{"id":22178,"date":"2025-08-09T09:51:19","date_gmt":"2025-08-09T09:51:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/22178\/"},"modified":"2025-08-09T09:51:19","modified_gmt":"2025-08-09T09:51:19","slug":"no-subsolo-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/22178\/","title":{"rendered":"No subsolo de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\">Assine a revista National Geographic agora por apenas <b>1\u20ac por m\u00eas<\/b>.<\/p>\n<p><strong>Asma, h\u00e9rnias, claustrofobia\u00a0e mais uma longa lista de condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas <\/strong>fazem parte da ficha individual de autoriza\u00e7\u00e3o que somos \u00a0obrigados a preencher para aceder ao monumental, mas pouco glamoroso, ambiente que aguarda por n\u00f3s alguns lan\u00e7os de escadas abaixo. Esta ser\u00e1 a terceira tentativa de descida. As anteriores tiveram de ser canceladas devido \u00e0s fortes chuvadas que se abateram sobre a capital nos dias anteriores e que alagaram os canais que escorrem por baixo \u00a0das ruas de Campolide, onde \u00a0nos encontramos.<\/p>\n<p><strong>Fernando Fernandes, um veterano da Divis\u00e3o de Saneamento<\/strong> do\u00a0munic\u00edpio, \u00e9 o nosso guia. Nos \u00faltimos 35 anos, calcorreou\u00a0uma boa parte dos <strong>1.650 quil\u00f3metros da rede de drenagem\u00a0da cidade<\/strong>. Trabalhou dez anos no Departamento das Zonas Ajardinadas, mas a rotina e a falta de aventura levaram-no a mudar para o sistema excretor da cidade. \u201cFoi aqui que ganhei os cabelos brancos e que descobri a minha voca\u00e7\u00e3o\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a ribeira de Alc\u00e2ntara corria a c\u00e9u aberto<\/strong> e, nas suas margens, as lavadeiras tratavam da roupa de fam\u00edlias mais abastadas, embora se soubesse, logo no s\u00e9culo XVIII, que aquele curso de \u00e1gua era insalubre. \u201cJ\u00e1 no s\u00e9culo XV Dom Jo\u00e3o II ordenara que se limpassem \u2018os canos de Lisboa\u2019 na sequ\u00eancia de uma epidemia de peste\u201d, comenta o\u00a0t\u00e9cnico da autarquia. Antes, no s\u00e9culo XIII, o largo esteiro que atravessava a actual <strong>Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio<\/strong> e conduzia os dejectos urbanos at\u00e9 ao rio Tejo era conhecido na cartografia e na documenta\u00e7\u00e3o com o sugestivo \u2013 e perturbador \u2013 nome de <strong>Rego Merdeiro<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Entre 1850 e meados do s\u00e9culo XX<\/strong>, o expressivo aumento demogr\u00e1fico da cidade, sobretudo \u00e0 custa da<strong> migra\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es do interior para as grandes cidades<\/strong>, permitiu a duplica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o da capital e acelerou a necessidade de refor\u00e7ar os<strong> incipientes sistemas de drenagem de efluentes dom\u00e9sticos<\/strong>. Ali\u00e1s, a percep\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre a efici\u00eancia do descarte das \u00e1guas sujas e a sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 antiga. A obra que viria a ficar conhecida como <strong>caneiro de Alc\u00e2ntara<\/strong> come\u00e7ou a ser projectada em 1930, mas s\u00f3 foi inaugurada em <strong>1968<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Para descer \u00e0s profundezas de Lisboa<\/strong>, temos de vestir fato completo de protec\u00e7\u00e3o, capacete, luvas, m\u00e1scara, botas altas de biqueira-de-a\u00e7o e usar lanternas frontais e <strong>um sofisticado dispositivo de detec\u00e7\u00e3o de gases t\u00f3xicos<\/strong>. Enquanto nos preparamos, lembram-nos de que, em 1997, tr\u00eas oper\u00e1rios viram as suas vidas ceifadas pelo g\u00e1s sulf\u00eddrico no interceptor Alg\u00e9s-Alc\u00e2ntara. O acesso que escolhemos \u00e9 provavelmente o segmento mais fotog\u00e9nico desta estrutura, onde os <strong>canais de Benfica e de Sete Rios <\/strong>se encontram, mas o ar \u00e9 h\u00famido e pesado e nem as m\u00e1scaras disfar\u00e7am o <strong>odor a esgoto<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/monumentalidade-do-espaco_21d89a4f_250714171222_800x533.webp.webp\" alt=\"Monumentalidade do espa\u00e7o\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"533\" data-aspectratio=\"800\/533\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>Apesar da monumentalidade do espa\u00e7o, a experi\u00eancia plena do caneiro de Alc\u00e2ntara s\u00f3 fica completa com o inconfund\u00edvel odor a esgoto. Os t\u00e9cnicos que asseguram a manuten\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia desta infra-estrutura temem sobretudo os gases t\u00f3xicos e o perigo de quedas e arrastamento.<\/p>\n<p>As equipas da autarquia, como a que acompanhamos hoje, fazem <strong>visitas de emerg\u00eancia e de monitoriza\u00e7\u00e3o<\/strong>, pois est\u00e1 em curso <strong>uma obra com repercuss\u00f5es profundas no sistema de saneamento<\/strong>. No interior da ampla galeria, uma torrente castanha-esverdeada encaminha-se em direc\u00e7\u00e3o ao Tejo, mas det\u00e9m-se na esta\u00e7\u00e3o de tratamento. O vale \u00e9 hoje muito diferente do que aquele que se v\u00ea nas fotografias com mais de cem anos dispon\u00edveis nos arquivos fotogr\u00e1ficos. A carga urban\u00edstica \u00e9 incompar\u00e1vel, o arvoredo \u00e9 mais exuberante do que h\u00e1 um s\u00e9culo e as lavadeiras desapareceram.<\/p>\n<blockquote>\n<p>As obras do Plano Geral de Drenagem de Lisboa respondem a uma necessidade b\u00e1sica: a drenagem de \u00e1guas e efluentes por ac\u00e7\u00e3o da gravidade em direc\u00e7\u00e3o ao rio e ao mar.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>At\u00e9 ao final de 2022, a <strong>Quinta do Z\u00e9 Pinto, em Campolide<\/strong>, era um espa\u00e7o com vista privilegiada sobre Monsanto e o vale de Alc\u00e2ntara, mas agora \u00e9 uma cratera onde labora uma profus\u00e3o de maquinaria pesada. Mesmo ao lado, na <strong>Quinta da Rabicha<\/strong>, tamb\u00e9m esventrada pela obra, h\u00e1 mem\u00f3ria de um piquenique hist\u00f3rico em 1860 onde ter\u00e3o estado os jovens Ramalho Ortig\u00e3o e Antero de Quental.<\/p>\n<p>Agora, parece a cratera de um meteorito colossal ca\u00eddo na cidade sem que ningu\u00e9m tenha dado por ele.