{"id":2373,"date":"2025-07-26T11:13:20","date_gmt":"2025-07-26T11:13:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/2373\/"},"modified":"2025-07-26T11:13:20","modified_gmt":"2025-07-26T11:13:20","slug":"a-livraria-onde-os-livros-ficam-em-banheiras-e-gondolas-para-nao-afundar-e-ela-existe-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/2373\/","title":{"rendered":"A livraria onde os livros ficam em banheiras e g\u00f4ndolas para n\u00e3o afundar \u2014 e ela existe mesmo"},"content":{"rendered":"<p>Chove em Veneza, mas n\u00e3o como senten\u00e7a. A chuva aqui desce como quem esquece, sem aviso, sem pressa, sem viol\u00eancia. Apenas se apresenta. O som que ela faz ao tocar os paralelep\u00edpedos da cidade \u00e9 mais interior do que exterior. H\u00e1 ecos vindos das paredes de cal \u00famida, reverbera\u00e7\u00f5es que se escondem nas arcadas, nos v\u00e3os das g\u00f4ndolas atadas. Um homem de boina empilha livros dentro de um casar\u00e3o de esquina. Poderia ser um dep\u00f3sito. Poderia ser um galp\u00e3o. N\u00e3o tem fachada clara, n\u00e3o tem letreiro luminoso. Tem \u00e1gua. E dentro dela, livros. Livros como sobreviventes.<\/p>\n<p>A Libreria Acqua Alta talvez seja uma das livrarias mais fotografadas do mundo, mas isso n\u00e3o diz nada sobre ela. \u00c9 justamente o tipo de lugar que, apesar da exposi\u00e7\u00e3o, ainda guarda um mist\u00e9rio bruto. Localizada na Calle Lunga Santa Maria Formosa, a poucos metros do canal que banha o sestiere de Castello, ela escapa de todas as categorias conhecidas. N\u00e3o \u00e9 uma livraria tradicional, tampouco \u00e9 um sebo comum. \u00c9, antes de tudo, uma met\u00e1fora encarnada, uma alegoria montada com banheiras, canoas, g\u00f4ndolas partidas, enciclop\u00e9dias obsoletas e gatos. Muitos gatos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"406\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Gato-610x406.webp.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-109198\"  \/>Enciclop\u00e9dias obsoletas viraram parede contra a \u00e1gua. A escada de livros \u00e9 hoje atra\u00e7\u00e3o entre os visitantes e gatos<\/p>\n<p>Luigi Frizzo \u00e9 o nome por tr\u00e1s do caos. Nascido na prov\u00edncia de Vicenza, nos anos 1940, passou a juventude entre Treviso e Mil\u00e3o, trabalhando com com\u00e9rcio de livros raros, arte e antiguidades. Chegou a Veneza nos anos 1970, fugido da l\u00f3gica industrial de livrarias-modelo e das obriga\u00e7\u00f5es fiscais que tornavam o com\u00e9rcio editorial algo cada vez menos encantador. Fundou a Acqua Alta em 2004, oficialmente, mas os primeiros sinais do que ela viria a ser s\u00e3o anteriores. Durante anos, acumulou volumes descartados, doa\u00e7\u00f5es de bibliotecas p\u00fablicas, restos de feiras liter\u00e1rias e estoques inteiros de livrarias que faliram na regi\u00e3o do V\u00eaneto. O acervo que ocupa hoje os quase 150 metros quadrados da loja foi, em grande parte, resgatado do esquecimento ou da \u00e1gua.