{"id":232052,"date":"2026-01-16T21:57:07","date_gmt":"2026-01-16T21:57:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/232052\/"},"modified":"2026-01-16T21:57:07","modified_gmt":"2026-01-16T21:57:07","slug":"filme-sobre-irmaos-lumiere-mostra-que-o-mundo-pouco-mudou-16-01-2026-mario-sergio-conti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/232052\/","title":{"rendered":"Filme sobre irm\u00e3os Lumi\u00e8re mostra que o mundo pouco mudou &#8211; 16\/01\/2026 &#8211; Mario Sergio Conti"},"content":{"rendered":"<p>O passado n\u00e3o existe. O que existe s\u00e3o fragmentos do passado: textos, imagens, testemunhos. Os estilha\u00e7os n\u00e3o formam um todo, n\u00e3o recuperam o acontecido. Quatro versos de &#8220;Praia do Caju&#8221;, de Ferreira Gullar, apagam a luz e dizem isso:<\/p>\n<p>&#8220;O que passou passou.<br \/>&#13;<br \/>\nJamais acender\u00e1s de novo<br \/>&#13;<br \/>\no lume<br \/>&#13;<br \/>\ndo tempo que apagou.&#8221;<\/p>\n<p>Os filminhos dos inventores do cinema, os irm\u00e3os Auguste e Louis Lumi\u00e8re, s\u00e3o cacos do passado, momentos marcados pela morte: os seres humanos, vegetais e animais que aparecem na tela n\u00e3o existem mais.<\/p>\n<p>O cinema n\u00e3o os traz de volta \u00e0 vida, mas suas imagens fazem com que se imagine como eram. Como imagens fomentam a imagina\u00e7\u00e3o, o lume dos Lumi\u00e8re ilumina momentos para sempre perdidos.<\/p>\n<p>Dos 1.428 filmes que os irm\u00e3os produziram em dez anos, 108 s\u00e3o mostrados no document\u00e1rio &#8220;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/12\/lumiere-a-aventura-continua-e-filme-que-parece-aula-de-cinema.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Lumi\u00e8re! A Aventura Continua<\/a>&#8220;, ora em cartaz. Desde que foram feitos, entre 1895 e 1905, nunca estiveram t\u00e3o n\u00edtidos, pois que recuperados com tecnologia de ponta. E jamais foram t\u00e3o pertinentes quanto agora, tanto no sentido est\u00e9tico quanto hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Os filmetes t\u00eam forma fixa. A c\u00e2mera, instalada num trip\u00e9, fica im\u00f3vel. A dura\u00e7\u00e3o \u00e9 de 50 segundos, o tempo m\u00e1ximo permitido pela tecnologia da \u00e9poca. N\u00e3o h\u00e1 cortes nem montagem, apenas uma sequ\u00eancia cont\u00ednua, em branco e preto e muda.<\/p>\n<p>S\u00e3o balizas que levaram os Lumi\u00e8re a inventar o que o cinema tem de essencial at\u00e9 hoje. H\u00e1 um assunto: cavalos galopando; um trem chegando \u00e0 esta\u00e7\u00e3o; ondas batendo na proa de um barco; acrobacias; um esquete; crian\u00e7as brincando. H\u00e1 um ponto de vista: a c\u00e2mera est\u00e1 perto ou longe do que filma, de lado ou de frente, acima ou abaixo da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com esses poucos elementos, os filmetes flagram eventos cotidianos. Contemplam paisagens campestres e sobretudo urbanas. Encenam minidramas. Contam piadas visuais. Assinalam o que est\u00e1 pr\u00f3ximo ou distante da plateia. O cinema mostra imagens em movimento desde que os irm\u00e3os franceses inventaram o cinemat\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Seu primeiro filme foi feito h\u00e1 130 anos. Ele mostra a sa\u00edda da f\u00e1brica do pai deles, em Lyon, no dia 19 de mar\u00e7o de 1895. O port\u00e3o se abre e uma multid\u00e3o caminha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 c\u00e2mera, que os grava em celuloide, desviam-se, saem de cena. Banal? Longe disso.