{"id":228809,"date":"2026-01-14T19:24:24","date_gmt":"2026-01-14T19:24:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/228809\/"},"modified":"2026-01-14T19:24:24","modified_gmt":"2026-01-14T19:24:24","slug":"a-cultura-da-repeticao-no-ensino-superior-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/228809\/","title":{"rendered":"A cultura da repeti\u00e7\u00e3o no ensino superior | Megafone"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEspero que repita.\u201d \u201cEsta cadeira n\u00e3o precisas de estudar, repete sempre.\u201d \u201cFogo, n\u00e3o repetiu nada\u201d.<\/p>\n<p>Estamos em plena \u00e9poca de exames nas universidades e polit\u00e9cnicos portugueses e o verbo repetir torna-se o verdadeiro eixo da vida acad\u00e9mica. N\u00e3o se discute conhecimento, n\u00e3o se debate compreens\u00e3o, n\u00e3o se valoriza o pensamento cr\u00edtico. Discute-se a repeti\u00e7\u00e3o. Repete a pergunta? Repete o exame? Repete-se o ritual. O desejo coletivo \u00e9 simples: que o exame seja uma fotoc\u00f3pia, o menos mal disfar\u00e7ada poss\u00edvel, do exame do ano anterior. Que nada mude. Que o professor n\u00e3o \u201cinvente\u201d. Que, de prefer\u00eancia, nem seja preciso abrir um livro. \u00c9 o conforto da previsibilidade elevado a m\u00e9todo pedag\u00f3gico. O esfor\u00e7o intelectual substitu\u00eddo por uma memoriza\u00e7\u00e3o oportunista.<\/p>\n<p>Avaliar um aluno atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de perguntas n\u00e3o \u00e9 apenas pobre, como \u00e9 intelectualmente est\u00e9ril. \u00c9 uma manobra perigosa de extin\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico. \u00c9 um deturpar da mais b\u00e1sica fun\u00e7\u00e3o de uma escola: transmitir conhecimento. Com cada exame que se repete n\u00e3o se est\u00e1 a testar compreens\u00e3o, racioc\u00ednio ou capacidade de aplica\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 a testar-se mem\u00f3ria circunstancial e acesso a material privilegiado. Se o objetivo do ensino superior fosse decorar respostas padronizadas, n\u00e3o seriam necess\u00e1rias aulas, bibliografias, discuss\u00f5es cr\u00edticas ou, sequer, professores. Bastava um arquivo partilhado e algum treino mec\u00e2nico. O conhecimento n\u00e3o se sedimenta por osmose nem por repeti\u00e7\u00e3o acr\u00edtica. Constr\u00f3i-se atrav\u00e9s do confronto com problemas novos, da d\u00favida, da adapta\u00e7\u00e3o de conceitos e do erro refletido.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, trata-se de um m\u00e9todo estruturalmente injusto. Coloca no mesmo patamar estudantes diligentes e estudantes negligentes. Quem frequenta aulas, estuda pelos livros recomendados, investe tempo e esfor\u00e7o na compreens\u00e3o da mat\u00e9ria, acaba frequentemente com a mesma nota de quem limitou o estudo \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o de exames antigos. O m\u00e9rito acad\u00e9mico dissolve-se. O empenho deixa de ser recompensado. A avalia\u00e7\u00e3o perde a sua fun\u00e7\u00e3o de estimular interesse e trabalho, tornando-se num sorteio informal baseado no acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o certa. Bons e maus alunos, dedicados e desinteressados, trabalhadores e oportunistas &#8211; todos nivelados por baixo.<\/p>\n<p>Esta pr\u00e1tica n\u00e3o surge no vazio. \u00c9 reflexo direto da cultura do \u201cdesenrascan\u00e7o\u201d e do facilitismo que atravessa o nosso pa\u00eds. Nas universidades portuguesas, avalia-se quem navega melhor nas drives partilhadas, quem tem contactos estrat\u00e9gicos em anos superiores, quem consegue trabalhar menos com maior retorno imediato. Avalia-se a esperteza circunstancial, a capacidade de se safar, n\u00e3o a intelig\u00eancia sustentada, o pensar. \u00c9 a consagra\u00e7\u00e3o da mediocridade eficiente como virtude acad\u00e9mica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os docentes n\u00e3o podem ser ilibados desta responsabilidade. Os <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/12\/06\/p3\/cronica\/fim-carreira-professor-universitario-2157072\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">professores universit\u00e1rios<\/a> n\u00e3o podem demitir-se da sua responsabilidade pedag\u00f3gica. Para estes, a doc\u00eancia n\u00e3o pode ser apenas uma linha no LinkedIn, nem um ritual burocr\u00e1tico de corre\u00e7\u00e3o anual de umas mesmas perguntas. Exige dedica\u00e7\u00e3o, exige prepara\u00e7\u00e3o, exige criatividade e rigor. Fazer perguntas novas, coerentes com o que foi lecionado, estimular o estudo real e o interesse genu\u00edno d\u00e1 trabalho &#8211; mas \u00e9 esse trabalho que forma cidad\u00e3os cr\u00edticos, profissionais competentes e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que os estudantes reconhecem unanimemente que as cadeiras onde mais aprendem s\u00e3o aquelas em que os professores mais se dedicam, avaliam aquilo que ensinam, fornecem ferramentas de estudo acess\u00edveis e desenham exames exigentes, justos e coerentes. S\u00e3o exce\u00e7\u00f5es, infelizmente. Mas deviam ser regra. Nessas cadeiras existe brio acad\u00e9mico, existe exig\u00eancia e existe verdadeira aprendizagem.<\/p>\n<p>Cabe \u00e0s associa\u00e7\u00f5es de estudantes, \u00e0s comiss\u00f5es de curso e aos \u00f3rg\u00e3os acad\u00e9micos romper com esta l\u00f3gica viciada. Mas cabe tamb\u00e9m a cada estudante exigir mais, quer do sistema, quer de si pr\u00f3prio. Estudar, dedicar-se, frequentar aulas, ler livros, cultivar interesse intelectual. E, paradoxalmente, enquanto nada muda, entrar no jogo para n\u00e3o ficar para tr\u00e1s. Porque, no fim, neste sistema que se repete a si pr\u00f3prio, h\u00e1 sempre uma certeza.<\/p>\n<p>No final, vai repetir-se.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cEspero que repita.\u201d \u201cEsta cadeira n\u00e3o precisas de estudar, repete sempre.\u201d \u201cFogo, n\u00e3o repetiu nada\u201d. 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