{"id":22298,"date":"2025-08-09T11:41:07","date_gmt":"2025-08-09T11:41:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/22298\/"},"modified":"2025-08-09T11:41:07","modified_gmt":"2025-08-09T11:41:07","slug":"as-memorias-intimas-de-anabela-mota-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/22298\/","title":{"rendered":"As mem\u00f3rias \u00edntimas de Anabela Mota Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\">\u201cUm grande livro sobre o invis\u00edvel: o vazio nas nossas casas, pe\u00e7as de mob\u00edlia inexistentes, pessoas que n\u00e3o nasceram.\u201d Assim a escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida apresenta \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d (Bazar do Tempo), primeiro romance da jornalista e escritora portuguesa Anabela Mota Ribeiro. Dois anos depois do lan\u00e7amento em Portugal, a autora arrisca outra defini\u00e7\u00e3o. \u201cDisse \u00e0 \u00e9poca que era sobre ser mulher e ter um corpo de mulher. Agora dou uma resposta aparentemente diferente: digo que \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre uma m\u00e3e e uma filha\u201d, afirma ao <strong>Estado de Minas<\/strong>. \u201cA minha m\u00e3e liter\u00e1ria e esta filha fabuladora que escreve e que sou eu. Gerar e nascer. Procriar. \u00c9 sobre genealogia e legado\u201d, complementa Anabela.<\/p>\n<p class=\"texto\">A partir da pr\u00f3pria experi\u00eancia com um diagn\u00f3stico e tratamento de c\u00e2ncer de mama, Anabela gestou o seu livro. \u201cPrefiro dizer doen\u00e7a e n\u00e3o c\u00e2ncer porque se trata de um processo, do qual o c\u00e2ncer \u00e9 o detonador\u201d, explica. \u201cO c\u00e2ncer foi uma esp\u00e9cie de trapa\u00e7a que o corpo fez a si mesmo. E foi um primeiro vislumbre da minha caveira. Deflagra uma compreens\u00e3o t\u00e1ctil de que somos mortais\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"texto\">Escrito em forma de di\u00e1rio e narrado por uma mulher que se diz perseguida pela palavra luto (\u201cela vem atr\u00e1s de mim como uma sombra\u201d) durante o confinamento imposto pela pandemia, \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d tem passagens pungentes e outras devastadoras. \u201cO c\u00e2ncer come\u00e7ou a ensinar-me um sentido para a minha mortalidade (&#8230;). O mais importante deste dia \u00e9 constatar que n\u00e3o tenho medo. N\u00e3o tenho medo de morrer, n\u00e3o tenho medo de adoecer, n\u00e3o tenho medo de falhar, n\u00e3o tenho medo de nada. Sei que sou capaz de sobrever, que quero o dia, que vou voltar \u00e0 alegria\u201d, afirma a autora do di\u00e1rio, que encara a escrita como \u201cum processo libertador\u201d. \u201cMas como chegar as lugares onde as palavras da escrita n\u00e3o penetram?\u201d, questiona.<\/p>\n<p class=\"texto\">Autora do ensaio \u201cA flor amarela: \u00edmpeto e melancolia em <strong><a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/cultura\/2025\/07\/7203812-um-homem-celebre-adapta-contos-de-machado-de-assis-para-o-palco.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Machado de Assis<\/a><\/strong>\u201d, Anabela Mota Ribeiro insere personagens de alguns dos t\u00edtulos mais conhecidos do autor de \u201cMem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d e \u201cDom Casmurro\u201d entre as digress\u00f5es de sua narradora. \u201cConsidero Machado de Assis o maior escritor de l\u00edngua portuguesa. Impressiona-me n\u00e3o se parecer a ningu\u00e9m, inaugurar uma genealogia, a sua imensa modernidade e vanguarda, os dispositivos liter\u00e1rios t\u00e3o sofisticados, ardilosos, exc\u00eantricos. H\u00e1 sempre um gr\u00e3o misterioso, algo que n\u00e3o se entende. As personagens femininas de Machado s\u00e3o para mim as mais interessantes, espirituosas, vivas\u201d, conta.