{"id":229054,"date":"2026-01-14T22:24:27","date_gmt":"2026-01-14T22:24:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/229054\/"},"modified":"2026-01-14T22:24:27","modified_gmt":"2026-01-14T22:24:27","slug":"a-cegueira-dos-donos-da-galp-e-a-ingenuidade-da-ministra-do-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/229054\/","title":{"rendered":"A cegueira dos donos da Galp e a ingenuidade da ministra do Ambiente"},"content":{"rendered":"<p><strong>O tom dos artigos era positivo e sublinhava as virtudes do neg\u00f3cio, enquanto os t\u00edtulos destacavam a alegada vantagem da fus\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es, mas ignoravam uma verdade cristalina: se este neg\u00f3cio entre a Galp e a Moeve se concretizar, os acionistas portugueses entregam de m\u00e3o beijada o controlo da \u00fanica refinaria de petr\u00f3leos existente em Portugal aos acionistas espanh\u00f3is, ficando com 20 por cento da nova empresa conjunta.<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, nem sequer ficam com a cl\u00e1ssica minoria de bloqueio de 33,5%, que lhes permitiria bloquear qualquer decis\u00e3o estrat\u00e9gica futura como a reconfigura\u00e7\u00e3o ou revenda de ativos.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia das not\u00edcias, <strong>a CMVM exigiu \u00e0 Galp que prestasse esclarecimentos diretos ao mercado sobre o acordo de entendimento entre as duas empresas ib\u00e9ricas<\/strong>.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Um comunicado emitido pela Galp referiu que \u201ca combina\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios prevista, que exclui o chamado \u2018upstream\u2019 (pesquisa e explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo), permitir\u00e1 consolidar ativos, capacidades e equipas complementares em Portugal e Espanha, com o objetivo de refor\u00e7ar escala, efici\u00eancia operacional e capacidade de investimento, apoiando simultaneamente a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e fortalecendo a resili\u00eancia, fiabilidade e competitividade do sistema energ\u00e9tico ib\u00e9rico\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Citada no comunicado, a presidente da Galp Paula Amorim afirmou:<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;Estar extremamente confiante por termos alcan\u00e7ado este acordo preliminar e iniciado uma discuss\u00e3o de enorme relev\u00e2ncia estrat\u00e9gica europeia. A vis\u00e3o de crescimento da Galp sempre se pautou por parcerias com operadores altamente cred\u00edveis, que demonstraram consistentemente capacidade na cria\u00e7\u00e3o de valor. (\u2026) Ao agregar as capacidades e a experi\u00eancia complementares da Galp e da Moeve nas opera\u00e7\u00f5es de downstream (refina\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o), temos a oportunidade de criar grandes grupos europeus na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, cada um beneficiando de maior foco, aloca\u00e7\u00e3o de capital ajustada e flexibilidade essencial para impulsionar um crescimento sustent\u00e1vel e gerador de valor\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na verdade, <strong>com este neg\u00f3cio, os acionistas atuais da Galp o que buscam \u00e9 ganhos seguros e mais volumosos no curto e m\u00e9dio prazo, atrav\u00e9s de valoriza\u00e7\u00f5es das a\u00e7\u00f5es em bolsa, obten\u00e7\u00e3o de mais valias e distribui\u00e7\u00e3o de dividendos, e ao mesmo tempo ter menos responsabilidades no balan\u00e7o do grupo como o endividamento para fazer face a investimentos vultuosos, nomeadamente na refinaria de Sines, por causa das (absurdas) exig\u00eancias ambientais europeias<\/strong>.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a concretizar-se o neg\u00f3cio, os mesmos acionistas portugueses mostram desprezar o valor estrat\u00e9gico para o pa\u00eds de um grupo verticalmente integrado, com prospe\u00e7\u00e3o, pesquisa e explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e refina\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis e derivados.<\/p>\n<p>Com a cegueira pr\u00f3pria dos capitalistas \u00e1vidos de acumular cada vez mais dinheiro no curto e m\u00e9dio prazo e sem cuidar do futuro de longo prazo, como tem sido habitual na nossa hist\u00f3ria econ\u00f3mica recente, escondem que est\u00e3o dispostos a ceder o controlo da \u00fanica refinaria existente em Portugal sem se preocupar com as consequ\u00eancias que essa decis\u00e3o imprudente possa vir a ter para a soberania nacional.<\/p>\n<p>No caso de um problema s\u00e9rio de abastecimento na Europa, por disrup\u00e7\u00e3o de mercado ou at\u00e9 por causa de um conflito armado (hip\u00f3tese cada vez menos remota), o Governo da Rep\u00fablica Portuguesa poder\u00e1 um dia ver-se confrontado com uma decis\u00e3o unilateral de Espanha de distribuir os combust\u00edveis de Sines a quem bem entender, incluindo o transporte diretamente para l\u00e1 da fronteira.