{"id":232193,"date":"2026-01-16T23:58:13","date_gmt":"2026-01-16T23:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/232193\/"},"modified":"2026-01-16T23:58:13","modified_gmt":"2026-01-16T23:58:13","slug":"mulheres-juntaram-se-para-denunciar-assedio-na-il-mas-tiveram-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/232193\/","title":{"rendered":"Mulheres juntaram-se para denunciar ass\u00e9dio na IL. Mas tiveram medo"},"content":{"rendered":"<p>O ano \u00e9 2023, o mesmo ano no qual rebentou, em abril, aquele que \u00e9 at\u00e9 agora o maior esc\u00e2ndalo portugu\u00eas associado ao movimento #metoo. O \u201ccaso Boaventura de Sousa Santos\u201d, ou \u201ccaso CES\u201d\u2014 de Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra \u2014, surgido a partir de um artigo publicado numa revista cient\u00edfica internacional sobre ass\u00e9dio sexual na academia, e que o DN <a aria-label=\"content\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.dn.pt\/arquivo\/diario-de-noticias\/todas-sabemos-boaventura-sousa-santos-entre-os-acusados-de-assedio-no-cesuniversidade-de-coimbra--16160057.html\" rel=\"nofollow noopener\">investigou desde o primeiro momento<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9, curiosamente, no mesmo m\u00eas, abril de 2023, em que rebenta esse esc\u00e2ndalo, que ao DN chega pela primeira vez a informa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1, num partido que se posiciona, face ao CES, no outro lado do espectro ideol\u00f3gico (o fundador da IL e atual deputado Carlos Guimar\u00e3es Pinto apelidou o CES de \u201cviveiro da esquerda radical\u201d), mulheres que se queixam de ser v\u00edtimas de ass\u00e9dio sexual. Esta informa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, acaba por n\u00e3o ter seguimento: as mulheres em causa optam por n\u00e3o falar ao jornal. T\u00eam medo, explica quem fez a intermedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda assim, meses mais tarde, v\u00e1rias mulheres ligadas \u00e0 IL criam um grupo de WhatsApp para, precisamente, debater o assunto. <strong>\u201cQuer\u00edamos perceber se havia mais casos de ass\u00e9dio sexual e de ass\u00e9dio laboral, para proteger as pessoas, e era tamb\u00e9m a tentativa de criar uma esp\u00e9cie de alian\u00e7a entre as mulheres, para serem mais valorizadas no partido\u201d<\/strong>, explica ao jornal uma delas, a quem chamaremos Teresa.<\/p>\n<p>E a que conclus\u00e3o chegaram? \u201cQue <strong>n\u00e3o faz\u00edamos ideia da quantidade de ass\u00e9dios que havia e que com o poder deles sobre tudo era completamente imposs\u00edvel fazermos alguma coisa<\/strong>.\u201d Ficaram com a ideia de que havia v\u00e1rios casos? \u201cSim.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Teresa, como a maioria das mulheres que integrou esse grupo, tem epis\u00f3dios de ass\u00e9dio sexual para contar, mas prefere que o DN n\u00e3o os revele nem ao autor porque, diz, se o fizer ser\u00e1 de imediato identificada. Porqu\u00ea? \u201cPorque alguns ocorreram \u00e0 frente de terceiros do partido.\u201d<\/p>\n<p>Quando o grupo surgiu, relata, j\u00e1 tinha tido conhecimento de outro caso semelhante ao seu. \u201cLembro-me de que quando me contaram n\u00e3o fiquei surpreendida, porque eu pr\u00f3pria j\u00e1 tinha sido assediada. Depois percebi que havia bastante mais gente com o mesmo problema.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cTodos sabem\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Nas conversas de WhatsApp, \u00e0s quais o DN teve acesso, v\u00e1rias mulheres (devidamente identificadas) assumem que foram v\u00edtimas de ass\u00e9dio e que contaram a pessoas com responsabilidade dentro do partido, que nomeiam, sem que isso resultasse em qualquer tipo de a\u00e7\u00e3o (participa\u00e7\u00f5es que a hierarquia do partido, presente e passada, nega). \u201cTodos sabem\u201d, diz uma delas, num eco talvez inconsciente do \u201cTodas sabemos\u201d que surgiram graffitados nas paredes do CES em refer\u00eancia aos alegados ass\u00e9dios perpetrados por Boaventura de Sousa Santos.