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das faces vis\u00edveis do <a href=\"https:\/\/planodrenagem.lisboa.pt\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>Plano Geral de Drenagem de Lisboa<\/strong><\/a> (PGDL). O plano estava no papel desde 2008, o que significa que atravessou os gabinetes de cinco executivos camar\u00e1rios desde ent\u00e3o (e o sexto chegar\u00e1 no Outono deste ano), mas <strong>a obra s\u00f3 arrancou em pleno em 2022<\/strong>. Literal e metaforicamente, \u00e9 uma engrenagem complexa que combina bacias de reten\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto para <strong>refor\u00e7o da capacidade de colectores e melhoria da capta\u00e7\u00e3o superficial, sarjetas e sumidouros <\/strong>existentes e a incrementar. No entanto, as obras mais desafiantes e medi\u00e1ticas s\u00e3o dois t\u00faneis para desvio de caudais: o<strong> t\u00fanel Chelas-Beato<\/strong>, com cerca de um quil\u00f3metro, e o <strong>t\u00fanel Monsanto\/Santa Apol\u00f3nia<\/strong> com cerca de cinco quil\u00f3metros. Estes t\u00faneis com <strong>5,5 metros de di\u00e2metro interior<\/strong> v\u00e3o trespassar o cora\u00e7\u00e3o da cidade e implicar a desloca\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de terra.<\/p>\n<p>A cratera, entalada entre a Rua de Campolide e a esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria do mesmo bairro, ser\u00e1 um enorme reservat\u00f3rio subterr\u00e2neo e \u00e9 tamb\u00e9m por agora a porta de entrada da <strong><a href=\"https:\/\/informacao.lisboa.pt\/noticias\/detalhe\/tuneladora-do-pgdl-chegou-ao-estaleiro-em-campolide\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">tuneladora<\/a>, uma toupeira gigante que anteriormente ajudou a abrir os t\u00faneis do metropolitano de Copenhaga <\/strong>e que tem vindo a escavar em Lisboa \u00e0 medida que se encaminha com um declive ligeiro para o Tejo. A realiza\u00e7\u00e3o dos t\u00faneis de drenagem de Lisboa, que promete uma mudan\u00e7a invis\u00edvel na cidade, tem um custo global estimado de <strong>cerca duzentos milh\u00f5es de euros<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Silva Ferreira, engenheiro electrot\u00e9cnico e coordenador do PGDL<\/strong>, recebe-nos no estaleiro. O porte atl\u00e9tico, de que a participa\u00e7\u00e3o em mais de cem meias-maratonas \u00e9 um testemunho inequ\u00edvoco, n\u00e3o deixa antever os seus 73 anos. O funcion\u00e1rio da autarquia, que se licenciou em Luanda e trabalhou em Angola, em Berlim Ocidental e em Macau, precisou de uma autoriza\u00e7\u00e3o \u00a0especial para se manter ao servi\u00e7o at\u00e9 aos 75 anos, altura em que espera que a obra \u00a0esteja conclu\u00edda.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>O bolo de camadas sucessivas que corresponde \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o de Lisboa \u00e9 riqu\u00edssimo e passa-se naturalmente abaixo das actuais ruas da Baixa onde circulam cada vez mais turistas.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/dois-tuneis-com-55-metros-de-diametro_35773136_250714170414_800x533.webp.webp\" alt=\"Jos\u00e9 Silva Ferreira\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"533\" data-aspectratio=\"800\/533\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>A maior obra da capital passa despercebida \u00e0 superf\u00edcie. Os dois t\u00faneis com 5,5 metros de di\u00e2metro interior (um com cinco quil\u00f3metros de comprimento e outro com mil metros) rasgam o subsolo da cidade e integram o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, empreitada coordenada pelo engenheiro electrot\u00e9cnico Jos\u00e9 Silva Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cSe tudo correr bem, ningu\u00e9m dar\u00e1 por ela\u201d, lembra o engenheiro. <strong>Lisboa tem um longo cadastro de inunda\u00e7\u00f5es<\/strong>. Na mem\u00f3ria dos mais velhos, ainda est\u00e3o as fat\u00eddicas cheias da madrugada de <strong>26 de Novembro de 1967<\/strong>. Quando as \u00e1guas recuaram, tinham-se perdido pelo menos setecentas vidas.<\/p>\n<p>Uma calamidade desta magnitude n\u00e3o tornou a repetir-se, mas as cheias causam todos os anos danos materiais e com frequ\u00eancia ceifam vidas. Estes eventos clim\u00e1ticos s\u00e3o respons\u00e1veis em Portugal por <strong>80% das indemniza\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas por cat\u00e1strofes naturais e o\u00a0cen\u00e1rio pode agravar-se com as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas <\/strong>que est\u00e3o a produzir fen\u00f3menos de concentra\u00e7\u00e3o da precipita\u00e7\u00e3o em intervalos de tempo mais curtos. Os cen\u00e1rios mais pessimistas prev\u00eaem <strong>subidas dr\u00e1sticas do n\u00edvel m\u00e9dio das \u00e1guas do mar <\/strong>e isso afectar\u00e1 muitas cidades costeiras, como Lisboa.<\/p>\n<p>No t\u00fanel, que avan\u00e7a a um <strong>ritmo m\u00e9dio dez metros por dia<\/strong>, s\u00f3 est\u00e3o autorizadas vinte pessoas de cada vez, por quest\u00f5es de seguran\u00e7a. Cada um de n\u00f3s transporta um localizador, que assegura que se fique dentro deste limite e que ajudar\u00e1 \u2013 no pior cen\u00e1rio \u2013 a <strong>localizar v\u00edtimas em caso de acidente<\/strong>. \u00c0 data em que caminhamos nas profundezas, a tuneladora j\u00e1 cumpriu mais de meio caminho e a viagem at\u00e9 \u00e0 frente de obra tem de ser feita num pequeno ve\u00edculo motorizado. \u00c0 entrada, <strong>um pequeno altar com uma imagem de Santa B\u00e1rbara, padroeira dos mineiros<\/strong> \u2013 e por arrasto de todos os trabalhadores do subsolo \u2013 relembra a import\u00e2ncia de manter a vigil\u00e2ncia a toda a hora.<\/p>\n<p>Ao fundo, uma c\u00e2mara, que faz lembrar um submarino com capacidade para vinte pessoas onde os oper\u00e1rios se devem refugiar em caso de acidente, \u00e9 mais um lembrete de que este \u00e9 <strong>um ambiente hostil, onde as regras de seguran\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o negoci\u00e1veis<\/strong>.<\/p>\n<p>Quando pergunto se j\u00e1 ocorreu algum acidente grave desde o in\u00edcio da empreitada, vejo os semblantes transtornados e arrependo-me de ter perguntado. Logo no in\u00edcio da obra, <strong>um oper\u00e1rio que chegara do Mali h\u00e1 apenas um m\u00eas perdeu a vida<\/strong>, esmagado por uma das m\u00e1quinas que escavava o buraco por onde descemos.