{"id":234307,"date":"2026-01-18T17:49:07","date_gmt":"2026-01-18T17:49:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/234307\/"},"modified":"2026-01-18T17:49:07","modified_gmt":"2026-01-18T17:49:07","slug":"a-queda-do-imperio-da-carne-de-porco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/234307\/","title":{"rendered":"A queda do imp\u00e9rio da carne de porco"},"content":{"rendered":"<p>        Em d\u00e9cada e meia, o gigante de transforma\u00e7\u00e3o de carne de porco passou de uma fatura\u00e7\u00e3o de quase 100 milh\u00f5es de euros para a insolv\u00eancia. Com a quebra nas exporta\u00e7\u00f5es e a forte concorr\u00eancia, como a Nobre e a Izidoro, que investiram na imagem e na diversifica\u00e7\u00e3o dos produtos, as latas de enchidos da Sicasal desapareceram das prateleiras dos supermercados.    <\/p>\n<p>Com a f\u00e1brica ainda a arder, o fundador e administrador da empresa, \u00c1lvaro Santos Silva, reuniu os 650 trabalhadores da Sicasal, gigante da ind\u00fastria de carnes em Portugal, para travar o p\u00e2nico e definir um rumo: ningu\u00e9m seria despedido, passariam todos a almo\u00e7ar no refeit\u00f3rio e criou turnos para vigiar poss\u00edveis reacendimentos. \u201cEste \u00e9 o nosso plano de a\u00e7\u00e3o. E voc\u00eas v\u00e3o continuar a ganhar dinheiro para isso\u201d, disse Santos Silva, em novembro de 2011, enquanto uma coluna de fumo negro se erguia sobre as instala\u00e7\u00f5es da empresa, em Vila Franca do Ros\u00e1rio, Mafra.<\/p>\n<p>Nos meses seguintes, a estrat\u00e9gia revelou-se eficaz. Apesar do inc\u00eandio que destruiu a \u00e1rea de desmanche e de embalamento de frescos, a Sicasal fechou esse ano com uma fatura\u00e7\u00e3o de 95,5 milh\u00f5es de euros e retomou o ritmo normal de produ\u00e7\u00e3o, colocando todas as semanas no mercado 500 toneladas de carne processada e mil toneladas de carne fresca. Nos dois anos seguintes investiu 15 milh\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 na recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea ardida, como tamb\u00e9m na amplia\u00e7\u00e3o da empresa.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o conjunto foi reconhecido pelos trabalhadores, que organizaram uma homenagem a \u00c1lvaro Santos Silva. Vestiram uma t-shirt onde se lia a mensagem \u201cgarantimos a nossa for\u00e7a\u201d. E ofereceram outra ao patr\u00e3o com a palavra \u201cRenascer\u201d, o nome do plano de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, o cen\u00e1rio que a Sicasal enfrenta est\u00e1 muito distante deste momento de uni\u00e3o e crescimento. Atravessa agora uma crise financeira profunda, marcada por atrasos no pagamento de sal\u00e1rios, fornecedores a suspender entregas e maior restri\u00e7\u00e3o no acesso a linhas de cr\u00e9dito. Das seis centenas de colaboradores, j\u00e1 s\u00f3 restam 260.<\/p>\n<p>Em outubro de 2025, a Sicasal pediu o Plano Especial de Revitaliza\u00e7\u00e3o (PER) para se reestruturar e apresentar um plano de recupera\u00e7\u00e3o que lhe permitisse renegociar as d\u00edvidas com os credores, manter a sua viabilidade econ\u00f3mica e a liquidez necess\u00e1rias para continuar a laborar e manter os postos de trabalho.<\/p>\n<p>O pedido de PER acabou por ser indeferido em dezembro pelo Tribunal da Comarca Lisboa Oeste por o processo \u201cn\u00e3o se encontrar instru\u00eddo com os documentos exig\u00edveis\u201d, em falta pela empresa.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste m\u00eas, o BCP, o maior credor, veio pedir a insolv\u00eancia da Sicasal, tendo o tribunal nomeado Jorge Calvete como administrador de insolv\u00eancia e marcado para 4 de mar\u00e7o a assembleia de credores. Calvete disse ao Jornal Econ\u00f3mico que a produ\u00e7\u00e3o da Sicasal est\u00e1 parada, mas h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de apresentar um plano de recupera\u00e7\u00e3o para a reativar e \u201ch\u00e1 todo o interesse em n\u00e3o encerrar a unidade\u201d. Confirmou ainda que existem sal\u00e1rios em atraso, mas garante haver v\u00e1rios investidores interessados na empresa.