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s outra das participantes (a esta chamamos Sara) do grupo come\u00e7ou por ter esperan\u00e7a de que dali pudesse sair algo semelhante ao Coletivo de V\u00edtimas do CES, um conjunto de mulheres que escreveu, sob anonimato, v\u00e1rias cartas sobre a situa\u00e7\u00e3o no centro acad\u00e9mico.<\/p>\n<p>\u201cElas <strong>estavam a tentar unir-se para fazerem uma queixa conjunta an\u00f3nima, ou para falarem anonimamente aos media. Mas ficaram em p\u00e2nico por n\u00e3o saberem em quem podiam confiar e tiveram medo de ser processadas por difama\u00e7\u00e3o<\/strong>.\u201d Sorri. \u201cE tinham raz\u00e3o, como se constata: \u00e9 ver o que se est\u00e1 a passar com a In\u00eas Bich\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>In\u00eas Bich\u00e3o, recorde-se, \u00e9 uma ex-assessora parlamentar da IL cujo nome saltou esta segunda-feira para a ribalta gra\u00e7as \u00e0 partilha de uma foto de uma story privada (\u201cs\u00f3 para amigos chegados\u201d) da sua conta de Instagram, story <a aria-label=\"content\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.dn.pt\/sociedade\/acusao-de-assdio-na-il-ela-disse-me-quem-a-tinha-assediado-e-que-toda-a-gente-sabia-no-grupo-parlamentar\" rel=\"nofollow noopener\">na qual acusa Jo\u00e3o Cotrim Figueiredo de ass\u00e9dio sexual<\/a>, exemplificando esse ass\u00e9dio com algumas frases que o atual candidato presidencial lhe teria endere\u00e7ado.\u00a0<\/p>\n<p>Malgrado ter certificado, em <a aria-label=\"content\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.dn.pt\/pol%C3%ADtica\/ex-assessora-da-il-diz-que-veracidade-dos-factos-envolvendo-cotrim-ser-apurada-nos-tribunais\" rel=\"nofollow noopener\">comunicado enviado esta quinta-feira para a Lusa<\/a>, que a partilha p\u00fablica da informa\u00e7\u00e3o sucedeu contra a sua vontade, a ex-assessora ter\u00e1 j\u00e1, de acordo com o que foi dito por Cotrim de Figueiredo aos media, uma queixa-crime por difama\u00e7\u00e3o contra ela na justi\u00e7a. Nas redes sociais, o <a aria-label=\"content\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/x.com\/LiberalPT\/status\/2011792726103089566\" rel=\"nofollow\">partido estende a amea\u00e7a<\/a>: \u201cEste assunto ser\u00e1 tratado em tribunal, onde tudo ser\u00e1 esclarecido, de forma inequ\u00edvoca. Todos os que, sem evid\u00eancia ou qualquer fundamento, participaram nesta campanha coordenada de difama\u00e7\u00e3o ter\u00e3o de por ela responder.\u201d<\/p>\n<p>Por coincid\u00eancia, tamb\u00e9m no caso do CES a primeira rea\u00e7\u00e3o de Boaventura de Sousa Santos foi amea\u00e7ar com processos por difama\u00e7\u00e3o \u2014 que, depois de o Coletivo de V\u00edtimas revelar os nomes de todas as suas integrantes, acabaria por colocar a v\u00e1rias dessas mulheres.<\/p>\n<p><strong>\u201cEsta intimida\u00e7\u00e3o toda vai fazer com que haja ainda menos coragem de falar\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ver o que aconteceu a In\u00eas Bich\u00e3o deixou Teresa de rastos. <strong>\u201cPodia ter acontecido comigo \u2014 com todas n\u00f3s, se tiv\u00e9ssemos avan\u00e7ado para uma den\u00fancia p\u00fablica. A intimida\u00e7\u00e3o toda que a IL est\u00e1 a fazer, a maneira como a In\u00eas foi tratada nos jornais, vai fazer com que as pessoas tenham ainda menos coragem de falar.