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cNo fim da obra, teremos deslocado meio milh\u00e3o de metros c\u00fabicos de terra, um volume 13 vezes superior ao do edif\u00edcio dos Pa\u00e7os do Concelho.\u201d<\/p>\n<p>(Jos\u00e9 Silva Ferreira)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A v\u00edtima era um dos representantes da <strong>imensa diversidade de nacionalidades<\/strong> que se cruzam aqui. O estaleiro parece uma torre de Babel e diferentes pe\u00e7as desta complexa engrenagem s\u00e3o subcontratadas a empresas estrangeiras. \u201cA tuneladora propriamente dita foi montada e \u00e9 operada por<strong> t\u00e9cnicos franceses<\/strong>, mas a passadeira que cresce todos os dias e que recolhe o solo que vai sendo escavado \u00e9 da responsabilidade de uma <strong>empresa chinesa<\/strong>\u201d, diz Jos\u00e9 Silva Ferreira. A manuten\u00e7\u00e3o de todos estes instrumentos afinados e a capacidade de os articular \u00e9 uma tarefa desafiante que por vezes justifica que o avan\u00e7o n\u00e3o se fa\u00e7a ao ritmo pretendido.<\/p>\n<p>A passadeira rolante encaminha a terra removida para a entrada. \u201cNo fim da obra, ter\u00e1 deslocado <strong>meio milh\u00e3o de metros c\u00fabicos de terra, um volume 13 vezes superior ao do edif\u00edcio dos Pa\u00e7os do Concelho<\/strong>\u201d, explica o engenheiro. \u00a0A cada 180 cent\u00edmetros de avan\u00e7o da tuneladora, entra no t\u00fanel um ve\u00edculo que transporta seis aduelas de bet\u00e3o, pesando quatro toneladas cada, que constituem mais um anel da estrutura. <strong>Num dia sem percal\u00e7os, esta opera\u00e7\u00e3o pode repetir-se dez vezes. <\/strong>A obra nunca p\u00e1ra e os funcion\u00e1rios fazem diariamente 3 turnos de 8 horas, 7 dias por semana, a profundidades que podem atingir mais de 70 metros. Por cima das nossas cabe\u00e7as, est\u00e3o pr\u00e9dios de habita\u00e7\u00e3o num dos pontos em que o t\u00fanel passa a maior profundidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tampa-levanta-se-em-plena-faixa-de-rodagem-da-rua-da-conceicao_43e1246b_250714164941_800x1200.webp.webp\" alt=\"Tampa levanta-se em plena faixa de rodagem da Rua da Concei\u00e7\u00e3o\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"1200\" data-aspectratio=\"800\/1200\"\/>&#13;RICARDO OLIVEIRA ALVES<\/p>\n<p>Duas vezes por ano, uma tampa levanta-se em plena faixa de rodagem da Rua da Concei\u00e7\u00e3o, dando acesso a uma escada estreita que conduz a um dos espa\u00e7os museol\u00f3gicos mais ins\u00f3litos da cidade.<\/p>\n<p>Alguns dias antes, para surpresa de todos no estaleiro, chegou <strong>um telefonema com uma queixa de ru\u00eddo<\/strong>. Os t\u00e9cnicos deslocaram-se ao domic\u00edlio do queixoso para verificar se a fonte era efectivamente aquela obra e para sua surpresa, <strong>mesmo a 60 metros de profundidade, as vibra\u00e7\u00f5es da tuneladora ressoavam nitidamente naquela habita\u00e7\u00e3o<\/strong>. \u201cOs n\u00edveis de ru\u00eddo, que se assemelhavam ao de uma m\u00e1quina de lavar roupa, ficavam, no entanto, aqu\u00e9m dos limites legais e a velocidade da obra n\u00e3o prolongou o inc\u00f3modo por mais de meia d\u00fazia de dias\u201d, diz Ferreira.<\/p>\n<p>Como o caneiro oito d\u00e9cadas antes, as obras do PGDL respondem a <strong>uma necessidade b\u00e1sica: a drenagem de \u00e1guas e efluentes por ac\u00e7\u00e3o da gravidade em direc\u00e7\u00e3o ao rio e ao mar<\/strong>. No entanto, o subsolo de uma metr\u00f3pole antiga como Lisboa foi cen\u00e1rio de muitas obras contempor\u00e2neas e antigas. A caracter\u00edstica mais prevalecente de uma cidade \u00e9 a sua densidade, e isso explica o seu crescimento em altura e profundidade. Al\u00e9m das redes de abastecimento de \u00e1gua, energia, telecomunica\u00e7\u00f5es e dados, <strong>o subsolo foi conquistado para expandir redes de transportes e lugares de estacionamento<\/strong>.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio colectivo e em obras de fic\u00e7\u00e3o, os dom\u00ednios de Hades s\u00e3o com frequ\u00eancia associados a um lugar mais pr\u00f3prio para sepultar os mortos ou onde subsistem sociedades dist\u00f3picas, mas em regi\u00f5es em que as temperaturas sobem acima do suport\u00e1vel <strong>a in\u00e9rcia t\u00e9rmica do subsolo \u00e9 verdadeiramente tentadora<\/strong>. Em Lisboa, por\u00e9m, \u00e9 o estacionamento de ve\u00edculos que tem alimentado muitas das obras de refor\u00e7o do subsolo e essas obras entreabrem janelas para o passado.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVII, o dinamarqu\u00eas <a href=\"https:\/\/www.britannica.com\/biography\/Nicolaus-Steno\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Nicolaus Steno<\/a> demonstrou que<strong> a sucess\u00e3o do tempo podia ser intu\u00edda atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o dos dep\u00f3sitos geol\u00f3gicos <\/strong>e mais tarde percebeu-se que o mesmo princ\u00edpio se aplicava ao registo arqueol\u00f3gico. A fixa\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es humanas na regi\u00e3o que hoje \u00e9 Lisboa \u00e9 muito antiga e <strong>todos os empreiteiros experientes sabem e temem que obras que impliquem a mobiliza\u00e7\u00e3o dos solos possam produzir achados arqueol\u00f3gicos<\/strong> e subsequentes derrapagens nos encargos e prazos. Calcula-se que <strong>cerca de 3% do or\u00e7amento do PGDL <\/strong>seja investido no estudo e resgate dos achados arqueol\u00f3gicos. E alguns desses achados est\u00e3o a reescrever os manuais de hist\u00f3ria.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cDesde os fen\u00edcios que a chegada e partida de navios foi uma constante e marcou o ritmo da vida na cidade. O rio \u00e9 o sistema circulat\u00f3rio e agora temos mais pe\u00e7as desse puzzle.\u201d<\/p>\n<p>(Paulo Almeida Fernandes)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/nucleo-arqueologico-da-rua-dos-correeiros_8bdcd070_250714165816_800x1200.webp.webp\" alt=\"N\u00facleo Arqueol\u00f3gico da Rua dos Correeiros\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"1200\" data-aspectratio=\"800\/1200\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>No N\u00facleo Arqueol\u00f3gico da Rua dos Correeiros, t\u00e9cnicas museol\u00f3gicas modernas ajudam os visitantes a interpretar os vest\u00edgios deixados pelos primeiros habitantes da cidade. Entre os s\u00e9culos V e IV a.C. teria existido aqui um complexo habitacional rudimentar de que sobreviveram lareiras com base de seixos recolhidos no Tejo.