<\/p>\n<p class=\"texto\">Nascida em Tr\u00e1s os Montes em 1971, Anabela est\u00e1 no Brasil para lan\u00e7ar \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d com agenda iniciada na semana passada em Paraty, em mesa na programa\u00e7\u00e3o oficial da Flip com a francesa Neige Sinno (de \u201cTriste tigre\u201d). Ela passou por Bel\u00e9m e, neste fim de semana, participa da Flipel\u00f4, em Salvador, antes de encerrar no Rio a s\u00e9rie de confer\u00eancias e encontros. Leia, a seguir, a entrevista de Anabela Mota Ribeiro ao <strong>Estado de Minas<\/strong>:<\/p>\n<p class=\"texto\">&#13;<br \/>\n    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1_wpe7-anabela2-58121737.jpg\" alt=\"Na Flip, Anabela Ribeiro (E) e a francesa Neige Sinno dividiram a mesa &quot;Tristes tramas&quot;, com media\u00e7\u00e3o de Rita palmeira: &quot;O livro de Neige mexeu com as minhas entranhas e guardei uma express\u00e3o que ela disse, a minha c\u00f3lera continua intacta&quot;  \" title=\"Na Flip, Anabela Ribeiro (E) e a francesa Neige Sinno dividiram a mesa &quot;Tristes tramas&quot;, com media\u00e7\u00e3o de Rita palmeira: &quot;O livro de Neige mexeu com as minhas entranhas e guardei uma express\u00e3o que ela disse, a minha c\u00f3lera continua intacta&quot;  \" loading=\"lazy\" width=\"775\" height=\"470\"\/>&#13;<br \/>\n    &#13;<br \/>\n        Na Flip, Anabela Ribeiro (E) e a francesa Neige Sinno dividiram a mesa &#8220;Tristes tramas&#8221;, com media\u00e7\u00e3o de Rita palmeira: &#8220;O livro de Neige mexeu com as minhas entranhas e guardei uma express\u00e3o que ela disse, a minha c\u00f3lera continua intacta&#8221;   Divulga\u00e7\u00e3o\/Flip&#13;<br \/>\n    &#13;\n<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Como surge \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">O movimento de escrita deste romance foi acidental, cat\u00e1rtico, de certo modo salv\u00edfico. Foi uma longa gesta\u00e7\u00e3o. Eu acalentava h\u00e1 anos o desejo de escrever fic\u00e7\u00e3o, mas fui consumida pelo trabalho jornal\u00edstico, pela investiga\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, pela vida de todos os dias. A doen\u00e7a provocou uma desloca\u00e7\u00e3o das placas tect\u00f4nicas. Prefiro dizer doen\u00e7a e n\u00e3o c\u00e2ncer porque se trata de um processo, do qual o c\u00e2ncer \u00e9 o detonador; os meses em que estive mais gravemente doente e em risco foram posteriores \u00e0 tumorectomia e \u00e0 radioterapia. Demoramos muito tempo a compreender a extens\u00e3o do tremor de terra. Quando nos confinamos em casa, comecei a encontrar palavras para me tatear, deixei de me sentir est\u00e9ril. A escrita operou um desdobramento que me permitia ver-me \u00e0 lupa e de fora, encontrar-me com a minha doen\u00e7a num momento global de doen\u00e7a pand\u00e9mica. Est\u00e1vamos ambos, o meu corpo pr\u00f3prio e o corpo-planeta, doentes.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Poder\u00edamos dizer que \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d \u00e9 um livro sobre perda, mas tamb\u00e9m sobre transforma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Sim. Quando me perguntaram sobre o que era o romance, n\u00e3o soube responder. Era dif\u00edcil (e t\u00e3o pouco desej\u00e1vel, para mim) reconduzir o romance a um assunto. Mas aceitei que precisava de elaborar uma resposta capaz. Fui titubeante, pouco contundente: disse que era sobre ser mulher e ter um corpo de mulher. Passados dois anos sobre a publica\u00e7\u00e3o em Portugal, dou uma resposta aparentemente diferente: digo que \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre uma m\u00e3e e uma filha. A minha m\u00e3e liter\u00e1ria e esta filha efabuladora que escreve e que sou eu. Gerar e nascer. Procriar. \u00c9 sobre genealogia e legado. \u00c9 sobre a transforma\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 quando s\u00e3o tocados os seios ou extra\u00eddo o aparelho reprodutor \u2014 que a cultura patriarcal nos inculcou como sendo sin\u00f3nimos de ser mulher.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Como decidiu incluir no livro um registro di\u00e1rio da pandemia ou, para usar uma imagem do livro, de uma vida entre par\u00eanteses?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Presto especial aten\u00e7\u00e3o ao que escapa \u00e0 frase e se esconde entre par\u00eanteses. Como se fosse incatalog\u00e1vel. A pandemia foi um longo e profundo par\u00eanteses. Colocou a vida em suspenso, na indetermina\u00e7\u00e3o absoluta. Foi o meu marido que me sugeriu a escrita de um di\u00e1rio. Escrevi-o n\u00e3o supondo que iria publicar. Foi a mat\u00e9ria org\u00e2nica a partir da qual, mais tarde, compus o romance. Pode ser que a estrutura fosse outra se n\u00e3o tivesse um fasc\u00ednio pelo g\u00eanero. Em \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d, cito outros livros que t\u00eam um registro memorialista e diar\u00edstico. Os de Machado de Assis, acima de todos. Abolir categorias e jogar na hibridez era mesmo o que eu queria.