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Questionada sobre o que acha que deveria ter acontecido no partido face aos relatos que algumas das mulheres dizem ter feito a inst\u00e2ncias internas \u2014 caso de In\u00eas Bich\u00e3o, que no aludido comunicado afirma ter reportado internamente os factos em causa \u2014 e a situa\u00e7\u00f5es em que terceiros assistiram a interlocu\u00e7\u00f5es ou gestos abusivos, Teresa hesita. \u201cO que acho que devia ter acontecido? Quando algu\u00e9m testemunha uma situa\u00e7\u00e3o assim, deve chamar logo a aten\u00e7\u00e3o, seja a quem for; que deve haver um pedido de desculpas. E mais: uma pessoa com aquele tipo de comportamentos n\u00e3o deve poder avaliar, contratar, n\u00e3o pode estar no grupo de pessoas que vai tomar esse tipo de decis\u00e3o. E <strong>acho que o partido devia ter uma maneira eficaz de lidar internamente com estes casos, que n\u00e3o acredito que tenha at\u00e9 hoje. H\u00e1 uma aus\u00eancia de responsabiliza\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o me parece que ningu\u00e9m, entre os dirigentes, queira que haja<\/strong>.\u201d<\/p>\n<p>E face \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que aconteceu agora, como acha que o partido deveria ter feito? \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil dizer, porque se est\u00e1 no meio de uma campanha. Mas como mulher e pessoa decente acho que o m\u00ednimo seria n\u00e3o instigar o jornalismo a fazer uma devassa \u00e0 vida da In\u00eas e depois de isso acontecer, pedir que n\u00e3o seja feito. \u00c9 o m\u00ednimo de humanidade. E o acusar imediato pelo crime de difama\u00e7\u00e3o \u00e9 uma maneira de silenciar as pessoas com a qual eu n\u00e3o concordo.\u201d<\/p>\n<p>Sara concorda. \u201cO que a IL deveria ter feito era fazer um processo de investiga\u00e7\u00e3o interno, abrir um canal de den\u00fancias, fazer tudo para a averiguar.\u201d Em vez disso, comenta, houve encobrimento; nada.\u00a0<\/p>\n<p>Teresa suspira. <strong>\u201cUma pessoa disse-me uma frase que se aplica na perfei\u00e7\u00e3o: isto n\u00e3o \u00e9 o metoo (eu tamb\u00e9m), \u00e9 o me neither (eu tamb\u00e9m n\u00e3o). \u00c9 o que est\u00e1 a acontecer, e deixa-me muito triste.\u201d<\/strong>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O ano \u00e9 2023, o mesmo ano no qual rebentou, em abril, aquele que \u00e9 at\u00e9 agora o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":232194,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[6064,11307,27,28,15,16,14,4578,17460,25,26,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,12536,29,30,31],"class_list":{"0":"post-232193","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-assedio","9":"tag-assedio-sexual","10":"tag-breaking-news","11":"tag-breakingnews","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-iniciativa-liberal","16":"tag-joao-cotrim-de-figueiredo","17":"tag-latest-news","18":"tag-latestnews","19":"tag-main-news","20":"tag-mainnews","21":"tag-news","22":"tag-noticias","23":"tag-noticias-principais","24":"tag-noticiasprincipais","25":"tag-portugal","26":"tag-principais-noticias","27":"tag-principaisnoticias","28":"tag-pt","29":"tag-top-stories","30":"tag-topstories","31":"tag-transparencia","32":"tag-ultimas","33":"tag-ultimas-noticias","34":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115907494177748443","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=232193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/232193\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/232194"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=232193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=232193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=232193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}