<\/p>\n<p>Em 2015, durante o restauro de um edif\u00edcio na frente ribeirinha pr\u00f3xima da Casa dos Bicos, foi <strong>descoberta uma estela fen\u00edcia <\/strong>que mereceu destaque nas p\u00e1ginas desta revista. Quase uma d\u00e9cada mais tarde, essa pe\u00e7a faz parte do valioso esp\u00f3lio exposto no Hotel\u00a0Aurea Museum, o empreendimento que nasceu depois desse af\u00e3 construtivo. \u00c9 aqui que encontramos o <strong>historiador de arte <a href=\"https:\/\/institutodehistoriadaarte.com\/paulo-almeida-fernandes\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Paulo Almeida Fernandes<\/a><\/strong>. Tr\u00eas metros abaixo do que \u00e9 hoje o n\u00edvel da rua, existe um espa\u00e7o expositivo que preserva as <strong>cet\u00e1rias romanas para salga e preparados de pescado<\/strong>. Paulo trabalhou no Instituto Portugu\u00eas do Patrim\u00f3nio e na C\u00e2mara Municipal de Mafra antes de rumar em 2014 \u00e0 sua cidade natal, onde coordena o servi\u00e7o de<strong> investiga\u00e7\u00e3o e invent\u00e1rio do Museu de Lisboa<\/strong>. \u00c9 tamb\u00e9m o maior especialista portugu\u00eas no Caminho de Santiago.<\/p>\n<p><strong>O terramoto de 1755 foi uma trag\u00e9dia, mas tamb\u00e9m uma oportunidade <\/strong>para aceder a um passado escondido no subsolo que incluiu a <strong>descoberta do teatro e criptop\u00f3rtico romanos<\/strong>. No s\u00e9culo XX, as obras de constru\u00e7\u00e3o da rede do metropolitano abriram literalmente novas vias de acesso ao registo do passado preservado sob os nossos p\u00e9s. \u201cA arqueologia em Lisboa tem andado \u00e0 velocidade dos parques de estacionamento e dos hot\u00e9is\u201d, lamenta o historiador. Embora a hist\u00f3ria do passado da cidade esteja delineada em linhas gerais, \u00e9 expect\u00e1vel que futuras obras, algumas das quais j\u00e1 anunciadas, possam esclarecer as d\u00favidas que apaixonam os historiadores, como a localiza\u00e7\u00e3o do f\u00f3rum romano. \u201cA hist\u00f3ria e a arqueologia t\u00eam provado que esta foi sempre <strong>uma cidade multi\u00e9tnica,\u00a0multirracial, multiconfessional<\/strong>\u201d, diz Fernandes. \u201cDesde os fen\u00edcios que a chegada e partida de navios foi uma constante e marcou o ritmo da vida na cidade. O rio \u00e9 o sistema circulat\u00f3rio e, agora, temos mais pe\u00e7as desse puzzle.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/hotel-aurea-museum_83015761_250714170703_800x535.webp.webp\" alt=\"Hotel Aurea Museum\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"535\" data-aspectratio=\"800\/535\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>Hoje, \u00e9 um confort\u00e1vel hotel, mas antes disso foi uma f\u00e1brica e muito antes um local de enterramento do Neol\u00edtico e da Idade do Ferro. Paulo Almeida Fernandes sente-se em casa no espa\u00e7o museol\u00f3gico do Hotel Aurea Museum, cuja requalifica\u00e7\u00e3o trouxe \u00e0 tona uma das mais not\u00e1veis pe\u00e7as de arqueologia da capital, uma estela funer\u00e1ria com inscri\u00e7\u00f5es fen\u00edcias.<\/p>\n<p><strong>As cidades reconstroem-se nos despojos de grandes cat\u00e1strofes e Lisboa tem sido ciclicamente assolada por infort\u00fanios.<\/strong> Em 1988, um inc\u00eandio cravou uma estaca no cora\u00e7\u00e3o da cidade. O inc\u00eandio da madrugada de 25 de Agosto consumiu 18 edif\u00edcios, incluindo os ic\u00f3nicos armaz\u00e9ns do Chiado e do Grandella e ceifou duas vidas. A reconstru\u00e7\u00e3o foi pol\u00e9mica e arrastou-se por mais de uma d\u00e9cada. Vale a pena reconhecer que, em <strong>finais da d\u00e9cada de 1980<\/strong>, ainda antes deste sinistro, j\u00e1 a Baixa e o Chiado davam sinais de uma crise identit\u00e1ria e de decad\u00eancia. As antigas lojas e pastelarias de prest\u00edgio perdiam brilho para os novos centros comerciais e at\u00e9 a banca, historicamente sediada na Baixa Pombalina, procurava agora edif\u00edcios mais modernos noutras \u00e1reas da cidade.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00c9 expect\u00e1vel que futuras obras possam esclarecer as d\u00favidas que apaixonam os historiadores, como a localiza\u00e7\u00e3o do f\u00f3rum romano.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Foi justamente nesse momento, e em contra-ciclo, que <strong>o Millennium BCP decidiu investir na requalifica\u00e7\u00e3o do seu edif\u00edcio-sede em plena Baixa Pombalina<\/strong>, a 150 metros dos quarteir\u00f5es queimados pelas chamas. Vivia-se o apogeu da cultura do autom\u00f3vel e uma das componentes do projecto era um generoso <strong>estacionamento subterr\u00e2neo<\/strong>. O sonho foi precocemente amputado e hoje existe apenas um ex\u00edguo estacionamento reservado \u00e0 administra\u00e7\u00e3o porque <strong>os achados arqueol\u00f3gicos foram t\u00e3o extraordin\u00e1rios que n\u00e3o eram compat\u00edveis com o simples estudo e preserva\u00e7\u00e3o de objectos ex situ<\/strong>.<\/p>\n<p>A escava\u00e7\u00e3o, de onde foram retirados tr\u00eas mil metros c\u00fabicos de terra, iniciou-se em 1991 e, em 1995, foi inaugurado o<strong><a href=\"https:\/\/lisboaromana.pt\/imovel\/nucleo-arqueologico-da-rua-dos-correeiros-narc\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> N\u00facleo Arqueol\u00f3gico da Rua dos Correeiros<\/a><\/strong> (NARC). A solidez da engenharia romana deixou vest\u00edgios espalhados pela parte baixa da cidade onde se incluem as chamadas <strong>Termas dos C\u00e1ssios <\/strong>e o magn\u00edfico <strong>teatro romano<\/strong>, cuja implanta\u00e7\u00e3o na colina do Castelo o manteve a salvo do sepultamento em profundidade. O NARC n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico local da cidade onde podem ser visitados vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos milenares, mas nenhum outro lugar preserva no mesmo espa\u00e7o e de forma t\u00e3o eloquente 25 s\u00e9culos de hist\u00f3ria.