{"id":225096,"date":"2026-01-11T19:39:23","date_gmt":"2026-01-11T19:39:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/225096\/"},"modified":"2026-01-11T19:39:23","modified_gmt":"2026-01-11T19:39:23","slug":"poder-360-entenda-como-a-crise-climatica-impacta-o-tratamento-do-hiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/225096\/","title":{"rendered":"Poder 360: Entenda como a crise clim\u00e1tica impacta o tratamento do HIV"},"content":{"rendered":"<p>Ocorr\u00eancia de eventos extremos pode dificultar acesso da popula\u00e7\u00e3o a servi\u00e7os de sa\u00fade, m\u00e9todos preventivos e facilitar comportamentos de risco.<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia clim\u00e1tica est\u00e1 silenciosamente remodelando os caminhos de preven\u00e7\u00e3o e tratamento ao v\u00edrus da imunodefici\u00eancia humana, o HIV. Um estudo recente, publicado na revista Current Opinions in Infectious Diseases, sugere que a ocorr\u00eancia de eventos clim\u00e1ticos extremos tem aumentado a vulnerabilidade da popula\u00e7\u00e3o ao pat\u00f3geno causador da aids e agravado as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade de quem j\u00e1 convive com o v\u00edrus.<\/p>\n<p>A partir da revis\u00e3o de 22 pesquisas conduzidas de 2022 a 2024, os autores, vinculados a diferentes institui\u00e7\u00f5es no Canad\u00e1, observaram que a seca prolongada e a escassez de \u00e1gua destacam-se entre os fen\u00f4menos de maior impacto na preven\u00e7\u00e3o \u00e0 infec\u00e7\u00e3o pelo HIV. Em diversas regi\u00f5es dos Estados Unidos e do continente africano, houve diminui\u00e7\u00e3o na testagem para o v\u00edrus e aumento nos comportamentos de risco, como o sexo transacional (troca de sexo por dinheiro, favores ou bens materiais) e as rela\u00e7\u00f5es sexuais sem preservativo.<\/p>\n<p>O trabalho tamb\u00e9m conclui que chuvas intensas e enchentes ampliam os riscos de um indiv\u00edduo se infectar. \u201cIsso ocorre porque a destrui\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o gera maior dificuldade de acesso \u00e0s estruturas de sa\u00fade para tratamento e diagn\u00f3stico\u201d, analisa a infectologista Fernanda Pedrosa Torres, do Einstein Hospital Israelita em Goi\u00e2nia. \u201cAl\u00e9m disso, existe um desvio de for\u00e7a para estrat\u00e9gias de manejo da trag\u00e9dia que, por vezes, deixa de lado as medidas de preven\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Embora o impacto desses fen\u00f4menos possa ser mais sentido em pa\u00edses subdesenvolvidos, eles tamb\u00e9m se d\u00e3o em regi\u00f5es consideradas em desenvolvimento ou j\u00e1 desenvolvidas. \u201cNo Brasil, existem alguns trabalhos que associam o aumento na notifica\u00e7\u00e3o do HIV \u00e0 seca na regi\u00e3o Nordeste e \u00e0s inunda\u00e7\u00f5es no Rio Grande do Sul, por exemplo\u201d, afirma Torres.<\/p>\n<p>Um estudo da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), publicado em junho na Revista Ga\u00facha de Enfermagem, aponta que as chuvas de 2024 em Porto Alegre impactaram a continuidade do uso da PrEP (Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o) ao HIV. Enquanto certos usu\u00e1rios recorreram a estrat\u00e9gias improvisadas, como comprar PrEP em farm\u00e1cias comerciais ou receber doa\u00e7\u00f5es, outros simplesmente suspenderam o tratamento por n\u00e3o conseguirem chegar aos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>Efeitos individuais e coletivos<\/strong><\/p>\n<p>As consequ\u00eancias da crise clim\u00e1tica s\u00e3o tanto individuais quanto estruturais. Danos a unidades de sa\u00fade, falta de transporte, deslocamentos for\u00e7ados e esgotamento das equipes m\u00e9dicas configuram um ciclo de vulnerabilidade que enfraquece o cuidado cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>A pesquisa canadense relaciona a seca a uma menor ades\u00e3o ao TARV (tratamento