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>A narradora se diz perseguida pela palavra luto. Como esse sentimento est\u00e1 impregnado em \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Luto e luta s\u00e3o palavras nucleares. Um luto coletivo durante a pandemia. Um luto \u00edntimo pela morte de uma amiga que era uma outra m\u00e3e para mim. Luto do meu corpo f\u00e9rtil e qui\u00e7\u00e1 er\u00f3tico. Luto de uma m\u00edtica capacidade de gerar que me faria sentir mulher de uma certa maneira. Luto do Eu que existia antes do cisma, que n\u00e3o se perguntava sem disfarces: por que \u00e9 que eu nasci? E luta para subir novamente na trave, ser de a\u00e7o e pluma, concentrada, combatendo. Passei dias a ver no YouTube os \u2018perfect ten\u2019 da Nadia Comaneci nas Olimp\u00edadas de 1976. Queria ter aquela tenacidade, n\u00e3o me permitia a derrota.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cOs del\u00edrios de uma pessoa s\u00e3o transbordantes\u201d. Como transformar del\u00edrios em palavras?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Mas que \u00e9 uma palavra sen\u00e3o a tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da faculdade da imagina\u00e7\u00e3o? E existe terreno mais arenoso que o da mem\u00f3ria? \u00c9 um j\u00fabilo quando me sinto a vir por fora, quando o on\u00edrico ganha impress\u00e3o visual e um vocabul\u00e1rio que o diz. O que temo s\u00e3o os momentos depressivos em que se estende ante os meus olhos uma terra gretada. Claro que n\u00e3o consigo usar a palavra del\u00edrio sem pensar no Del\u00edrio do \u201cBr\u00e1s Cubas\u201d, que o leva ao fim dos tempos. Mais ou menos como o meu.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cO c\u00e2ncer come\u00e7ou a ensinar-me um sentido para a minha morte\u201d, afirma a narradora. Qual o sentido que o c\u00e2ncer traz para o livro?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">\u00c9 a diferen\u00e7a que est\u00e1 na can\u00e7\u00e3o de Gilberto Gil entre morte e morrer. A morte pode ser (e \u00e9 bom que seja, sen\u00e3o fica inviv\u00edvel) um conceito abstrato. Morrer \u00e9 um verbo, determina uma a\u00e7\u00e3o, \u00e9 um acontecimento do corpo. N\u00e3o \u00e9 um dia ser\u00e1. \u00c9 um pode ser agora. O c\u00e2ncer foi uma esp\u00e9cie de trapa\u00e7a que o corpo fez a si mesmo. E foi um primeiro vislumbre da minha caveira. Deflagra uma compreens\u00e3o t\u00e1ctil de que somos mortais.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Como nasceu a sua admira\u00e7\u00e3o pela obra de Machado de Assis? Desde que passou a estud\u00e1-la, o que descobriu e a impressionou ainda mais? Considera que \u00e9 o maior escritor da l\u00edngua portuguesa? Qual legado ele deixou para o nosso idioma?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Sem d\u00favida considero Machado de Assis o maior escritor de l\u00edngua portuguesa. Impressiona-me n\u00e3o se parecer a ningu\u00e9m, inaugurar uma genealogia, a sua imensa modernidade e vanguarda, os dispositivos liter\u00e1rios t\u00e3o sofisticados, ardilosos, exc\u00eantricos. E h\u00e1 sempre um gr\u00e3o misterioso, algo que n\u00e3o se entende. Comecei por ler contos e \u201cDom Casmurro\u201d. Mais tarde, na faculdade, escolhi Literatura Brasileira como disciplina de op\u00e7\u00e3o num outro departamento (eu licenciei-me em Filosofia). Fui aluna do professor Abel Barros Baptista, que me fez descobrir um outro Machado. Escolhi-o como objeto de estudo no mestrado. A minha disserta\u00e7\u00e3o foca-se no \u00edmpeto e na melancolia nas \u201cMem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Alguns personagens de Machado s\u00e3o citados em \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d e o di\u00e1logo com o escritor segue at\u00e9 as \u00faltimas p\u00e1ginas. Como decidiu incorporar as cria\u00e7\u00f5es do brasileiro para o seu livro e qual a fun\u00e7\u00e3o deles em sua narrativa? Quais os personagens de sua maior predile\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Procurei manter um di\u00e1logo pr\u00f3ximo com Machado e a sua galeria de personagens e assuntos. Eram tamb\u00e9m os que estavam no meu projeto de doutorado. O meu foco incide nos temas da filia\u00e7\u00e3o e da autoria. Uma filia\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica