{"id":224991,"date":"2026-01-11T18:17:08","date_gmt":"2026-01-11T18:17:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/224991\/"},"modified":"2026-01-11T18:17:08","modified_gmt":"2026-01-11T18:17:08","slug":"uma-fotografia-do-holocausto-deixou-de-ter-um-carrasco-anonimo-gracas-a-ia-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/224991\/","title":{"rendered":"Uma fotografia do Holocausto deixou de ter um carrasco an\u00f3nimo gra\u00e7as \u00e0 IA | Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Durante mais de seis d\u00e9cadas, uma das imagens mais emblem\u00e1ticas do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2026\/01\/05\/mundo\/noticia\/eva-schloss-sobrevivente-holocausto-enteada-pai-anne-frank-morreu-96-anos-2160064?ref=holocausto&amp;cx=page__content\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Holocausto<\/a> foi usada como prova de crime, mas nunca se soube quem empunhava a arma. A fotografia, tirada em 1941, na Ucr\u00e2nia, mostra um soldado nazi prestes a executar um judeu \u00e0 beira de uma vala comum apinhada de cad\u00e1veres. O nome da v\u00edtima permanece, at\u00e9 agora, perdido. Contudo, o recurso \u00e0 intelig\u00eancia artificial permitiu, d\u00e9cadas depois, quebrar o anonimato do seu executor.<\/p>\n<p>O historiador alem\u00e3o J\u00fcrgen Matth\u00e4us conseguiu identificar o algoz como sendo Jakobus Onnen, um membro das for\u00e7as de seguran\u00e7a nazis, com 34 anos \u00e0 data dos factos. A descoberta, obtida com recurso a t\u00e9cnicas de reconhecimento facial apoiadas por intelig\u00eancia artificial e \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o de familiares do soldado, foi divulgada pelo jornal <a href=\"https:\/\/elpais.com\/cultura\/2026-01-11\/la-inteligencia-artificial-permite-identificar-a-un-asesino-nazi-en-una-de-las-fotos-mas-atroces-del-holocausto.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">El Pa\u00eds<\/a> e publicada por Matth\u00e4us na revista acad\u00e9mica <a href=\"https:\/\/metropol--verlag-de.translate.goog\/produkt\/zeitschrift-fuer-geschichtswissenschaft-73-jg-heft-9-2025\/?_x_tr_sl=auto&amp;_x_tr_tl=es&amp;_x_tr_hl=es\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Zeitschrift f\u00fcr Geschichtswissenschaft<\/a>.<\/p>\n<p>A imagem \u00e9 conhecida como O \u00faltimo judeu de Vinnytsia\u200b e tornou-se um s\u00edmbolo do chamado \u201cHolocausto das balas\u201d: o assass\u00ednio de milh\u00f5es de pessoas, maioritariamente judeus \u2014 mas tamb\u00e9m ciganos, prisioneiros de guerra e resistentes \u2014, executados a tiro em valas comuns no Leste da Europa. S\u00f3 na Ucr\u00e2nia, estima-se que 1,5 milh\u00f5es de judeus tenham sido mortos dessa forma at\u00e9 ao final de 1941, antes de os nazis implementarem os campos de exterm\u00ednio com c\u00e2maras de g\u00e1s, onde morreriam quase tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        A fotografia de 1961, conhecida como O \u00faltimo judeu de Vinnytsia, tornou-se um s\u00edmbolo do chamado &#8220;Holocausto das balas&#8221;&#13;<br \/>\nGalerie Bilderwelt\/Hulton Archive\/Getty Images                    &#13;<\/p>\n<p>A fotografia foi divulgada pela primeira vez em 1961 pela ag\u00eancia United Press (UPI), durante o julgamento de<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/08\/14\/culturaipsilon\/ensaio\/adolf-eichmann-palhaco-diabo-2015833\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> Adolf Eichmann<\/a>, um dos principais organizadores do Holocausto (sobre o qual <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/11\/10\/culturaipsilon\/critica\/hannah-arendt-pensadora-amava-mundo-2027020\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Hannah Arendt<\/a> escreveu o c\u00e9lebre texto Eichmann em Jerusal\u00e9m, publicado em 1963 na <a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/1963\/02\/16\/eichmann-in-jerusalem-i\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">The New Yorker<\/a>, e mais tarde em livro). A imagem tinha sido encontrada por Al Moss, um sobrevivente judeu, que a entregou \u00e0 imprensa como prova dos <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/11\/16\/mundo\/noticia\/nuremberga-julgamento-julgamentos-2154670\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">crimes nazis<\/a>. Durante d\u00e9cadas, acreditou-se que a foto tinha sido tirada em Vinnytsia e que mostrava membros dos Einsatzgruppen, os esquadr\u00f5es da morte que acompanhavam o avan\u00e7o da Wehrmacht (Ex\u00e9rcito da Alemanha Nazi) pela Pol\u00f3nia e pela ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>O primeiro passo para esclarecer a hist\u00f3ria da imagem surgiu quando Matth\u00e4us, historiador especializado no Holocausto e recentemente reformado do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, teve acesso a uma doa\u00e7\u00e3o inesperada: os di\u00e1rios de guerra de um capit\u00e3o da Wehrmacht, Walter Materna. Um dos volumes, dedicado \u00e0 invas\u00e3o da URSS em Junho de 1941, inclu\u00eda uma c\u00f3pia da fotografia e uma anota\u00e7\u00e3o manuscrita no verso.<\/p>\n<p>A inscri\u00e7\u00e3o indicava o local e a data exactos: \u201cFinal de Julho de 1941. Execu\u00e7\u00e3o de judeus pelas SS na cidadela de Berdychiv. 28 de Julho de 1941\u201d. No di\u00e1rio, Materna descrevia ainda um massacre de judeus naquela cidade ucraniana, demonstrando que o Ex\u00e9rcito alem\u00e3o tinha conhecimento directo das execu\u00e7\u00f5es em massa realizadas pelas SS, mesmo quando n\u00e3o participava nelas. Matth\u00e4us publicou estas descobertas em 2023, na revista <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/hgs\/article-abstract\/37\/3\/349\/7492420?redirectedFrom=fulltext&amp;login=false\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Holocaust and Genocide Studies<\/a>.