antirretroviral), al\u00e9m de interrup\u00e7\u00f5es no acompanhamento cl\u00ednico e piora nos indicadores de sa\u00fade \u2014 sobretudo na carga viral e na contagem de CD4, gl\u00f3bulos brancos que indicam imunossupress\u00e3o. A falta de \u00e1gua e comida dificulta tomar rem\u00e9dios corretamente, aumenta quadros de desidrata\u00e7\u00e3o, amplia a janela para o desenvolvimento de infec\u00e7\u00f5es oportunistas e provoca migra\u00e7\u00f5es que dificultam visitas regulares aos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p>No caso de desastres s\u00fabitos, como furac\u00f5es, tempestades severas e inc\u00eandios florestais, pode haver interrup\u00e7\u00f5es abruptas em servi\u00e7os, fechamento de cl\u00ednicas, perda de estoques de medicamentos e falhas nas cadeias de distribui\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, h\u00e1 riscos adicionais de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico, depress\u00e3o e medo de revelar o status sorol\u00f3gico durante deslocamentos e abrigamentos emergenciais.<\/p>\n<p>\u201cQuando o paciente interrompe o uso de medica\u00e7\u00e3o ou perde acesso \u00e0s cl\u00ednicas m\u00e9dicas, ele pode ter preju\u00edzos em seu tratamento\u201d, frisa a infectologista. \u201cNa pr\u00e1tica, isso significa que uma pessoa que estava com uma carga viral indetect\u00e1vel pode come\u00e7ar a apresentar crescimento na quantidade do v\u00edrus em seu sangue e, com isso, sofrer com a destrui\u00e7\u00e3o dos seus linf\u00f3citos, levando a um maior risco de desenvolvimento da s\u00edndrome da imunodefici\u00eancia adquirida [aids].\u201d<\/p>\n<p><strong>Perda global de recursos<\/strong><\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de emerg\u00eancia clim\u00e1tica pode ser agravado por fatores financeiros, segundo alerta um relat\u00f3rio do Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/aids (Unaids) lan\u00e7ado em novembro. A preocupa\u00e7\u00e3o se deve \u00e0 suspens\u00e3o do PEPFAR (Plano de Emerg\u00eancia do Presidente dos Estados Unidos para o al\u00edvio da aids) anunciada no in\u00edcio de 2025 pelo governo de Donald Trump. O programa era respons\u00e1vel por 75% do financiamento global ao combate \u00e0 epidemia de HIV.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que muitos pa\u00edses que dependem dessa ajuda externa enfrentam desafios agravados pelos impactos clim\u00e1ticos. Estima-se que s\u00f3 a adapta\u00e7\u00e3o aos efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas dever\u00e1 custar cerca de US$ 387 bilh\u00f5es por ano aos cofres mundiais, reduzindo drasticamente o espa\u00e7o fiscal alocado para a sa\u00fade e colocando a resposta ao HIV em risco direto.<\/p>\n<p>No curto prazo, a falta desses recursos j\u00e1 levou ao fechamento de cl\u00ednicas, \u00e0 dispensa de centenas de milhares de profissionais de sa\u00fade, \u00e0 ruptura de cadeias de suprimento e \u00e0 escassez de medicamentos essenciais na \u00c1frica Subsaariana, em pa\u00edses como Qu\u00eania, Z\u00e2mbia, Uganda, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e Eti\u00f3pia. A suspens\u00e3o afetou tamb\u00e9m a capacidade de monitorar a epidemia, j\u00e1 que muitas equipes de gest\u00e3o de dados dependiam do financiamento para atuar.<\/p>\n<p>Esses efeitos foram igualmente devastadores para organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e servi\u00e7os de preven\u00e7\u00e3o. Programas para popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis perderam quase todo o financiamento, levando a demiss\u00f5es, redu\u00e7\u00e3o de atividades e encerramento de espa\u00e7os de apoio. Aproximadamente 2,5 milh\u00f5es de pessoas perderam acesso \u00e0 PrEP no mundo, e pa\u00edses como Uganda, Vietn\u00e3, Ruanda, Camar\u00f5es e \u00c1frica do Sul registraram quedas dr\u00e1sticas na cobertura de preven\u00e7\u00e3o, incluindo entre gestantes vivendo com HIV.