ou ausente. Uma autoria d\u00faplice, delegada em autores ficcionais, que convoca o leitor e elabora sobre o valor da escrita. De alguma maneira, tamb\u00e9m esses temas est\u00e3o plasmados em \u2018O quarto do beb\u00ea\u2019. Inclusive na personagem Filha do meu Pai, que encontra o di\u00e1rio de Ester entre os pap\u00e9is do seu pai, o psicanalista, e se permite mudar o t\u00edtulo originalmente atribu\u00eddo. Dito de outro modo, mimetizo a Advert\u00eancia de \u201cEsa\u00fa e Jac\u00f3\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\">As personagens femininas de Machado s\u00e3o para mim mais interessantes, espirituosas, vivas. Adoro Capitu. Sinto muita pena de Eug\u00eania, a V\u00e9nus Manca. Acho gra\u00e7a \u00e0 t\u00eampera de Fid\u00e9lia do \u201cMemorial de Aires\u201d: porque enfrenta o pai e uma orfandade em vida.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Al\u00e9m de Machado, voc\u00ea cita outros \u00edcones da cultura brasileira, como Cartola e Roberto Carlos. Como a nossa m\u00fasica impregna as suas lembran\u00e7as e a sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Roberto Carlos \u00e9 a minha inf\u00e2ncia, o amor dos meus pais, o r\u00e1dio sempre ligado. Por causa de Cartola (e Chico, Caetano, Jobim) sou Mangueira. A minha paix\u00e3o pela cultura brasileira \u00e9 antiga e alimentada nas vindas frequentes. Quando chego ao Gale\u00e3o, canto para dentro o \u201cSamba do avi\u00e3o\u201d e procuro os urubus voando em c\u00edrculo, no c\u00e9u. Uma pessoa vai criando as suas impress\u00f5es de estar em casa.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Quais autores contempor\u00e2neos da l\u00edngua portuguesa est\u00e3o entre os que admira?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">H\u00e9lia Correia, L\u00eddia Jorge, Isabela Figueiredo, Djaimilia Pereira de Almeida, Bruno Vieira Amaral, Susana Moreira Marques (de diferentes gera\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Voc\u00ea citou, entre as autoras portuguesas de sua admira\u00e7\u00e3o, L\u00eddia Jorge, autora de \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d, tamb\u00e9m ambientado no per\u00edodo da pandemia. Consegue estabelecer conex\u00e3o entre o seu livro e o romance de L\u00eddia Jorge?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">L\u00eddia \u00e9 uma amiga querida e foi uma interlocutora preciosa na constru\u00e7\u00e3o de \u2018O quarto do beb\u00ea\u2019. O nosso di\u00e1logo fortaleceu a minha forma vulc\u00e2nica e a minha insubmiss\u00e3o ao c\u00e2none. Foi uma forma de me dizer: n\u00e3o tenha medo. Na contracapa da edi\u00e7\u00e3o portuguesa, usou express\u00f5es generosas como \u201cestrutura estelar\u201d, \u201cescrita em forma de rizoma\u201d, \u201cexperi\u00eancia abissal\u201d. A rela\u00e7\u00e3o de cuidado com a sua m\u00e3e, no centro de \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d, sempre me comoveu. A sombra da doen\u00e7a e da morte, revelada sem biombos na pandemia, tornou-nos mais vulner\u00e1veis, mas tamb\u00e9m exigiu uma coragem que n\u00e3o esmorece. N\u00e3o naquele momento. S\u00f3 depois de atravessar a selva oscura nos permitimos sucumbir e elaborar sobre as perdas. Apesar das sintonias, h\u00e1 uma diferen\u00e7a relevante: no caso da L\u00eddia e da m\u00e3e, respeitava-se uma ordem natural das coisas. No meu caso, havia um elo da cadeia geneal\u00f3gica que era engolido. Eu podia ir antes da minha m\u00e3e. Para muitas pessoas, foi estranho que eu n\u00e3o dissesse \u00e0 minha m\u00e3e que tinha um c\u00e2ncer. S\u00f3 partilhei com os meus pais anos depois, ultrapassado o perigo. Para mim, era uma express\u00e3o de amor: poupei-a a um sofrimento atroz.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Acontecimentos da pol\u00edtica no Brasil durante a pandemia tamb\u00e9m s\u00e3o registrados, inclusive o comportamento negacionista do ex-presidente Bolsonaro. O que mais a impressionou naquela \u00e9poca? Como v\u00ea o avan\u00e7o da extrema-direita tamb\u00e9m em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">A degrada\u00e7\u00e3o da qualidade da democracia em Portugal \u00e9 tremenda, em particular depois das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es e de uma viragem acentuada \u00e0 direita. Tempos sombrios para todos, no mundo. O negacionismo espelha tamb\u00e9m este tempo obscurantista e troglodita em que uma cren\u00e7a se baseia em si pr\u00f3pria e prescinde da fundamenta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia cient\u00edfica.