia Fachin | 08 Janeiro 2026 &#13; Longe de ser um campo de estudo estritamente biol\u00f3gico,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":220286,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[84],"tags":[109,107,108,7954,6393,42670,42665,42669,9767,32,33,105,103,104,42666,106,110,42668,42667],"class_list":{"0":"post-220285","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ciencia-e-tecnologia","8":"tag-ciencia","9":"tag-ciencia-e-tecnologia","10":"tag-cienciaetecnologia","11":"tag-florestas","12":"tag-mudanca-climatica","13":"tag-naturalismo","14":"tag-neurobiologia-das-plantas","15":"tag-neurobiologia-vegetal","16":"tag-planta","17":"tag-portugal","18":"tag-pt","19":"tag-science","20":"tag-science-and-technology","21":"tag-scienceandtechnology","22":"tag-stefano-mancuso","23":"tag-technology","24":"tag-tecnologia","25":"tag-viarda-vegetal","26":"tag-vida-vegetal"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115858884915435793","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220285","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=220285"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220285\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/220286"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=220285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=220285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=220285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}