<\/p>\n<p>Mulheres de chap\u00e9u e vestidos compridos d\u00e3o-se os bra\u00e7os e riem. A p\u00e9 ou de bicicleta, homens fingem n\u00e3o saber que est\u00e3o sendo filmados, mas olham para a c\u00e2mera. Um vira-lata perambula e um cavalo puxa charrete. S\u00e3o 50 segundos solares, misto de encena\u00e7\u00e3o fict\u00edcia e registro etnogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Os Lumi\u00e8re compensam a fixidez da c\u00e2mera com a mobilidade dos lugares onde s\u00e3o postas. De um vag\u00e3o de trem captam a paisagem que passa. De uma barca, as margens do rio. Do alto de um \u00f4nibus \u2013puxado por burros\u2013, ruas e avenidas. De um bal\u00e3o, a Terra abaixo, como de um drone.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m movimentos geogr\u00e1ficos. Os cineastas v\u00e3o a Viena e Londres, a Nova York e Chicago. A Istambul, ao Cairo, \u00e0 Indochina e ao Jap\u00e3o \u2013o que altera o ponto de vista pol\u00edtico. Se os europeus s\u00e3o tipos curiosos em trajes folcl\u00f3ricos, os asi\u00e1ticos surgem como radicalmente estranhos, quando n\u00e3o inferiores: a Fran\u00e7a das Luzes, e do cinema, colonizava.<\/p>\n<p>&#8220;Lumi\u00e8re! A Aventura Continua&#8221; tem o mesmo diretor, Thierry Fr\u00e9maux, de &#8220;A Aventura Come\u00e7a&#8221;, de 2016. Mas n\u00e3o \u00e9 uma sequ\u00eancia, pode ser visto isoladamente. Em ambos, a \u00fanica cena atual \u00e9 a da reencena\u00e7\u00e3o da sa\u00edda da f\u00e1brica em Lyon. Ela \u00e9 liderada por Martin Scorsese no primeiro, e agora por Francis Ford Coppola.<\/p>\n<p>A interfer\u00eancia vital est\u00e1 na narra\u00e7\u00e3o de Fr\u00e9maux. Ela contextualiza as cenas e chama a aten\u00e7\u00e3o para figuras e a\u00e7\u00f5es ocultas. A palavra-chave \u00e9 aten\u00e7\u00e3o. Num mundo saturado de telas, imagens violentas, simulacros, os 108 filminhos est\u00e3o atentos \u00e0s pessoas, seus afazeres e alegrias.<\/p>\n<p>Contudo, o filme deixa ver que nem tudo era belo. S\u00e3o in\u00fameras as sequ\u00eancias com militares \u2013 treinamentos, paradas, uniformes. Involuntariamente, alude-se \u00e0s guerras de ent\u00e3o, a dos B\u00f4eres, a Russo-Japonesa, a dos Boxers, a Hispano-Americana: disputas de territ\u00f3rios e mercados no auge do colonialismo e na aurora do imperialismo.<\/p>\n<p>O belicismo chauvinista da Belle \u00c9poque confluiu para a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/primeira-guerra-mundial\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Primeira Guerra Mundial<\/a>, a carnificina que acabaria com todas as guerras. Nesse aspecto, o mundo pouco mudou.<\/p>\n<p>As armas e petardos acionados na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ucrania\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ucr\u00e2nia<\/a>, em Gaza, no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ira\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ir\u00e3<\/a>, na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/venezuela\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Venezuela<\/a>, qui\u00e7\u00e1 na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/groenlandia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Groenl\u00e2ndia<\/a>, apontam para um passado cada vez mais presente. Talvez os versos de Ferreira Gullar tenham de ser mudados: o que passou n\u00e3o passou.<\/p>\n<p>    Colunas<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o de colunas da Folha<\/p>\n<p class=\"c-context__content\">&#13;<br \/>\n    <strong>LINK PRESENTE:<\/strong> Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.&#13;\n  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O passado n\u00e3o existe. O que existe s\u00e3o fragmentos do passado: textos, imagens, testemunhos. 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