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cO melhor foi ter sentido a minha capacidade de morder\u201d, afirma a narradora. Acredita em uma literatura capaz de \u2018morder\u2019 o leitor? Quais leituras recentes provocaram esse impacto?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">A minha ferocidade, que estava muito contida, come\u00e7ou a extravasar. Gostaria de ser capaz de escrever sem freio. Valorizo muito a interpela\u00e7\u00e3o que resulta de obras que nos deixam na estranheza e no inc\u00f4modo. A leitura de Camila Sosa Villada deixou-me nesse estado.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>O que foi mais marcante de sua participa\u00e7\u00e3o na Flip e dos dias em na festa liter\u00e1ria de Paraty?<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Foi um privil\u00e9gio partilhar a mesa com a Neige Sinno (autora de \u201cTriste tigre\u201d), cujo livro mexeu com as minhas entranhas, e ter a media\u00e7\u00e3o sens\u00edvel e inteligente da Rita Palmeira. Os dois livros exprimem uma fala org\u00e2nica em que surge a viol\u00eancia sobre o corpo, uma cren\u00e7a no mundo que \u00e9 abalada ou corrompida, a centralidade da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filha. Outra sintonia: o lugar da escrita como questionamento, como cura, os seus limites. Ainda ressoa em mim uma express\u00e3o de Neige: a minha c\u00f3lera continua intacta. D\u00f3i e \u00e9 um motor para lidar com a vida e para o ato de escrever. Como lava incandescente. Fiquei comovida com a fala da ministra Marina (Silva). Uma pessoa \u00e9 analfabeta at\u00e9 aos 16 anos e consegue reconstruir-se assim? Muito potente. Duas ideias me arrebataram no seu discurso: a vida \u00e9 insist\u00eancia e persist\u00eancia; e tamb\u00e9m: n\u00e3o podemos usar as armas dos nossos inimigos, do Mal. N\u00f3s n\u00e3o somos assim.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Trecho<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>(De \u201cO quarto do beb\u00ea\u201d)<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cA palavra desfeita acompanha-me. \u00c9 ser ou estar menos que uma camada de p\u00f3. De que cinzas se vai reconstruir? Da filha, com certeza.<\/p>\n<p class=\"texto\">Eu vou estudar os filhos em Machado de Assis e n\u00e3o terei filhos. O n\u00facleo de onde tenho de erguer a minha vida, depois da doen\u00e7a, depois da pandemia, depois do que h\u00e1 de vir e \u00e9 impronunci\u00e1vel, \u00e9 o mesmo de Machado, que n\u00e3o teve filhos. A escrita.\u201d<\/p>\n<p class=\"texto\">&#13;<br \/>\n    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/1_wpe7-oquartodobebe-58121750.jpg\" alt=\"     \" title=\"     \" loading=\"lazy\" width=\"775\" height=\"470\"\/>&#13;<br \/>\n    &#13;<br \/>\n              Reprodu\u00e7\u00e3o&#13;<br \/>\n    &#13;\n<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cO quarto do beb\u00ea\u201d<\/strong><br \/>\u2022 De Anabela Mota Ribeiro<br \/>\u2022 Bazar do Tempo<br \/>\u2022 248 p\u00e1ginas<br \/>\u2022 R$ 75<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Va8e466AO7RPLL06EL2h\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Siga nosso canal no WhatsApp e receba not\u00edcias relevantes para o seu dia<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cUm grande livro sobre o invis\u00edvel: o vazio nas nossas casas, pe\u00e7as de mob\u00edlia inexistentes, pessoas que n\u00e3o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":22299,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,317,237,170,7967,32,33],"class_list":{"0":"post-22298","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-escritora","12":"tag-livro","13":"tag-livros","14":"tag-palavra","15":"tag-portugal","16":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22298","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22298"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22298\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22299"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22298"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22298"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22298"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}