<\/p>\n<p>Mas o que mais me admira em rela\u00e7\u00e3o a este assunto nem sequer \u00e9 o interesse imediatista (e at\u00e9 compreens\u00edvel pelas regras de mercado) dos acionistas da Galp acima descrito.<\/p>\n<p><strong>O que mais me surpreende \u00e9 a ingenuidade e a imprud\u00eancia da ministra do Ambiente e Energia em afirmar que v\u00ea a alian\u00e7a entre a Galp e a Moeve como positiva e que \u201c\u00e9 importante\u201d que a Galp ganhe dimens\u00e3o, conforme as suas declara\u00e7\u00f5es ao Eco<\/strong>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEstamos conscientes das vantagens e poss\u00edveis desvantagens, mas estamos convencidos que vai ser positivo. (\u2026) Ter uma empresa de grande dimens\u00e3o traz sempre mais vantagens no investimento, na cria\u00e7\u00e3o de riqueza e na cria\u00e7\u00e3o de emprego, enquanto uma empresa mais pequena tem sempre mais dificuldades\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Confrontada com a quest\u00e3o estrat\u00e9gica da perda de controlo da \u00fanica refinaria portuguesa, Maria da Gra\u00e7a Carvalho foi mais longe e disse mesmo que: &#8220;N\u00f3s ganhamos o controlo de duas outras (refinarias)\u201d. O que demonstra uma <strong>colagem inexplic\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o a duas partes privadas de um neg\u00f3cio por parte de uma governante que devia ser independente e cuja tutela tem responsabilidades diretas sobre os agentes do setor<\/strong>.<\/p>\n<p>Na realidade, confundir a entrega do controlo acionista da refinaria da Petrogal e a futura posse de apenas 20% (ou pouco mais) de uma nova empresa espanhola (Industrial Co) que deter\u00e1 tr\u00eas refinarias na pen\u00ednsula ib\u00e9rica com o ganhar o controlo de outras duas refinarias, \u00e9 algo mais do que ingenuidade, mas por raz\u00f5es de urbanidade dispenso aqui o uso do termo.<\/p>\n<p>Mais realista, o ministro da Economia e da Coes\u00e3o emitiu esta quarta-feira um comunicado no qual mostra preocupa\u00e7\u00e3o com o valor estrat\u00e9gico do controlo portugu\u00eas da refinaria de Sines:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO Governo foi informado sobre o in\u00edcio das negocia\u00e7\u00f5es entre a Galp e a Moeve, para a jun\u00e7\u00e3o de parte dos ativos e a inten\u00e7\u00e3o de criar duas novas plataformas empresariais: uma dedicada ao retalho de combust\u00edveis e mobilidade, e outra dedicada \u00e0 ind\u00fastria petroqu\u00edmica e de refina\u00e7\u00e3o. Estando em causa ativos estrat\u00e9gicos para a soberania energ\u00e9tica nacional, sustentabilidade ambiental, concorr\u00eancia e defesa dos consumidores, e sem preju\u00edzo de se tratar de um potencial neg\u00f3cio entre empresas privadas, o Governo permanece atento ao desenrolar das negocia\u00e7\u00f5es. Recorde-se que o Estado det\u00e9m uma participa\u00e7\u00e3o qualificada de 8,24% na estrutura acionista da Galp, detida atrav\u00e9s da Parp\u00fablica &#8211; Participa\u00e7\u00f5es P\u00fablicas.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m da <strong>oportuna preocupa\u00e7\u00e3o com a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica para a soberania nacional, Castro Almeida toma uma posi\u00e7\u00e3o substancialmente diferente de Maria da Gra\u00e7a Carvalho o que revela uma diverg\u00eancia importante no seio do governo sobre o assunto<\/strong>.<\/p>\n<p>J\u00e1 o <strong>sil\u00eancio do primeiro-ministro, do Presidente da Rep\u00fablica, dos pr\u00f3prios candidatos \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais e dos l\u00edderes dos partidos pol\u00edticos, com a honrosa exce\u00e7\u00e3o do PCP, impressiona muito pela negativa<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Por que raz\u00e3o ser\u00e1 que continuam calados?<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O tom dos artigos era positivo e sublinhava as virtudes do neg\u00f3cio, enquanto os t\u00edtulos destacavam a alegada&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":229055,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[83],"tags":[88,89,90,32,33],"class_list":{"0":"post-229054","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-empresas","8":"tag-business","9":"tag-economy","10":"tag-empresas","11":"tag-portugal","12":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115895799733719769","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229054","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229054"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229054\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/229055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}