<\/p>\n<p>A \u00e1gua. N\u00e3o h\u00e1 como falar da livraria sem mencion\u00e1-la. O nome do lugar, Acqua Alta, remete diretamente ao fen\u00f4meno que, h\u00e1 s\u00e9culos, define o ritmo e a precariedade da vida em Veneza: a mar\u00e9 alta. Entre os meses de outubro e mar\u00e7o, os ventos do Adri\u00e1tico empurram o n\u00edvel do mar contra as funda\u00e7\u00f5es da cidade, invadindo becos, pra\u00e7as e interiores. A grande cheia de 1966, a mais grave do s\u00e9culo 20, submergiu a cidade com uma l\u00e2mina de 194 cent\u00edmetros de \u00e1gua salgada. Para muitos, foi a prova de que Veneza era insustent\u00e1vel. Para Luigi, foi o contr\u00e1rio. \u201cFoi ali que entendi que os livros precisavam aprender a nadar\u201d, diria ele anos depois.<\/p>\n<p>A ideia de que os livros pudessem flutuar n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora na Acqua Alta. \u00c9 t\u00e9cnica. S\u00e3o dezenas de banheiras antigas servindo de prateleiras, todas posicionadas em alturas calculadas para resistir \u00e0 invas\u00e3o da mar\u00e9. Canoas de carga formam corredores inteiros. H\u00e1 uma g\u00f4ndola posicionada bem no centro da sala principal, ocupada por dicion\u00e1rios de franc\u00eas, almanaques sovi\u00e9ticos e manuais de bot\u00e2nica dos anos 1950. Alguns volumes permanecem envoltos em capas pl\u00e1sticas. Outros est\u00e3o manchados, enrugados, quase em decomposi\u00e7\u00e3o, mas ainda leg\u00edveis. O tempo ali n\u00e3o \u00e9 cronol\u00f3gico. \u00c9 clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Luigi, de voz rouca e gestos econ\u00f4micos, circula pelo ambiente como quem pastoreia um caos consciente. Fala italiano com sotaque da regi\u00e3o de Vicenza, mas tamb\u00e9m se arrisca em franc\u00eas, espanhol e ingl\u00eas, todos com aquela tonalidade arranhada de quem aprendeu vendendo. Quando perguntado se h\u00e1 um cat\u00e1logo, responde: \u201cClaro que h\u00e1. Aqui, no meu bolso\u201d, aponta para o peito. Sabe de cor a localiza\u00e7\u00e3o de livros que nunca vendeu, mas n\u00e3o responde a perguntas sobre best-sellers contempor\u00e2neos. \u201cTem o \u00faltimo do Ferrante?\u201d \u201cN\u00e3o. Ali tem um Dante que ningu\u00e9m mais quer.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"407\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Libreria-Acqua-Alta-610x407.webp.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-109201\"  \/>Fundada em 2004, a Acqua Alta tornou-se um \u00edcone de resist\u00eancia em Veneza, desafiando o tempo e a mar\u00e9 alta<\/p>\n<p>A frase, dita sem ironia, condensa a l\u00f3gica da livraria. Ali n\u00e3o se busca o livro certo. Busca-se o livro sobrevivente. Aquele que sobrou. O que escapou da \u00e1gua, da ind\u00fastria, do algoritmo. \u00c9 uma livraria fundada no erro, mantida na teimosia e sustentada por um improviso estrutural. N\u00e3o h\u00e1 Wi-Fi, n\u00e3o h\u00e1 playlists ambiente, n\u00e3o h\u00e1 caf\u00e9 com leite vegetal. H\u00e1 sil\u00eancio. E h\u00e1 som: o estalo de capas que secam, o miado dos gatos, o sussurro de visitantes estrangeiros tentando n\u00e3o trope\u00e7ar em caixas cheias de volumes em romeno.<\/p>\n<p>Segundo estimativas, porque n\u00e3o h\u00e1 registros oficiais, o acervo da Acqua Alta ultrapassa os 15 mil volumes. H\u00e1 primeiras edi\u00e7\u00f5es de poetas venezianos do s\u00e9culo 19, fotolivros japoneses da d\u00e9cada de 1980, guias de navega\u00e7\u00e3o fluvial do Dan\u00fabio e uma cole\u00e7\u00e3o impressionante de quadrinhos italianos. Muitos exemplares s\u00e3o vendidos a cinco euros. Outros, a cem. Tudo depende do humor do dono, da condi\u00e7\u00e3o do livro e da hist\u00f3ria que ele carrega. N\u00e3o h\u00e1 leitura digital. N\u00e3o se aceita cart\u00e3o. Apenas dinheiro e conversa.