<\/p>\n<p>Apesar disso, o relat\u00f3rio destaca esfor\u00e7os de resili\u00eancia, sobretudo no continente africano, onde os governos t\u00eam tentado aumentar o financiamento dom\u00e9stico e fortalecer a produ\u00e7\u00e3o regional de medicamentos. \u201cOs servi\u00e7os para HIV funcionam porque as comunidades lideram. Com as interrup\u00e7\u00f5es no financiamento internacional, em adi\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u00e0s desigualdades sociais e ao preconceito, vimos a lacuna de acesso ser ampliada\u201d, relata Andrea Lilian Boccardi Vidarte, diretora e representante do Unaids no Brasil, em nota \u00e0 Ag\u00eancia Einstein. \u201cAs pessoas mais vulner\u00e1veis ficaram para tr\u00e1s e existe o risco de haver 3,9 milh\u00f5es de novas infec\u00e7\u00f5es por HIV se a solidariedade e o compromisso pol\u00edtico n\u00e3o aumentarem nos pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda.\u201d<\/p>\n<p><strong>Planejamento como resposta<\/strong><\/p>\n<p>Para a m\u00e9dica do Einstein Goi\u00e2nia, a chave para frear o crescimento do HIV associado \u00e0 crise clim\u00e1tica est\u00e1 no planejamento de pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade. \u201cJ\u00e1 existem manuais de emerg\u00eancia voltados para algumas doen\u00e7as agudas tipicamente relacionadas a eventos extremos, como a leptospirose, em situa\u00e7\u00f5es de enchentes e inunda\u00e7\u00f5es. No entanto, vale termos tamb\u00e9m grupos pensando em como manter as medidas de controle para infec\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas e sexualmente transmiss\u00edveis, como o HIV\u201d, sugere Fernanda Torres.<\/p>\n<p>Os autores do estudo canadense chegam \u00e0 mesma conclus\u00e3o. O artigo recomenda que o setor de sa\u00fade focado no HIV incorpore urgentemente o fator clim\u00e1tico em suas estrat\u00e9gias. \u201cDeve-se adotar estrat\u00e9gias que exijam menor necessidade de deslocamento das pessoas, como a telemedicina, as cl\u00ednicas m\u00f3veis e a descentraliza\u00e7\u00e3o dos postos de dispensa\u00e7\u00e3o dos rem\u00e9dios\u201d, exemplifica a infectologista.<\/p>\n<p>Novos medicamentos tamb\u00e9m prometem n\u00e3o s\u00f3 melhorar a preven\u00e7\u00e3o, mas ajudar em casos clim\u00e1ticos extremos. Em 2023, a Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria) liberou o uso do cabotegravir como PrEP de administra\u00e7\u00e3o bimestral. O m\u00e9todo j\u00e1 pode ser encontrado no setor privado, mas ainda est\u00e1 em fase de avalia\u00e7\u00e3o para ser incorporado ao SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade). Em 2025, foi anunciado o lenacapavir, outra PrEP injet\u00e1vel que estabelece apenas duas aplica\u00e7\u00f5es ao ano, a cada 6 meses. Esse segue sob an\u00e1lise de regula\u00e7\u00e3o pela Anvisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ocorr\u00eancia de eventos extremos pode dificultar acesso da popula\u00e7\u00e3o a servi\u00e7os de sa\u00fade, m\u00e9todos preventivos e facilitar comportamentos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":225097,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[116,32,33,117],"class_list":{"0":"post-225096","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-health","9":"tag-portugal","10":"tag-pt","11":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115878164146396804","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225096","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=225096"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225096\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/225097"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=225096"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=225096"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=225096"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}