\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/mosaicos-romanos-do-seculo-iii_564f6d60_250714164815_800x533.webp.webp\" alt=\"Mosaicos romanos do s\u00e9culo III\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"533\" data-aspectratio=\"800\/533\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, as obras de requalifica\u00e7\u00e3o e restauro do edif\u00edcio do Millennium BCP na Baixa Pombalina revelaram vest\u00edgios que contam s\u00e9culos da hist\u00f3ria da cidade. Aqui os mosaicos romanos do s\u00e9culo III convivem com o que resta de um forno de p\u00e3o posterior ao terramoto.<\/p>\n<p><strong>De um complexo habitacional da Idade do Ferro \u00e0s estruturas pombalinas, passando pela presen\u00e7a fen\u00edcia, pelos contextos romanos e medievais<\/strong>, a diversidade de artefactos serve de testemunho da passagem do tempo. Poucos lugares no subsolo relatam melhor o bolo de camadas sucessivas que corresponde \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o de Lisboa e tudo isto se passa naturalmente abaixo das actuais ruas da Baixa onde circulam cada vez mais turistas.<\/p>\n<p>A arque\u00f3loga que nos serve de guia confessa com frustra\u00e7\u00e3o que pouco tempo antes, durante uma visita, lhe perguntaram porque viviam os romanos debaixo de terra. Este equ\u00edvoco poderia ser repetido noutro vest\u00edgio da ocupa\u00e7\u00e3o romana, mesmo ao virar da esquina \u2013 as <strong>Galerias Romanas<\/strong>. Esta estrutura foi descoberta em 1771 na sequ\u00eancia dos apressados trabalhos de reconstru\u00e7\u00e3o da cidade no rescaldo do terra-moto e o seu prop\u00f3sito foi objecto de intenso debate. Alguns olisip\u00f3grafos propuseram que se trataria de um complexo termal, mas hoje parece mais prov\u00e1vel que o que resta seja um criptop\u00f3rtico sobre o qual assentariam edif\u00edcios p\u00fablicos entretanto desaparecidos. <strong>As galerias est\u00e3o parcialmente submersas e abrem para visitas duas vezes por ano.<\/strong> Nessas alturas, a \u00e1gua tem de ser bombeada.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O\u00a0N\u00facleo Arqueol\u00f3gico da Rua dos Correeiros \u00a0preserva, no m\u00ednimo, 25 s\u00e9culos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O inc\u00eandio que se seguiu ao terramoto de 1755 deixou a cidade traumatizada e o tecto das galerias foi aberto em alguns locais para dar acesso a <strong>po\u00e7os pombalinos que n\u00e3o s\u00f3 permitiam acesso ao n\u00edvel fre\u00e1tico para consumo humano, mas tamb\u00e9m para combater eventuais fogo<\/strong>s. Exemplos completos destes po\u00e7os podem ainda ver-se no NARC. Mas h\u00e1 uma \u00e1rea da cidade onde esse passado est\u00e1 mais marcado.<\/p>\n<p>O escritor Arturo P\u00e9rez-Reverte pode n\u00e3o concordar, mas o verdadeiro <strong>cemit\u00e9rio dos barcos<\/strong> sem nome fica em Lisboa, na Praia da Boavista. Corresponde ao cotovelo que o rio Tejo faz \u00e0 entrada de Lisboa, <strong>delimitado pelas actuais ruas de S\u00e3o Paulo e da Boavista pelo Largo Conde-Bar\u00e3o e pela Cal\u00e7ada do Marqu\u00eas de Abrantes<\/strong>. As representa\u00e7\u00f5es iconogr\u00e1ficas mais antigas da cidade posicionam sempre navios nesta praia, o que n\u00e3o \u00e9 de estranhar. \u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/narc_e73c5960_250714170125_800x1200.webp.webp\" alt=\"NARC\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"1200\" data-aspectratio=\"800\/1200\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o engenhosa do piso transparente deste espa\u00e7o do NARC permitiu criar um espa\u00e7o expositivo cl\u00e1ssico com vitrinas que exibem o acervo de artefactos aqui recolhidos com uma tridimensionalidade de estratos arqueol\u00f3gicos que oferece uma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c0 entrada do s\u00e9culo XVI, Dom Manuel I proibiu a constru\u00e7\u00e3o na praia e ordenou que aquele fosse\u00a0espa\u00e7o para os navios serem <strong>\u201cespalmados e corrigidos\u201d<\/strong>, como se dizia na \u00e9poca. Foi o estaleiro da cidade at\u00e9 \u00e0 instala\u00e7\u00e3o no local de numerosas f\u00e1bricas, j\u00e1 no s\u00e9culo XIX. Para dar o exemplo, o pr\u00f3prio rei instalou-se no Pal\u00e1cio de Santos, hoje a sede da embaixada de Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m poderia adivinhar, por\u00e9m, a sucess\u00e3o de<strong> descobertas que as campanhas arqueol\u00f3gicas do s\u00e9culo XXI <\/strong>ali produziram. Desde 2002, toda a \u00e1rea tem sido esventrada para a constru\u00e7\u00e3o de sedes de empresas de energia el\u00e9ctrica, de correios ou de escrit\u00f3rios de advogados. No subsolo, protegidos por camadas de lodo, come\u00e7aram a aparecer vest\u00edgios desse mundo esquecido. A arque\u00f3loga <a href=\"https:\/\/www.cienciavitae.pt\/portal\/en\/4018-55A8-BB36\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">In\u00eas Mendes da Silva<\/a>, da empresa ERA Arqueologia, defendeu no Inverno deste ano a sua disserta\u00e7\u00e3o de doutoramento sobre a <strong>Praia da Boavista<\/strong>. Conhece, como poucos, aquele solo porque acompanhou dezenas de campanhas de arqueologia de salvaguarda, \u201c\u00e0 chuva, \u00e0 lama, ao sol, antes, durante e depois da pandemia\u201d, brinca.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A obra do Plano de Drenagem nunca p\u00e1ra e os funcion\u00e1rios fazem diariamente 3 turnos de 8 horas, 7 dias por semana, a profundidades que podem atingir mais de 70 metros.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Onde hoje assenta o Mercado da Ribeira emergiu entre 2002 e 2003 <strong>um extraordin\u00e1rio cais do s\u00e9culo XVI<\/strong>. \u201cHoje, com tudo o que j\u00e1 sabemos sobre os pal\u00e1cios de nobres e os edif\u00edcios comerciais que ali foram implantados desde o reinado manuelino, sabemos que o cais estava associado ao <strong>Forte de S\u00e3o Paulo<\/strong>, uma estrutura ali erguida durante a Guerra da Restaura\u00e7\u00e3o para proteger a Companhia Geral do Com\u00e9rcio do Brasil e outros entrepostos comerciais.\u201d Depois desse, apareceram outros cais, passadi\u00e7os e pali\u00e7adas e <strong>um extraordin\u00e1rio fundeadouro romano por baixo da actual Pra\u00e7a Dom Lu\u00eds<\/strong>.