<\/p>\n<p>A livraria n\u00e3o est\u00e1 isolada em sua condi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia. Veneza perdeu mais da metade de suas livrarias independentes nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. A gentrifica\u00e7\u00e3o, o turismo predat\u00f3rio e a crise do mercado editorial transformaram a cidade num cen\u00e1rio, mas com cada vez menos atores. A Acqua Alta, nesse sentido, tornou-se mais que uma livraria: tornou-se personagem. \u00c9 fotografada, filmada, citada em guias e document\u00e1rios. J\u00e1 apareceu em reportagens da BBC, da CNN, do \u201cCorriere della Sera\u201d e em v\u00eddeos virais do YouTube. Mas continua sendo, no fundo, uma casa velha cheia de papel.<\/p>\n<p>Na parte de tr\u00e1s do im\u00f3vel, h\u00e1 um p\u00e1tio aberto onde os livros fazem muro. Enciclop\u00e9dias e almanaques empilhados formam uma barreira improvisada contra as \u00e1guas. N\u00e3o se trata apenas de uma est\u00e9tica: \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica. Livros como tijolos. Mem\u00f3ria como cimento. Uma escada constru\u00edda a partir de volumes inutilizados leva at\u00e9 um ponto de observa\u00e7\u00e3o do canal. De cima, o absurdo se revela: aquela estrutura que parece ru\u00edna \u00e9, na verdade, fortaleza.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"610\" height=\"406\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Libreria-Acqua-Alta-3-610x406.webp.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-109200\"  \/>Na livraria, livros flutuam: s\u00e3o guardados em banheiras, canoas e g\u00f4ndolas, como defesa contra as enchentes<\/p>\n<p>Durante os picos de visita\u00e7\u00e3o, mais de quinhentas pessoas passam pela loja por dia. A maioria chega por curiosidade. Alguns saem em cinco minutos. Outros permanecem por horas. Um garoto marroquino l\u00ea um Kerouac rasgado. Uma senhora japonesa folheia um dicion\u00e1rio latim-italiano de 1892. Um casal de Estocolmo se pergunta por que h\u00e1 uma cadeira dentro d\u2019\u00e1gua. N\u00e3o \u00e9 para sentar. \u00c9 para fotografar. Ou para resistir.<\/p>\n<p>A cidade parece condescender com a exist\u00eancia da Acqua Alta. Ainda que fiscais sanit\u00e1rios a visitem ocasionalmente \u2014 h\u00e1 ratos, h\u00e1 mofo \u2014, a livraria goza de uma esp\u00e9cie de imunidade t\u00e1cita. Ela \u00e9 parte do folclore local, do teatro urbano. Luigi, hoje com mais de 80 anos, j\u00e1 disse que \u201co dia em que os livros pararem de boiar, ser\u00e1 o dia em que Veneza afundou de vez.\u201d<\/p>\n<p>Num canto discreto, perto da porta dos fundos, repousa um exemplar umedecido de \u201cOs Anos\u201d, de Annie Ernaux. Est\u00e1 sobre uma capa pl\u00e1stica, mas a umidade j\u00e1 venceu parte da lombada. Ao lado, um bilhete manuscrito: \u201cSe cair na \u00e1gua, leia mais r\u00e1pido.\u201d Talvez seja esse o \u00faltimo conselho poss\u00edvel: leia antes que a cidade se dissolva. Antes que os livros se apaguem. Antes que a mar\u00e9 leve tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Chove em Veneza, mas n\u00e3o como senten\u00e7a. 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