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o do carrasco ocorreu numa fase posterior e resultou de um contacto inesperado. Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do artigo, um casal procurou o historiador, convencido de que um familiar \u2014 tio da mulher \u2014 poderia ser o homem retratado. Forneceram fotografias de Jakobus Onnen tiradas em datas pr\u00f3ximas da guerra e com qualidade suficiente para compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram ent\u00e3o aplicados m\u00e9todos tradicionais de reconhecimento facial e ferramentas de intelig\u00eancia artificial, que revelaram \u00edndices de correspond\u00eancia entre 98,5% e 99,9%, valores considerados excepcionalmente elevados para imagens hist\u00f3ricas. A partir da\u00ed, Matth\u00e4us conseguiu reconstruir o percurso biogr\u00e1fico do homem da fotografia.<\/p>\n<p>Onnen nasceu em 1906 numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia em Tichelwarf, perto da fronteira com os Pa\u00edses Baixos. Era professor, falava franc\u00eas e ingl\u00eas e aderiu cedo ao regime nazi: entrou para as SA em 1933, passou depois para as SS e integrou as for\u00e7as de seguran\u00e7a ligadas ao SD, sob a direc\u00e7\u00e3o de Heinrich Himmler. Essas estruturas faziam parte dos Einsatzgruppen, respons\u00e1veis por centenas de milhares de execu\u00e7\u00f5es de civis no Leste europeu.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a guerra, estas unidades foram investigadas por procuradores aliados e alem\u00e3es, e o nome de Onnen surge entre os membros identificados. No entanto, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/04\/08\/mundo\/noticia\/ultimas-condenadas-crimes-alemanha-nazi-morre-99-anos-2128926?ref=auschwitz&amp;cx=page__content\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">nunca chegou a ser interrogado<\/a>: morreu em Agosto de 1943, na Ucr\u00e2nia, durante um ataque de combatentes da resist\u00eancia sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Apesar da identifica\u00e7\u00e3o do autor do disparo, a v\u00edtima continua desconhecida. Matth\u00e4us e outros investigadores tentaram encontr\u00e1-la em arquivos ucranianos, fotografias sovi\u00e9ticas anteriores \u00e0 invas\u00e3o alem\u00e3 de 22 de Junho de 1941, documentos de guerra e relatos orais do p\u00f3s-guerra, sem sucesso. A guerra em curso na Ucr\u00e2nia dificulta ainda mais esse trabalho, embora as autoridades locais tenham colaborado.<\/p>\n<p>Apesar de existirem milhares de imagens relacionadas com o Holocausto, s\u00e3o muito raras as fotografias que captam o momento exacto da execu\u00e7\u00e3o. Os historiadores estimam que apenas cerca de uma dezena de imagens mostre assassinatos em curso \u2014 algumas foram tiradas pelos pr\u00f3prios nazis, por vezes como trof\u00e9us, num contexto em que o exterm\u00ednio n\u00e3o era encarado como crime, mas como s\u00edmbolo de cumprimento de uma miss\u00e3o ideol\u00f3gica. Muitas dessas fotografias foram destru\u00eddas ap\u00f3s a Segunda Guerra; outras sobreviveram e tornaram-se provas centrais dos massacres cometidos no Leste da Europa.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios casos, como sucede com o judeu retratado nesta fotografia, foi poss\u00edvel identificar os autores das execu\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o as v\u00edtimas, cujo rasto documental se perdeu no caos da guerra e do genoc\u00eddio. O memorial Yad Vashem, em Jerusal\u00e9m, mant\u00e9m uma base de dados com 4,7 milh\u00f5es de nomes de v\u00edtimas do Holocausto, das quais cerca de 1,3 milh\u00f5es continuam por identificar \u2014 entre eles, o \u00faltimo judeu de Berdychiv.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Durante mais de seis d\u00e9cadas, uma das imagens mais emblem\u00e1ticas do Holocausto foi usada como prova de crime,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":224992,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[1305,27,28,246,15,16,14,736,8735,933,9244,25,26,21,22,62,13890,12,13,19,20,23,24,3840,110,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-224991","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-alemanha","9":"tag-breaking-news","10":"tag-breakingnews","11":"tag-enter","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-historia","16":"tag-holocausto","17":"tag-inteligencia-artificial","18":"tag-judeus","19":"tag-latest-news","20":"tag-latestnews","21":"tag-main-news","22":"tag-mainnews","23":"tag-mundo","24":"tag-nazismo","25":"tag-news","26":"tag-noticias","27":"tag-noticias-principais","28":"tag-noticiasprincipais","29":"tag-principais-noticias","30":"tag-principaisnoticias","31":"tag-segunda-guerra-mundial","32":"tag-tecnologia","33":"tag-top-stories","34":"tag-topstories","35":"tag-ultimas","36":"tag-ultimas-noticias","37":"tag-ultimasnoticias","38":"tag-world","39":"tag-world-news","40":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224991","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=224991"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/224991\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/224992"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=224991"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=224991"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=224991"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}