<\/p>\n<p><strong>Descalabro financeiro<\/strong><br \/>Depois de ter recuperado do inc\u00eandio, h\u00e1 d\u00e9cada e meia, a Sicasal respirava sa\u00fade. A fatura\u00e7\u00e3o crescia, contratavam-se novos trabalhadores e a empresa exportava 40% da sua produ\u00e7\u00e3o anual para Angola, mas tamb\u00e9m para Mo\u00e7ambique, Cabo Verde, S\u00e3o Tom\u00e9, Luxemburgo, Canada, R\u00fassia, Fran\u00e7a, Su\u00ed\u00e7a e Inglaterra. Prosperava. Mas em 2016, as vendas para Luanda ca\u00edram para metade, face aos mais de 40 milh\u00f5es de euros do ano anterior, levando a produtora de carnes e enchidos a preparar a mudan\u00e7a para a capital angolana de uma parte da transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na altura, investiu 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares (cerca 8,6 milh\u00f5es de euros, ao c\u00e2mbio atual) de na aquisi\u00e7\u00e3o de equipamento e de um espa\u00e7o de 10 mil metros quadrados de \u00e1rea coberta em Viana, nos arredores de Luanda. No entanto, devido \u00e0 crise financeira que este pa\u00eds atravessava e aos problemas de divisas [para fazer a importa\u00e7\u00e3o por Angola] as vendas entraram em colapso. Este foi o primeiro sinal de fragilidade da opera\u00e7\u00e3o naquele mercado e viria a condicionar a estrat\u00e9gia de internacionaliza\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n<p>Em Portugal, a Sicasal tem enfrentado a forte concorr\u00eancia de marcas rivais como a Nobre e a Izidoro, que foram ganhando quota de mercado, modernizaram a imagem e apostaram na diversifica\u00e7\u00e3o de produtos. Hoje em dia, a presen\u00e7a da Sicasal nos supermercados \u00e9 praticamente nula. Al\u00e9m disso, as marcas pr\u00f3prias do Continente e Pingo Doce entraram em quase todas as categorias de charcutaria e carnes transformadas.<\/p>\n<p>Os custos da energia tamb\u00e9m aumentaram, principalmente num sector dependente do frio e da refrigera\u00e7\u00e3o, e o consumo mudou \u2013 nas prateleiras dos supermercados h\u00e1 cada vez mais enchidos de aves, soja ou tofu, bem como uma vasta gama de sabores.<br \/>Este conjunto de fatores teve um impacto significativo no desempenho operacional e financeiro da empresa, fragilizando a sua posi\u00e7\u00e3o no mercado e reduzindo a capacidade de gerar receitas de forma sustentada.<\/p>\n<p>O volume de neg\u00f3cios, que foi de 73,3 milh\u00f5es de euros em 2022 tem vindo a baixar para 69,7 milh\u00f5es de euros em 2023, e para 42,3 milh\u00f5es de euros, em 2024. O passivo financeiro decorre sobretudo de \u201cd\u00edvidas e responsabilidades financeiras a diversos bancos, designadamente opera\u00e7\u00f5es de contratos de empr\u00e9stimo, \u2018factoring\u2019, \u2018confirming\u2019 e opera\u00e7\u00f5es de loca\u00e7\u00e3o financeira\u201d, explica a empresa.<\/p>\n<p>Em junho de 2025, o passivo era de 39,3 milh\u00f5es de euros, quando o patrim\u00f3nio estava avaliado em 38,25 milh\u00f5es, acrescido de mais 4,6 milh\u00f5es de euros de ativo corrente. A d\u00edvida aos 250 credores constitu\u00eddos ascendia a 37 milh\u00f5es de euros, dos quais 22,4 milh\u00f5es s\u00e3o a bancos \u2013 Banco Comercial Portugu\u00eas (11,6 milh\u00f5es), Caixa Geral de Dep\u00f3sitos (quatro milh\u00f5es), Novobanco (3,6 milh\u00f5es), Abanca (2,5 milh\u00f5es ) e fornecedores (9,4 milh\u00f5es). Os gastos com pessoal situaram-se em quase 7,2 milh\u00f5es de euros em 2024.<\/p>\n<p>Com a produ\u00e7\u00e3o suspensa, o desfecho da Sicasal depender\u00e1 agora da capacidade de atrair investidores e de convencer os credores de que ainda \u00e9 poss\u00edvel recuperar uma empresa que j\u00e1 demonstrou, no passado, saber renascer das cinzas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em d\u00e9cada e meia, o gigante de transforma\u00e7\u00e3o de carne de porco passou de uma fatura\u00e7\u00e3o de quase&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":234308,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[8],"tags":[27,28,44640,90,15,16,14,44641,25,26,21,22,12,13,19,20,44642,43905,32,23,24,33,39204,17,18,29,30,31],"class_list":["post-234307","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-principais-noticias","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-carne-de-porco","tag-empresas","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-headlines","tag-jorge-calvete","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-main-news","tag-mainnews","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-per","tag-plano-especial-de-revitalizacao","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-pt","tag-sicasal","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115917367811461065","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=234307"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/234307\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/234308"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=234307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=234307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=234307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}