{"id":23665,"date":"2025-08-10T15:35:12","date_gmt":"2025-08-10T15:35:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/23665\/"},"modified":"2025-08-10T15:35:12","modified_gmt":"2025-08-10T15:35:12","slug":"o-que-falta-para-o-crioulo-ser-a-lingua-oficial-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/23665\/","title":{"rendered":"o que falta para o crioulo ser a l\u00edngua oficial? \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Ana Josefa Cardoso explica que, apesar de, supostamente, o portugu\u00eas ser a l\u00edngua utilizada na escola prim\u00e1ria para explicar as diferentes mat\u00e9rias escolares, torna-se inevit\u00e1vel usar a l\u00edngua cabo-verdiana \u2014 a l\u00edngua que as crian\u00e7as de facto conhecem e que usam em casa \u2014 para explicar os conceitos ou a pr\u00f3pria aprendizagem do portugu\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cA l\u00edngua da escola supostamente seria o portugu\u00eas, mas na sala de aula isso n\u00e3o acontece totalmente. Porque se os professores quiserem efetivamente passar os conte\u00fados, muitas das vezes t\u00eam de recorrer \u00e0 l\u00edngua materna para poder explicar at\u00e9 o pr\u00f3prio portugu\u00eas. Portanto, a l\u00edngua materna tem estado na escola de uma forma marginal, sem se assumir a sua presen\u00e7a, mas ela tem estado sempre l\u00e1. E tamb\u00e9m sabemos que o facto de o portugu\u00eas ser a l\u00edngua s\u00f3 das quatro paredes da sala de aula faz com que as pessoas tenham um discurso limitado no portugu\u00eas, porque toda a gente sabe que os discursos de sala de aula s\u00e3o fabricados, n\u00e3o s\u00e3o contextos reais de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a l\u00edngua do dia a dia, n\u00e3o \u00e9 a l\u00edngua do intervalo, n\u00e3o \u00e9 a l\u00edngua das brincadeiras.\u201d<\/p>\n<p>Durante as suas investiga\u00e7\u00f5es, M\u00e1rcia Rego deparou-se com esta realidade em v\u00e1rias dimens\u00f5es da sociedade cabo-verdiana. \u201cLembro-me de entrevistar padres, que obviamente faziam a missa em portugu\u00eas, e depois eu perguntava-lhes: \u2018ent\u00e3o e a confiss\u00e3o?\u2019 \u2018Ah, essa parte \u00e9 em crioulo\u2019. Porque \u00e9 a l\u00edngua da intimidade. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso: tamb\u00e9m foi sempre uma forma de subverter. As piadas, os coment\u00e1rios sobre o poder e os colonizadores, at\u00e9 hoje as cr\u00edticas pol\u00edticas, acontecem em crioulo. Uma das coisas que complicam a oficializa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o crioulo resiste a ser regularizado. Historicamente, foi a l\u00edngua da oposi\u00e7\u00e3o. E \u00e9 algo que se reflete em tudo: por exemplo, muitos cabo-verdianos t\u00eam um nome portugu\u00eas, mas depois t\u00eam uma alcunha, um \u2018nominho\u2019, mais perto do crioulo. H\u00e1 sempre uma vers\u00e3o informal para tudo, em diferentes n\u00edveis culturais.\u201d<\/p>\n<p>M\u00e1rcia Rego acredita, por isso, que o processo para que o cabo-verdiano se torne \u201cverdadeiramente\u201d uma l\u00edngua oficial, com o mesmo peso do portugu\u00eas, \u201cvai demorar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPor muitos s\u00e9culos, o crioulo foi considerado uma corrup\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas, n\u00e3o era nem considerado l\u00edngua. E muitos dos pr\u00f3prios cabo-verdianos consideram o crioulo uma l\u00edngua que n\u00e3o vale tanto, \u00e9 algo que est\u00e1 muito enraizado\u201d, aponta. \u201cA quest\u00e3o da l\u00edngua \u00e9 uma met\u00e1fora perfeita para um dilema, uma ambival\u00eancia que est\u00e1 presente em muitas quest\u00f5es da sociedade cabo-verdiana: existe uma resist\u00eancia a ser-se considerado africano e, ao mesmo tempo, sabem que n\u00e3o s\u00e3o exatamente europeus. Isso tamb\u00e9m aconteceu com a bandeira de Cabo Verde. Depois da independ\u00eancia fez-se uma bandeira bem africana, com as cores comumente usadas, com o milho. Nos anos 90, adotou-se uma bandeira que se parece com a da Uni\u00e3o Europeia, com o azul e as estrelas em c\u00edrculo.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outra camada a acrescentar \u00e0s quest\u00f5es sociais em torno da l\u00edngua. Ainda hoje, o portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua com um estatuto de elite, algo que acaba por tamb\u00e9m pesar nas circunst\u00e2ncias que t\u00eam moldado o processo de oficializa\u00e7\u00e3o da l\u00edngua cabo-verdiana. \u201cN\u00e3o h\u00e1 melhor coisa que a l\u00edngua cabo-verdiana para exprimir a cabo-verdianidade\u201d, acredita M\u00e1rcia Rego. \u201cMas o portugu\u00eas \u00e9 um s\u00edmbolo de estatuto, porque quem teve uma educa\u00e7\u00e3o mais formal fala bem o portugu\u00eas. Toda a gente fala crioulo, mas nem toda a gente fala portugu\u00eas. Ent\u00e3o existe uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria em portugu\u00eas, uma elite intelectual que fala super bem a l\u00edngua e que beneficia desse estatuto. E \u00e9 essa mesma elite que estuda o crioulo como uma l\u00edngua independente. \u00c9 algo complicado de gerir e de lidar.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ana Josefa Cardoso explica que, apesar de, supostamente, o portugu\u00eas ser a l\u00edngua utilizada na escola prim\u00e1ria para&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":23666,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,2714,315,15,16,14,8305,25,26,8304,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,1064,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-23665","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-cabo-verde","11":"tag-cultura","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-histu00f3ria","16":"tag-latest-news","17":"tag-latestnews","18":"tag-lu00edngua","19":"tag-main-news","20":"tag-mainnews","21":"tag-mundo","22":"tag-news","23":"tag-noticias","24":"tag-noticias-principais","25":"tag-noticiasprincipais","26":"tag-principais-noticias","27":"tag-principaisnoticias","28":"tag-top-stories","29":"tag-topstories","30":"tag-u00c1frica","31":"tag-ultimas","32":"tag-ultimas-noticias","33":"tag-ultimasnoticias","34":"tag-world","35":"tag-world-news","36":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23665\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23666"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}