{"id":22186,"date":"2025-08-09T09:56:13","date_gmt":"2025-08-09T09:56:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/22186\/"},"modified":"2025-08-09T09:56:13","modified_gmt":"2025-08-09T09:56:13","slug":"arquitetura-de-carlos-lemos-e-de-uma-incrivel-discricao-07-08-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/22186\/","title":{"rendered":"Arquitetura de Carlos Lemos \u00e9 de uma incr\u00edvel discri\u00e7\u00e3o &#8211; 07\/08\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo do livro do professor Carlos Lemos, &#8220;Cozinhas, etc.&#8221;, provocou embara\u00e7o para livreiros e desavisados. \u00c0s vezes, a obra estava nas prateleiras de gastronomia, ou enganava decoradores em busca de orienta\u00e7\u00e3o para o projeto do espa\u00e7o gourmet.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo disfar\u00e7ava uma abordagem oposta ao consumismo burgu\u00eas. Escreveu ele: &#8220;interessa \u00e9 compreender melhor a casa popular, aquela constru\u00edda pelo pr\u00f3prio morador&#8221;.<\/p>\n<p>O livro foi um divisor de \u00e1guas na maneira de abordar a hist\u00f3ria da arquitetura no Brasil. Lemos, que <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/08\/morre-o-arquiteto-carlos-lemos-parceiro-de-niemeyer-na-construcao-do-copan.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">morreu nesta quarta<\/a>, foi um dos que primeiro olhou para a vida privada no interior da moradia popular, que \u00e9 raiz para a compreens\u00e3o de uma tipologia das mais b\u00e1sicas na profiss\u00e3o \u2014o projeto da casa.<\/p>\n<p>Examinando a produ\u00e7\u00e3o de Lemos, vale destacar sua estima pelo vern\u00e1culo. &#8220;Vern\u00e1culo&#8221; como pr\u00f3prio do pa\u00eds e da regi\u00e3o e como o cultivo do idioma. O &#8220;Dicion\u00e1rio de Arquitetura Brasileira&#8221;, publicado em 1972 em parceria com Eduardo Corona, sistematizou um vocabul\u00e1rio pr\u00f3prio e espec\u00edfico para o Brasil.<\/p>\n<p>Lemos foi uma <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/08\/carlos-lemos-foi-um-mestre-dos-estudos-de-arquitetura-do-brasil.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">voz ouvida e respeitada por seus escritos<\/a>. Esta dimens\u00e3o intelectual eclipsou o projetista de arquitetura, reconhecido mais por sua participa\u00e7\u00e3o nos projetos de Oscar Niemeyer em S\u00e3o Paulo e menos por sua produ\u00e7\u00e3o solo, basicamente de casas, pouqu\u00edssimo conhecida.<\/p>\n<p>Mas como se sentiria um jovem arquiteto hoje, se de repente, aos 27 anos, fosse convidado para dirigir a filial do escrit\u00f3rio de um arquiteto do &#8220;jet set&#8221; mundial? Em 1952, Niemeyer j\u00e1 era uma celebridade internacional, antes da consagra\u00e7\u00e3o definitiva com Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>T\u00e3o pr\u00f3ximo ao mestre, com carinho, t\u00e3o distante da sua arquitetura. Ao mirar sua obra solo, nem parece que Lemos esteve \u00e0 frente do desenvolvimento dos projeto do edif\u00edcio Copan e do parque Ibirapuera.<\/p>\n<p>A obra arquitet\u00f4nica solo de Lemos \u00e9 de uma incr\u00edvel discri\u00e7\u00e3o. Talvez uma boa parte dos arquitetos tenha ouvido falar da Praia Vermelha em Ubatuba, conhecida como a &#8220;praia dos arquitetos&#8221;, ou o condom\u00ednio de intelectuais em Ibi\u00fana, onde Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa. Decerto poucos sabem que os projetos de urbaniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o de Lemos.<\/p>\n<p>Como arquiteto aut\u00f4nomo, trabalhou com projetos de restauro ou realiza\u00e7\u00f5es novas, como o ateli\u00ea-casa de Aldemir Martins, ou a resid\u00eancia para o alfaiate Bruno Minelli, obras que poderiam ser classificadas como brutalistas. Mas suas casas em Ibi\u00fana eram composi\u00e7\u00f5es a partir de materiais contempor\u00e2neos combinados com elementos reciclados de demoli\u00e7\u00e3o, rompendo, mas convivendo em sua produ\u00e7\u00e3o com o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/02\/a-arquitetura-mascara-destrocos-morais-de-um-pais-em-o-brutalista.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">c\u00e2none dito brutalista<\/a>.<\/p>\n<p>Em 1982, o pernambucano Ac\u00e1cio Gil Bors\u00f3i, respondendo \u00e0 pergunta &#8220;qual a sua opini\u00e3o quanto aos rumos que a arquitetura brasileira tomou nesses \u00faltimos anos?&#8221;, registrou: &#8220;no Centro-Sul, duas correntes se destacam: uma brutalista, verdadeiros \u2018bunkers\u2019 de concreto, e outra saudosista de um pr\u00e9-colonial iniciado com o emprego de materiais de demoli\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Para a mesma pergunta, o carioca Alfredo Britto advertia: &#8220;rea\u00e7\u00f5es ing\u00eanuas e perigosas come\u00e7aram a surgir em diversos pontos do pa\u00eds. Uma arquitetura de cita\u00e7\u00f5es e v\u00ednculos emotivos com a heran\u00e7a portuguesa do per\u00edodo colonial, apoiada no reaproveitamento de materiais corriqueiros de demoli\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Ao longo dos anos 1980 todas as casas desenhadas por Lucio Costa estavam no esp\u00edrito do que Britto criticava. Nos anos 1990, Ac\u00e1cio Gil Borsoi projetou o ateli\u00ea de Roberto Burle Marx, um patchwork de estrutura met\u00e1lica combinado com material de demoli\u00e7\u00e3o. Uma pr\u00e1tica que o paisagista j\u00e1 adotava em seu jardim, comprando restos de granito lavrado das destrui\u00e7\u00f5es de im\u00f3veis antigos no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Carlos Lemos, Lucio Costa, Burle Marx e Ac\u00e1cio Gil Borsoi contribuem para uma vertente pouco examinada na arquitetura brasileira. Creio que o fil\u00f3sofo S\u00e9rgio Paulo Rouanet, em &#8220;As Raz\u00f5es do Iluminismo&#8221;, nos ajuda a compreender o fen\u00f4meno: &#8220;nada mais historicista que a modernidade. Essa tend\u00eancia de \u2018citar\u2019 o passado n\u00e3o \u00e9 p\u00f3s-moderna, como corresponde ao que a modernidade tem de mais inalienavelmente seu&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O t\u00edtulo do livro do professor Carlos Lemos, &#8220;Cozinhas, etc.&#8221;, provocou embara\u00e7o para livreiros e desavisados. \u00c0s vezes,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":22187,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[304,7949,207,205,206,203,201,202,7948,204,114,115,236,32,33],"class_list":{"0":"post-22186","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arquitetura","9":"tag-arquitetura-brasileira","10":"tag-arte","11":"tag-arte-e-design","12":"tag-artedesign","13":"tag-arts","14":"tag-arts-and-design","15":"tag-artsanddesign","16":"tag-carlos-lemos","17":"tag-design","18":"tag-entertainment","19":"tag-entretenimento","20":"tag-folha","21":"tag-portugal","22":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22186"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22186\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22187"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}