<\/p>\n<p>As interven\u00e7\u00f5es seguintes, sempre ao sabor das obras em curso, foram destapando novas p\u00e1ginas do mil-folhas que constitui a Praia da Boavista. Na chamada <strong>Rua Cor de Rosa<\/strong>, a via pedonal adjacente ao Cais do Sodr\u00e9, as equipas arqueol\u00f3gicas detectaram as funda\u00e7\u00f5es dos <strong>primeiros pal\u00e1cios que ali se instalaram depois de Dom Manuel aliciar os nobres endinheirados para se juntarem a ele naquela zona da cidade<\/strong>. \u201cFoi uma frente muito afectada pelo terramoto de 1755, que destruiu essas constru\u00e7\u00f5es\u201d, diz In\u00eas.\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/criptoportico_bb6c5dfb_250714165223_800x533.webp.webp\" alt=\"Criptop\u00f3rtico\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"533\" data-aspectratio=\"800\/533\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>Descoberto nas obras de reconstru\u00e7\u00e3o da Baixa ap\u00f3s o terramoto, o criptop\u00f3rtico foi primeiro interpretado como um poss\u00edvel complexo termal romano. Hoje, sabe-se que serviria de suporte dos edif\u00edcios \u00e0 superf\u00edcie. Para receber visitas, \u00e9 necess\u00e1rio bombear a \u00e1gua que inunda as galerias.<\/p>\n<p>Entretanto, emergiram vest\u00edgios de embarca\u00e7\u00f5es que davam colorido \u00e0quela zona de estaleiro. Nas interven\u00e7\u00f5es realizadas no \u00e2mbito da constru\u00e7\u00e3o da <strong>sede da EDP<\/strong>, apareceram em 2013 vest\u00edgios de <strong>dois navios de porte m\u00e9dio dos s\u00e9culos XVII-XVIII <\/strong>(Boavista 1 e 2). Anos mais tarde, durante a pandemia, surgiu o Boavista 5, que merece um cap\u00edtulo \u00e0 parte.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 primeira vista, fazia lembrar o esqueleto de um enorme dinossauro encravado entre as funda\u00e7\u00f5es de dois edif\u00edcios\u201d, lembra <a href=\"https:\/\/www.era-arqueologia.pt\/equipa\/1\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Miguel Lago<\/a>, director da ERA Arqueologia. Medindo <strong>cerca de 22 metros<\/strong>, mas com as extremidades ainda por baixo dos edif\u00edcios adjacentes, corresponde ao cavername completo de um navio que ali foi deixado e ter-se-\u00e1 <strong>lentamente afundado no lodo<\/strong>. \u201cCremos que ser\u00e1 de finais do s\u00e9culo XVII pelos artefactos associados e que estaria relacionado com o com\u00e9rcio do Atl\u00e2ntico\u201d, diz In\u00eas Mendes da Silva. Durante meses, em plena pandemia, a equipa cartografou e desmontou as <strong>1.500 pe\u00e7as<\/strong> do navio, armazenando-as em <strong>12 contentores mar\u00edtimos<\/strong>, dois dos quais personalizados para permitir a submers\u00e3o das pe\u00e7as de madeira, garantindo a conserva\u00e7\u00e3o do conjunto.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos vinte anos, emergiram nove esqueletos de embarca\u00e7\u00f5es s\u00f3 na Praia da Boavista \u2013 alguns, pequenos, pr\u00f3prios para o<strong> transvase de mercadorias entre os navios de grande calado e os cais<\/strong>; e outros, como o Boavista 5, aptos para viagens transatl\u00e2nticas. \u201cHoje, falamos muito de reciclagem e reutiliza\u00e7\u00e3o de materiais, mas os lisboetas dos s\u00e9culos XVI a XIX punham-na em pr\u00e1tica\u201d, diz In\u00eas Mendes da Silva. \u201cAs embarca\u00e7\u00f5es que t\u00eam aparecido dever\u00e3o ter estado \u00e0 vista durante muito tempo e delas foi retirado tudo o que pudesse ser aplicado noutras repara\u00e7\u00f5es e nas novas constru\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias ou nos alicerces das f\u00e1bricas que ali existiram no s\u00e9culo XIX.\u201d<\/p>\n<p>Por baixo destas camadas do per\u00edodo moderno, emergiu ainda um <strong>cemit\u00e9rio de \u00e2nforas e vest\u00edgios de embarca\u00e7\u00f5es romana<\/strong>s, outra das novidades recentes. \u201cH\u00e1 uma certa emo\u00e7\u00e3o quando percebemos que aquela praia foi usada pelas embarca\u00e7\u00f5es que chegaram ou partiram de Lisboa durante pelo menos dois mil\u00e9nios\u201d, diz In\u00eas Mendes da Silva. Com imagina\u00e7\u00e3o,\u00a0consegue-se escutar ainda o ru\u00eddo das repara\u00e7\u00f5es e calafetagens, o cheiro intenso da madeira e dos res\u00edduos das lixeiras vizinhas (a zona era conhecida pelos odores pestilentos) e o bul\u00edcio pr\u00f3prio das cidades portu\u00e1rias, onde cada viagem anuncia novas aventuras.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c\u00c0 primeira vista, fazia lembrar o esqueleto de um dinossauro encravado entre as funda\u00e7\u00f5es de dois edif\u00edcios. Mas era um navio colossal \u00a0com mais de 22 metros.\u201d<\/p>\n<p>(Miguel Lago)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/obras-no-edificio-sede-da-edp_8ad0a98d_250714170852_800x600.webp.webp\" alt=\"Obras no edif\u00edcio-sede da EDP\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"600\" data-aspectratio=\"800\/600\"\/>&#13;ERA ARQUEOLOGIA<\/p>\n<p>O cavername do Boavista 5 ficou exposto durante as obras no edif\u00edcio-sede da EDP. \u00c9 um dos mais completos do s\u00e9culo XVIII alguma vez encontrados.<\/p>\n<p>Esta viagem come\u00e7ou com as \u00e1guas sujas que desciam o vale de Alc\u00e2ntara, mas <strong>nenhuma cidade prescinde de um abastecimento regular, abundante e seguro de \u00e1gua pot\u00e1vel<\/strong>. Outra obra monumental mostra precisamente a sua face mais vis\u00edvel na\u00a0transposi\u00e7\u00e3o deste vale. Mandado construir por Dom Jo\u00e3o V no s\u00e9culo XVIII, o <strong>Aqueduto das \u00c1guas Livres<\/strong> trazia diariamente<strong> 1.300 metros c\u00fabicos de \u00e1gua de Belas<\/strong> e resistiu ao terramoto. Foi mesmo o modelo arquitect\u00f3nico que fez o rei <strong>Dom Jos\u00e9<\/strong> confiar nos seus engenheiros para o esfor\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o posterior. A distribui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas a partir da <strong>M\u00e3e d\u2019\u00c1gua, no Jardim das Amoreiras<\/strong>, fazia-se por cinco galerias subterr\u00e2neas principais que totalizam cerca de <strong>12 quil\u00f3metros<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>Constru\u00edda em 1746, a <strong>Galeria do Loreto<\/strong> tem 2.835 metros de extens\u00e3o e distribu\u00eda \u00e1gua por uma rede de seis chafarizes, alguns j\u00e1 desaparecidos, e tamb\u00e9m por conventos e pal\u00e1cios. Hoje, esta galeria est\u00e1 equipada com ilumina\u00e7\u00e3o artificial e pode ser visitada num segmento de 1.250 metros, entre a Casa do Registo e o\u00a0Jardim de S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara. Por aqui passaram conspiradores e amantes discretos que evitavam as ruas \u00e0 superf\u00edcie para os seus encontros carnais.<\/p>\n<p>Sensivelmente a meio caminho, \u00e0 passagem pelo Jardim do Pr\u00edncipe Real, a estreita galeria abre-se numa enorme cisterna com capacidade para 884 metros c\u00fabicos de \u00e1gua. O <strong>Reservat\u00f3rio da Patriarcal<\/strong> foi constru\u00eddo entre 1860 e 1864 e a sua planta octogonal <strong>replica o pol\u00edgono desenhado pelo gradeamento \u00e0 superf\u00edcie no centro do jardim<\/strong>. No interior, 31 pilares com mais de nove metros de altura suportam os arcos de cantaria que sustentam o tecto abobadado. A tranquilidade mon\u00e1stica e a monumentalidade do espa\u00e7o \u00e9 surpreendente.<strong> A cisterna deixou de regular os caudais de abastecimento da zona baixa da cidade na d\u00e9cada de 1940<\/strong> e passou a fazer parte do <a href=\"https:\/\/www.epal.pt\/EPAL\/menu\/museu-da-\u00e1gua\/exposi\u00e7\u00e3o-permanente-patrim\u00f3nio-associado\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Museu da \u00c1gua<\/a> em 1994, acolhendo concertos e outros eventos que aproveitam a sonoridade especial da sala.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da iniciativa <a href=\"https:\/\/www.realfadoconcerts.com\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>Real Fado<\/strong><\/a>, o fadista vilacondense Francisco Moreira extrai hoje da sua guitarra portuguesa sons imemoriais que ecoam por estas galerias, fazendo lembrar o poema de Fernando Gir\u00e3o: \u201cQuem v\u00ea o Fado como coisa do passado,\/ N\u00e3o entende que este Fado \/ \u00c9 o agora do futuro.\u201d \u00c9 a sina de Lisboa.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00c0 passagem pelo Jardim do Pr\u00edncipe Real, a estreita galeria abre-se numa enorme cisterna com capacidade para 884 metros c\u00fabicos de \u00e1gua. \u00c9 o\u00a0Reservat\u00f3rio da Patriarcal, hoje parte do Museu da \u00e1gua.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/real-fado_7d8da79f_250714165531_800x598.webp.webp\" alt=\"\u201cReal Fado\u201d\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"598\" data-aspectratio=\"800\/598\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>O \u201cReal Fado\u201d \u00e9 um projecto que organiza recitais de fado ao fim da tarde na zona do Pr\u00edncipe Real. O Reservat\u00f3rio da Patriarcal, por baixo do jardim, transforma-se nestes dias numa sala de espect\u00e1culos com uma atmosfera \u00fanica e uma sonoridade muito especial.<\/p>\n<p>Voltamos \u00e0 penumbra\u00a0da galeria que prossegue num declive suave por mais umas centenas de metros at\u00e9 ao <strong>Jardim de S\u00e3o Pedro de Alc\u00e2ntara<\/strong>. Quando a porta se abre sobre uma das mais belas panor\u00e2micas da cidade, a luz do dia cega-nos. Al\u00e9m da vital\u00a0\u00e1gua, \u00e9 imposs\u00edvel saber tudo o que estas galerias transportaram ao longo de quase 280 anos de exist\u00eancia. Longe de olhares indiscretos, monges e nobres entraram e sa\u00edram dos pal\u00e1cios e conventos vizinhos sem alarido. Mas nem s\u00f3 da circula\u00e7\u00e3o de \u00e1guas, dramas palacianos e estruturas antigas se faz a vida subterr\u00e2nea da cidade.<\/p>\n<p><strong>No estertor do s\u00e9culo XX, Lisboa reinventou-se mais uma vez, expandindo-se para oriente<\/strong> e conquistando \u00e1reas industriais decadentes. A pretexto dos 500 anos da chegada de Vasco da Gama \u00e0 \u00cdndia, a <strong>Exposi\u00e7\u00e3o Internacional de Lisboa <\/strong>de 1998 apostou num modelo pensado para preservar quase todas as constru\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o evento. No fim da Expo\u201998, o <strong>Parque das Na\u00e7\u00f5es <\/strong>tornou-se um ambicioso projecto urban\u00edstico e um dos s\u00edtios da cidade onde o pre\u00e7o do metro\u00a0quadrado \u00e9 mais elevado. Neste contexto, foi projectada de raiz uma infra-estrutura not\u00e1vel: a <a href=\"https:\/\/arquivomunicipal3.cm-lisboa.pt\/X-arqWeb\/Result.aspx?id=1140354&amp;type=PCD\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>Galeria T\u00e9cnica do Parque das Na\u00e7\u00f5es<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>De bet\u00e3o armado, enterrada no solo com uma sec\u00e7\u00e3o de 405 por 340 cent\u00edmetros, tem 6.200 metros de comprimento. No interior da Galeria, que faz lembrar um acelerador de part\u00edculas, h\u00e1 <strong>condutas que transportam \u00e1gua pot\u00e1vel e para rega, climatiza\u00e7\u00e3o, res\u00edduos s\u00f3lidos urbanos, energia el\u00e9ctrica, televis\u00e3o, telecomunica\u00e7\u00f5es e sinaliza\u00e7\u00e3o semaf\u00f3rica<\/strong>. H\u00e1 uma imensid\u00e3o de cabos. Apesar do custo inicial significativo, a prazo, a redu\u00e7\u00e3o do tempo, dos custos, do transtorno e do tempo despendido na abertura e fecho de valas para aceder \u00e0s condutas parece irrecus\u00e1vel. Talvez um dia este sistema possa ser prolongado a outras zonas da cidade, facilitando os trabalhos de manuten\u00e7\u00e3o e alargamento das redes de distribui\u00e7\u00e3o dos mais diversos servi\u00e7os, com o prop\u00f3sito de retirar da superf\u00edcie, mas manter acess\u00edveis, as estruturas subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/galeria-tecnica_a18a43bf_250714170553_800x1200.webp.webp\" alt=\"Galeria t\u00e9cnica\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"1200\" data-aspectratio=\"800\/1200\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>H\u00e1 poucas oportunidades para as cidades antigas projectarem bairros inteiros, mas, em 1998, no \u00e2mbito da Exposi\u00e7\u00e3o Internacional, foi poss\u00edvel requalificar a frente ribeirinha oriental. Hoje, parte da freguesia do Parque das Na\u00e7\u00f5es \u00e9 servida por uma galeria t\u00e9cnica, cujas interven\u00e7\u00f5es de manuten\u00e7\u00e3o n\u00e3o obrigam \u00e0 abertura de fossos.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos foram vision\u00e1rios quando inauguraram em 1863 o metropolitano de Londres, mas, entretanto, este meio de transporte alastrou a quase duzentas cidades espalhadas por cinco continentes e <strong>calcula-se que cerca de 170 milh\u00f5es de passageiros viajem diariamente de metro<\/strong>. A primeira proposta para a constru\u00e7\u00e3o de um metropolitano em Lisboa remonta a 1885. Em <strong>1888<\/strong>, foi apresentado um projecto \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o dos Engenheiros Civis Portugueses, prevendo um <strong>metropolitano em viadutos e t\u00faneis de via dupla<\/strong>.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ter tido sequ\u00eancia por raz\u00f5es econ\u00f3micas, o projecto destacou-se pelo seu car\u00e1cter pioneiro e pela <strong>vis\u00e3o antecipada das necessidades de mobilidade urbana<\/strong>. No entanto, foi preciso esperar at\u00e9 1955 para se iniciarem as obras, sendo necess\u00e1ria uma espera adicional de quatro anos at\u00e9 \u00e0 <strong>inaugura\u00e7\u00e3o da primeira rede do Metropolitano de Lisboa, em 1959<\/strong>, com um tra\u00e7ado em forma de Y, constitu\u00eddo ent\u00e3o por 11 esta\u00e7\u00f5es e 6,5 quil\u00f3metros de extens\u00e3o. Essa primeira rede <strong>ligava as extremidades setentrionais em Entrecampos e Sete Rios (actualmente esta\u00e7\u00e3o Jardim Zool\u00f3gico) \u00e0 extremidade meridional nos Restauradores<\/strong>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/metropolitano-de-lisboa_6118fc3c_250714165322_800x533.webp.webp\" alt=\"Metropolitano de Lisboa\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"533\" data-aspectratio=\"800\/533\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>A rede do Metropolitano de Lisboa \u00e9 a principal porta de entrada do subsolo da cidade. A esta\u00e7\u00e3o do Cais do Sodr\u00e9 foi projectada pelos arquitectos Nuno Teot\u00f3nio Pereira e Pedro Botelho.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas seguintes, <strong>a rede expandiu-se e conta hoje com 56 esta\u00e7\u00f5es divididas por quatro linhas<\/strong> que totalizam quase 45 quil\u00f3metros de extens\u00e3o. Basta consultar uma ag\u00eancia imobili\u00e1ria para verificar que a proximidade de uma esta\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento diferenciador. A rede n\u00e3o p\u00e1ra de crescer e foi ampliada sobretudo <strong>\u00e0 custa do prolongamento para a periferia<\/strong>. Agora, por\u00e9m, os planos passam por densificar a malha em algumas zonas do centro.<\/p>\n<p>Apesar de estar j\u00e1 previsto o <strong>alargamento da Linha Vermelha at\u00e9 Alc\u00e2ntara<\/strong>, com passagem por Campolide\/Amoreiras, Campo de Ourique, Infante Santo e Alc\u00e2ntara, a obra em curso \u00e9 a <strong>transforma\u00e7\u00e3o da Linha Verde num trajecto circular<\/strong>, com a liga\u00e7\u00e3o entre o Rato (Linha Amarela) e o Cais do Sodr\u00e9 e a cria\u00e7\u00e3o das novas esta\u00e7\u00f5es da Estrela e de Santos. Em frente da Bas\u00edlica, junto do antigo Hospital Militar, uma enorme abertura no solo com 30 metros de di\u00e2metro e onde caberia um pr\u00e9dio de 20 andares \u00e9 guardada \u00e0 entrada por mais uma imagem de Santa B\u00e1rbara. Voltamos a vestir capacetes, coletes reflectores e cal\u00e7ado de protec\u00e7\u00e3o e vamos descendo lan\u00e7os de escadas. Quando chegamos a<strong> 60 metros de profundidade<\/strong>, j\u00e1 ao n\u00edvel da esta\u00e7\u00e3o da Estrela, registo mentalmente que se houver um holocausto nuclear e eu tiver tempo, \u00e9 aqui que irei esconder-me. O t\u00fanel est\u00e1 praticamente pronto, o bet\u00e3o est\u00e1 imaculado mas ainda n\u00e3o h\u00e1 sinal de sulipas nem de carris.<\/p>\n<p><strong>Ao fim de 500 metros de comprimento, a galeria est\u00e1 coberta com uma tela t\u00eaxtil.<\/strong> Do outro lado da parede, ouvem-se m\u00e1quinas. A obra est\u00e1 dividida em diferentes segmentos, com v\u00e1rias empresas respons\u00e1veis por cada empreitada.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando chegamos a 60 metros de profundidade, j\u00e1 ao n\u00edvel da esta\u00e7\u00e3o da Estrela, registo mentalmente que se houver um holocausto nuclear e eu tiver tempo, \u00e9 aqui que irei esconder-me.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/futura-estacao-santos_910ae0d4_250714165420_800x533.webp.webp\" alt=\"Futura esta\u00e7\u00e3o Santos\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"533\" data-aspectratio=\"800\/533\"\/>&#13;Ricardo Oliveira Alves<\/p>\n<p>Ainda na fase de toscos, a futura esta\u00e7\u00e3o de Santos da nova Linha Circular do Metropolitano de Lisboa dever\u00e1 ser inaugurada em 2026.<\/p>\n<p>Do outro lado da tela, o estaleiro mais tosco marca a<strong> entrada da esta\u00e7\u00e3o de Santos<\/strong> que ficar\u00e1 paredes-meias com o antigo edif\u00edcio do Batalh\u00e3o dos Sapadores de Lisboa. Junto da Avenida Dom Carlos I, enfeitada com os seus jacarand\u00e1s em flor, <strong>uma vala romana e um po\u00e7o medieval aguardam parecer dos arque\u00f3logos para que a obra possa prosseguir<\/strong>. Num armaz\u00e9m adjacente, centenas de fragmentos de cer\u00e2mica, ossos de animais e outros achados arqueol\u00f3gicos tamb\u00e9m est\u00e3o a ser estudados. Na rua, as pessoas passam aparentemente\u00a0indiferentes \u00e0 gigantesca obra que se desenrola sob os p\u00e9s. <strong>Prev\u00ea-se que o empreendimento de 331 milh\u00f5es de euros esteja conclu\u00eddo em 2026.<\/strong> Em breve, estas esta\u00e7\u00f5es ser\u00e3o percorridas diariamente por milhares de pessoas que talvez reparem no seu virtuosismo arquitect\u00f3nico,\u00a0nas obras de azulejaria ou escultura que as decoram, ou talvez estejam apenas concentradas em tentar n\u00e3o chegar atrasadas a mais um dia de trabalho. Dificilmente pensar\u00e3o nas toupeiras humanas que aqui esgravataram o solo e fizeram uma obra para a posteridade.<\/p>\n<p>No subsolo da cidade, ficam guardadas mem\u00f3rias de um passado que precede a funda\u00e7\u00e3o de Portugal. Mant\u00eam-se as cicatrizes de terramotos e embarca\u00e7\u00f5es. E cria-se <strong>o cen\u00e1rio do engenho tecnol\u00f3gico que tenta resolver os desafios da vida urbana desta gera\u00e7\u00e3o e das pr\u00f3ximas<\/strong>.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Assine a revista National Geographic agora por apenas 1\u20ac por m\u00eas. 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